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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Redacção # 5

 




(o tema desta redação foi-me sugerido, quase imposto, pela Senhora  Professora Cristina Almeida; caneta de tinta permanente,  era o mote. Se isto pega, com tantos senhores professores e professoras por aqui, como é que tenho tempo de estudar as outras disciplinas?)

 

A CANETA DE TINTA PERMANENTE 

 

Fui presente do menino Daniel, quando ele passou para o liceu, depois do exame da 4.ª classe e do de admissão ao liceu. O Daniel recebeu dois presentes. Eu própria, como já disse, só não disse que sou uma caneta de tinta permanente, e um relógio de pulso, daqueles a que se dá corda, que é preciso acertar de vez em quando, aproveitando o pip da telefonia, o sinal horário. São 20 horas em Potugal continetal, mais uma que nos Açores.

 

Sou uma Pelikan verde escuro no corpo, com um aro dourado um bocadinho antes de uma ponta, outro ao pé do aparo. A tampa é preta, com aquela peça que dá para agarrar ao bolso do casaco, dourada também. Se se desatarrachar a carrapeta da tampa, essa peça cai. O Daniel descobriu isso uma vez, mas teve sempre a preocupação de não me estragar.

 

O Daniel era bom aluno e tinha muitos cuidados comigo.  Também, se não tivesse eu sujava-lhe as pontas dos dedos e ele via-se aflito para lavar. Gostava de aparos macios e que escrevessem grosso. De maneira que fazia muitos riscos no papel, forçando o aparo, a ver se ele ficava um bocadinho deformado e gasto. Só fiquei assim ao fim de muito tempo, que eu não sou uma oferecida. Cedo, mas dou luta. E o menino Daniel teve de me tratar muito bem. Fiquei  a escrever grosso e corria bem no papel.

 

Enchia-me de tinta Quick, com um azul muito bonito, como o pai dele fazia com a sua Parker. Essa só tinha à vista a ponta do aparo, o resto devia estar dentro dela. Não sei porque nunca nos apresentaram, de modo que nunca nos falámos, que não falo com desconhecidos, mesmo vivendo na mesma casa. Há imensos desconhecidos dentro da mesma casa como todas as canetas e demais objetos sabem.

 

Para me encher, o menino tinha que desenroscar a parte de cima, o meu corpo, mergulhar o aparo no tinteiro e apertar e largar várias vezes a borracha do reservatório com a ajuda de uma espécie de mola que envolvia a borracha. Demorava algum tempo e depois a parte ao pé do aparo tinha de ser limpa com um mata-borrão. O mata-borrão passava a vida a secar a tinta quando ela estava no papel e demorava a secar. Às vezes até se percebia em espelho a palavra que ele matara.    

 

O menino Daniel, à tmedida que crescia, ia fazendo assinaturas, à procura de uma que parecesse de pessoa crescida e rivalissse com a do pai e se distinguisse facilmente, pela sua virilidade, da da assinatura redonda da mãe. Experimentou inclinadas para a esquerda, que lhe parecia muito original mas não dava jeito nenhum. Verticais, com o D inicial com vários enfeites, como que a tomar balanço, acabando por se fixar numa inclinada para a direita com um D que de tão simplificado que era se tornou implícito. Já tinha uns desassete anos quando ficou satisfeito com a  assinatura. Também arranjou uma rubrica, baseada na assinatura. Um rabisco que não se parece com nada.

 

Acompanhei todo esse progresso, como também acompanhei as fases da sua caligrafia. Era um bocado trapalhão a escrever, demorou tempo a dominar o movimento da mão, muitas vezes não se percebia o que escrevia. De tal modo que uma vez a Professora de Português se recusou a classificar um ponto por não conseguir decifrar a letra. A professora de Ciências também não tinha muita paciência para os gatafunhos do Daniel.

 

Eu bem tentava ajudá-lo, resistindo quando ele me queria levar para onde não devia, mas sou apenas uma caneta. Tinha de me sujeitar.

 

Um dia, já o Daniel tinha uns 16, 17 anos, influenciado por anúncios na televisão, por ver em amigos, porque os pais estavam fartos de comprar tinteiros e mata-borrões, enfim, por um motivo qualquer, apareceu na mão, na casa, na pasta do Daniel, uma outra caneta muito diferente de mim. Enquanto eu era (e ainda sou, porque graça a Deus me tenho poupado, arranjo-me, não me desleixo) bojuda, com curvas, anéis de ouro brilhantes, uma tampa em que a peça que agarra ao bolso terminava em ponta de  seta, uma espécie de promessa, duas cores, sem contar com os dourados, a que o Daniel agora tinha era de cristal, isto é, de plástico transparente, tinha um aparo esquisito, com uma esfera lá dentro que regulava a saída da tinta, e um reservatório pegado ao aparo muito fininho, com uma tinta que demorava a gastar-se. Chamava-se, chama-se, Bic Cristal.

 

Devo dizer que a princípio a achei muito feia, um bocado reles, os riscos que fazia tinham sempre a mesma espessura, a letra ficava toda parecida, sem expressão. Reconheço que era prática. Quando a tinta se aproximava do fim o Daniel tirava o aparo com o tubo e soprava nele para que o bocadinho de tinta que ainda lá estava lhe acabasse o trabalho. Depois comprava recargas. 

 

Além de escrever, a caneta tinha outras utilidades. Por exemplo, com a tampa, com, como eu lhe hei-de chamar, aquela parte da tampa que prende aos bolsos ou bolsinhas, o Daniel escaranfunchava o ouvido a tirar cera lá de dentro. Também o ajudava a limpar as unhas. Enfim, servia de instrumento de limpeza. 

 

Não, não foi amor à primeira vista. Nem ela por mim, nem eu por ela. O que me começou a encantar foi a sua simplicidade e transparência. Uma virilidade franca, sem subterfúgios. Depois descobri-lhe um sentido de humor que só se revelou ao fim de uns tempos, ao fim de muitos encontros às escuras na mala do Daniel, em que ficávamos muito juntas. Disse uma primeira piada, eu ri, disse outra, continuei a rir, e ao fim de uns tempos tembém me armei em engraçada, e ao fim de mais tempos passávamos horas a rir uma com a outra.

 

(E agora? Que volta vou eu dar à redação para isto acabar? Carambitas!) 

 

De início o Daniel tirava-nos da pasta sempre às duas. E escrevia com uma ou com outra conforme. Mas a pouco e pouco começou a esquecer-se de mim, de me encher o depósito, e deixava-me no escuro da mala enquanto a Bic andava ao serviço. A trabalhar. Eu entristecia. E foi nessa tristeza que comecei a apaixonar-me, a criar uma dependência, a só ser feliz quando a Bic voltava para a pasta, ficávamos muito juntinhas, me contava tudo o que se tinha passado, brincava comigo, dizia coisas para eu ficar alegre e conseguia. Uma vez, já eu o desejava há muito, mas não tinha lata, não podia tomar a iniciativa, deu-me um beijo. Juntou o seu aparo ao meu. 

 

O dela não é lá muito macio, pica um bocadinho, mas é saboroso. O meu é mais cheio de tinta, mais molhado. Enfim, completamo-nos. O primeiro beijo não foi grande coisa, com o tempo requintámos. O amor foi crescedo, em mim e nela. Já não importava se uma trabalhava e a outra ficava em casa sem fazer nada. Quando estávamos juntas, que era a maior parte do tempo, éramos tão felizes, sempre aos beijos e às risadas. As pessoas não podem saber o que isso é porque as pessoas são muito instáveis. Estão sempre a mudar. Um dia gostam, outro dia não gostam, ou começam a embirrar, ou ficam cansadas umas das outras, ou dizem desculpa lá, mas hoje não me apetece, ou dizem, caramba, estás a ficar melga, ou dizem tens a mania que tens graça mas não tens graça nenhuma, estás sempre a repetir as mesmas coisas, estás velho, é o que é. Coitadas delas. Nós não.

 

Uns anos deste amor sempre constante, sempre igual, sempre intenso,  e a certa altura reparámos que o Daniel se esquecia da Bic. Ficávamos mais horas juntas. A gente não se importava, porque o que mais gostávamos  era de estar juntas. Só quando ele nos tirou da pasta para nos pôr numa caixa de lata é que percebemos que passara a escrever através de uma máquina complicada com uma parte luminosa onde apareciam as letras com diversas caligrafias.

 

Nós ficávamos na caixa de lata de onde ele nos tirava em momento especiais, quando queria tomar uma nota ou fazer uma assinatura. Eu era mais para a assinatura, a Bic para as notas. Mas a tinta foi rareando, apareceram muitas outras canetas e o Daniel deixou-nos ficar na caixa de lata.

 

Só tenho a dizer bem do Daniel. Teve sempre muito cuidado connosco. Nunca nos partiu, nem deitou fora. Guardou-nos. Deixou-nos estar. Suspeito que ele percebeu o nosso amor. Que uma vez nos apanhou aos beijos, o que não era muito difícil, porque estávamos sempre nisso, nos intervalos dos risos.

 

Vamos levando assim a vida. Eu sei que já estamos velhotes. Eu mais do que ela. Continuo mais vistosa, mais arranjada, com mais curvas, ela com a secura de corpo de sempre, não criou barriga, está igual ao que era. O cristal menos transparente, a carga já não tem tinta, eu também não, nisso os beijos sofreram, já não são húmidos, mas a gente não se importa. Gostamos na mesma. As piadas também são diferentes, a vida está sempre a mudar. Sinto que o corpo dela já não é tão quentinho, o meu também não, mas na caixa havia uma camurça de limpar óculos e agasalhamo-nos com ela.

 

Não nos importamos que se esqueçam de nós ali. Estamos bem. Às vezes temos medo que quando o Daniel morrer os filhos deem connosco, achem que somos uma porcaria que não serve para nada e nos deitem para o caixote do lixo e pronto. Acabou-se.

 

Mas a vida é assim, não é? Tem um princípio, um  meio e um fim. E nem o amor é capaz de mudar isso.

 

Daniel, 85 anos

 

 

 

Miguel Lobo Antunes





domingo, 13 de setembro de 2020

Redacção # 4

 



Fui passar uns dias ao Algarve. Estava esplêndido. Céu sempre azul, calor no ponto, água também. Nadei. Boiei. Só  agora, por via da barriga ter crescido, consigo boiar. Antes, muito magro, se ficasse quieto ia ao fundo.  Há coisas que  se ganham com a idade. Esqueci a peste. Foi bom, portanto.

 

Cheguei há bocado. Pousei a mala, levantei estores, abri janelas e fui direito ao frigorífico branco. Estava de trombas. Amuado. 

 

Que não havia direito. Mal tinha chegado a minha casa e eu pus-me na alheta. Pensou que eu tivesse ido comprar cigarros. Não sabia que eu não fumo. Nunca mais aparecia, nunca mais aparecia, começou a ficar em cuidado.

 

É novinho. Não conhece ainda como são as pessoas, como sou eu. Lembrou-se de uma conversa de operários,  quando o estavam a montar. Um homem só se procura ao fim de três dias! Pôs-se à espera.

 

Passou um, passaram dois, três,  e eu nada. Nem eu, nem ninguém.  Ele numa aflição,  não sabia a quem ligar, não sabia o que fazer, não conseguia disfarçar. 

 

Coitado! Ele a contar e eu cheio de pena, água nos olhos, muito arrependido. Comovido com tanta afeição por mim.

 

De burro amarrado, beicinho, fechou a porta. Eu tentava abrir, e ele nada. Apoiava com uma mão,  puxava com a outra, e não conseguia. Nem com a ajuda do pé (descalço, claro, para não fazer mossas nem riscos).

 

Mudei de tática. Fiz-lhe festas. Disse-lhe doçuras. Expliquei que  não  era para ser assim, mas demoraram a trazê-lo, que gostava muito dele, que por ele tinha deixado um resplandecente  frigorifico encarnado. Não lhe falei das mossas do outro.

 

Vinte minutos. Vinte minutos cheio de fome demorei a convencê-lo. Finalmente abriu a porta. É lindo por dentro. E isso é que importa. Ser-se lindo por dentro.

 

Tirei a embalagem dos tortellini com recheio bolonhesa. Coze em dois minutos. Azeite, um copo de vinho. Estou mesmo quase a acabar. Foi o tempo de escrever esta redação. 

 

Ainda não tentei abrir a porta do congelador. Espero que não me faça outra cena...

 

 

Miguel Lobo Antunes





sábado, 12 de setembro de 2020

Redacção # 3

 





Como é? Disfarço.

 

Por exemplo. Vi um frigorífico lindo, encarnado vivo e brilhante, puxadores das portas iguais as espadas dos anos 50, boas dimensões,  cabia onde está o que vai para a reforma. Metade do preço original. Promoção. Enfim quase metade. Prémio de não sei quê em 2018. Amor ao primeiro relance. Tomei nota das medidas. Fui conferir em casa.

 

Voltei no dia seguinte com uma caneta de ponta de feltro do encarnado igual ao da porta da máquina de lavar a loiça, porque os únicos encarnados da cozinha  não se podiam chatear um com o outro. Foi ideia de uma amiga à distância, a da caneta. Os encarnados eram iguais! Mandei fotografia à minha amiga e ela: Compra!

 

Fui falar com a empregada da loja. Quero aquele! Deixe-me ver se temos em armazém.  Olhe, não temos, é mesmo só aquele. Não tem mal, é aquele que eu quero! Espere, vamos ver se está bom. Ajudei-a a deslocar o frigorifico lindo. Para se ver as laterais. Duas mossas! Uma em baixo, outra em cima! Pois é, tem que se ver os lados. Aí é que costumam estar as mossas. A empregada,  competentíssima.

 

Não comprei o encarnado.Também não comprei daqueles inox com bolsa marsupial de onde sai água e gelo. Comprei um normal, branco, monótono. Fiquei triste e chateado? Fiquei. Mas disfarcei. Amanhã trazem-mo, o branco. Não estou com entusiasmo nenhum.

 

Por exemplo. Aspiro a casa toda obssessivamente,  arrasto móveis com esforço, as almofadas dos sofás não escapam, mais de uma hora naquilo. O corpo cansado. Arrumo o chupa-pó que é um bocado bisarma, aspira com força, até engole canetas, se me distraio. Faço vistoria ao chão, a admirar o resultado,  e encontro migalhas, coisinhas pequenas que não sei como sobreviveram à aspiração.  Fico lixado! Comigo, claro. Furioso! Mas disfarço. Deixo de olhar para a migalha, ou vou buscar a vassoura e a pá. 

 

Por exemplo. Ontem estava a comer a sopa do jantar, depois de ter feito asneira a descongelá-la (não conto porque tenho vergonha) vem um mosquito e ferra-me duas vezes no braço. Apanhei-o e  esmaguei-o convictamente  com a mão. Mas ficaram-.me duas bolhas no braço. Nunca me tinha acontecido. Fiquei a espiar o seu crescimento. Se aquilo me invadia o braço todo, o peito, me afogava? Telefonei para a Saúde 24? Não.  Disfarcei. Fui buscar um metro e media os quarto de milímetro que as bolhas cresciam em cada 10 minutos. Quando deixariam de crescer? Sempre a disfarçar. Não  telefonei aos filhos, a ninguém. Fui disfarçando.  Que não havia de ser nada. E não foi.

 

Por exemplo. Esta merda em LVTJ  não há meio de abrandar. Está tudo na mesma há imenso tempo. Os especialistas não se entendem, não têm nenhuma explicação em que todos concordem. Ora, eu habituei-me aos especialistas. Apareceram imensos, vindos de sítios que não sabia que existiam,  que sabem tudo sobte epidemias (acho que nunca tinham visto nenhuma a sério e ao vivo): médicos,  matemáticos,  epidemiologistas, sociólogos,  sei lá eu! Os políticos diziam, fazemos assim porque os especialistas  dizem que é assim. E há imensos estudos e números (como toda a gente sabe, os números não mentem) que sustentam as decisões. A coisa estava a andar bem, eu todo contente, até fui várias vezes  à  baixa de metro. Mas agora, com o descrédito dos especialistas,  fico aflito. Digo alguma coisa? Não.  Disfarço. Fé nos homens, que eu não posso fazer nada. Faço de conta que vai passar. Para a semana, ou assim. Disfarço. 

 

Por exemplo. Ela ficou de me dizer alguma coisa. Não,  não  combinámos.  Mas convenci-me que me ia mandar uma mensagem. Olá! Estás bom? Então que tal o teu dia? Olha, a mim telefonou-me aquela, estivemos um bom bocado ao telefone, contou- me isto e aquilo e tal. Seria o início de uma conversa que espantava a solidão e me consolava a noite.  Só que não houve conversa nenhuma porque ela se esqueceu, teve imenso que  fazer, quando pôde já era tarde, não quis incomodar. Fiquei triste? Fiquei. Até com um aperto no estômago. Disse-lhe alguma coisa? Não. Não servia para nada. Não fez por mal. Disfarcei. 

 

Por exemplo. Então,  Miguel, estás  bom? E eu, péssimo, com estas preocupações,  estes medos, a ver o tempo a passar,  a vida a passar e nada se resolve, e daqui a pouco nem para fazer a cama de lavado tenho força, sempre a descobrir umas dores, umas articulações que rangem, um fôlego que falta, uma coisa qualquer que prenuncia o fim próximo,  eu, o que faço? Disfarço. 

 

E agora escrevo redacções.

 

Miguel Lobo Antunes






Redacção # 2

 




Quando eu era pequeno, volta e meia a nossa mãe ia a Lisboa. Fazer compras.

Arranjava-se, um vestido mais bonito, ou saia casaco, baton, Chanel n.° 5, um jeito no cabelo, mirava-se ao espelho. Verificava se tinha o cartão do Automóvel Clube Português da Tia Maria João. Dava direito a descontos nalgumas lojas. A Tia Maria João tinha quase a idade da sobrinha e os empregados das lojas não olhavam muito para a fotografia.

Tinha medo que a minha mãe fosse apanhada. Ela, não. 

Era nova. Teria trinta e tal. Baixinha. Muito bonita.

Seguia no elétrico de Benfica para os Restauradores. Devia ir com a irmã ou uma cunhada. Disso já não sei.

Hoje fui à baixa. Meti-me no metro nas Laranjeiras. Estava um bocadinho nervoso. Com miúfa. Foi a primeira vez...

 Levei um casaco cheio de bolsos com duas máscaras, não fosse alguma estragar-se, gel desinfectante,  telemóvel,  carteira dos cartões,  chaves, lenço, notas, se o multibanco não funcionasse. Esta tralha toda não me cabia nos bolsos dos jeans.

Comprei um cartão com umas 8 viagens, não vale a pena o passe, não vou sair muitas vezes. A máscara que a junta de freguesia me deixou na caixa do correio é boa. É fácil pôr os óculos sem embaciarem. Macia. 

O metro tinha pessoas. Mas foi fácil encontrar um lugar sentado sem ninguém à volta. Também saí nos Restauradores. As escadas que davam para a luz. Ainda nervoso com a aventura. Como um menino.

Na rua, a beleza de Lisboa, do Avenida Palace, da entrada no Rossio. Já tinha arrumado a máscara no saco de plástico. Olhava para tudo.  As lojas abertas, as lojas fechadas, as esplanadas com pouca gente. Atravessava as ruas fora da passadeira, o trânsito era pouco.

Fui direito à loja dos tecidos que só descobri aqui no FB. Para mim continuava a ser a loja do Diário de Notícias. Pausa para tirar a máscara do saco de plástico do bolso e colocá-la. 

Estava gente. Mulheres. Um rapaz e eu. Tudo mascarado. Uma rapariga linda. Elegante, esbelta. Como seriam a boca, o nariz? Olhei muito para ela, quando ela não podia reparar, agradecido pela sua beleza. Cruzámo-nos várias vezes. Apetecia-me dizer-lhe que bonita que é. Mas não disse.

Encontrei o que queria. Bicha para pagar. Distanciados. Saí para a Rua Áurea. Tira máscara,  arruma máscara. Desinfeta mãos.  Da próxima  levo mochila. Estava calor, casaco no braço.  Já não estava nervoso. Já não tinha medo. Era a vida, tímida. 

À procura da Pollux. Acertei na rua. Da Victoria, da Rádio Victória. 

Manhã linda, já disse, pouca gente, também já disse, sem pressa, a gozar tudo. A reparar em tudo. A respirar um ar que só quando eu era novo devia estar tão lavado.

A Pollux fecha às  2as. Duas senhoras baixinhas, da minha idade, também deram com o nariz na porta, já de máscaras.  Paciência,  dissemos os três,  a sorrir por baixo das máscaras. 

Plástico,  loja, baixa, Lisboa, escrevi no Google. Havia uma na Rua de São Nicolau. Não sei os nomes daquelas ruas, não sei situá-las. Sabia que era uma transversal a caminho do Terreiro do Paço. Com calma. Tão bom não haver trânsito, não esbarrarmos com pessoas. Vemo-las. Podia reparar em cada uma. E reparava. 

Encontrei a loja. O senhor que me atendeu estava  mal disposto, brusco. Percebi,  cheio de dores nas costas. Hérnia? Não, é uma dor lombar. Pela porta da dor amoleceu. Éramos  só os dois. Está a  tomar um relaxante muscular? Não, fui ao hospital, estou medicado, um remédio para as dores. Comprei o que quis, paguei por multibanco,  gel da casa. Já  simpatizávamos. Então,  muito obrigado, e as melhoras, isso deve ser grande incómodo. Ah, um bocado, sim. Muito obrigado nós. Uma boa semana para o senhor. Há  uma fraternidade entre  as pessoas. Como somos poucos, deve ser por isso.

Tinha tempo. Agora almoço tarde e o almoço era resto do lombo de porco. Estava feito. Fui ao Terreiro do Paço. Entrei pelo lado da Rua da Alfândega. 

Que bem que se estava ali. Passeei um bocadinho,  poucos, muito poucos turistas, Rua Augusta acima. Quando passava por esplanadas uns empregados faziam o seu melhor para me convencerem a sentar-me ali. Se pudesse, sentava-me em todas. Não tinha fome, mas eles, coitados, calculo a aflição. 

A caminho do metro espreitei a Igreja de  São Nicolau. Havia missa. Estava sem máscara,  já esquecido do vírus. Desculpe! Pus máscara. Espreitei outra vez. Saí,  tirei máscara mas fiquei com ela na mão. O metro é mesmo ali. Pus máscara. No metro estive a ler as notícias. 

Cheguei a casa, libertei-me das compras. Lavei as mãos,  tirei a máscara,  lavei-a num alguidar pequeno com sabão  azul. Deixei-a de molho. Depois do almoço  passei-a por água e está ali a secar. Amanhã  volto à baixa. Ainda não decidi que  máscara levo. Mas mochila vai de certeza.

 

Miguel Lobo Antunes







 


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Redacção # 1

 



Com ajudas,  já tive ocasiões em que a vida ficou parecida ao que eu estava habituado. Almoçar ou jantar em restaurante com vista para o mar, ou sem vista nenhuma e boa comidinha,  passar uns dias no Algarve e mergulhar  em água quente no meio de enorme ventania, dar escolhidos abraços, conversar a um metro de distância, embevecer-me com os netos e cozinhar para eles, doce incluído (amanhã faço bolo de laranja, a pedido) ...

 

Também já fui ao Continente, como sempre fiz, desde que foi aberto como Carrefour. Com máscara, sim, mas fora isso era tudo quase igual. Não assisti a discussões entre casais, essa faltou-me. Não precisamos disso. Mas está em promoção e mais dia menos dia precisamos. Levamos. Não levamos nada. Onde é que te meteste? Estou farto de andar à  tua procura! Sempre que venho contigo demoro o dobro do tempo e gastamos o dobro do dinheiro! Inferno de vida! Olha o menino! Ainda o perdes!

 

Essa parte fez um bocadinho de falta.

 

A máscara embacia-me os óculos,  é verdade, mas é giro. Parece que estou sempre numa sala de operações.  Pairo num sonho. Ou num filme de ficção científica. Além disso, há muita gente que fica mais bonita de cara. Sem falar nos modelos, nas cores, e tal. Não tarda, habituamo-nos e não queremos outra coisa. Umas máscaras perfumadas e macias e todas estilosas.

 

 É certo que gastei mais do que devia. Tenho um  exagero de latas de leite condensado (como às colheres), e alambazei-me no whiskey (podia ser mais barato). Chocolate, também não precisava de tanto. Enganei-me no pacote de açúcar. Este é de "sticks". Vou ter imenso trabalho a encher o frasco. 

 

Nesses momentos maravilhosos esqueço-me do gajo. Julgo que deve ser parecido com as saídas precárias dos presos. Vou ali experimentar como é não estar preso. A ver se ainda me lembro. 

 

Não pode é ser por muito tempo. Tenho de voltar para a prisão. Quer dizer, para casa. Fiz uma máquina de roupa. Tenho coisas para passar. Passo tudo o que apanho, mesmo o que não era preciso passar. Boxers, por exemplo.

 

Volto para a prisão e por um tempo, se me distraio, vem-me um desejo imenso que a pena acabe ou que o juiz me conceda a liberdade condicional.

 

Hoje disseram-me que no metro há pouca gente. Não ando de metro há meses. Estou a pensar para a semana ir à baixa.

 

 

Miguel Lobo Antunes