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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Debaixo de Manhattan.

 
 
 
Anda tudo encantado – e bem – com um livro de Erling Kagge que já aqui referi, creio eu. Silêncio na Era do Ruído, muito ao gosto new age e da filosofia light, para o que contribui, e muito, a personagem do autor, «a fascinating man», como o descreveu o The New York Times. Jurista, filósofo, explorador averbado no Guinness, editor de sucesso, coleccionador de arte contemporânea, Kagge fala das filhas com a ternura de pai extremoso e vive numa casa soberba em Oslo, rodeado de quadros e beleza. Depois, claro, a sua própria beleza física, o seu olhar a um tempo distante e profundo, olhos que viram mundo, estiveram no Pólo Sul, no Pólo Norte, olhos que subiram ao Evereste. E, como remate final da lenda, o facto de ser nórdico, de uma região que está tão fashion e onde supostamente reside a maior percentagem de felicidade do planeta. Vem isto a propósito de um livrinho que comecei a ler e que é, até agora, muito engraçado e merecedor de atenção. Chama-se Under Manhattan, é escrito por Kagge e polvilhado por muitas fotografias de Steve Duncan, um dos seus companheiros desta aventura subterrânea. Em Silêncio na Era do Ruído Erling Kagge já falava desta expedição de cinco dias pelos canais de esgotos de Nova Iorque, com direito a uma escalada furtiva à Williamsburg Bridge. O livro não tem a tonalidade elegíaca de Silêncio na Era do Ruído nem se entrega a especulações divagantes. Aqui, a deambulação é puramente física, e narrada como uma aventura nos trópicos ou uma viagem ao centro da Terra. As vias que seguiram, as dificuldades de percurso, a preparação do mergulho no lixo e nos excrementos de milhões de animais humanos, os túneis centenários plenamente conservados, as criaturas que vivem onde o sol não chega. Um livro muito interessante, repito, que distrai e serve de lenitivo calorífero quando o frio aperta e a chuva, que é tempo dela, nos retém em casa.  

 


 
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Portugal, 1952.


 
 
Andor, Rozann e Edle
Noruega, 1952
 
 
 
Nascida na Noruega em 1905 e falecida em Portugal em 1989, Edle Astrup deixou-nos um interessante livro de memórias, Uma Vontade Indomável. De Budapeste ao Estoril, onde relata os tormentos passados na Hungria, país onde viveu na companhia do seu marido – o artista plástico Andor Hubay Cebrian –, presenciando a invasão nazi e, depois, soviética. Apesar do subtítulo, e da importância que Portugal teve na sua biografia, o livro dedica poucas páginas ao nosso país, praticamente as que aqui se transcrevem na excelente tradução que, a partir da versão inglesa, Manuela de Sousa Rama realizou para a edição portuguesa desta obra (Oficina do Livro, 2003).
 
Olhão, 1952
Produção de moda, fotografia de Henry Clarke
 
 
         A sua fama [de Andor, o marido], entretanto, chegava além-fronteiras. Em 1952, recebeu, quase em simultâneo, duas propostas: a primeira vinha da Universidade americana de Pittsburg, e propunha-lhe uma cátedra de ensino de arte. A segunda, oriunda de Portugal, oferecia-lhe o lugar de director artístico da fábrica de porcelana Vista Alegre.
         Quanto à decisão tomada, confesso-me totalmente responsável. Não queria, em circunstâncias nenhumas, ir para os Estados Unidos. Em Portugal, ao menos, estaríamos longe dos russos e dos comunistas…
         Como é que eu posso descrever os muitos anos que vivemos em Portugal? Aprendemos a amar um novo país, ao mesmo tempo que nos apaixonámos pelos portugueses. No entanto, a nossa impressão era de que o tempo parara, no que dizia respeito ao Governo e à classe alta. Como se tivessem sido enfeitiçados nalgum castelo de uma Bela Adormecida. Se não tivéssemos já testemunhado o reverso da medalha na nossa dolorosa experiência de vida, talvez não tivéssemos dado pelo pequeno mal-estar que dormia por debaixo da superfície aparentemente tranquila.
         Na fábrica da Vista Alegre, Andor iniciou, cautelosamente, um processo de modernização e melhoramentos. Mas esbarrou sempre com alguma hostilidade por parte dos proprietários. Como é evidente, não estávamos em situação – nem tínhamos esse propósito – de fazer uma revolução. O meu marido queria apenas melhorar algumas condições de trabalho. Criou-se uma situação um tanto incómoda entre Andor e a gerência da fábrica, e ele demitiu-se. Continuou, no entanto, ligado à parte artística até 1958, altura em que aquela fábrica já gozava de grande prestígio internacional.
         Com a ajuda do nosso amigo Salvador Corrêa de Sá, Visconde de Soveral, fomos, então, viver para o Estoril. Andor ensinava desenho e pintura na Escola Americana, e também a filhos de alguns dos nossos novos amigos, e era treinador de futebol no colégio inglês St. Julian’s. Eu sei que ele sempre gostou muito de futebol, mas daí a ser treinador… isso confesso que me surpreendeu bastante!
         Em 23 de Outubro de 1956, o povo húngaro subleva-se, em mais uma clara demonstração de repúdio pelo regime comunista que lhe é imposto. O mundo assiste, em desespero, à chacina de centenas de húngaros. Em Portugal, uma velada que reuniu milhares de pessoas desfilou pela baixa até aos Paços do Concelho, em apoio ao povo húngaro.
         Andor fazia parte do grupo que apoiava o governo húngaro no exílio. Constantes telefonemas para Budapeste tornam-no suspeito. A Pide vem buscá-lo para interrogatório e, durante três dias, a família não sabe nada dele. Uma vez mais, o seu amigo Corrêa de Sá, amigo de Salazar, vem em seu auxílio. Andor volta nesse mesmo dia para casa, conduzido num Mercedes negro com motorista. Risonho, conta-nos que foi, apenas, interrogado.
         - Comparada com os comunistas russos, a Pide é um bebé de berço! – graças a Deus.
         Depois de ter feito o ensino secundário no St. Julian’s, Rozann casou em Oslo, em casa do meu irmão, numa festa que durou três dias. Um verdadeiro casamento cigano! O marido, o barão austríaco[AA1] [AA2]  Giselbert von Schmidburg, era director de um banco, em Bruxelas, e foi para lá que eles foram viver. Lászlo, terminad o Colégio St. Columban’s, foi cursar gestão na Universidade de St. Gallen, na Suíça.
         De vez em quando, em ocasiões especiais como o Natal ou a Páscoa, ou durante as férias de Verão, os meus filhos vinham a casa. Eram momentos inesquecíveis, de grande alegria. Por essa altura, estavam em Portugal outros refugiados húngaros e convivíamos muito com eles. O regente Horthy, a mulher e o filho sobrevivente, Nicky, a nora Illy, o irmão de Otto Habsburg, o sobrinho Joseph e Maria, sua mulher. Nossos amigos eram também os Condes de Barcelona e os seus filhos. O actual rei de Espanha, da mesma idade de Rozann, passava muitos dias em nossa casa.
 
Edle Astrup Hubay Cebrian
 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Um grande livro.

 
 
 


Acabei de o ler este fim-de-semana. São 500 páginas de reportagem pura e dura, do melhor que existe no género: investigação a fundo, narrativa empolgante e directa, sem artifícios estilísticos nem considerações escusadas. Um livro que nos faz mergulhar na mente bizarra de Anders Breivik e acompanhar pari passu o massacre de Utøya e as suas vítimas. A merecer a melhor atenção dos editores portugueses.