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sábado, 10 de abril de 2021

Para inglês ver.

 





Agora é o Quarteirão Inglês, à Estrela. Esteve lá o British Hospital, nas traseiras é o Cemitério Inglês, houve em tempos uma histórica companhia teatral. Zona consolidada, aprazível. E, por isso, cobiçada. Para quê? Para lá plantarem um mono, um paquiderme amansardado com um impacto visual brutal. E, claro, varandas iguais às que agora se fazem em todos, mas todos, os condomínios. Passem na Rua de O Século, no Largo das Olarias, tudo descaracterizado, uniformizado por uma arquitectura Lego de plástico, sem pinga de rasgo ou criatividade, animada pelo exclusivo propósito de aumentar volumetrias e, com elas, os lucros dos promotores. Com a cumplicidade passiva de uma CML incompetente e inculta, economicista e bárbara, Lisboa anda há décadas a ser esventrada. Vejam o rico estado da Fontes Pereira de Melo, da Avenida da República, convertidas em artérias ao melhor estilo Bogotá. E vejam, agora, a invasão rápida, inexorável, dos bairros antigos, mordidos aqui, mordidos acolá, com o passar do tempo convertidos numa coisa que não se sabe o que é, uma Albufeira trendy, com condomínios fechados – fechados ao bom senso e ao bom gosto, ao pulsar das gentes, aos ritmos que tornaram esta Lisboa uma cidade apetecível para viver ao olhar dos estrangeiros (os quais, na sua sofreguidão, acabarão por sugar o sangue e o coração da cidade, com a Câmara a olhar, sedenta e gulosa, criminosa, na mira das mais-valias).

 


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O futuro da edição.

 




O Duarte Vaz Pinto, sempre atento e amigo (obrigado!), mandou-me um interessante texto sobre o futuro da edição. Aqui vai, para ler e meditar:

 

https://www.idealog.com/blog/the-end-of-the-general-trade-publishing-concept/

 

 

 






quarta-feira, 18 de abril de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 49

 



49.
 
No leilão realizado hoje, na Christie’s de Nova Iorque, onde foram à praça 151 peças de arte japonesa e coreana. um exemplar de A Grande Onda, em excelente estado de conservação, alcançou a quantia de 540.500 dólares norte-americanos, sendo a base de licitação de 150.00 a 200.000 dólares (aqui).
 
Informação prestada por Rubem Amaral Jr., a quem se agradece muito calorosamente.
 

Exemplar leiloado na Christie's, Nova Iorque, 18 de Abril de 2018 (Lote 39)

 
 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 47

 




         47.
 
         Como tem sido observado por alguns comentadores de A Grande Onda, a xilogravura de Katsushika Hokusai – e aqui residiu um dos seus principais atractivos no Ocidente de finais do século XIX, que de algum modo se prolonga até aos nossos dias – captura a acção de um dos poderes elementares da Natureza, o mar em fúria, razão pela qual teve um impacto profundo sobre a imaginação romântica oitocentista e o seu culto do sublime.
 
         Por outro lado, a sua proveniência de um lugar remoto e exótico, impregnado de uma cultura em larga medida idealizada, pode levar-nos a concluir que o japonisme, de um modo geral, e o fascínio pela Grande Onda, em particular, confirmam a afirmação de Said segundo a qual «o Oriente é menos importante como material humano do que como elemento de um projecto redentor romântico» (cf. Edward W. Said, Orientalismo. Representações ocidentais do Oriente, tradução portuguesa, Lisboa, Livros Cotovia, 2004, p. 180).
 
         A pertinência desta observação, quando aplicada à obra de Katsushika Hokusai, torna-se mais evidente se tivermos presente que, ao contrário do que poderia sustentar uma visão romantizada dessa obra, as xilogravuras do ukiyo-e visavam satisfazer desejos de consumo populares e, digamos assim, «de massas». A Grande Onda, bem como todas as gravuras da série Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, entre os milhares que se produziram em Edo na altura, serviam, de certo modo, como os pósteres da actualidade, sendo ademais desvalorizadas pelas elites japonesas da altura como expressão de um gosto marcadamente popular e pouco sofisticado.
 
         Em face disto, não deixa de ser irónico que, com o passar dos anos, e muito por efeito da sua recepção e difusão no Ocidente, A Grande Onda tenha adquirido um estatuto de símbolo nacional nipónico ou seja vista como expressão da quintessência da identidade japonesa no que esta tem de mais elaborado ou complexo.
 
         A constatação desta ironia aprofunda-se se pensarmos que este processo não se cinge à Europa ou à América, tendo sido incorporado – pelas mais diversas razões, incluindo turísticas ou comerciais – no Japão, que só recentemente começou a valorizar o trabalho de Hokusai e em especial A Grande Onda, o que talvez seja, ao cabo e ao resto, um reflexo, mais um reflexo, da ocidentalização do país iniciada no pós-2ª Guerra Mundial.
 
         O conhecimento das condições materiais de criação, produção e comercialização de A Grande Onda não implica necessariamente retirar-lhe o seu carácter «aurático» (Walter Benjamin), que é autónomo e se desenvolve independentemente daquele específico circunstancialismo histórico.  
 
         Além disso, se em A Grande Onda podemos ver tão-só a representação de uma actividade laboral corrente – a pesca e o transporte de peixe para o mercado de Tóquio –, retratada para mais ao gosto popular e numa linguagem visual «fácil», não é menos certo que nesta e noutras obras de Hokusai a marca da sua espiritualidade é muito vincada, designadamente na figuração do Monte Fuji. Simplesmente, esses dois aspectos – o comercial e o espiritual – não são, e sobretudo não eram no Japão daquela época, antagónicos ou contraditórios, sobretudo se tivermos presente que a espiritualidade do autor (e do editor, Nishimuraya Yohachi) era uma religiosidade «popular» e compósita, que agregava diversos elementos (v.g., o culto da Estrela do Norte) que de modo algum se excluíam entre si, como observa Angus Lockyer no ensaio «Hokusai’s thought», in Timothy Clark (ed.), Hokusai. Beyond the Great Wave, Thames & Hudson-The British Museum, 2017, pp. 28ss.
 
          
 
 

domingo, 25 de março de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 34

 



34.
 
Uma noção aproximada do valor comercial actual de A Grande Onda pode ser obtida se tivermos presente que, muito recentemente, uma litografia  contemporânea foi leiloada por 475 dólares norte-americanos: https://www.invaluable.com/auction-lot/the-great-wave-after-hokusai-5174B3E835
 
 
 

Informação prestada por Rubem Amaral Jr., a quem se agradece.
 

 
 

domingo, 11 de março de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 23

 

 
 
 
 
22.
 
A imagem de A Grande Onda tem sido utilizada em diversos anúncios publicitários, emblemas ou logótipos de marcas e empresas.
 
Entre as mais conhecidas, a marca Quiksilver, fundada em finais dos anos 1960 em Torquay, na Austrália, localidade situada a cerca de uma hora de automóvel de Melbourne.
 
Foi lá que nasceram duas das principais marcas de artigos de surf, a Rip Curl e a Quiksilver. Um artigo publicado na revista francesa L’Express refere que, em 1969, dois jovens praticantes de surf de Torquay, Brian Singer  e Doug Warbrick, instalaram uma pequena fábrica de pranchas de surf numa antiga padaria, criando a Rip Curl. Era comum encontrarem-se com outro praticante de surf daquela localidade, Alan Green, que trabalhava numa loja especializada em artigos de mergulho submarino e que, segundo a história oficial da empresa, produzia boardshorts na garagem de sua casa, conjuntamente com John Law. Green sugeriu a Singer e Warbrick criarem uma linha de fatos especialmente adaptados para a prática do surf. Inspirados por «uma gravura japonesa representando o Monte Fuji submerso por uma onda», nas palavras da L’Express e da página oficial da empresa na Internet, criaram um logótipo ainda hoje utilizado e conhecido em todo o mundo. Na Wikipedia afirma-se, mais especificamente, que o logótipo da marca Quiksilver se baseou na xilogravura de Katushika Hokusai (sobre a origem da designação «Quiksilver», ver aqui). As semelhanças iconográficas são demasiado evidentes para suscitar qualquer dúvida.

 
 

 
 
 
Em 1973, os três sócios decidiram separar-se, ficando Brian Singer e Doug Warbrick à frente dos destinos da Rip Curl e Allan Green da Quiksilver. Esta última é actualmente líder incontestada de roupa desportiva para surf, representando os têxtis 80% das vendas. E Torquay e as praias adjacentes fazem parte actualmente da chamada «Surf Coast», tendo a cidade o maior museu de surf do mundo. Dos cerca de 6000 habitantes de Torquay, 900 trabalham directa ou indirectamente para a Rip Curl ou para a Quiksilver (esta última tem actualmente a sua sede em Huntington Beach, na Califórnia).
 
     
 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 10

  
 




 

10.
 
A 25 de Abril de 2017, a Christie’s promoveu no Rockfeller Center, em Nova Iorque, o leilão An Inquiring Mind: American Collecting of Japanese & Korean Art, no qual foram à praça diversas obras de Katsushika Hokusai.
 
Entre elas, dois exemplares de A Grande Onda, que foram vendidos a preços muitos distintos em virtude da diferente qualidade de conservação e impressão. Para um valor estimado entre 80 e 100.000 dólares norte-americanos, a xilogravura correspondente ao lote 21 foi vendida por 943.500 dólares.
 

Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 21)

 

 

Com a dimensão 25.3 x 37 cm (idêntica à do exemplar do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque), trata-se de um exemplar de grande qualidade; pese uma ligeira mancha (assinalada por um círculo vermelho), os contornos estão perfeitamente definidos e, o que não é vulgar, a nuvem no horizonte é bem visível em toda a sua forma e extensão, incluindo o segmento situado no lado esquerdo da imagem (assinalado por um círculo amarelo)  
 

 
 
Em comparação, a gravura do lote 19, com um valor estimado entre os 15.000 e os 20.000 dólares, foi arrematada por 379.500 dólares.
 
 
Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 19)
 
 
Desde logo, a dimensão da gravura é diferente, com 24 x 36.3 cm, semelhantes aos 24.1 x 36.2 cm do exemplar do Museu Monet (Musée des impressionnismes), em Giverny, uma cópia de grande qualidade quanto à impressão mas com uma dimensão inferior ao standard definido pelo «exemplar-padrão» do Metropolitan Museum; tudo indicia que quer o exemplar de Claude Monet, quer o do lote 19 do leilão da Christie’s terão sido aparados nas extremidades).
 


Exemplar de Claude Monet, Musée des impressionnismes, Giverny

 
Por outro lado, as habituais falhas nos contornos, com destaque para a muito vulgar interrupção na linha da onda situada à direita, é visível a olho nu na cópia/lote 19 vendida pela Christie's em 2017. 
 
É possível ter uma noção aproximada do valor atribuído à xilogravura A Grande Onda se tivermos em conta as quantias substancialmente menores alcançadas por outras obras de Hokusai vendidas pela Christie’s no leilão An Inquiring Mind.
 
Assim, e como se indica no catálogo online, a xilogravura do lote 15 foi vendida por 37.500 dólares, a do lote 16 por 47.500, a do lote 17 por 23.750, a do lote 18 por 43.750. O exemplar de A Grande Onda do lote 21, ao alcançar quase 950.000 dólares, foi, aliás, a peça de valor mais alto vendida neste leilão (cf. a lista completa).
 
De certo modo, pode fixar-se nesse valor – 950.000 dólares norte-americanos – o preço actual de um exemplar de A Grande Onda de elevada qualidade. Segundo informa a página web da Antiques Trade Gazette, em Março de 2009 a Christie’s de Nova Iorque vendeu uma «boa impreessão» de A Grande Onda por 68.500 dólares americanos, enquanto mais recentemente, em Setembro de 2012, a Bonhams de Nova Iorque vendeu uma «good impression», mas «faded, soiled, stained and rubbed» por 35.000 dólares, um valor consideravelmente mais baixo.
 
 
O preço de quase 950.000 dólares pelo qual foi arrematado o lote 21 do leilão Na Inquiring Mind atesta bem a qualidade do exemplar posto à venda pela Christie's em Abril de 2017.
 
Em Junho desse mesmo ano, a Sotheby’s de Hong-Kong vendeu um exemplar de A Grande Onda (Lote 737, dimensões 25.7 x 36.9 cm) por 3.820.000 dólares de Hong-Kong, o que equivalente a cerca de 391 mil e 300 euros (aqui). Nota-se claramente a deficiente qualidade desta impressão: 
 
 

Exemplar vendido pela Sotheby’s de Hong-Kong, Junho de 2017

 
 
No endereço electrónico da Christie’s é posível ver ainda um breve vídeo onde, no seu estúdio de Brooklyn, o artista japonês Takuji Hamanaka explica o processo e a técnica de elaboração da xilogravura A Grande Onda.
 
No mesmo endereço, apresenta-se um conjunto de dez tópicos sobre a vida e obra de Katsushika Hokusai,  os quais, apesar de vulgares, podem ser interessantes para os menos familiarizados com a biografia deste artista: (1) desconhece-se a data exacta do seu nascimento; (2) começou a pintar ainda criança, por volta dos seis anos; (3) aos catorze anos, tornou-se aprendiz de gravador de madeira; (4) foi conhecido por trinta nomes diferentes, pelo menos, ao longo da sua carreira;  (5) a sua série mais famosa é Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji; (6) tinha dotes de autopromoção; (7) a sua filha mais nova, Katsushika Oi, tornou-se igualmente uma artista de renome, célebre pelos seus desenhos de mulheres belas do Japão; (8) foi rejeitado pelo ateliê-oficina onde fez a sua formação; (9) realizou mais de 30.000 obras ao longo da vida; (10) Katsushika Hokusai não temia envelhecer.  
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Notas sobre A Grande Onda - 9

 
 
 
 
9.
 
Num leilão de arte japonesa e coreana, realizado pela Christie’s em Nova Iorque, em 17 de Março de 2009, A Grande Onda (Lote 63) foi arrematada por 68.000 dólares, para uma estimativa inicial situada entre os 15.000 e os 20.000 dólares (aqui).

Exemplar leiloado pela Christie's em 2009, detalhe.


 
        Este exemplar da obra de Hokusai reveste-se de grande qualidade quanto à conservação e à qualidade da impressão, ainda que, comparado com o «padrão» definido pela xilogravura da Colecção Havemeyer do Metropolitan Museum of Art, o cinzento-escuro do fundo se apresente demasiado carregado e enegrecido, sobretudo no campo direito da imagem.
 
Antes disso, em 2002 e em 2003 a Sotheby’s leiloou a colecção de Huguette Bérès, antiquária francesa que em 1951 abriu a sua galeria no Quai Voltaire, especializada em arte japonesa e nas vanguardas artísticas dos séculos XIX e XX (e agora dirigida pela sua filha, Anisabelle Berés-Montanari). Ao longo de décadas, Huguette Bérès, falecida em 1999, reuniu uma das mais importantes colecções privadas de estampas japonesas oitocentistas, porventura a última das grandes colecções «clássicas» de arte o Japão.
 
Sendo comparado ao histórico leilão da colecção do joalheiro francês Henri Vever (1854-1942), que teve lugar na Sotheby’s de Londres em 1974, o leilão da primeira parte da colecção Bérès, realizado em Paris em 27 de Novembro de 2002, ascendeu a um total de 4.926.815 de euros, sendo o valor mais alto – 1.490.750  e euros– sido pago pela série completa das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (onde se integra A Grande Onda), segundo informou o The New York Times na sua edição de 30 de Novembro desse ano, numa notícia expressivamente intitulada «Paris Auctions; Beres collection sale brings an era to an end». De acordo com esse jornal, fontes bem informadas referiram que a licitação foi feita por um comprador japonês.
 
A segunda parte do leilão, realizada em 25 de Novembro de 2003, continha alguns outros trabalhos de Hokusai, com valores estimados entre os 12.000 e os 70.000 dólares, de acordo com a informação do artdaily.org
 
         Quando foi produzida e comercializada em 1831-32, A Grande Onda custava 20 mon, o equivalente a duas tijelas de noodles soba num restaurante. Poucos anos depois, uma carta de 1838 indica que o preço subira ligeiramente, para cerca de 32-48 mon, ou seja, cerca de quatro a cinco doses de noodles soba.