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terça-feira, 2 de março de 2021

Portalegre, as tapeçarias.



O dia 9 de Março de 2013 foi um Sábado, e como era normal comigo em Argel, levantava-me um pouco mais tarde  e escrevia. Guardei assim desse período “argelino” da minha vida uma quantidade de escritos que agora mostram o que fui e senti nesse tempo.

Nesse dia escrevi:

“…Os jornais portugueses acompanham-me durante mais tempo que em Portugal. Antes de os deitar fora leio e releio procuro coisas que me toquem.

No Expresso de há uma semana, 2 de Março, vinha um artigo sobre as Tapeçarias de Portalegre.

Esta arte foi talvez menos mitificada em Portugal que outras. Naquela fúria de complexo de inferioridade português que “aí somos os melhores do mundo”. Assim éramos o primeiro produtor mundial de cortiça, os doces de ovos eram únicos, as nossas praias inigualáveis, etc.etc..

Eu em novo ainda fui nessa cantiga, mas depressa percebi que, por exemplo, a Espanha que eu tinha sido ensinado a ver como inimigo e como canto ignorado, era um país soberbo, com um flamenco que me leva às lágrimas, com uma cidade – Barcelona – que não conheço outra igual, com uma alegria e um fogo de pasmar, com Plazas Mayores cheias de gente ao fim da tarde…

Há medida que ia ficando mais velho percebi que o que era mesmo bom era a diferença. Deixei de perceber aquela gente que diz que gosta da Primavera, ou do Outono. Eu gosto é do rolar das estações. Gosto da chuva e dias cinzentos pela força e nostalgia. Gosto dos dias cheios de sol pela vida que nos trazem. Gosto do nevoeiro pelo mistério. Gosto da tempestade pelo que me assusta.

Gosto da terra por que é firme. E do mar porque se move e é líquido. Gosto do meu País, porque é meu e nele fui formado. Mas gosto da França porque é bela. E da Inglaterra porque é confortável e teatral. E da Itália porque de lá vimos. E de tantos outros pelas razões que cada um tem.

Gosto de me encantar e que me embalem os sonhos com novos sonhos.

Tudo isto para voltar ao Expresso e às Tapeçarias de Portalegre.

A jornalista que escreveu o artigo teve a sensibilidade e o bom senso de transcrever “ipsis verbis” as opiniões da responsável pela Manufactura, Fernanda Fortunato, que entrou na casa em 1957, a Escola Industrial feita, para o desenho de preparação das tapeçarias:

“…Encontrei lá colegas antigas da Escola Industrial, mais velhas que eu e uma do meu tempo. Diz-me ela: “Estou a ampliar é assim e assado” (…)  não percebia nada mas ia dizendo que sim com a cabeça.   Não houve aprendizagem nenhuma, nem preparação nenhuma. Mas lá fiquei a trabalhar sozinha no turno da noite, das 19 h à meia-noite. Estava projectado na parede um desenho do Almada, uma tapeçaria que está no Forte de Santa Luzia em Viana do Castelo, “A passagem do Rio Lethes”. Com toda a atenção ia desviando o original e desenhando quadrado a quadrado. Consegui que aquilo batesse certo, pensei. Passada a fase de correcção, porém, comecei a olhar e apercebi-me que não tinha dado ao desenho a alma necessária – na altura não lhe chamei isso – percebi que alguma coisa faltava na forma que eu lhe tinha dado. Foi então que comecei a desenhar como deve ser. (…) Dei-me conta tão tarde que me tinha apaixonada pelas tapeçarias que nem sequer sei quando foi. Terá sido pouco a pouco? Terá sido repentinamente? Não sei. Talvez tenha sido fruto de uma descoberta de um outro mundo, de uma sensibilidade que não conhecia e sobretudo da relação com os artistas. (…) Isso mexeu muito comigo. Aquele mundo que parece irreal,  aquelas sensibilidades todas que se calhar têm a ver comigo e que não estavam exploradas… Uma pessoa não se pode esquecer de onde vem e eu tenho isso muito presente. (…) O Almada e a mulher do Almada, casal exemplar, a sabedoria daquele homem, a capacidade de criar. A Maria Keil, uma senhora deliciosa, bonita, pequena, a caminhar na nossa sala de desenho tinha uma ondulação… O arquitecto Raul Lino, que veio cá com a esposa dele, já com 90 anos, que maravilha de casal… Eu fiz uma aprendizagem com essa gente toda e eles deixaram-me muito na passagem por aqui. O Renato Torres que tinha sido meu professor na Escola Industrial e que vim a encontrar aqui, tinha afinal razão. Todo aquele sofrimento de que ele falava nas aulas e que eu nunca percebi enquanto aluna, o sofrimento de quem cria, só o entendi a conviver com artistas. Uma pessoa não percebe essa dor enquanto não lida com eles. É por isso que é tão importante conhecê-los. Quando depois estamos a mexer nas coisas deles, intuitivamente somos capazes de perceber porque pintaram assim.(…) É preciso viver com os terrores da Paula Rego, como é que uma pessoa lhe pode chamar, é preciso conviver comos universos complexos de Armando Alves, de Júlio Resende, de Vieira da Silva e de Arpad, com o impacto da cor de José de Guimarães, com humor de Júlio Pomar, com a generosidade de Camarinha…Tenho medo de me esquecer de alguém… Mas nada disto se explica sem ser vivenciado, partilhado. (…) Eduardo Nery, Rigo (…) são pessoas extraordinárias, também. Mas agora olho para eles e sinto-os muito meninos. Está lá tudo, mas é de outra forma. Eles também são outros. Há uma forma de estar diferente. Por isso pintam de uma maneira diferente. As desilusões parece que não são tão fortes. Há outras esperanças… A Joana Vasconcelos, por exemplo, é muito engraçada porque tem uma exuberância que me fala de alegria, não me fala de sofrimento. Ela é cor, e a tapeçaria também. A tapeçaria é tudo o que eles quiserem. ”

Tudo isto é prodigioso e não há comentários possíveis…”

Eis senão quando, por afazeres profissionais de necessidade de restauro de um grande tapeçaria, me dirigi à Manufactura de Tapeçarias e tive o gosto de ter visita guiada pela mesma Senhora Dona Fernanda Fortunato que, mostrando-me, com simplicidade, o extraordinário acervo de milhares de cartões assinados por uma plêiade de artistas, o cuidado na guarda de novelos com dezenas de anos para eventuais restauros em cores originais, na explicação de que a lã utilizada é, pela necessidade de grande qualidade, não só da matéria prima como da tosquia, a proveniente de ovinos australianos e  só da zona da cabeça e, finalmente no trabalho artesanal que se desenvolve na transcrição dos cartões e na feitura de tapeçaria a que assisti, confesso que com comoção, ao entrelaçar manualmente fio a fio numa teia que se estendia num tear manual ao longo de metros e me era explicado a diferença entre Portalegre e Gobelins.

Depois, numa voz simultâneamente simples, triste e resignada, a Senhora Dona Fernanda Fortunato contou-me o fim anunciado da Manufactura, sem muito dinheiro para pagar a pessoal, sem qualquer acordo com um qualquer Ministério para formar pessoal na arte, sem encomendas do Estado que seria a ajuda que se pediria.

E já de saída, no pequeno museu, entre cartas de Régio e Almada, pasmei perante a beleza de Sintra plasmada em tapeçaria à espera de comprador.

 

 

Portalegre, Abrigada, 18 de Fevereiro de 2021

 

Miguel Geraldes Cardoso






sábado, 28 de setembro de 2019

é só ir seguindo os links...

 

 


 
O meu amigo Miguel Geraldes Cardoso, que muito aprecio e que até já contribuiu para o Malomil, em resposta aos meus posts (de pescada...) sobre alterações climáticas e sobre a crise do bife em Coimbra, tem-me enviado muitos artigos de análise dessas questões. Análise feita por uma organização chamada Human Progress.
 
        Human Progress é um projecto do Cato Institute, e o Cato Institute é um instituto libertário (de direita) financiado pelos irmãos Koch, os principais sponsors do negacionismo das alterações climáticas (aqui). O Cato Institute foi, aliás, fundado em 1974 como Charles Koch Foundation, só assumindo o nome actual em 1976. Charles Koch é a 11ª pessoa mais rica do mundo, dono e presidente das Koch Industries, que têm, entre muita coisa, empresas de fertilizantes, de pipelines de petróleo, de químicos, de refinarias e até um rancho em Montana com mais de 15.000 cabeças de gado. São os donos da Lycra, entre muita outra coisa. Se comprar coisas de Lycra, saiba: Koch Industries. E Charles Koch, ao que parece, está agora a aproximar-se de Donald Trump (aqui).

 
         É claro que o Cato Institute poderia ser independente de tudo isto e ideologicamente neutro, mas não é. Se formos à página do Cato Institute encontramos artigos contra as propostas dos Democratas a área da saúde, a favor da política de Trump no sentido de reduzir a intervenção federal em matéria de poluição das águas, porque é que a América não pode subscrever um Green New Deal, etc, etc. Curiosamente, só encontramos artigos a favor de um lado, apenas de um. Veja-se este conjunto de artigos sobre aquecimento global do Cato Institute. O Human Project tem artigos a dizer que os ambientalistas são inimigos do crescimento e, pasme-se, que são mais deprimidos do que os outros mortais…

 
O Cato Institute é também financiado pela John Templeton Foundation, que apoia projectos que, digamos, estão muito para lá da pseudociência.  Character Virtue Development, Intellectual Humility, Future-Mindedness, Immortality… (aqui, tudo). O Human Project é também financiado pela Brinson Foundation e pelo Searle Freedom Trust.


Criticou-se a decisão do Reitor de Coimbra por ser «simbólica» e não ter «fundamento científico». Afirmou-se que ela provinha do «pensamento mágico», não do «pensamento científico». Não sei o que se dirá dos projectos da John Templeton Foundation, mas enfim…
Como aqui tenho dito, é sempre de evitar «informação» vinda de sites ou fontes não oficiais nem autorizadas. Aconselho, vezes sem conta, a que se leiam fontes oficiais.

 
Por exemplo, a Direcção-Geral de Saúde portuguesa, que na sua Nota  sobre Alimentação e Cancro aconselha moderação no consumo de carnes vermelhas. Ou da FAO – convém mostrar que a FAO não é uma organização que condene cegamente a carne, apenas alerta para o seu consumo, que irá duplicar até 2050. Há quem ainda conteste o seu relatório de 2006, mas o certo é que ele permanece, a FAO não o corrigiu, como não corrigiu isto.
 

 
Podemos não acreditar na «ciência» divulgada pela Organização das Nações Unidas, uma entidade que agrega dezenas de países e recebe o influxo de centenas de cientistas de todo o mundo. Podemos não acreditar na ONU, mas… entre a ONU e o Cato Institute, qual parece mais isento ou credível? Já agora, que tal olhar para a NASA, ou é uma organização pouco científica?

 
Cada um pode consumir o que quiser, carne de vaca ou de cão. E o mesmo se aplica à informação que se ingere e divulga. Ainda assim, convém ler o rótulo do que comemos…







 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A Igreja de São Cristóvão que me tocou.


 
 
 
Escondida num larguinho por cima do Largo do Caldas e da Rua da Madalena, com acesso também através das Escadinhas de São Cristóvão (assim mesmo, em diminutivo, na toponímia), passa escondida a quem não saiba e não procure a Igreja de São Cristóvão.  Situa-se no Largo do mesmo nome, que quase não o sendo, tem um encanto que quem dera a muitos. Volumes diferentes, acessos estranhos, edifícios que têm como que falta de perspectiva pela estreiteza do lugar, tudo dá ao conjunto um carácter que classificaria de único. Mais que em qualquer outro lugar de Lisboa, poderíamos estar em Roma ou em Marraquexe que não nos sentiríamos desencontrados, o que é talvez um bom elogio a nós.
Entrado na Igreja há qualquer coisa de mágico nela.
Passado o guarda-vento, moderados os ruídos da rua, num claro-escuro que mais acentua a idade de tudo, mergulhamos com um misto de espanto e comoção num Portugal que já era. Sentimos o tempo passado, a idade e ideias de coisas que foram. Não nos leva à infância, leva-nos muito atrás dela. Não posso explicar muito bem o que se sente mas há uma saudade que nos penetra ao mesmo tempo que sabemos ali ser como estranhos, que não existimos, ou que já não existimos.
O sentimento é fortíssimo e senti-o partilhado no livro das visitas. Com comentários em muitas e desvairadas línguas, seja em caracteres chineses, seja nas palavras primeiras de um Padre-Nosso em castelhano, seja num sentido “…não é preciso ter crença para encontrar a paz neste lugar…”
 
Miguel Geraldes Cardoso
 
 

domingo, 12 de março de 2017

Um pirata na Argélia.







Argel, 26 de Julho de 2016
 
De José Manuel Fernandes, No Observador (Macroscópio) de hoje
Uma redacção de uma revista satírica. Um clube nocturno. Um aeroporto. Uma avenida cheia de gente. Uma festa de Verão. E agora uma igreja. Nestas terríveis semanas que estamos a viver acordamos a perguntar “Onde vai ser hoje?”, adormecemos sem saber em que lugar aquela noite se pode transformar num pesadelo. E o pior é que, para além dos que propõem leituras simples que quase sempre são erradas, não sabemos o que pensar. E o pior é que temos a percepção de que as autoridades, os nossos eleitos, os nossos políticos, não sabem o que fazer e ainda menos o que dizer, pois quase só proferem inanidades que nada adiantam…”
 
No fim do século XIX, princípio do XX, com inspiração lateral de movimentos vários – socialista, marxistas, anarquistas, carbonários, maçons, saladas ideológicas diversas – ganhou força uma corrente que se designou por nihilista (ou niilista para quem gosta de acordos ortográficos). Esta corrente que foi teorizada por filósofos e pensadores distintos, em termos brutos condena a ordem existente, não procurando directamente substituí-la por nenhuma outra. Daí no fundo o seu significado etimológico buscado na palavra latina nihil, que significa "nada”.
Se nos lembramos um pouco, com base neste conceito – destruição da ordem existente – nesses tempos representada pelo poder instituído – Casas Reinantes, Presidentes – deram-se em relativamente poucos anos uma série de assassinatos célebres: Alexandre II da Rússia em 1881, Presidente Francês Sadi Carnot em 1894, Stefan Stabolov, 1º ministro búlgaro em 1895, Antonio Canovas del Castillo, 1º ministro espanhol em 1897, a Imperatriz da Áustria (Sissi) em 1898, Umberto I, Rei de Italia em 1900, Alexandre I da Sérvia e a Rainha Draga, sua mulher, em 1903, Rei D. Carlos I de Portugal e o Príncipe Herdeiro, Luís-Filipe, em 1908, Primeiro-Ministro Russo, Piotr Stolipyn, em 1911, Rei Jorge I da Grécia em 1913, Arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria-Hungria e sua mulher em 1914, Jean Jaurès, socialista francês no mesmo ano. Para citar os mais conhecidos.
Todos estes assassinatos foram perpetrados, em grande medida, por grupos autónomos, ou lobos solitários, sem ligação nenhuma entre eles, com excepção desta ideia de luta contra uma ordem existente.
No fim triunfaram os assassinos? Pode-se dizer que em parte sim.




 A sucessão de perturbações, de que estes assassinatos foram a espoleta ou aberração, conduziu como consequência principal à 1ª guerra mundial, à mudança de regimes (Portugal é um exemplo), ao fim de Impérios, à proliferação de novos Países sobre ruína de outros.
Poder-se-ia continuar com outos exemplos mas o paralelo histórico que queria estabelecer e acho significativo, está feito.
O problema a que estamos a assistir é muito semelhante: não há ligação física, sequer de conhecimento, entre os autores dos vários atentados. Há uma constante ideológica: fazer mal à maneira de estar ocidental. E todos os lobos solitários ou células mais ou menos organizadas são como microorganismos cancerígenos que despertam e atacam. Estão dentro de nós adormecidos e um dia acordam.
O remédio é semelhante ao do cancro: prevenção, verificação do que o pode despoletar (amianto, tabaco…) e uma vez descoberto erradicação imediata por todos os meios.





Sem me querer alongar muito vou falar da prevenção.
O meu Senhorio aqui na Argélia, muçulmano, um velhote espevitado que tem oitenta anos que parecem sessenta, viajado, com filhos empresários em França, bem relacionado, toda a vida tendo trabalhado para a Shell e ganho muito dinheiro com isso, fala muito comigo. Representa uma síntese conseguida dos dois mundos, muçulmano e ocidental.
E é inevitável que todos estes acontecimentos sejam motivo de conversa. E ouço as suas opiniões sem as comentar.
Hoje, como de costume, veio ter comigo, sentou-se dez minutos na sala de reuniões e mostrou-me o que eu já desconfiava.
Vou contá-lo por minhas palavras e pelo que senti à medida que ele falava.
Imaginem países que pela sua própria ordem natural, leis, costumes, entendem que, mais importante que as leis dos homens, são as leis Divinas plasmadas num livrinho que é tido como sagrado (permitindo embora interpretação humana disfarçada sobre a forma de mandamento religioso – a fatwa). O enquadramento social, a maneira de pensar de se comportar são assim vistos como produto de um ensinamento que está para lá deste Mundo, sendo assim superior a este. Para garantir que assim é a mesquita, a madrassa, garantem a correcção ideológica e o apoio social. O policiamento ideológico, social, sociológico é intrínseco a todo este processo.
Depois a relação familiar é entendida como dominante a qualquer outra. As lealdades familiares são fortíssimas. A vida é feita em conjunto, numa promiscuidade estranha com uma separação de sexos activa.
Percebem a mente fechada que isto proporciona?




Agora, exterior a todo este mundo, temos o Ocidente iconoclasta, libertador, cultivando galanterias, costumes individualistas, hedonismo e erotismo. Que não é só de agora. Em diferentes épocas, existiu de forma diferente. Ocidente que cria em contínuo, impulsionando sempre mais e mais, o saber.
A somar a esta diferença uma persistente (e inevitável) pobreza do geral dos muçulmanos
Peguemos então num miúdo oriundo mentalmente desta cultura que não permite a evolução, mas que cresce em sociedades ocidentais, necessáriamente desintegrado em relação aos “brancos” que têm o espírito aberto.
Lembrem-se daquele vosso colega do Liceu, filho de pobre Pais operários, mal vestido, olhando com ar meio estupidificado o resto da turma e afastado do convívio dos outros. Eu tenho uma ideia do que estava comigo no 7º ano, de que nem sei o nome, e que, quando todos nós escolhíamos engenharia, medicina, ele queria ir para meteorologista.
Agora, em vez do meteorologista, ponha o filho de pais islâmicos que lhe ensinam, sem sombra de dúvida, que o mundo se divide entre muçulmanos e infiéis, que estes merecem a morte como está, indiscutívelmente, escrito no Corão (bem como o seu contrário… depende do que se lê…).
Aos 19 anos, se tiver mau fundo, a carga de ódio que arrasta em si é enorme. Se essa carga de ódio for santificada concebem a maldade que daí pode advir?
O meu Senhorio muçulmano classificava-os: “Sont des voyous monsieur!
E a seguir disse-me: O que eu vi ontem, a Michelle Obama a discursar na campanha de Hillary Clinton, seria impensável na Argélia ou em qualquer País muçulmano. Alguém aqui ser capaz de pensar acima dos seus próprios interesses e ser capaz de falar pela sociedade
Ou seja: a própria agregação é quase impossível, o que apenas faz os “terroristas” mais perigosos, porque não existe organização que se possa atacar.
E depois saiu-se com esta extraordinária: “os árabes precisam sempre de alguém como o Sadam Hussein, por quem tenho imensa admiração, que saiba mantê-los, pelo medo, pela prebenda, na ordem.”
E com isto se foi.
E eu fiquei a pensar. Já tinha tido aquela noção difusa, quando as televisões apresentaram o espectáculo pornográfico do enforcamento do ditador do Iraque, que mais que um acto de justiça, ou mesmo um crime, tudo aquilo era um erro.
Os EUA profundamente feridos, com razão, no ataque às Torres Gémeas inventaram uma guerra de vingança. O filho Bush, a milhas de Bush Pai que com ponderação respondeu à invasão do Kuweit, fez uma cena de cow-boy e atirou uma pedra para o meio de um vespeiro.
Ou seja: não aprendeu com os nihilistas! E respondeu como eles queriam que respondesse.


Peço desculpa pela extensão do que escrevo. Mas precisava de o fazer para chegar à conclusão da prevenção que advogo: só por dentro temos possibilidade de vencer a Djihad. Temos que encontrar maneiras de abrir as cabeças num trabalho de paciência. Nos Países deles, e não nos nossos, criar auxílio e escola. Evangelizá-los mesmo. Por absurdo obrigar a que, em paridade, a cada mesquita que se abra na Europa um mosteiro se instale nas várias Arábias. De forma a que os pobres, que são muitos, encontrem abrigo e amparo noutro pensar. Lutar para que nos Países muçulmanos seja levantada a proibição de “proselitismo”. Apoiar com eficácia os Cristãos do Oriente, os Coptas. Criar a sensação que o Cristianismo é uma escada no progresso.
E nós temos de deitar para o caixote do lixo da História todas as ideias de culpabilização na desgraça dos Países Pobres. Não é por culpa dos “brancos” que eles são pobres. É por sua própria e exclusiva culpa, mesmo que essa culpa seja ignorância.
 
Miguel Geraldes Cardoso