Já aqui falámos de Peter Norman, um herói do nosso tempo. Ao fim de 50 anos, fizeram-lhe uma estátua em
Melbourne (aqui). Mais do que justa, mais do que justa.
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terça-feira, 22 de outubro de 2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
A vida é um lugar estranho.
O autor, Behrouz Boochani
|
Nas páginas do TLS, uma história extraordinária. Um
jornalista curdo, preso na penitenciária de Manu, na Papua Nova Guiné, sob
jurisdição australiana, escreveu um livro inteiro no seu telemóvel, usando o
Whatsapp. O livro causou furor e recebeu um dos mais prestigiados galardões
literários da Austrália, o Victorian Prize for Literature, mas o autor não o
pôde receber pois continua detido em Manu. Até o processo de tradução para
inglês foi complicado, como se descreve aqui.
No Friend But the Mountains, assim se
chama a obra. Um caso literário, e não só.
domingo, 11 de março de 2018
Notas sobre A Grande Onda - 23
22.
A
imagem de A Grande Onda tem sido
utilizada em diversos anúncios publicitários, emblemas ou logótipos de marcas e
empresas.
Entre
as mais conhecidas, a marca Quiksilver, fundada em finais dos anos 1960 em
Torquay, na Austrália, localidade situada a cerca de uma hora de automóvel de
Melbourne.
Foi
lá que nasceram duas das principais marcas de artigos de surf, a Rip Curl e a
Quiksilver. Um artigo publicado na revista francesa L’Express refere que, em 1969, dois jovens praticantes de surf de
Torquay, Brian Singer e Doug Warbrick,
instalaram uma pequena fábrica de pranchas de surf numa antiga padaria, criando
a Rip Curl. Era comum encontrarem-se com outro praticante de surf daquela
localidade, Alan Green, que trabalhava numa loja especializada em artigos de mergulho
submarino e que, segundo a história oficial da empresa, produzia boardshorts na garagem de sua casa, conjuntamente com John Law. Green sugeriu a Singer e Warbrick criarem uma linha de fatos
especialmente adaptados para a prática do surf. Inspirados por «uma gravura
japonesa representando o Monte Fuji submerso por uma onda», nas palavras da L’Express e da página oficial da empresa na Internet, criaram um logótipo ainda hoje
utilizado e conhecido em todo o mundo. Na Wikipedia afirma-se, mais
especificamente, que o logótipo da marca Quiksilver se baseou na xilogravura de Katushika Hokusai (sobre a origem da designação «Quiksilver», ver aqui). As semelhanças iconográficas são demasiado evidentes para
suscitar qualquer dúvida.
Em
1973, os três sócios decidiram separar-se, ficando Brian Singer e Doug Warbrick
à frente dos destinos da Rip Curl e Allan Green da Quiksilver. Esta última é
actualmente líder incontestada de roupa desportiva para surf, representando os
têxtis 80% das vendas. E Torquay e as praias adjacentes fazem parte actualmente
da chamada «Surf Coast», tendo a cidade o maior museu de surf do mundo. Dos cerca
de 6000 habitantes de Torquay, 900 trabalham directa ou indirectamente para a
Rip Curl ou para a Quiksilver (esta última tem actualmente a sua sede em Huntington Beach, na Califórnia).
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Vidas singulares: Peter Norman.
Uma vez, numa galáxia distante, contei
aqui a história de Ruby Bridges, uma menina negra que caminhava sozinha para a
escola, enfrentando insultos e gritos de ódio racista. A história de
hoje, num certo sentido, é também a de alguém que caminhou sozinho, mesmo
quando corria mais rápido do que todos os outros. É só vê-lo a correr aqui, num
sprint final assombroso que lhe deu a
medalha de prata nos Jogos Olímpicos do México de 1968.
A cerimónia de atribuição das medalhas da
prova dos 200 metros nas Olimpíadas do México de 1968 ficou para a História. Na
altura de receberem os troféus, os dois atletas norte-americanos, os negros Tommie
Smith e John Carlos, que ficaram na 1ª e na 3ª posição, ergueram os punhos
enquanto se ouvia o hino do seu país. Subiram ao pódio de sapatos na mão,
descalços, para chamar a atenção do mundo para a pobreza em que viviam muitos
negros na América. Tommie Smith e John Carlos ergueram os punhos, onde tinham
calçadas luvas negras, as luvas dos Black Panthers.
Mas,
na fotografia célebre, há um homem de que ninguém fala. O branco. O que não
ergueu o punho nem calçou luvas. O que parece estar alheado no meio de tudo
aquilo. O homem da medalha de prata. Peter George Norman, um nome banal. Australiano,
natural de um país que tinha leis raciais quase tão estritas como as do
apartheid sul-africano. Norman era praticamente desconhecido: não tinha grande
palmarés, era um branco baixinho em comparação com os velocíssimos gigantes Tommie
«the Jet» Smith e John Carlos. Chegou à final dos 200 metros e correu que só
visto, fixando um recorde nacional na Austrália que até hoje ninguém conseguiu superar.
Peter Norman.
Ao prepararem-se para subir ao pódio,
Smith e Carlos perguntaram-lhe se defendia a causa dos direitos humanos, o
australiano respondeu que sim. Perguntaram-lhe depois se acreditava em Deus e
Norman, que militara no Exército de Salvação, respondeu igualmente que sim, que
tinha fé. Disseram-lhe que iam fazer um gesto simbólico, memorável. I’ll stand with you, respondeu o
australiano. «Esperava ver medo nos seus olhos. Mas, em vez de medo, vi amor», referiu,
anos depois, John Carlos.
John Carlos e Tommie Smith ostentavam
ao peito o emblema do Olympic Project for Human Rights. Norman perguntou se lhe
podiam arranjar também um emblema daqueles, pois queria subir ao pódio com ele
ao peito, em sinal de solidariedade. Quando Norman pediu o emblema, Smith ficou
perplexo, até zangado. «Quem é este tipo australiano, este branco? Ganhou a
medalha de prata, receba-a, leve-a, e acabou-se!». Um outro atleta americano,
que estava por perto, e era activista do Olympic Project for Human Rights, nem
quis acreditar. Um australiano branco a querer usar o emblema da sua
organização – bom demais para ser verdade. «Dei-lhe o único emblema que tinha:
o meu», recordou mais tarde Paul Hoffman. Se repararem, lá está o australiano na
fotografia célebre com o emblema do Olympic Project for Human Rights. À parte
esse detalhe, nada de significativo. Um branco de olhar ausente. Carlos e Smith
levavam consigo um par de luvas dos Black Panthers, mas trouxeram só um par –
não dava para os dois. «Cada um calce uma luva», aconselhou-os Norman (por isso, na fotografia um traz a luva na mão esquerda e outro na mão direita). Assim se
fez, assim se tocou o hino americano perante um estádio repleto mas silencioso.
Dois negros de punho erguido, acompanhados de um branco de olhar ausente.
O
chefe da equipa olímpica dos Estados Unidos ficou furioso, prometeu
represálias. Smith e Carlos foram imediatamente expulsos do team americano e irradiados da Aldeia
Olímpica. Quando regressaram à América, enfrentaram sanções pesadas, até ameaças
de morte.
O
destino de Peter Norman não foi diferente – foi pior. Enquanto Smith e Carlos,
com o passar dos anos, foram apoiados por multidões, sendo até heroicizados,
ninguém se lembrou do australiano, perdido nos confins do mundo. Parece
incrível, mas é verdade: na Universidade de San José, na Califórnia, há uma
estátua a homenagear a coragem dos corredores afro-americanos. O segundo lugar
no pódio, o lugar que Peter Norman ocupou, está vazio. No entanto, o australiano foi convidado para discursar na cerimónia de inauguração da estátua, segundo se diz aqui. É pouco.
Universidade de San José, Califórnia
|
Nas
Olimpíadas seguintes, as de Munique, as dos atentados terroristas contra os
atletas israelitas, Peter Norman não esteve presente. Isto apesar de se ter
qualificado para as provas de 100 e de 200 metros. Mesmo assim, o comité
olímpico australiano impediu-o de ir até à Alemanha. Naturalmente, Norman ficou
desiludido para sempre com o desporto de alta competição. Continuou a praticar
atletismo, mas como amador. Na Austrália, ele e a sua família foram
ostracizados. Nem sequer conseguiu arranjar emprego. E só a muito custo acabou
por trabalhar ocasionalmente como professor de ginástica – ele, Peter Norman,
um recordista nacional, medalha de prata nas Olimpíadas. Ainda foi sindicalista
e ajudante num talho, até que, numa corrida de caridade, caiu e magoou-se. O ferimento gangrenou e Norman mergulhou nos
abismos da depressão e do alcoolismo.
Poderia
não ter sido assim. Peter Norman poderia ter sido um herói nacional se tivesse
aceitado a proposta, que lhe fizeram durante anos, para condenar o gesto rebelde
de Smith e Carlos. Insistiram para que os condenasse, em troca seria perdoado.
Teria um bom emprego no Comité Olímpico da Austrália, integraria a organização
dos Jogos de Sydney de 2002. Peter Norman rejeitou essas ofertas, recusou
condenar os seus colegas de pista. Enquanto Smith e Carlos contaram com o apoio
de dezenas de organizações e activistas empenhados, Peter Norman ficou sozinho.
Nem para os Jogos de Sydney o convidaram. Apareceu por lá, uma vezou outra, mas
pela mão do Comité Olímpico Americano.
Peter
Norman morreu subitamente. De ataque cardíaco, em 2006. No funeral, na linha da
frente, o caixão foi carregado por dois negros já entrados na idade. Eles
mesmos, os amigos que fizera em 1968: Tommie Smith e John Carlos.
Em
2012, o parlamento australiano pediu formalmente desculpas à família de Peter
Norman e honrou a sua memória. Palavras bonitas, mas que chegaram tarde. Não
aqueceram um coração que parara de bater seis anos antes. Matt Norman, o sobrinho de Peter,
fez um documentário sobre ele, intitulado Salute (2008),
e até há um livro sobre a race to remember, que se prolonga por 320 páginas de texto.
Quando
Sartre morreu, o obituário de um jornal londrino chamou-lhe «the man who walked
alone». Foi assim também com Peter Norman, o australiano voador. Com uma diferença:
Sartre escreveu o conhecido prefácio ao livro de Fanon onde, a dado passo, está
a frase horrível. Que diz mais ou menos isto: «abater um europeu é matar dois coelhos de uma só
cajadada, é suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido: restam um homem
morto e um homem livre». Por certo, Sartre não estava a pensar em Peter Norman
quando impensadamente escreveu aquelas palavras tão estúpidas e infelizes. Norman
foi abatido em vida. Mas daí nada restou de bom. Excepto, talvez, um memorável
exemplo de humanidade.
Recebi esta história daqui,
chutada generosamente pelo João Gama. Amparei-a ao peito, como um emblema, cá dentro de mim, rematando-a
para a cabeça do Ricardo Álvaro, que a guardou como eu, in pectore.
Para o João e para o Ricardo, um abraço comovido e grato do
António Araújo
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Terra nullius, a outra Austrália.
Há
já algum tempo, falei aqui de raspão de Sven Lindqvist, a propósito de Alice
Seeley, Alice no coração das trevas.
Aludi, nessa altura, ao livro de Lindqvist sobre o Congo, Exterminem todas as bestas.
Acaba de sair outro título de
Lindqvist. Terra Nullius. Viagem aos
Antípodas, editado pela Tinta-da-china, é o relato de um périplo pela
Austrália. Bastante diferente da visão edulcorada – e, convenhamos, bem-disposta
e tonificante – que Bill Bryson nos apresenta em Na Terra dos Cangurus. A lenta destruição dos aborígenes – que, no
fundo, constitui o tema central do livro de Lindqvist, profundamente informado,
com uma vasta bibliografia – já dera, de algum modo, o mote a Songlines/O Canto Nómada, de Bruce Chatwin.
Ainda assim, onde o tema é tratado de forma mais dolorosa e pungente é num
filme de 2002, chamado Rabbit-Proof Fence
no original. Creio que foi traduzido
cá com o título A Cerca ou A Vedação. O filme conta a história real
de três raparigas que, num certo dia do ano de 1931, decidem fugir da reserva
onde estavam internadas, para regressar às suas famílias de origem. Durante
nove semanas, percorreram 2.400 quilómetros, ao longo de uma vedação tão vasta como
um continente.
A Austrália é dividida por várias redes de
arame farpado. Em 1901, iniciou-se a construção da Rabbit Proof Fence, e foi essa que as meninas do filme percorreram. Outra, situada no lado oposto do país, é a Dingo Fence. Originalmente, tinha cerca de 8.614 quilómetros. É uma das
mais extensas construções algumas vez feitas pelo homem. Foi erguida entre 1880
e 1885 para evitar que a sobrepopulação de lebres e coelhos invadisse o
território adjacente. A partir de 1980, foi substancialmente
reduzida, tendo actualmente cerca de 5.614
quilómetros. Com o tempo, a cerca australiana provocou uma catástrofe
ambiental, ao criar dois ecossistemas distintos, impedindo a livre passagem de
animais e outros seres humanos. Mais: ao que parece, a biodiversidade é muito maior do lado onde existem dingos, prova provada de que estes predadores são essenciais para o equilíbrio ecológico daquelas planícies áridas.
O livro de Lindqvist fala doutras catástrofes.
Sobretudo, daquela que levou a que Uluru tivesse passado a chamar-se Ayers
Rock, num cortejo de desgraças, miséria e álcool que acompanhou o extermínio
das comunidades autóctones. As coisas mudaram um pouco, mas talvez só na
superfície. Actualmente, Ayers Rock voltou a chamar-se oficialmente Uluru, e
não é possível escalá-lo sem respeitar as crenças que os aborígenes têm naquela
montanha de cores cambiantes.
No belo prefácio que acompanha o livro,
Carlos Vaz Marques, o organizador desta magnífica colecção de livros de viagens
editada pela Tinta-da-china, diz que Lindqvist se enquadra naquilo a que
convencionou chamar-se, a partir do título de um livro de Bruckner, «o remorso
do homem branco». Tenho algumas dúvidas de
que Lindqvist aprecie ser assim enquadrado e retratado, uma vez que o livro de
Pascal Bruckner, O Remorso do Homem Branco, a par de outras obras saídas mais ou menos na mesma altura, como Pour en finir avec la repentance coloniale, de Daniel Lefeuvre, vem
criticar o sentimento de culpa que os ocidentais alimentam face ao seu passado
colonial. Ora, Terra Nullius situa-se
nos antípodas desse remorso, mesmo que acabe por reflecti-lo,
involuntariamente. Pelo contrário, Terra
Nullius aborda à saciedade os desastres do passado colonial. De forma
empenhada e militante, sem dúvida, mas tremendamente lúcida e informada. Sven Lindqvist vai aos confins do deserto vermelho, atravessando planuras áridas, só
entrecortadas por arbustos espinhosos e densas nuvens de pó. Terra Nullius. Viagem aos antípodas, um livro excepcional.
António Araújo
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Je suis Coala.
Aqui há uns
dias, passou-se uma história engraçada, lá longe. Quase nos antípodas. E,
atenção, não é para gozar, a coisa é séria e bonita. Houve um incêndio grande
na Austrália, ardeu-me muito eucalipto. Além de danos no eucaliptal, houve
ferimentos em coalas. Graves. Vai daí, uma organização benemérita, o International Fund for Animal Welfare
(IFAW), lançou uma campanha internacional para fazerem meias para os coalas
cujas patas haviam sido terrivelmente queimadas. Chegaram peúgas de toda a
parte, da China aos Estados Unidos, do Reino Unido ao Cazaquistão.
Desconhece-se se Portugal participou na acção, mas por cá o amor aos bichos
ainda não é levado a sério (veja-se as condições inacreditáveis em que se
encontram os animais abandonados em Lisboa…).
A IFAW chegou a aprovar um modelo de
protecção, em algodão, para as patas dos coalas. A afluência de meias foi tal que os senhores da IFAW apelaram com estridência para que parasse tanta benemerência. Enquanto isso, outra associação benemérita, a Australian Marine Wildlife Research and
Rescue Organization (AMWRRO), dizia que as meias não protegiam nada os
coalas. Como trunfo, a AMWRRO foi a primeira a mostrar um coala em franca
recuperação. Jeremy, um jovem macho, está em convalescença profunda.
Parece
existir alguma compita ente a IFAW e a AMWRRO a ver quem é mais amigo dos coalas,
que é um bicho simpático de que toda a gente gosta. Mas o certo é que, por uma
via ou outra, os coalas magoados estão todos muito melhor de saúde. Parecerá
caricato e ridículo falar de coalas feridos quando há bem pouco houve terroristas
a matar jornalistas e anda tudo muito violento por esse mundo fora. Até nos
antípodas. Mas, se virmos bem, quem anda mal e violento é o bicho-homem. Os outros animais
lá vão levando as suas vidas – se os deixarem em paz e sossego. É uma
felicidade ver quando o bicho-homem se preocupa com os seus semelhantes, mesmo
quando estes têm pêlo, e patas queimadas a precisar de ajuda. Isto também é ser Charlie Hebdo.
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