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sábado, 25 de fevereiro de 2023

São Cristóvão pela Europa (208).

 

 

Madrid, como muitas outras cidades europeias, contribui largamente para a iconografia do nosso Santo. Mas há sempre a possibilidade de encontrar mais imagens.

O museu Lázaro Galdiano é pouco conhecido. Situado na Calle Serrano foi instituído por José Lázaro Galdiano (1862-1947), editor literário e homem de finanças, casado com rica herdeira argentina. Coleccionador compulsivo, reuniu um acervo de enorme qualidade no domínio da pintura e das artes decorativas em geral.

 


 

O Museu possui um óleo muito interessante do primeiro quartel do Século XVI de autor anónimo, representando Cristóvão Colombo vestido com o hábito de Almirante sobre a armadura, o nosso Santo e a Virgem Maria. Ao fundo, a Catedral de Santo Domingo, a primeira cidade cristã da América. É Intitulado A Virgem de Cristóvão Colombo

 


Perto de Barajas, que dá nome ao Aeroporto Internacional de Madrid, ergue-se a cidade de Pegaso, construída para alojar os trabalhadores da fábrica espanhola de automóveis, camiões e autocarros que existiu entre 1946 e 1990 data em que foi adquirida pela italiana IVECO. A Igreja paroquial é dedicada a São Cristóvão.

No seu interior uma estátua de madeira de grandes dimensões:




 

No exterior, um cruzeiro datado de 2010, contendo a imagem de São Cristóvão:

 







                                                            Fotografias de 19 de Fevereiro de 2023

 

                                                                                                José Liberato

terça-feira, 16 de junho de 2020

Quando Madrid está triste








Esta é uma história triste, que talvez não acontecesse cá. Não porque fosse impossível os dois membros de um casal morrerem de Covid, como aconteceu a José Luís e a Pilar. Mas, Portugal, em Portugal há um ódio às varandas, que ora são confinadas a alumínio, ora são recicladas para armazém de tralha a céu aberto, ora são pura e simplesmente abandonadas, salpicadas aqui e ali por plantas tristes. Madrid não é assim, pois os espanhóis sabem gozar a vida – e gozar uma varanda ao sol é gozar a vida. E a varanda de Pilar e José Luís era um assombro, dizem, um jardim suspenso mais do que babilónico, no coração do bairro de Embajadores. Morreu ele primeiro, aos 71 anos. A seguir foi ela, dias depois, com 70 anos. Gostavam da vida, ambos reformados, ele a dar aulas de guitarra, ela, ex-modista, a vestir-se vaidosa, de sevilhana, bailando zarzuelas. Depois, a existência a dois, anos a fio, a ida juntos à missa, os pinchos de tortilla no bar do rés-do-chão do prédio, os risos e os amigos. Morreram um, depois o outro – e o jardim foi a seguir. É hoje uma imagem imensamente triste, pungente, a varanda mais triste de Madrid. E quando Madrid está triste, o mundo chora.

   





segunda-feira, 9 de março de 2020

A ursa goyesca.




  1. Quinta del Sordo




Nas suas Mais Que Mil Imagens, António Mega Ferreira dedica inspiradas páginas ao génio luminar de Goya, ao Goya solar, mediterrânico, com forte marca italiana. Ao Goya apolíneo sempre preferi, porém, o génio dionisíaco dos Caprichos e das últimas pinturas. É tal a devoção que, depois de ter lido há uns anos El Perro de Goya, de Antonio Saura (de que não gostei nada, mesmo nada), andei há pouco entretido com a história da Quinta del Sordo, nos arredores de Madrid, onde e para onde Francisco Goya fez as últimas pinturas [cf. Miguel Hervás León, La Quinta de Goya y sus Pinturas Negras. Dos siglos de desventuras (1819-2019), 2019].




A casa, imagine-se, foi demolida nos finais do XIX, princípios do XX, e ainda hoje se especula sobre a sua localização exacta. Ora, a composição interna da casa é essencial para percebermos o modo nada casual como as pinturas estavam distribuídas pelos dois andares. Quem sempre me perseguiu foi o cão, a mais hermética das pinturas da Quinta e, se Saturno é a chave explicativa de muita coisa nas pinturas negras (compare-se com o Saturno de Rubens), não o é da do cão, que Valeriano Bozal, num valioso e estudo (Pinturas negras de Goya, 2018, pág. 120), considera a mais moderna das obras de Goya, aquela que decerto teve influência mais directa e patente no imaginário de outro francisco, Bacon. 
  


 

   Isto do cão não interessa nada pois exigia uma explicação longa e densa que não tenho entendimento e ciência nem vontade de fazer. Mas o que, pese o tamanho, pode caber num curto apontamento é o papa-formigas. No Museu de História Natural de Madrid, quase ao nível da cave, fui dar com uma pintura pendurada ao alto, inacessível, que muito se arrisca a passar despercebida. Não muito longe, o  esqueleto do elefante asiático que chegou a Espanha em 1773, oferta de um soberano do Sul da Índia a Carlos III, que o doou ao Real Gabinete. Três anos depois, chegava a Madrid, vinda da Argentina, uma fêmea de urso-formigueiro. Durou pouco, morreu no ano seguinte. Antes disso, e por ordem de Carlos III, fizeram-lhe o retrato. E há quem sustente, com razões sustentáveis, que não foi outro que não o jovem Goya que pintou a ursa das formigas, sendo o traço goyesco visível sobretudo, dizem, na paisagem ao fundo. Fiquei intrigado com aquilo, falei a amigos que tenho no Museu de História Natural de Madrid, mandaram-me para um livro belo, muito ilustrado, Una Colección, un Criollo Erudito, y un Rey. Un gabinete para una monarquia ilustrada, de Javier Sánchez Almazán e Cristina Cánovas Fernándes. Acontece que o livrito é muito introdutório e, quanto a isto da ursa-formigueira, introduz muito pouco, quase nada, limitando-se a referir Goya numa legendita e se calhar eu devia chamar-ljhe papa-formigas, mas em fêmea. O tema é mais desenvolvido na revista da casa-museu do pintor (revista que, olha lá, se chama Goya), que vou tentar localizar para falar aqui com mais prosperidades. Por ora, fica a ursa e, com a oferta generosa da Manuela Ivone Cunha, esta nota musical, as Goyescas Op. 11 (Intermezzo), Los majos enamorados, de Enrique Granados.


 

 
       E tudo quanto acabou de se escrever é para a Manuela Sangiorgi, que o merece, por tanta e muita coisa, como um memorável jantar, italianíssimo, no mais belo restaurante de Ravenna (obrigado, Nela San).




São Cristóvão pela Europa (111).


 
 
Madrid, como muitas outras grandes cidades, também tem a presença de São Cristóvão.
A começar pela Rua de São Cristóvão cujas placas toponímicas de azulejo representam o Santo:
 

 

Uma das paróquias da cidade é a paróquia de São Cristóvão e São Rafael, cuja igreja tem três imagens do Santo, no portal exterior, no altar-mor e na nave:


 
 
Fotografias de 22 de Fevereiro de 2020
José Liberato
 
 
 

quinta-feira, 5 de março de 2020

São Cristóvão pela Europa (110).





 Prometi a mim próprio não escrever aqui que o Museu do Prado era o local sagrado da pintura mundial. Não queria indispor os caçadores de lugares-comuns.

Mas a verdade é que é mesmo.

A iconografia de São Cristóvão está bem representada. Mas só o retábulo de São Cristóvão está exposto.

As outras obras aqui mostradas fazem parte das reservas do museu. O que diz bem de um museu que dispõe de tais reservas.

O Retábulo de São Cristóvão tem a forma de um pentágono e data de finais do século XIII. É um exemplo destacado da pintura castelhana de estilo gótico.



Orazio Borgianni (1578-1616) pintou este São Cristóvão nos finais do Século XVI, princípios do Século XVII. Cultivou o estilo maneirista e esteve activo em Espanha e Itália:




No reverso de um quadro representando a Anunciação da Virgem, uma pintura do século XVI de autor anónimo.


Um desenho do século XVI de autor anónimo do círculo de Alessandro Casolano (1552-1606). Representa a aparição da Virgem a São Cristóvão e São Francisco:



E finalmente um quadro que constitui um ícone da imagem do santo da autoria de um dos grandes mestres da pintura espanhola do século XVII, José de Ribera (1591-1652). Como é possível que esteja nas reservas!?

O quadro é de 1637. Apresenta o contraste entre a rudeza do gigante em tons mais escuros e a figura frágil do Menino Jesus em tons claros e luminosos:





Fotografias de 22 de Fevereiro de 2020

José Liberato