A
Joana é uma amiga artista e que artista amiga, que faz colagens em papel,
colagens digitais, pintura, desenho, animação, uma animação. E fez um pastiche
de A Grande Onda, de Hokusai, que
aqui há atrasado foi muito ventilado neste blogue. Esta onda da Joana, como
está bem de ver, tem crítica ao consumismo e ao desperdício, às grandes
colossais ondas de lixo que devoram os mares das outras, que Hokusai pintou.
Para conhecer o trabalho da Joana Dias é ver aqui, senhores.
Mostrar mensagens com a etiqueta A Grande Onda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A Grande Onda. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 20 de abril de 2020
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
sexta-feira, 15 de março de 2019
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Ondas de paixão.
Andou
Malomil, há um par de meses, interessado episodicamente em A Grande Onda de Kanagawa, numa série ainda não terminada, nunca
terminada. Por causa disso, recebeu a notícia de que se encontra online, e a
custo zero, um manual japonês de desenho.
De desenho de ondas, livro de 1903, que podeis, e deveis, consultar aqui.
domingo, 30 de setembro de 2018
quarta-feira, 13 de junho de 2018
A minha pequena onda.
No
dia 6 de Outubro de 1971 transpus a “Grande Onda” de
Hokusai para uma folha de papel. Assinei e datei.
Eu tinha 14 anos, acabados de fazer, e tinha um postal com uma reprodução da onda pendurado no meu quarto, num painel de cortiça que servia para pendurar coisas sem esburacar as paredes. O painel tinha uma certa rotação de recortes, fotografias e outros materiais visuais. Numa fotografia estou junto desse painel. Vê-se uma caricatura do general de Gaulle com um “petit chapeau “de Napoleão e dizendo “Machiavélique, moi?!”, fotografias de Marilyn Monroe, julgo que de Elton John, de Jimmy Hendrix e de um grupo rock, não sei qual (Fleetwood Mac?).
Porque
pintei a grande onda? Certo, gostava dela. Não me recordo do que me
atraía mais, mas lembro-me que o facto de o Monte Fuji ter a mesma cor do mar
era uma das razões. O monte era uma onda, a onda era um monte. Havia poesia
visual nesse elemento. Vinte anos depois, vi o Fuji com os meus olhos, e vi
Hokusai como poeta, pois o monte apresentou-se-me desengraçado, despido,
desinteressante.
A principal razão para eu pintar a grande onda terá sido, porém, ter recebido de presente, pouco antes, ou ter comprado, não me lembro bem, uma grande caixa de lápis de cera Caran d’Ache. O lápis de cera tem bastantes possibilidades criativas. A minha experiência beneficiou do contorno prévio a lápis das águas azuis, das ondas brancas, do monte azul e branco. A variedade de cores na enorme caixa Caran d’Ache era convidativa, mas insuficiente. Comprei — julgo que na Papelaria da Moda, na Rua do Ouro — um frasco de terebintina. Este líquido dissolve a massa de cera, depois de aplicada no papel, dando-lhe uniformidade e um certo ar de pintura a pincel, entre a aguarela e o óleo. Depois de o suporte secar — nunca usei senão papel comum — transmite uma sensação simultânea de transparência e opacidade.
A
minha pequena onda não é nada de especial, mas eu sempre
gostei dela porque nunca tive especial paciência para trabalhos de mãos, fossem
eles artísticos ou não — e este está terminado, com ar de obra acabada. Tem
duas particularidades. A primeira é ser ao alto. Não sei explicar porque
transpus da horizontalidade para a verticalidade. Posso inventar que se adequava
à vertigem da tempestade, mas suponho que foi “porque sim”. A outra
particularidade é ter omitido as barcaças. Também não recordo bem a razão para
o ter feito, mas julgo que são as mais prosaicas: dificultava o trabalho,
tornando-o moroso, correndo o risco de falhar no conjunto por causa do pormenor
e, portanto, motivando a minha impaciência; ao escolher a verticalidade, as
barcaças não “encaixavam” tão bem no meio das ondas. A ausência
dos barcos e também
das bolas de espuma que esvoaçam no original resultam dessa impaciência, do receio de borrar a pintura.
Deste modo, recriei o essencial.
Gostei
logo do resultado. Pendurei-o no painel de cortiça. Ainda tem as
marcas dos pioneses. No canto inferior esquerdo falta um pedacinho do papel. Se
a memória não me falha, é, dos que realizei, o único trabalho visual revisitável.
Fiquei-me por aqui. Graças a Hokusai. A grande onda era agora minha. Lembro-me
que lhe achei um defeito: a curva da onda principal é desagradável,
ficou mal desenhada desde o início.
A minha onda não ameaça, como a do original. Quando dei por isso, já não fui a
tempo para corrigir. Tinha 14 anos. Tinha o mundo à minha espera.
Mais
de três
décadas depois, encaixilhei-a, porque não me desmerece e porque traz consigo
aquele véu de nostalgia, poderoso como o aroma do mar revolto. Saber que
tropecei no mundo esfuma-se na nostalgia com enganadora ternura.
Eduardo
Cintra Torres
Caxias,
25 de Abril de 2018
terça-feira, 22 de maio de 2018
Notas sobre A Grande Onda - 61
61.
Além
das tatuagens, de que se falou aqui e aqui, a xilogravura A Grande Onda, de Katsushika Hokusai, tem inspirado, ainda que com
menor intensidade, obras da chamada «arte corporal» (body art), tal como se refere aqui.
Entre
elas, as unhas apresentadas por Maki Otani, manicure em San Diego, Califórnia,
na Mini Masterpiece Nail Art Competition, organizada em 2010 pela Nails Magazine, e que aí obtiveram o
primeiro prémio. Um trabalho que demorou dez horas a executar e que Maki Otani
descreveu assim: «Using a tiny brush, I painted
the waves and Mt. Fuji with acrylic paint, and then I used white acrylic powder
and monomer on the white part of the wave so it would look like it was popping
out.»
Na
mesma linha, a maquilhadora Georgina Rylan obteve o segundo lugar na edição de
2014 do IMATS Battle of the Brushes, em Sidney, com esta interpretação de A Grande Onda:
Veja-se
outro trabalho de arte corporal, apresentado aqui,
e da autoria de Danny Setiawan, do DenArt Studio.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Notas sobre A Grande Onda - 60
60.
No mundo da moda, existem inúmeros
exemplos de influência da xilogravura A
Grande Onda, de Katsushika Hokusai.
Um dos mais relevantes é, sem dúvida, o
modelo «Suzurka-San» apresentado por John Galliano (1960-) na colecção de alta costura Primavera/Verão
da Dior em 2007, em linho branco pintado à mão e bordado.
Julia Saner, fotografada por Patrick Demarchelier
|
Mais
tarde, este modelo figuraria na exposição Inspiration Dior, patente em 2011 no
Museu Pushkin, em Moscovo (catálogo aqui; ver também aqui).
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Notas sobre A Grande Onda - 59
59.
A xilogravura A Grande Onda, de Katsushika Hokusai – ou, se quisermos, o estatuto
de «ícone global» que adquiriu no nosso tempo – suscita algumas questões em
torno daquilo que Walter Benjamin apelidou «a obra de arte na era da sua reprodutibilidade
técnica» (in Walter Benjamin, Sobre Arte,
Técnica, Linguagem e Política, trad. portuguesa, Lisboa, Relógio D’Água
Editores, 2012, pp. 59ss).
Benjamin começa por assinalar que «a
obra de arte sempre foi reprodutível», referindo como marcos desse processo a
xilogravura, a gravura em cobrem a água-forte e, a partir do início do século
XIX, a litografia. Será, no entanto, com a fotografia que, segundo Walter
Benjamin, se verifica a grande viragem neste domínio: «Pela primeira vez, com a
fotografia, a mão liberta-se das mais importantes obrigações artísticas no
processo de reprodução de imagens, as quais, a partir de então, passam a caber
unicamente ao olho que espreita por uma objectiva».
Num sentido algo diverso, André Malraux
salientou igualmente o papel da fotografia no tratamento – e na difusão das
obras de arte – quando escreveu: «A fotografia, que foi a princípio um modesto
meio de difusão destinado a dar a conhecer as obras-primas incontestadas
àqueles que não podiam adquirir uma gravura de reprodução, parecia dever
confirmar os valores adquiridos. Mas reproduz-se um número cada vez maior de
obras a um número sempre maior de exemplares, e a natureza dos processos de
reprodução actua sobre a escolha das obras reproduzidas. A difusão destas é
alimentada por uma propensão cada vez mais subtil e cada vez mais extensa.
Muitas vezes, ela substitui a obra-prima pela obra significativa e o prazer de
admirar pelo de conhecer; gravava-se Miguel Ângelo, fotografavam-se os petits maîtres, a pintura ingénua e as
artes desconhecidas – fotografava-se tudo o que se podia ordenar segundo um
estilo» (cf. André Malraux, As Vozes do
Silêncio, vol. I – O Museu
Imaginário. As Metamorfoses de Apolo, trad. portuguesa, Lisboa, Livros do
Brasil, s.d., p. 15).
A xilogravura de Hokusai – e, de resto,
outras obras do mesmo teor, quer no Oriente, quer a Ocidente – vem, porventura,
questionar a tese de Benjamin, nos termos da qual a reprodutibilidade técnica conduz
a uma perda de autenticidade e de «aura» da obra da arte («o domínio global da
autenticidade subtrai-se à reprodutibilidade técnica» ou «o que murcha na era
da reprodutibilidade da obra de arte é a sua aura», são algumas das observações
mais conhecidas de Benjamin).
Na
verdade, A Grande Onda foi concebida
desde o início com vista a ser reproduzida em larga escala, num processo que implica
a destruição do original, da obra-prima.
E,
ao invés do que se poderia supor, foi – e é – essa reprodutibilidade em massa
que conferiu à obra de Hokusai o seu carácter aurático (se admitirmos,
naturalmente, que A Grande Onda se
reveste desse carácter).
A
reprodutibilidade em larga escala, muito potenciada pela Internet, e a
reconhecibilidade imediata de A Grande
Onda são responsáveis pelo seu estatuto de «ícone global», que se desprende
do seu formato ou suporte originário para ser mimetizado e desdobrado em múltiplos
suportes e em infindas variações, de que se podem apresentar inúmeros exemplos:
(imagem enviada por Luís Caetano)
|
(imagem enviada por Eduardo Cintra Torres)
|
(imagem enviada por David Teles Pereira; obra de Keita Sagaki, aqui)
|
Por
muito que possam parecer uma cedência ao kitsch
e à vulgaridade, as recriações e os pastiches
de A Grande Onda converteram-se num
fenómeno cuja percepção é essencial para compreender, inclusivamente, o sentido
originário da obra de Hokusai.
domingo, 13 de maio de 2018
Notas sobre A Grande Onda - 58 (2ª parte)
58.
Como se referiu na 1ª Parte desta Nota,
existe uma ligação profunda entre a arte japonesa da tatuagem (irezumi) e as xilogravuras do «mundo
flutuante» (ukiyo-e).
De acordo com Yori Moriarty (ob. cit., p. 16), a grande difusão do irezumi deu-se após a publicação da
célebre Suikoden, adaptação japonesa
de uma popular novela chinesa do século XVI, a qual foi ilustrada por
Katsushika Hokusai e, depois, por Utawa Koniyoshi.
A
ambos coube fixar, de uma forma quase canónica, as figuras e a aparência das
principais personagens dessa novela, tendo Hokusai desenhado quatro dos 108
heróis da saga, os «108 heróis de Liangshan»: Shishin, tatuado com nove
dragões; Rochsin, tatuado com flores de cerejeira (sakuras); Chojun, tatuado com flores de cerejeira e ramos de
pinheiro; e Ensei, tatuado com peónias. Seria Koniyoshi, no entanto, quem
acabou por ilustrar as 108 personagens, numa publicação de tremendo sucesso.
Utagawa Kuniyoshi, Kyumonryu Shishin, 1827-1830
Museu Britânico, 2008,3037.10039
|
Esta era, todavia, uma versão popular
de difusão das tatuagens, praticamente circunscrita às classes baixas ou a
grupos marginais. Entre eles, os bandos de jovens das periferias das grandes
cidades que se figuravam como «cavaleiros andantes» que, além do vandalismo,
afirmavam praticar a justiça, saqueando os ricos para dar aos pobres. A par
deste grupo, designado otokodate,
emergiram na época os bandos kumi ou gumi que faziam incursões pelo pequeno
comércio urbano, saqueando e consumindo os produtos à venda. Muitos dos membros
destes grupos tatuavam-se com as imagens que Kuniyoshi fizeram para ilustrar a
novela Suikoden, o mesmo sucedendo
com os carregadores e transportadores de palanquins, que andavam em tronco nu,
com os pescadores (que tatuavam peixes nos antebraços), com as gueixas ou com
os jogadores e alcoólicos, que inscreviam no seu corpo imagens de cartas de
jogar ou de garrafas ou copos de saqué.
Além destes grupos marginais, o irezumi teve uma enorme divulgação no
mundo do teatro kabuki e, como é sabido, entre os membros das associações
criminosas, com destaque para a yakuza.
Em finais do século XIX – ou seja, numa
fase muito posterior à Grande Onda de
Hokusai –, as tatuagens japonesas cativaram de uma forma extraordinária a
realeza e a aristocracia europeias. Tendo aportado a Yokohama em 1882, o duque
de York (mais tarde, Jorge V) conheceu o famoso tatuador Horichiyo e,
juntamente com outros membros da tripulação do navio H.M.S. Baccante, incluindo
o seu irmão, o duque de Clarence, fez-se tatuar pelo mestre japonês. O futuro
monarca fez gravar no seu antebraço um dragão de grandes proporções e, mais
tarde, já em Inglaterra, tatuou largas extensões do seu corpo pela mão dos artistas
Tom Riley e Sutherland Macdonalds.
A instância dos duques de York e de Clarence,
Horichiyo viajou até à Europa e, depois, para a América, onde permaneceu na
região da Nova Inglaterra. Na Europa, segundo se diz aqui, terá tatuado Nicolau
II, da Rússia, Frederico VIII, da Dinamarca, o duque de Edimburgo, a rainha
Olga da Grécia (cf. Beauty and Violence, Horichiyo Ambassador of the Japanese Tatoo, State of Grace Inc.,
2008).
A técnica tradicional de aplicação do irezumi, intitulada tebori, era feita com um estilete de bambu (hari), usando-se tinta preta e cinzenta (sumi), bem como azul índigo, amarelo, verde e vermelho, sendo este
último aplicado apenas em pequenas parcelas da pele, dado ser composto por
sulfato de ferro, uma substância tóxica. Note-se que os pigmentos usados na
tatuagem tebori eram exactamente os
mesmos que os gravadores utilizavam na elaboração das gravuras do ukiyo-e.
A partir de finais do século XIX, mesmo
no Japão começou a preferir-se, por ser mais precisa do que as linhas feitas
pelo método tebori, a tatuagem por
processos mecânicos, graças à caneta ou máquina de tatuar que, segundo se diz,
terá sido inventada por Thomas Edison (outras versões atribuem a paternidade da
máquina de tatuar a Samuel O’Reilly, em 1891; na verdade, como se explica aqui,
a versão de O’Reilly, de 1891, foi um melhoramento da máquina criada por Edison
em 1876).
Para o ponto que interessa no contexto
da presente Nota, importa salientar a popularidade daquilo que, no mundo da
tatuagem (e não só), é conhecido como fingerwaves,
um motivo muito semelhante à Grande Onda
de Kanagawa da xilogravura de Hokusai.
Utagawa Kunisada, Asahina Fuji Hyoe, 1854
Metropolitan Museum of Art
|
|
Detalhe das fingerwaves
|
De acordo com Yori Moriarty (ob. cit., pp. 39ss), às águas do mar e
as cascatas, muito presentes na obra de Hokusai, são dois dos principais
motivos das tatuagens: «Na arte e na tatuagem japonesa, a água é representada
com base em linhas estilizadas, não como uma massa colorida à maneira ocidental.
Para representar o mar e as ondas usa-se uma combinação de linhas que
reproduzem o movimento da água e as ondas e os característicos salpicos das
ondas, comumente conhecidos no âmbito da tatuagem como fingerwaves (…). A importância da água como ele básico da tatuagem
japonesa é enorme. Devido àquelas características estéticas, o movimento da
água e o dinamismo das ondas adaptam-se perfeitamente às formas do corpo. (…)
Actualmente, podem distinguir-se três estilos: o japonês, o europeu e o
americano. No japonês, as ondas são curtas, rígidas, terminando em pontas finas,
e tomam a sua forma directamente das nuvens do céu; no europeu, são maiores e
arredondadas, mais expressivas; no americano são ainda mais arredondadas, com
muito movimento e expressão, com as pontas curvas».
Os animais em que a presença das águas
é mais evocada, nomeadamente como pano de fundo, são as carpas (koi) e os dragões, apresentando Moriarty
como um dos exemplos da influência do elemento aquático nas tatuagens japonesas
a xilogravura A Grande Onda, de
Katsushika Hokusai.
Subscrever:
Mensagens (Atom)