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domingo, 19 de abril de 2026

O Diogo.

 



É difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito. Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre alguém como o Diogo.

Falar do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam longe dele.

Quando morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que penso, sinto, escrevo.

Escrever sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco, fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.

Escrever sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco, negando a impossibilidade do seu regresso.

Como fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou de maneira tão instantânea?

Não me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.

O Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o Irmão, o Professor, o Mestre.

Falar do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de História do Pensamento Social.

Recordo-me da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito. Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que ele reparasse em mim.

Nas aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura, aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.

Às segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero, talvez, mas pouco importa).

Ensinou-me a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas não só.

Ensinou-me o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.

Em tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que agradar ou ser um professor popular.

O Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem, coisificarem, cristalizarem.

Depois de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.

Ainda que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel), sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como ele. Crescer com ele.

Dez anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social, continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas. Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de enriquecimento intelectual e afectivo.

O Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António Araújo e do José Lima).

Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.

Com o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro daqueles que criticava.

Dispunha de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.

Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.

Homem de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem sempre conseguia livrar-se delas completamente.

Não escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de si próprio.

O Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático. Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.

Da energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do seu braço sólido, sentia menos medo.

Todos os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis, situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa, em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta. E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos pelos alfarrabistas…

O Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se apoiarem mutuamente.

Não voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra, não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã (ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da minha vida.

Na Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.

E, no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase sempre o dele.

Custa-me muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso tornou-se ainda mais claro.

O Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente. A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de reconstrução interior.

Mais realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.

Nunca mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto muitas vezes. Agora, mais do que nunca.

 

João Pedro George




domingo, 12 de abril de 2026

Diogo Ramada Curto, um amigo.

 


 

Durante anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.

Diogo Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo independentes.

Espírito livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima, possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de Brown.

Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos lhe devem muito nas suas carreiras académicas.

Por fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se, neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o seu nome.

Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.       

 

                                                                                    António Araújo


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Sebastião Salgado (1944-2025).

 




 

          Publicadas originalmente em França, as Memórias de Sebastião Salgado foram editadas em 2014 em Espanha, com a chancela de La Fábrica. Intituladas em castelhano De mi tierra a la Tierra. Memorias, surgiram nas livrarias praticamente em simultâneo com a exposição que, no CaixaForum, esteve patente no coração cultural e turístico de Madrid. Salgado expôs aquele que, ao que tudo indica, será literalmente o seu último grande projecto, Génesis, iniciado em 2002 e só concluído ao fim de oito anos de trabalho e de 32 longas reportagens; em 2013, a Taschen deu-o à estampa em várias línguas, incluindo o português.

          O relato memorialístico de Sebastião Salgado foi feito com a colaboração de Isabelle Francq e, pelas palavras desta no prólogo, tudo indicia tratar-se do resultado de uma longa entrevista autobiográfica, em que aquele expôs à jornalista os diversos passos de uma trajectória que culminou na sua elevação ao estrelato de celebridade mundial. Sebastião Salgado é, muito provavelmente, o fotógrafo mais conhecido e mais popular do nosso tempo.

Também no Brasil, a editora Paralela publicou estas memórias, com o título Da minha terra à Terra, frase que sintetiza, mais do que uma vida, a imagem que dela se quer projectar. Aí sobressai a transição das origens num território já de si vastíssimo para um ponto de vista que pretende abarcar o planeta inteiro, com especial ênfase nos seus lugares mais remotos, sejam cálidos ou gélidos. Tal passagem – da terra à Terra – foi possível devido à imensidão do país de nascimento e também, ou acima de tudo, ao facto de Salgado professar uma inabalável fidelidade às suas raízes, declarando que sem elas jamais teria sido possível operar actualmente a uma escala tão ampla. Se o centro da sua longa marcha rumo à consagração como fotógrafo global principiou na Europa, Sebastião Salgado, que conheceu anos de exílio e chegou a obter a cidadania francesa, reclama uma brasilidade profunda, quase atávica e mística, em que a Terra só foi conquistada devido à sua lealdade à terra, ao lugar a que regressou para criar uma organização denominada, não por acaso, Instituto Terra, dedicado à reflorestação da mata atlântica, «utopia feita realidade» que já plantou dois milhões de árvores com o apoio do Banco Mundial, do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade e de grandes empresas, como a companhia mineira Vale do Rio Doce e a cosmética brasileira Natura, ou de fundações privadas francesas, como Nature & Découverte, Yves Rocher, Aventis Pasteur ou Anne Fontaine. Também a Taschen contribui para o sucesso do Instituto Terra.  

A esta luz, a específica génese de Sebastião Salgado, pessoalíssima e intransmissível, explicaria todo o caminho que, décadas depois, teria o seu apogeu em Génesis. Afirma que sempre possuiu «a sensação de ter crescido no paraíso», culminando a sua carreira com uma obra em que a referência ao Éden vai muito para lá do título. Ao exaltar daquela forma tão intensa a influência das suas origens, o fotógrafo, consciente ou inconscientemente, relega para um plano secundário, como que descartável ou meramente acidental, o facto de só graças à congregação de recursos materiais absolutamente invulgares ter podido desenvolver projectos de uma duração e de uma envergadura a que muito poucos podem aspirar. Por outras palavras: se, no plano imaterial, do afectivo e do imaginário, Minas Gerais foi a fons et origo da sua obra, esta nunca teria visto a luz sem uma eficientíssima gestão de carreira e de meios, realizada com base em Paris.   

          A estrutura desta obra relativamente breve, com cerca de 160 páginas, encontra-se ordenada segundo um critério cronológico, o que, a par da fluidez e da simplicidade da escrita, muito contribui para facilitar a sua leitura. Para mais, Sebastião Salgado evita tecer considerações «intelectualistas» sobre a sua arte ou, como decerto preferirá chamar-lhe, sobre o seu trabalho. O livro assume, assim, características predominantemente autobiográficas, entrecortadas aqui e ali por observações de índole ideológica extremamente difusas e até mesmo francamente banais. A obra vale, pois, enquanto reconstrução linear do percurso de um dos maiores – ou, pelo menos, dos mais conhecidos – fotógrafos da actualidade. A riqueza e a diversidade da sua vida encontram-se palidamente reflectidas neste pequeno livro, que não representa ainda, de modo algum, a biografia «definitiva» de Sebastião Salgado. No entanto, como o fotógrafo trabalhou frequentemente sozinho, passando largos períodos em extremos longínquos sem a presença de colaboradores ou outras testemunhas, e como os episódios que viveu e as pessoas que conheceu dificilmente poderão ser resgatados sem a sua intercessão, será difícil, ou quase impossível, escrever uma biografia de Sebastião Salgado que não se atenha a aspectos decisivos (as agências, os contactos, os prémios, as redes das indústrias da cultura) mas algo extrínsecos ao essencial. Um essencial que é este: a retina dos seus olhos e as objectivas das suas câmaras viram e captaram o mundo no que este encerra de mais horrível e de mais belo, ou seja, nos graus mais superlativos que possamos conceber.  

          Sebastião Ribeiro Salgado Júnior nasceu em 1944 no Estado de Minas Gerais, numa fazenda situada no interior do vale do Rio Doce, um território que, como faz questão de lembrar, tem uma superfície idêntica à de Portugal. A questão da escala da terra, surgida logo nesta observação feita en passant nas primeiras páginas do livro, virá a desempenhar um papel crucial em toda a obra do fotógrafo.

          Filho de um fazendeiro relativamente abastado, sobretudo para os padrões do Brasil rural da década de 40 (na fazenda, auto-suficiente, viviam cerca de 30 famílias), Salgado apresenta a sua infância e primeira juventude como um tempo idílico em que, convocando de novo a questão da escala, percorria sozinho milhares de quilómetros, cobrindo distâncias equivalentes à que separa Paris de Moscovo. Naquele vale tão verde, ninguém era rico e ninguém era pobre. Vivia-se num comunitarismo pré-industrial que desconhecia a desigualdade ou as assimetrias de riqueza e que, recorda Sebastião, só tinha acesso à civilização através da linha ferroviária da companhia Vale do Rio Doce. Por vezes, na estação das chuvas, ocorriam aluimentos de terras que deixavam as povoações isoladas durante meses, o que em nada afectava o delicado equilíbrio homeostático, natural e social, que ali haviam construído durante décadas. Foi neste paraíso nostalgicamente evocado que o jovem Sebastião nasceu e cresceu, em deleite de felicidade pura. Os pais autorizavam-no a visitar as irmãs, já casadas, que moravam em terras longínquas para os nossos padrões, mas não para os de quem habitava um país que, como ele recorda, tem quinze vezes o tamanho de França. Com alguns companheiros e empregados, o pai chegava a fazer caminhadas que demoravam 45 dias de viagem, transportando varas de centenas de porcos pelos trilhos e veredas de Minas Gerais. Sebastião participava nessas digressões pelo interior do Brasil, em que o dia começava às quatro da madrugada com um prato de feijão tropeiro. Encontra nessas juvenis jornadas a explicação para tudo o que será depois, um «fotógrafo do mundo» em permanente errância, que já esteve em mais de 120 países. «Alguns dizem: Salgado tem delírios de grandeza. Nasci num país imenso», observa.

          Além da escala e da dimensão espacial, há outra faceta que Sebastião Salgado, algo previsivelmente, realça desde o início destas suas memórias: o tempo. O livro começa, aliás, com uma descrição do tempo e da paciência que despendeu em 2004 para conseguir captar imagens de uma tartaruga gigante das Galápagos. Um dia inteiro para se aproximar do animal antediluviano que, arrastando vagarosamente os seus 200 quilos, se esquivava com sucesso a qualquer contacto humano. «Quem não goste de esperar não poderá ser fotógrafo», é a frase – de resto, assaz vulgar – com que abre o livro, obra em que se define como um «caçador de imagens» que sabe aguardar pelas suas presas. Esta aprendizagem da lentidão é igualmente remetida para a infância e juventude, lembrando o fotógrafo os longos dias dos trajectos a cavalo pelo interior brasileiro, em que os caminheiros «tinham tempo para falar, contemplar a paisagem». «Essa lentidão é a mesma da fotografia».

          Aos 15 anos, foi viver para Vitória, no Estado de Espírito Santo, onde concluiu os estudos secundários. Enquanto estudava, trabalhava na tesouraria da Alliance Française, iniciando uma ligação profunda à cultura francófona que perdura até hoje, sendo Paris a cidade onde reside e possui a agência fotográfica que fundou com a sua mulher, Lélia Wanick. Conheceu-a justamente quando trabalhava na Alliance Française, tendo ele vinte anos e ela dezassete. O casal permanece junto há mais de 45 anos, com flutuações e crises conjugais que Salgado não escamoteia, naquele que, a par das linhas dedicadas ao filho Rodrigo, com síndrome de Down, é o momento mais intimista das suas Memórias. As constantes menções que faz à sua mulher comprovam que esta tem um papel determinante quer na concepção dos seus diversos projectos fotográficos, quer na arquitectura dos seus livros, quer, enfim, na difusão universal da sua obra.

          Depois de se licenciar em economia, fez um mestrado na Universidade de São Paulo. Nas aulas da universidade, e sobretudo no convívio dos meios estudantis, foi marcado pela ideologia terceiro-mundista que, de uma forma mais matizada e mesclada de outros elementos agora mais salientes (v.g., o ambientalismo e a antiglobalização), continua a caracterizar a sua concepção do mundo. Sem ter aderido ao Partidão, reconhece a influência que os comunistas tinham nos meios que frequentava, só igualada pela das associações cristãs de esquerda, como a Juventude Escolar Católica. Sem explicar como lá chegou, juntar-se-ia a um grupo mais radical, a Acção Popular, que a dado passo, e sob inspiração cubana, trilhou a via sinuosa da luta armada. Sebastião Salgado não especifica se participou em algumas das acções desse grupo nem alude ao facto de, segundo se diz, ter conhecido pessoalmente o mítico guerrilheiro urbano Carlos Marighella (a grande biografia de Marighella, publicada em 2012 por Mário Magalhães, não faz qualquer menção ao fotógrafo). Refere, todavia, que a instauração da ditadura militar, em 1964, o obrigou a exilar-se juntamente com a sua mulher. Em Agosto de 1969, o jovem casal partiu de barco rumo a França, «a pátria dos direitos humanos e da democracia». Em Paris, Lélia matriculou-se em arquitectura e Sebastião preparou o seu doutoramento em economia. Para custear as despesas, ele descarregava camiões da residência universitária onde viviam e ela trabalhava na biblioteca. Aos fins-de-semana, num 2cv, atravessavam o país de lés a lés para angariar fundos de apoio aos exilados brasileiros que afluíam ao país, trazidos clandestinamente através da Argentina e do Uruguai. Aos sábados, iam com os compatriotas a Verdun ou a Metz, e cozinhavam pratos brasileiros para os almoços em que Lélia cantava para os seus companheiros de luta e de infortúnio. A experiência revelar-se-ia essencial na afirmação futura de Sebastião Salgado como fotógrafo engagé. Foi nessa época que entrou em contacto com uma miríade de organizações – de confederações sindicais ao Partido Comunista, passando pelos movimentos cristãos como o CCFD (Comité Católico contra a Fome e para o Desenvolvimento) e o Cimade (Serviço Ecuménico de Ajuda Mútua, de apoio aos imigrantes) – que teriam papel decisivo na publicação dos seus primeiros trabalhos. Na Primavera de 1970, o 2cv de Sebastião e Lélia levá-los-á a Genebra, onde era mais barato adquirir o material fotográfico de que ela necessitava para os seus estudos de arquitectura. Ao captar as suas primeiras imagens, Sebastião ficou maravilhado. Tinha 26 anos, pegara na máquina de Lélia por casualidade. «Nasceu em mim um entusiasmo incrível». Sonharam na altura comprar uma Volkswagen Kombi e percorrer África num périplo fotográfico, desconhecendo que, anos mais tarde, aquele misterioso continente iria servir de cenário a alguns dos mais importantes projectos de Sebastião Salgado, com destaque para o que se materializaria em livro em 2007, justamente com o título África.

          Concluídos os estudos pós-universitários em Paris, obtém um confortável e promissor lugar em Londres, na Organização Mundial do Café. Projectava redigir aí a sua tese, o que acabou por não fazer. Nesse tempo, o casal vivia desafogadamente e gozava as delícias do consumo conspícuo, adquirindo um magnífico Triumph e um espaçoso apartamento nas imediações de Hyde Park. O seu trabalho, alinhado com a voga desenvolvimentista que então marcava as organizações internacionais, pô-lo em contacto com o Banco Mundial e com a FAO. Nesse âmbito, foi um dos responsáveis pela introdução da cultura do chá no Ruanda. Em 1991, quando ali se deslocou no âmbito do projecto A Mão do Homem/Trabalho, ficou maravilhado com as plantações, dizendo que o Ruanda produzia o melhor chá do mundo, o mais cotado de todos na bolsa de Londres. Três anos depois, o tempo iria sofrer uma súbita aceleração. Em 1994, no espaço de poucos meses, o sangrento conflito entre hutus e tutsis vitimaria praticamente um milhão de pessoas, dizimando um décimo da população do país. Sebastião Salgado fotografaria os refugiados desta tragédia, das maiores que África conheceu no século XX.  

          África foi o «meu outro Brasil», a terra onde reencontrou a imensidão da escala que na Europa lhe faltava. Aos domingos, remando num barco alugado no lago de Serpentine, em Hyde Park, partilhava com Lélia a angústia de uma radical opção de vida, interrogando-se sobre se deveria dedicar-se inteiramente à fotografia. Acabou por fazê-lo, deixando o emprego certo na Organização Mundial do Café. O Triumph e o apartamento londrino foram vendidos, Sebastião regressou a Paris. No Verão desse ano, com Lélia grávida de Juliano, o primogénito, fizeram a primeira expedição fotográfica a África, uma travessia do Níger com os compagnons do CCFD. Esta organização católica iria utilizar uma das fotografias aí tiradas por Salgado num cartaz da campanha La terre est à nous. De súbito, a imagem estava afixada em todas as igrejas de França. O dinheiro pago pela CCFD era suficiente para comprarem um pequeno apartamento, mas decidiram investi-lo antes na aquisição de material fotográfico: as inevitáveis Leica e um ampliador. Salgado não descreve a sua profissionalização como fotógrafo em tons grandiloquentes nem evoca qualquer sentido de «missão» no rumo que deu à sua vida. Essa é, aliás, uma das qualidades destas Memórias, a lhaneza com que o fotógrafo descreve o seu trabalho, raramente lhe atribuindo propósitos que transcendam o próprio acto de fotografar. Tal discurso é, por vezes, levado a extremos, nomeadamente ao rejeitar o qualificativo de fotógrafo «militante», quando, na verdade, existe um inquestionável engajamento político-ideológico em praticamente todos os seus projectos, facto que, em si mesmo, não merece censura ou sequer crítica. Aliás, apesar de recusar o epíteto de «militante», assume e convive tranquilamente com a natureza ideológica de muitos dos trabalhos que desenvolve, esclarecendo apenas, e bem, que essa dimensão não explica a totalidade da sua obra.

          Tomada a decisão de se profissionalizar como fotógrafo, a lentidão do tempo sofreu um repentino revés e a carreira acelerou de forma fulgurante. De permeio, os testemunhos de brasileiros exilados em Praga e algumas desventuras vividas no bloco de Leste (na RDA, Sebastião e Lélia viram-se subitamente rodeados pela polícia, «uns tipos cobertos de cicatrizes, de aspecto terrível», que lhes apontavam metralhadoras) afastam-no em definitivo da órbita do comunismo: «demo-nos conta que o sistema que para nós representava um certo romantismo era desprovido de qualquer sensibilidade». Não abandonando um programa que define por «fotografia social», passou a situar-se num certo limbo ideológico. Neste no man’s land de referências, o progressismo católico teve um efeito salvífico. Salgado começou a trabalhar mais intensamente com o CCFD e com o Cimade, publicando as suas reportagens nas páginas de Cristiane, de La Vie Catholique ou de SOS, o periódico mensal do Secours Catholique. Apesar da marca eclesial, não eram boletins paroquiais: La Vie Catholique tinha uma tiragem de 500 mil exemplares e SOS editava todos os meses um milhão de cópias. O nome de Sebastião Salgado como fotógrafo do subdesenvolvimento começa a tornar-se conhecido e, sem cometer a injustiça de dizer que o exilado brasileiro procurou satisfazer os desejos do Zeitgeist dos alvores dos anos 70, o certo é que os temas que elegeu e até a pureza e a crueza das suas imagens a preto e branco estavam em sintonia perfeita com o gosto do grande público e também com o ethos das organizações internacionais, quer as que gravitavam na órbita das Nações Unidas, quer as que se orgulhavam do seu carácter «não-governamental». Nunca foi um «criador», um alternativo ou marginal ao establishment. Pelo contrário. Recusando qualificar-se como fotojornalista, mas igualmente não ousando realçar a natureza «artística» das suas imagens, granjearia o entusiástico apreço das organizações internacionais, trabalhando com frequência para a UNICEF, os Médicos Sem Fronteiras, a Cruz Vermelha ou a ACNUR. O «humanismo» dos seus projectos ia plenamente ao encontro do «humanitarismo» das instituições internacionais, cuja actividade muito dependia de campanhas em que a imagem fotográfica desempenhava um papel fundamental na sensibilização das consciências e na mobilização das boas vontades.

          Entre a geopolítica da fome e o pós-marxismo antiautoritário, a que se adicionam laivos do tradicional antiamericanismo francês, Salgado compara o seu trabalho ao da literatura: «aquilo que os escritores reconstroem através das suas plumas, eu reconstruo através das minhas câmaras. A fotografia é para mim uma forma de escrita. É uma paixão, porque amo a luz, mas é também uma linguagem». Memórias é um livro excessivamente atravessado por observações deste género, destituídas de especial originalidade ou densidade. De facto, e como igualmente acontece com muitos outros criadores, é nas suas obras fotográficas, e não no discurso que desenvolve em seu redor, que o talento de Sebastião Salgado mais se destaca.

          Para isso – e o autor reconhece-o – muito contribuiu uma larga experiência nas mais conceituadas agências fotográficas do mundo. Esteve um ano na Sygma, trabalhou na Gamma entre 1975 e 1979, onde beneficiou do contacto com colegas de ofício como Raymond Depardon, Marie-Laure de Decker ou Hugues Vassal e sobretudo do redactor-chefe da agência, Floris de Bonneville. «Devo muito a Floris», diz, acrescentando, o que provavelmente corresponde à verdade, que a sua formação académica como «economista global» lhe trouxe um olhar sobre a realidade do trabalho à escala planetária que outros não possuem. O «sistema», por outro lado, encontrava-se particularmente predisposto a acolher as suas fotografias e o seu estilo despojado e directo, tendo as imagens de Salgado sido divulgadas nas mais reputadas publicações do Ocidente, como Paris Match, Stern, Time ou Newsweek. O seu lançamento enquanto fotógrafo coincide com o período da afirmação do Terceiro Mundo como ideologia e prolonga-se na fase de autocrítica pós-colonial feita pelos meios intelectuais e pela opinião pública do hemisfério Norte. Se o seu discurso assume, com frequência, contornos luditas e condenatórios do «progresso», o seu anti-ocidentalismo não comporta uma dimensão autopunitiva. A invocação das raízes brasileiras, uma vez mais, é um argumento utilíssimo, que o exime a tal exercício de flagelação. «Não sou originário da metade norte do mundo e não partilho o sentimento de culpabilidade de alguns dos meus colegas», afirma, poucas páginas antes de anunciar que em 1994, juntamente com Lélia, fundou a Amazonas Imagens, com sede nas margens do Canal Saint-Martin, em Paris.   

Sebastião Salgado herda e nasce no seio do terceiro-mundismo das décadas de 60 e 70, acompanha a vaga humanitarista dos anos 80 e a partir daí afirma-se através de um conjunto de obras publicadas em vertiginosa cadência, de que se destacam Outras Américas (1986), Trabalho (1993), Terra (1996), Êxodos (2000), África (2007) e Génesis (2013). Integra uma plêiade de intelectuais e criadores – como García Márquez ou José Saramago –, quase todos de esquerda e provindos das periferias, que alcançaram sucesso mundial graças a dispositivos de promoção que, actuando segundo princípios de mercado, os projectaram a uma larga escala, como marcas ou objectos de consumo de massas. Esta constatação não transporta qualquer carga pejorativa nem possui um sentido condenatório. Evidencia, tão-só, que o Ocidente é acometido, com regular frequência, por sentimentos de culpabilidade e insatisfação, a que deu implacável resposta através dos seus próprios mecanismos de autodefesa: com extraordinária eficiência, criou uma lucrativa «indústria» vocacionada para padrões de consumo que só na aparência são «alternativos». Assim, instauraram-se hábitos, modas e, na linguagem do marketing, «nichos de mercado» que permitem aos compradores aliviarem as carteiras, as depressões e o stress, mas também as consciências, humanitárias ou ecológicas. Dos cosméticos feitos exclusivamente à base de produtos naturais às novas espiritualidades de raiz oriental, passando pela world music ou pelas viagens a lugares ainda não devassados pelo turismo de baixo custo, tudo remete, afinal, para a mesma lógica. O altermundialismo académico e político, a moda literária do realismo mágico ou os coffee table books com fotografias de Sebastião Salgado inscrevem-se igualmente nessa vaga e participam em pleno deste comércio, com a enganadora convicção de que o não fazem – ou, pior ainda, com a presunção de que, apenas por adoptarem um registo crítico nas suas intervenções, são moralmente superiores perante o capitalismo e suas perversidades.       

          Em 1976, o governo brasileiro recusou renovar-lhe o passaporte. De imediato, a República francesa concederia a sua nacionalidade ao expatriado da ditadura militar. Juntamente com um amigo, Augusto Boal, encenador brasileiro refugiado em Portugal, impugnaria judicialmente a decisão do Itamaraty, vencendo a causa nos tribunais e assim criando um precedente para todos os que, como ele, viviam exilados – e que logo contrataram advogados para seguirem o seu exemplo. Não admira, pois, que, nestas Memórias, por diversas vezes sejam louvados Lula da Silva e Dilma Rousseff. Quanto aos demais e actuais líderes da América Latina, não é feita qualquer referência.    

No ano de 1979 ocorrem duas importantes mudanças na sua vida. Graças à lei da amnistia, obteve autorização para regressar ao Brasil e, por outro lado, começou a trabalhar na Magnum, agência onde permaneceu quinze anos, conhecendo nomes lendários da fotografia como Henri Cartier-Bresson ou George Rodger. Em 1981, no decurso de um trabalho para o New York Times, teve a suprema ventura de, por um acaso, estar muito próximo do local em que Ronald Reagan foi vítima do famoso atentado a tiro à porta do Washington Hilton Hotel. Todas as fotografias que tirou nessa ocasião foram imediatamente vendidas, por um preço que o autor não especifica mas que, por certo, terá sido muito elevado, pois, segundo ele, as imagens do presidente Reagan baleado em Washington permitiram restaurar as suas finanças pessoais e também as da própria agência Magnum. É sintomático que, passado esse furor mercantil, Sebastião Salgado, em conjunto com a sua mulher, tenha decidido que aquelas fotografias nunca mais deveriam ser publicadas. Com essa decisão tão radical, e que por certo implicou avultados prejuízos financeiros, pretendeu o casal acentuar que Salgado não era um fotojornalista. Por isso, só um imperativo publicitário explicará que, na capa da edição francesa destas Memórias, surja a afirmação do The Sunday Times: «O maior fotojornalista do mundo». Não é essa, decididamente, a imagem que Sebastião Salgado quer transmitir, mas antes a de um fotógrafo planetário. Consolidada a sua reputação, galardoado em 1986 com o World Press Photo, afirmou-se paulatinamente como o autor de grandes reportagens que levavam anos a planificar e implicavam a sua deslocação a vários pontos do globo, pois só assim conseguiria encontrar coerência a uma escala tão grande, a maior escala possível. Coerência temática, acima de tudo, mas também coerência conceptual e iconográfica. Cada reportagem seguia um método preciso, que começava na escolha do tema (trabalho, migrações) e acabava na edição de um livro de grande formato e em amplas exposições que percorriam as principais cidades do hemisfério Norte. Para melhor concretizar este programa, sairá da Magnum e, em 1994, fundará com Lélia a Amazonas Images, que reúne em Paris uma equipa de várias pessoas, entre documentalistas, especialistas em imagens digitais e reveladores fotográficos.

          Só de uma maneira muito fugaz e lateral Memórias consegue captar a envergadura do trabalho de Sebastião Salgado, a imensidão dos espaços que percorreu, aquilo que lhe permite assumir-se como legítimo herdeiro dos grandes foto-repórteres do passado e da sua glamorosa intrepidez. Quando chegou à Serra Pelada, no Pará, e desceu à mina, foi recebido com hostilidade pelos que, cobertos de lama e terra, se assemelhavam a figuras de barro lavradas pelo Aleijadinho. Enquanto descia a 70 metros de profundidade, 50.000 homens encaravam-no de forma ameaçadora, julgando ser um espião a soldo da empresa Vale do Rio Doce, que vinha apropriar-se da preciosa terra e expulsá-los dali. A lentidão do tempo encarregar-se-ia de desfazer o equívoco, a ponto de, conquistada a familiaridade dos garimpeiros, ter ficado a saber que, entre aqueles machos rudes que escavavam a lama na febre do ouro, se encontravam uma comunidade gay e até transsexuais. A dado passo, um mineiro, com o corpo coberto de cicatrizes de navalhadas, confessa-lhe que, se a sorte o bafejasse, utilizaria a fortuna para concretizar o sonho da sua vida: viajar até Paris para aí implantar peitos de silicone de primeira qualidade, os melhores, os mais belos de todos. As histórias sucedem-se, em todas as partes do mundo: em Cuba, são os torcedores de tabaco que outrora narravam fastos da corte do rei Artur e agora, enquanto fabricam os puros, desfiam as vidas heróicas de Marx e Lenine. Em Moçambique, surgem os exorcismos contra os espíritos da guerra, em que fantasmas eram massacrados com catanas e espingardas, prática imprescindível à reconciliação dos povos divididos por um conflito fratricida. Os refugiados que, sedentos, se atiravam às águas do rio Zambeze, sendo devorados pelos crocodilos que se ocultavam na obscuridade. Ou uma mulher carregada de sacos que caminhava a pé com um bebé de colo e que o informou, com a maior das naturalidades, que lhe faltavam percorrer ainda 1.250 quilómetros para chegar a Maputo, o seu destino. Na fronteira com a Tanzânia, o horror das centenas de cadáveres de ruandeses que ficavam aprisionados num ponto preciso do rio Akagera, aquele em que as águas faziam um remoinho poderoso. Em Memórias, episódios como estes surgem de forma fugidia e passageira, pelo que seria importante, até para registo futuro, que o fotógrafo acedesse a narrar com mais detalhe, numa obra de maior fôlego e volume, as centenas ou milhares de situações singulares com que certamente se deparou na sua vasta carreira.          

          Há uma honestidade essencial no labor de Sebastião Salgado. Salvo em casos extremos, como nos livros dedicados ao Sahel (Sahel, l´homme en détresse, de 1985, e Sahel, el fin del caminho, de 1988), exime-se a exibir a dor alheia nos seus cambiantes mais sombrios e cruciantes, sabendo que o fotojornalismo contemporâneo se encarrega de o fazer hoje em doses de tal forma excessivas que já nem consegue despertar a sensibilidade de quem, parafraseando Susan Sontag, olha o sofrimento dos outros.

O fotógrafo reconhece alguma margem de manipulação naquilo que faz. Por exemplo, ao afirmar que procura traduzir as suas emoções «numa linguagem que não é real, uma vez que o preto e branco é uma abstracção». Porventura, é nessa ambiguidade entre o extremo realismo das situações que retrata e no modo «inautêntico» como o faz que reside uma das chaves do seu sucesso. Muitas imagens de Génesis, por exemplo, com destaque para as das majestosas montanhas cobertas de neve pura, provocam em nós a sensação irreprimível de que o fotógrafo não quis retratar a Terra, mas antes um outro planeta, fruto da sua imaginação poética e do nosso desejo de acreditarmos que tudo aquilo realmente existe, numa acidental conjugação de quatro elementos tão simples quanto essenciais: água, fogo, terra e luz.

É difícil resistir à sedução e ao fascínio suscitados pelas paisagens arrebatadoras de Génesis, sentimento que, aliás, as reportagens de Salgado sempre despertaram. As imagens dos formigueiros humanos no golden rush da Serra Pelada são capazes de cativar emocionalmente milhões de pessoas porque, em simultâneo, são trágicas mas surpreendentemente belas, sem jamais suscitarem sentimentos de visceral repulsa ou consternação excessiva. Como ele refere, «ao contrário do que acontece no cinema ou na televisão, a fotografia tem o poder de produzir imagens que não são planos contínuos, mas cortes de planos. São fracções de segundo que relatam histórias inteiras». Na verdade, a sedução das imagens de Sebastião, como a de muitos outros, reside menos naquilo que mostra mas no espaço que concede à imaginação de quem contempla, obrigado a adivinhar o que existiu antes e logo depois do instante decisivo. Está consciente do poder mágico, talvez xamânico, do corte de plano, aquilo que diferencia uma imagem de Génesis de um documentário da National Geographic.

Tal não significa, naturalmente, uma confiança total no poder evocativo da imagem. Os livros de Sebastião Salgado são acompanhados de textos, os quais, porém, são eminentemente informativos e descritivos, concentrando-se o essencial da retórica nas próprias imagens fotográficas. Às vezes, vai-se mais longe na combinação da linguagem escrita e visual. Visando apoiar o Movimento dos Sem Terra e sendo promovido pela associação Frères du monde, o livro Terra, editado entre nós pela Caminho, conta com uma introdução de José Saramago e versos de Chico Buarque; por sua vez, o intróito de Trabalho, igualmente publicado pela Caminho, foi escrito pelo fotógrafo em conjunto com o escritor Eric Nepomuceno; e Mia Couto participou em África, obra com chancela da Taschen. Nada disso, porém, infirma a ideia de que é na imagem, e apenas nela, que Sebastião Salgado naturalmente concentra o fulcro do seu discurso. Daí a importância destas Memórias, que confirmam o acerto e a sensatez de tal opção. De facto, quando vai além da fotografia, como aqui acontece, as afirmações que produz são de uma impressionante vulgaridade, abundando frases como «a fotografia é a minha vida», «para tirar boas fotografias há que ter muito prazer em fazê-lo» ou «quando carrego o obturador, entrego-me inteiramente a esse gesto».    

          Existe também uma dimensão, por assim dizer, «religiosa» na sua obra, especialmente visível em Génesis (desde logo, no próprio título, obviamente). Dizendo-se não-crente, porque partidário da teoria evolucionista de Darwin (como se essa dualidade ou esse antagonismo ainda fizessem sentido…), Sebastião Salgado fala de uma «harmonia original», que irmana todos os seres vivos, animais e plantas, apoiando essa reflexão numa epifania ocorrida quando fotografava as iguanas das Galápagos. As escamas das suas patas, diz-nos, assemelhavam-se de forma surpreendente às couraças metálicas dos cavaleiros medievais, confirmando a tese da existência de uma fraternidade cósmica entre todas as criaturas do Génesis. Se olharmos além da trivialidade desta comparação, perceberemos que, com efeito, muitas das suas imagens de evocam uma dimensão espiritual e pretendem restaurar uma sacralidade perdida. E, de facto, o tremendo sucesso de Génesis e o frémito que provoca naqueles que o contemplam beneficiam em muito do facto de vivermos numa época pós-secular, ávida de referências transcendentes. Em 1994, o autor decidiu rapar diariamente o cabelo e a barba, evitando a constante infestação de parasitas, o que lhe conferiu o aspecto de um monge laico, austero e frugal, imbuído de espírito missionário e firmemente convicto da superior virtude da mensagem que proclama. A isto acrescem as menções, com contornos sacrificiais, às agruras fundas do seu labor, realizado quase sempre em condições terrivelmente adversas.

Génesis foi apresentado como um poema épico dedicado à Terra, um hino ao planeta nas suas múltiplas escalas, que vão do detalhe da pata de uma iguana à extensão infinda de uma cordilheira encoberta por nuvens alvíssimas. A escala é o ponto central da sua gramática, como aliás Salgado nos explica quando fala de um dos seus primeiros grandes projectos, dedicado ao trabalho: não pretendeu abordar os artesãos mas os que laboram em unidades industriais gigantescas; pouca ou nenhuma atenção deu ao comércio ou aos trabalhadores dos serviços. O seu olhar incidiu sobre os operários dos estaleiros de Gdansk ou os pescadores de atum da Sicília, sobre os mineiros da Serra Pelada e, numa série impressionante, sobre os trabalhadores de um matadouro industrial do Dakota onde se sacrificam 1.000 suínos por hora e 2.000 vacas por dia. No primeiro dia em que aí esteve, os vómitos causados pelo cheiro nauseabundo impediram-no de fotografar. Os que aí trabalhavam auferiam bons salários mas enfrentavam das piores condições laborais que Sebastião viu em todo o mundo. Piores do que elas só talvez as dos homens que, em Java, recolhiam enxofre no interior da cratera do vulcão Kawah Ijen, recebendo cerca de 3,5 dólares por cada arriscadíssimo trajecto que faziam entre fumos mortalmente tóxicos.

          Mais do que uma versão aggiornata de grandes paisagistas como Carleton Watkins, William Jackson ou Ansel Adams, mas ainda assim comungando do panteísmo que os animava, Sebastião Salgado pretendeu com Génesis deixar-nos uma proclamação do seu amor mundi (a «minha homenagem à grandiosidade da natureza», escreve o autor no prefácio). O projecto, segundo refere nas Memórias, teve um efeito pedagógico: obrigou-o a aprender a fotografar não-humanos e a respeitar a lentidão dos seus ritmos, descobrindo ainda uma «racionalidade própria» em todas e em cada uma das espécies animais que encontrou pelo mundo fora. No decurso deste trabalho, empreendeu no Outono de 2008 aquela que considera ter sido a viagem da sua vida. Na Etiópia, uma caminhada a pé de 850 quilómetros, que durou três meses. A caravana, composta por quinze pessoas e dezoito burros de carga, retomou os passos do Antigo Testamento (ponto que Salgado faz questão de assinalar), trilhando caminhos que, segundo o fotógrafo, não eram percorridos há milénios. As cotas mais baixas por que passaram situavam-se a altitudes entre os 1.000 e os 1.500 metros e, em três ocasiões, andaram acima dos 4.200 metros. A excursão, porém, não dispensou o auxílio das mais modernas e sofisticadas tecnologias. A caravana era guiada com o auxílio de um GPS e todos os dias Sebastião Salgado utilizava o telefone por satélite para contactar a Géo-Découverte, empresa suíça especializada em desenhar itinerários para cientistas e exploradores.  

          Logo a abrir estas Memórias, Isabelle Francq refere que observar uma fotografia de Sebastião Salgado é «experimentar a dignidade humana». Este «humanismo» prolonga a tradição da foto-reportagem, revisitando aproximações como as de Walker Evans ou Dorothea Lange e a linha exibida por Steichen em The Family of Man, mas situando o olhar, e a ética que lhe subjaz, num contexto planetário. Formalmente, busca-se a depuração total, muito evidente em Génesis, que acentua os contrastes do preto e branco para explorar à exaustão as tonalidades do cinzento, sendo estas últimas que desempenham o papel central na definição do relevo das formas e dos contornos – como, aliás, Salgado sublinha nas suas Memórias, referindo ainda que a sua opção pelo preto e branco lhe trouxe não poucas dificuldades, designadamente quando se fixou em territórios completamente brancos, como a Antárctida ou a Sibéria. O resultado final, aqui com noutros trabalhos, é indubitavelmente a different light, título da mais completa monografia sobre o fotógrafo, escrita por Parvati Nair e publicada em 2012.  

          Sebastião Salgado concluiu Génesis aos 70 anos de idade. Confessa que esse trabalho o reconciliou com a humanidade, após a terrífica experiência de Êxodos: «em Êxodos enfrentei o lado mais severo e violento da nossa espécie e pensei que a espécie humana jamais poderia aspirar à salvação. Ao realizar Génesis, mudei de opinião». A transição do analógico para o digital, feita em 2008, no decurso desse projecto, processou-se sem problemas de maior, até porque o fotógrafo e os seus colaboradores, num esforço de grande complexidade, mantiveram muitos dos métodos e dos formatos tradicionais. Até 2004, Salgado operava com câmaras Leica e película Tri-X 400, em formato 24 × 36, tendo passado a trabalhar entre 2004 e 2008 com câmara Pentax 645 em formato 4,5 × 6. Em 2008, a Canon emprestou-lhe a sua câmara mais sofisticada, a 1 Ds Mark III e isso convenceu-o a adaptar-se à nova tecnologia, que para mais tem incomensuráveis vantagens logísticas num tipo de trabalho como o seu. Ainda assim, confessa-se incapaz de seleccionar imagens num computador, pelo que não prescinde da realização de provas de contacto impressas a jacto de tinta, que Sebastião Salgado examina à lupa, após o que os seus colaboradores realizam cópias de leitura em 13 × 18 e, depois, cópias em 24 × 30. Para ele, as provas de contacto continuam a ser essenciais para, em estúdio, reviver o episódio passado a milhares de quilómetros dali. Trata-se de uma observação interessante para quem enaltece a singularidade da fotografia como um corte de planos. É que, na verdade, mesmo o corte de planos não dispensa, quanto mais não seja ao nível da selecção e da escolha, a sucessão de imagens captadas no mesmo momento. Mais do que isso: se cada fotografia é, em si mesma, um corte de planos, um projecto fotográfico, como aqueles que Sebastião e Lélia concebem, implica uma sequência e uma coerência internas, uma unidade de sentido. Quando folheamos um livro de Sebastião Salgado, apercebemo-nos com mais clareza desta dimensão «fílmica» das suas intervenções. O seu êxito reside também nesse equilíbrio entre unidade e diversidade. As imagens agregam-se em torno de um denominador comum, o leit-motiv que permite falar de um «projecto»; mas, em simultâneo, afluem de todas as partes do mundo. Podemos assim contemplar uma realidade como «o trabalho», por exemplo, seja através de dezenas de imagens, ordenadas e observadas sucessivamente, seja através de uma só imagem – a do pescador siciliano que se prepara para La Mattanza do atum mediterrânico ou a do operário chinês de uma fábrica de bicicletas. Sebastião e Lélia Salgado sabem aproveitar, como poucos, as imensas potencialidades – estéticas e visuais, políticas e comerciais – de um «projecto», em que as fotografias são colocadas em conjunto e vistas em sequência, quer percorrendo as salas de uma exposição, quer folheando as páginas de um livro impresso em papel couché. A heterogénea origem das imagens, vindas de pontos muito distantes entre si, acentua a noção de diversidade, a qual, por sua vez, é comprimida e adquire consistência ou sentido graças ao «tema» que as unifica.    

Habituado a trabalhar sozinho, em muitas reportagens de Génesis, até por razões de segurança, fez-se acompanhar de um assistente. O tempo de maturação dos seus projectos (Êxodos, por exemplo, demorou seis anos a realizar) e até o conteúdo deste seu trabalho fazem adivinhar que Génesis marcará a etapa final da sua carreira. É legítimo especularmos se este projecto não terá sido concebido precisamente como a sua derradeira obra, em jeito de testamento vital ou testemunho esperançoso. Antes de o casal Salgado se lançar nesta empresa, a Conservation International, a maior ONG de conservação ambiental do mundo, forneceu-lhe estatísticas animadoras: aproximadamente 46 % da superfície do planeta permanece intacta; 99,9 % da Antárctida continua virgem; a floresta amazónica, em 75 % da sua extensão, não está ainda afectada. Foi toda essa terra incognita que Sebastião pretendeu desvendar diante dos nossos olhos. Não trabalhou na Europa, porque aí praticamente não resta qualquer lugar intacto. Em contrapartida, deteve-se no arquipélago chileno de Diego Ramírez, situado entre o cabo Horn e a Antártida, indo depois para as Malvinas, para a ilha Geórgia do Sul e para as ilhas Sandwich do Sul, que alojam o maior santuário mundial de pinguins selvagens e onde um vulcão permanece activo. O fotógrafo chama-lhes «ilhas do fim do mundo» e refere que é aí que os ventos dão meia-volta. Vão até lá, a um arquipélago situado nos confins do mundo, e depois regressam até nós, soprando com redobrada força. Mais do que as suas Memórias, talvez seja esta a imagem que melhor descreve a vida e a obra de Sebastião Salgado Júnior. 

 

             Texto publicado no Observador, em 14 de Junho de 2014

 

                                                                            António Araújo

 

 


segunda-feira, 5 de maio de 2025

segunda-feira, 10 de março de 2025

Deste lugar onde escrevo.

 


                                                                                                                                       1951

 


Vivo aqui há trinta anos. Do lugar onde isto escrevo, a três, quatro minutos a pé, estiveram estacionadas as tropas de Afonso Henriques antes de tomarem a cidade aos mouros. Em resultado disso, o rei mandou que se erguesse um mosteiro, em cumprimento da promessa que fizera antes da batalha, cujo desfecho vitorioso permitiu que hoje eu possa escrever isto aqui, deste lugar onde escrevo. Mais tarde, já no tempo de outros reis, aqueles que nos ocuparam durante quase uma centúria inteira, o mosteiro foi reedificado pedra sobre pedra, adquirindo as formas que ainda hoje mantém, e que podem ser observadas nas selfies que os turistas vindos nos tuk-tuk depois propalam pelo Instagram fora, com eles no primeiro plano, e o monumento em segundo. Nos trinta anos que aqui levo, neste lugar onde escrevo, vi só um pedaço do mundo, mas muito mundo aqui vi: caíram o Muro e as Torres, mostrando a fragilidade dos impérios, houve um cortejo de guerras e de outros tantos desastres, uns mais naturais do que outros, migrações, turbulências, com um Portugal de permeio, governanças sucessivas, triunfos do Glorioso. Acontecimentos de grande impacto, que a todos por certo abalaram, mas que vistos de aqui pouco interessam, não sendo sequer falados. Problemas à séria, esses sim amplamente ventilados, são os do estacionamento e o dos buracos no pavimento, foi o não haver luz na rua meses a fio, anos quiçá, pese as múltiplas diligências e insistências dos moradores mais activos e interventivos junto da junta e da câmara, com cartas para a EDP, até em formato papel. No plano das instituições, o ódio à EMEL continua por aqui em níveis muito elevados e têm grafitado regularmente o palácio que o cantor espanhol famoso comprou ao lado do mosteiro, “Free Palestine” e assim, mas agora já vai em “Morte a Israel” e “Israel = Nazi” (esta, no coreto da Graça). Fechou, e isto já há um bom par de anos, a mercearia da dona Ana e do marido, cujo nome eu nunca soube, e onde punham os preços todos à mão, com autocolantes em cada artigo, um a um, o dia inteiro naquilo. À esquina, em frente de onde querem fazer um hotel, prossegue a bom ritmo e sem falta de freguesia a funerária que fez o enterro do Cunhal e espero que faça o meu. Abriu um indiano a meio da rua, mas fechou pouco depois, suspeito que por queixas de insalubridade feitas pelo comércio do lado, Zezé Cabeleireiro, o brasileiro que me apara o cabelo e faz a barba (na tropa diziam desfazer a barba). Além dos dois filhos que têm, um dos quais chamado Enzo, o Zézé e a Joyce, que abriu um salão na rua, mais abaixo do marido, trouxeram para casa há uns meses uma pretinha de São Tomé, cuja mãe teve nove de enfiada, todos dados para adopção. No mais, a carteira continua maluca e põe gorro vermelho por alturas do Natal, saiu a padeira bêbada para dar lugar a outra que fuma à porta, o João está a dormir no coreto e já não arruma no mosteiro, ficou só o Djaló. Por vezes, quadros de miséria: os drogaditos tão escanifraditos, coitaditos, os bêbados inchados roxos, uma mãe a gritar com o companheiro ao telemóvel, com a filha de ambos a chorar ao lado. Vai de vento em popa uma loja de artesanato chamada “By Nunes” e ao virar da esquina, já em Santa Marinha, o sr. Mohammed Taj Uddin, vindo do Bangladesh com a numerosa família, abriu uma loja de artigos variados (para que não houvesse erros na grafia do nome completo, pedi ao sr. Mohammed Taj Uddin que mo apontasse num papelito, que aqui transcrevo). Ao fundo da rua, grande sucesso de público tem tido, merecidamente, o restaurante sofisticado do casal Mário e Werner, um português de gema, o outro suíço de nascimento. Deste lugar onde escrevo, mesmo por baixo de mim, também permanece exitosa a loja de azulejos da Cristina, onde o Miguel-filho agora dá cursos e workshops a miúdas estrangeiras bem giras. A oficina-loja é na antiga farmácia do sr. Pereira, que agora vende relógios na Feira, e o ateliê onde o Miguel-filho dá aulas fica onde antes era uma padaria, cuja funcionária saudosa, uma bruxa já velhota e desdentada, gritava muitos filhos da puta! (com a variante filhos da puta dum cabrão!) sempre que na rua passavam carros com estrépito ou buzinadela. Neste lugar onde escrevo, muito turista, muito dragão tatuado, muita minissaia ululante, mas nota-se menos, não sei porquê, o corrupio matinal das mulheres das limpezas dos alojamentos locais, que outrora andavam sempre ajoujadas com muitos sacos azuis do IKEA, daqueles dos bons. Mas no ano em que isto escrevo, e já vamos em Novembro, o acontecimento mais marcante e impactante foi, sem sombra de qualquer dúvida, o encerramento há muito ameaçado d’O Cantinho, café-bar com esplanada, que também fazia as vezes de centro de dia e antro de batota, que a dona Fernanda e o sr. Zé aqui tinham tomado de trespasse no dia 2 de Agosto de 1986, 38 anos certinhos. Tinham vindo ambos do Norte, ele de Monção, ela de Góis, conheceram-se no Pereira de Alfama, o do cozido afamado, a Fernanda na cozinha, primeiro só a ajudar, ele a servir às mesas. Começou em 9 de Junho de 1975, ainda sabe a data certa de cor, e aí conheceu gente muito relevante dos tempos da revolução, o Rosa Coutinho e o outro, o Almeida Santos, e o outro que agora não me lembra o nome. Aqui cresceu-lhes um filho, o filho, o Filipe, que foi carteiro primeiro e depois mudou para a Uber, e que aqui casou, divorciou, foi pai de um menino e de uma menina, Leonor como a minha mais velha, e cujo sonho maior é ter um dia um iPhone (“daqueles da maçãzinha”, complementou o avô). Em contrapartida, poucos notaram a partida da dona Teresa, que desde que enviuvou ficou uma sombra, e já estava num lar, julgo que da Santa Casa. A vizinha ao lado dela, de quem nunca soube o nome e nem sei se tem filhos e netos (se tem, nunca os vi), continua a acenar-me sempre que lhe passo à janela, umas vezes com o cão, outras não. Um país em miniatura, Portugal dos Pequenitos visto da minha janela. Fiz obras em casa, tenho duas no Erasmus, e, pese o que para aí dizem sobre as alterações no clima, a luz de Lisboa continua um espanto. Assim morramos com ela.  


Escrito no dia da morte do meu amigo Pedro Machete (1965-2024).   

                                                                                     

                                                                               António Araújo