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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Amor mundi - 2

 


 
         Talvez muitos ainda não tenham percebido: quando se fala de alterações climáticas não se fala de previsões ou prognósticos, mas da realidade actual. É uma coisa de agora, de hoje, deste preciso instante, não (apenas) um debate sobre o que virá a acontecer daqui a vinte ou trinta anos. A discussão não é sobre como evitar as alterações climáticas (de resto, alterações climáticas sempre houve, como sempre houve… extinções em massa), mas o que fazer para evitar, no presente, os piores efeitos das alterações climáticas. Mesmo que mudássemos radicalmente de comportamentos hoje, agora, deixando todos de andar de automóvel e de avião, ou de comer carne, os efeitos poderiam ser minorados, não totalmente evitados. As mudanças no clima estão em marcha, o que não significa que nos devamos deixar cair numa atitude niilista e derrotista, baixando os braços e esperando que a catástrofe aconteça para nos varrer de uma vez por todas da face desta Terra. O pânico apocalíptico, se implicar paralisia e imobilismo apavorado, também não é a opção correcta. Falei há tempos da necessidade de mudarmos os nossos comportamentos individuais, do contributo que cada qual pode dar, ou não dar, para minorar os efeitos da tragédia iminente, ou já em curso. Há razões para mudar a título individual. Mas, como bem observava um editorial recente do The Guardian (16/08/2019), o individualismo pode ser ilusório. Podemos julgar que o nosso contributo para a salvação do planeta se resume a separar o lixo doméstico, plantar uma árvore aqui e acolá, não deitar beatas de cigarros para o meio da rua. Está certo, muito bem, isso é importante, é fundamental. Mas desenganem-se os que julgarem que isso basta, que é suficiente aliviarmos as nossas consciências de cidadãos ecológicos, melhorarmos a nossa autoestima ambiental e ética. Não. Além das mudanças individuais, é essencial um esforço colectivo: mudanças de políticas, de legislação, de fiscalização, de punição dos infractores. O esforço individual é louvável, é piramidal, mas tem o perigo de nos fazer crer que é suficiente, que não nos devemos empenhar também em mudanças de fundo e de fôlego. As políticas de um Trump ou de um Bolsonaro não irão mudar pelo facto de dois ou três milhões de pessoas deixarem de comer carne de vaca, ou de abandonarem o uso de automóvel particular. Como não é realista pensar que todos, a um tempo, irão deixar de comer carne de vaca (isso, sim, afectaria o agronegócio e uma das bases eleitorais de Trump e Bolsonaro), como não é realista pensar nisso, não é realista supor que uma alteração de comportamentos individuais pode, por si só, fazer tudo. É claro que anda muita política e muita ideologia metida nisto, e que muitos aproveitam – em parte bem, mas só em parte – para atacar o capitalismo e a sociedade de consumo, como se noutros sistemas, menos «capitalistas», não houvesse problemas ambientais: China, Rússia, os crimes ecológicos de Estaline e do comunismo… Há quem diga que só uma mudança radical do capitalismo – e com ele, da democracia liberal – pode evitar o flagelo do aquecimento global. É essa, em termos muito simplificados, a tese de Naomi Klein no seu recente livro Tudo Pode Mudar. Capitalismo vs. Clima. Pura e enganadora ilusão. Se tivéssemos que esperar que os empresários deixassem de querer o lucro, os políticos os votos do povo e cada um de nós a roupa X ou o carro Y, o planeta estaria, aí sim, completamente perdido. Era o mesmo que pensar, ante a iminência do avanço das tropas de Hitler, que a Inglaterra de Churchill fazia uma pausa para aguardar que os lordes deixassem de ter o poder que tinham, que os reis fossem mais próximos dos súbditos ou que os patrões tratassem bem os criados. Quando isso tudo estivesse feito, a bandeira nazi estaria há muito desfraldada em Trafalgar Square… Portanto, podemos desejar e fazer com que alguns dos vícios do capitalismo, tão patentes na crise de 2008 (e na próxima?), sejam corrigidos. Mas não devemos nem podemos combater tudo ao mesmo tempo. É com as armas do capitalismo – ou, se quiserem, da economia de mercado – e com as armas da democracia liberal – ou se quiserem, dos votos e das manifestações livres – que devemos enfrentar o desafio das alterações climáticas. Primeiro, em casa; depois, no trabalho; a seguir, na rua, com petições, manifestações, votações – e textos patetas e desastrados, como este
 
(que é para o Nuno Quintas, com um abraço do
 
António Araújo)
 
 
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Onde se fala de Shakespeare, elefantes e Charlie Chaplin.

 

Londres, Elephant and Castle


 
         Há dias, o Nuno Quintas (= a melhor pessoa do mundo) falou-me de uma representação de Twelfth Night que vira em Londres e logo me lembrou de falar sobre alguns elefantes dessa nebulosa urbe, até porque Twelfth Night os menciona, quando, a dada altura, numa tirada mui revisteira e parquemayeresca, e assim a modos de Tripadvisor isabelino, Antonio recomenda: «In the south suburbs, at the Elephant, is best to lodge».  
A cena passa-se na Ilíria, nos Balcãs, mas uma das coisas mais deliciosas de William Shakespeare (e de Eduardo Pitta, outro clássico) são estas misturadas baralhadas entre a realidade próxima e territórios ou épocas distantes. Neste caso muito concreto, o Bardo falava dos «Elephant Lodgins», uma hospedaria da capital britânica denominada «Elephant and Castle». Daí derivou o nome da área londrina conhecida justamente por Elephant and Castle – e à entrada do democrático metropolitano lá está uma horrível estátua de um elefante com um castelinho, a jeito de Joaninha Vasconcelos mas imprópria de um país que tem belíssimas e antiquíssimas figurações de elefantes com castelinhos, como a que está num cadeiral do coral da catedral de Chester, do século XIV, e outra, antiga, na catedral de Exeter (onde também há um elefante mais recente num banco catedralício), e ainda outras duas na catedral de Ripon, Yorkshire.


Estação de metro de Elephant and Castle
 
 
Catedral de Chester
 


Catedral de Exeter


Catedral de Exeter
 

Catedral de Ripon, Yorkshire
 

Catedral de Ripon, Yorkshire


 
Não se descarta a hipótese, ventilada pela frondosa Wiki, de o nome ser uma corruptela de «Infanta de Castilla» e, portanto, nada ter a ver com elefantes e castelos. É possível. Mas também é possível que, em lugar de damas espanholas, a origem de tudo seja mesmo um elefante com uma torrinha (a houda ou howdah), e o que para lá existiu ou existe de elefantes, em teatros e pub’s, é algo de estarrecer. Existe inclusive uma rede de pub’s que tem esse nome, estando espalhada pelo Reino Unido – e até em Dublin existe um «Elephant and Castle», lamentavelmente em queda para o fast food.

 



Elephant Theatre, 1882
 
 
Mas foi ali, ao sul de Londres, que nasceu o primeiro pub Elephant and Castle, não se sabendo bem o que motivou o proprietário a escolher tal nome. É possível que se tenha inspirado no emblema e brasão da Worshipful Company of Cutlers, a guilda responsável por regular e organizar o fabrico de armas e cutelaria, onde o marfim era vulgar (http://www.cutlerslondon.co.uk/hall/).
 
Brasão da Worshipful Company of Cutlers
 






Cutler´s Hall, Warwick Lane, Londres
 
 
 
 


Cutler´s Hall, interiores
 
Cutler's Hall, porta de entrada



 
 
          Há quem afirme aqui que tudo também pode ter derivado do famoso elefante que Luís IX de França ofereceu a Henrique III e que foi parar à Torre de Londres, mas sobre esse, porque há tanto e muito para dizer, gostaria de escrever um dia, com mais vagar e detença. Já que não falamos do elefante da Torre (de Londres), um breve apontamento sobre a Torre do Elefante, ou melhor dizendo as torres com esse nome, porquanto há uma em Cagliari, na Sardenha, muito medieva (aqui), e outra em Bangecoque, assaz vanguardista (aqui).




Torre dell'Elefante, Cagliari, Sardenha, século XIV

Elephant Tower (ou Elephant Building), Banguecoque, 1997



Charlie Chaplin, The Kid, 1921
 


 
Em Elephant and Castle teve Charlie Chaplin sua tormentosa infância – e o filme The Kid muito deve à memória da meninice passada naquela pobre área do sul londrino, onde também nasceu outro paquiderme da sétima arte, Michael Caine.
Por ora, ficamo-nos por aqui, com um abraço ao Nuno do
 
António Araújo
 
 
 




 
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Quem conhece as Vivian Girls?

 
 
 
 
 
 

    
 
 
       O muito encantador e assaz sabedor Nuno Quintas contou-me a história fabulosa de Henry Darger Jr. (1892-1973). Órfão de mãe aos quatro anos, educado em orfanatos, Henry foi uma pessoa cuja existência decorreu na mais pura solitude of the self, para usar a expressão tantas vezes aqui evocada da grande Elizabeth Cady Stanton. Teve empregos menores nos hospitais de Chicago e apenas um amigo durante toda a vida terrena. Quando morreu, em 1973, o senhorio descobriu no seu quarto uma enorme massa documental, espólio quilométrica. Várias centenas de desenhos e o manuscrito de um livro com um título comprido: The Story of the Vivian Girls, in What Is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm, Caused by the Child Slave Rebellion (ver aqui). O texto, uma história de mistério e imaginação, tem mais de quinze mil páginas e, ao que sei, não foi ainda publicado na íntegra. Em complemento, Darger escreveu um volume romanesco mais conciso, de apenas dez mil páginas – Crazy House – e um relato autobiográfico também muito sintético, de somente 4.672 páginas. Agora, pós-morto, Darger é famoso, exposto em dezenas de galerias e museus, figura lendária da cultura popular americana. Já uma vez tinha falado aqui de outra história parecida, a de James Hampton. São ambas muito USA, e se tiverem mais não hesitem em trazê-las, como fez o Nuno, a quem agradeço muito, com um abraço amigo do
 
 
António Araújo



Henry Darger Jr. (1892-1973)