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domingo, 6 de setembro de 2020

A vida, tão boa que é.





Rita, então tu julgavas que eu não ia ver o filme que me deste? Pois vi, e vi ontem, parva. O êxtase é muito, e aqui o partilho. Muchos hijos,un mono y un castillo foi das coisas mais divertidas e comoventes que me entraram pelo espírito nos últimos e confinados meses. O filme, um documentário rodado por Gustavo Salmerón durante 14 anos (será possível?), tem uma protagonista hegemónica, retumbante e esmagadora: a sua mãe. Julita Salmerón, assim se chama o portento (numa das entrevistas a propósito do filme, o realizador diz que o pai é também co-protagonista, mas coitado dele). Bigger than life, telúrica, torrencial o que quiserem, Julita Salmerón é Espanha por uma pena (o filme, aliás, começa com ela a beber chocolate quente e a comer bolachas, melhor era impossível). Depois, subimos por ali acima – muitos filhos, um macaco, um castelo – e descemos em voo picado até à crise de 2008 e à hipoteca devastadora. Uma montanha-russa emocional trazida com imensa mestria por Gustavo Salmerón, sobre a qual choveram prémios atrás de prémios, todos mais que merecidos. Está ali Espanha inteira, em casas atafulhadas de objectos (morte a ti, Marie Kondo!), cada qual trazendo uma recordação da vida de uma mulher poderosa – ou, como lá dizem, tremenda. Sobre o filme choveram prémios. É bom que sobre ele também chova a sua atenção. Quando um documentário nos faz rir e chorar, em doses variáveis, talvez a culpa seja nossa – porque o documentário, esse, é perfeito e sem mácula. Quanto a ti, Rita: obrigado, dos abismos do meu coração.









terça-feira, 3 de março de 2020

Eu, a minha Mãe e ABL.














Graças à amizade de um grande e discreto amigo, fui passado domingo ver uma bela biblioteca, livros preciosos, grátis e de oferta :), nem tive de me beliscar nem acordar do sonho de uma longa lista de edições primeiras, lindíssimas, de Agustina Bessa-Luís. Dela não vou falar, porque Mãe não deixa, ABL é dela, e assim será para sempre (e eu respeito, Mãe, eu respeito). Só uma historiazinha nossa: ofereci-lhe Sebastião José quando era miúdo, com o prémio de um concurso desses florais do colégio (e a memória, que me atraiçoa sobre o que almocei ontem, traz-me inteirinhas e vivinhas todas as palavras do conto vencedor, obviamente pavoroso).

Anos depois, Mãe replicou com Santo António, assinado e dedicado por ABL, com uma «saudação amiga», vede lá.

Trazida pela minha Mãe, que Maria Joana se chama, a quem ABL deixou também muitas palavras belas, singulares só dela, em muitos livros, como um de que gosto tanto e que aqui mostro, Longos Dias Têm Cem Anos, sobre Vieira, com Arpad ao fundo.

E têm mesmo, Mãe: longos dias têm cem anos. Agora um beijo, claro.




P.S. e ainda em tempo – uma vez, tive a ventura de ver, nos esconsos de um livreiro amigo, uma caixote com a obra toda de ABL, em 1ª edição, pronta a ir para uma universidade da América. Maior ventura foi constatar que a colecção ABL da Mãe não lhe ficava atrás, muito pelo contrário. 
















sábado, 12 de outubro de 2019

A minha mãe, a cochonilha e a pintura do Século de Ouro.


 
 
A apanha da cochonilha, México
 
Tenho o jardim a morrer-me por causa da cochonilha. A culpa é de um limoeiro velho, já devassado pela praga infecta. Por mais que tente, ela volta, sempre mais, e mais em força. O remédio mesmo é deixar morrer, plantar de novo, uma e outra vez – é este o fado da lusitana lavoura.
Queixinhas à mãe, a cochonilha é má, isto e aquilo. A grande vantagem de termos uma mãe culta e clássica é que contamos um desastre botânico e somos alentados por uma lição de história da pintura. Um errozito materno: a cochonilha não foi usada apenas pelos pintores do Siglo de Oro, como a minha mãe dizia, e não encontrei vestígio de que viesse de laranjais atlânticos, dos Açores ou da Madeira, como a senhora também me disse. Mas soube e confirmei aqui que a seiva ou o sangue da cochonilha era matéria preciosa, usada num vermelho escarlate muitíssimo apreciado. Foi descoberto pelos homens de Cortés nos mercados de Tenochitlán, actual Cidade do México, então capital do império azteca. Michel Pastoreau tem livros sobre o preto, o azul e o verde, mas sobre o vermelho há outro, de Butler Greenfield, A Perfect Red, e é aí que se conta a história da cochonilha. O seu rubro deslumbrou a Europa, até aí marcada pelos St. John’s Blood e pelo Vermelho Arménio, A tintura da cochonilha produzia 30 vezes mais corante por onça do que o Vermelho Arménio e em meados do século XVI o insecto era dos negócios mais rentáveis do continente. Hoje espalha-se por toda a parte, minando o jardim e o juízo de muita gente, eu incluído. Devasta a hera, o alecrim, mas também tinge de invulgar beleza telas como estas, ora vejam-nas (mas, antes disso, agradeçam muito à minha mãe, sff):
 
 
Caravaggio, Os Músicos, 1595
 
 
Cristóbal de Villapando, Santa Rosa Tentada pelo demónio, 1695
 
 
 
López de Arteaga, A Incredulidade de São Tomé, séc. XVII
 

 
Caravaggio, A Incredulidade de São Tomé, 1601-02
 
Rubens, Retrato de Isabella Brandt, 1610



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Catalina Martín-Chico: mães-coragem.

 
 
 











A fotógrafa franco-espanhola Catalina Martin-Chico ganhou o Canon Female Photohjournalist Award (aqui) com um trabalho extraordinário sobre o drama das mulheres colombianas que foram proibidas pelas FARC de terem filhos – mas decidiram tê-los, corajosamente. Agora as suas imagens comoventes, deslumbrantes, estão no festival Visa pour l’Image (aqui)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Demasiado perfeita?




 
Circula na Internet uma imagem demasiado perfeita. Dizem ser de uma órfã iraquiana que desenhou a figura da mãe a giz, no chão, tirou os sapatos e adormeceu no regaço materno. De cima, o fotógrafo captou o momento, tudo sem uma falha. Longe de mim afirmar que a imagem não é pungente. Parece-me, no entanto, demasiado pungente. Nunca nos esqueçamos que, antes das fake news, a manipulação fotográfica já existia, e à grande. Mais, as imagens manipuladas são talvez a maior fake new do nosso tempo. Será o caso desta fotografia? Fica a dúvida, pois não consegui obter praticamente nenhuma informação sobre a imagem (o que, aliás, reforça a desconfiança e a dúvida). Para mais, vejam como circulam imagens em tudo semelhantes:



  


domingo, 5 de novembro de 2017

Minha Mãe parteira oficiosa de Soutelinho da Raia.

 
 
Soutelinho da Raia
 
Sempre que tomo conhecimento do nascimento de uma criança, penso logo em minha mãe, pelo facto de ela ter sido a única parteira da minha aldeia, Soutelinho da Raia, de umas quatrocentas e cinquenta almas, naquele tempo, durante várias décadas.
Já eu vivia nos Estados Unidos quando soube desse facto em pormenor. É que essas coisas eram tabu, no tempo de eu menino e adolescente.
          Quando chegava o dia ou a noite do nascimento de uma criança, os pais mandavam os filhos para casa de algum parente e eles só regressavam à casa paterna, quando havia menino novo ou menina nova.
E quanto ao exercício de parteira por parte de minha mãe, a primeira vez  que tomei conhecimento dele, estava eu de férias grandes do seminário (as únicas que os salesianos nos concediam durante os quatro anos de aspirantado, pois, a partir do noviciado, nunca mais havia férias com a família, no meu tempo de seminarista), quando um dia, pela manhã, chega minha mãe a casa e começa a fazer uma grande barrela. E é nesse momento que ouço a minha cunhada Matilde perguntar à minha mãe:
- Então é menino ou menina?
Agora os "pormenores" a que se aludiu atrás.
Tinha minha mãe 16 anos quando um dia a sua Tia Hipólita bateu à porta de minha avó Gracinda e lhe disse que lhe queria levar a filha (única) para a assistir num parto. Que ela já começava a sentir-se cansada e que queria ensinar à sobrinha a arte de parteira: que essa profissão tinha estado sempre na família e ela queria que assim continuasse a ser.
E, com o beneplácito da minha avó, minha mãe foi com ela e, depois da necessária aprendizagem, passou a ser a parteira da terra durante os muitos anos que viveu em Soutelinho da Raia.
E rematava minha mãe, ao contar essa história, que as suas mãos tinham aparado muito bebé e que, graças a Deus, só perdera um. Que depois de horas e horas de tentativas o bebé não aparecia.
          Visto o quê, montaram a parturiente a cavalo de um burro, aparelhado com umas andas, a caminho de Chaves, numa tempestuosa noite de inverno,  a mais de duas horas de distância. Vão bater à porta da clínica do Dr. Alcino, se me não engano. O Dr. Alcino estava no café do costume e, também como de costume, estava bêbedo como um cágado. Com muito esforço, lá o arrastaram como puderam até à clínica, mas, infelizmente – acrescentava minha mãe muito comovida -, quando chegou já era tarde.
Claro que minha mãe não recebia qualquer honorário pelo exercício da profissão de parteira. Antes pelo contrário. Como era frequente darem à luz criadas de servir oriundas de terras longínquas, sem quaisquer relacionamentos, quantas delas “sine patre, sine matre, sine generatione”, minha mãe não só lhes “aparava” os filhos e lhes dava o enxoval, mas oferecia-se-lhes para madrinha de baptismo, sempre que necessário, sendo padrinhos, em muitos desses casos, um dos santos da Corte do Céu, desde Santo António a São José, desde Santa Ana a Santa Isabel, colhendo São Sebastião as preferências de minha mãe, por ela ser a zeladora do altar em que ele era venerado na Igreja Matriz de Soutelinho da Raia, por sinal uma bela igreja barroca onde recentemente foram descobertos cinco painéis de frescos, datados do século XVIII, reproduzindo quatro deles cenas da vida religiosa e o quinto uma cena de contrabando, a testemunhar o estatuto de Soutelinho da Raia como “povo promíscuo”, desde a Idade Média até ao tratado de Lisboa de 1864 entre a Espanha e Portugal e, a partir dessa data, o de aldeia raiana.
E esta é a história sobre a maneira como minha saudosa mãe Delfina foi feita parteira de Soutelinho da Raia e lá exerceu briosa e competentemente essa nobre profissão, durante os muitos anos que aí viveu.
 
António Cirurgião
 
 
 
 

sábado, 4 de novembro de 2017

De como minha Mãe entrou para a escola.


Soutelinho da Raia
 
Nada e criada em Soutelinho da Raia, uma aldeia e sede de freguesia do Concelho de Chaves, minha mãe, atingida a idade escolar, que julgo ser então aos sete anos, viu-se impossibilitada de entrar para a escola, dado que a legislação que vigorava nesse tempo, a segunda década do século XX, não permitia o ensino misto nas aldeias, não sei se em todas, se apenas nas mais pequenas, como era o caso de Soutelinho da Raia, que só dispusessem de uma professora e, portanto, de uma única sala de aula (Soutelinho teria, por essa altura, umas quatrocentas e cinquenta almas).
Vamos por partes. Em Soutelinho não havia edifício escolar propriamente dito. No tempo em que minha mãe frequentou a escola, e em que, mais tarde, os meus irmãos e eu a frequentamos também, entre a segunda década do século XX e os princípios da década de 50, a tal sala de aula a que me refiro atrás ficava no primeiro andar de uma casa arrendada ao Tio Domingos Pires, vulgarmente conhecido por Domingos Tapado, um dos ricaços da aldeia. Informo também que esse edifício ficava em frente da casa de meus pais, do outro lado da rua, portanto, o que quer dizer que, para pena nossa, nem os meus irmãos nem eu podíamos dar-nos ao luxo de fazer a gazeta da praxe, sem que os pais soubessem.
Dito o quê, passemos a referir a maneira como minha mãe conseguiu frequentar uma escola reservada, por lei, só a rapazes. Filha única, morgadinha, a viver ao lado da escola, minha mãe sentiu um grande desejo de aprender oficialmente a ler, contar e escrever, como então soía dizer-se. Digo “oficialmente”, pois, na realidade, ela, com a ajuda do pai e de uma senhora amiga da família, professora da escola primária de Seara Velha, aldeia da freguesia de Calvão, a uns catorze ou quinze ou quilómetros de Soutelinho, ia aprendendo privadamente essas coisas. (Esclarece-se, entre parêntesis, que essa professora da escola primária de Seara Velha era a mãe do escritor Reis Ventura que em 1934 ganhou, em paridade com Fernando Pessoa, o prémio de poesia Antero de Quental do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), com o livro A Romaria, publicado nesse ano, com o pseudónimo de Vasco Reis).
Pela vida fora, minha mãe lembrava-nos, com justificado orgulho, que tinha aprendido as primeiras letras com a mãe do escritor Reis Ventura. E, por ironia do destino, após a independência de Angola, em 1975, sendo eu professor de Espanhol e Português na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, recebo um dia uma carta de um senhor chamado Manuel Joaquim Reis Ventura, na qual me pedia o favor de lhe proporcionar a emigração para os Estados Unidos, invocando a velha amizade que o ligava a minha mãe. É que Reis Ventura fora viver para Angola nos anos 30, depois de ter abandonado a ordem franciscana e a vida sacerdotal.
Feita esta longa digressão, chegou o momento de reiterar que o desejo de minha mãe de frequentar a escola da sua terra natal foi tão intenso, que se encheu de coragem e foi bater à porta da professora oficial, a Dona Marquinhas, que morava perto de nós, numa casa enorme, quase senhorial, juntamente com a sua irmã mais nova, a Dona Aninhas, viúva, e com os dois filhos desta irmã - o Rubens e o Fernandinho -, e pediu-lhe que a deixasse entrar para a escola. Segundo minha mãe nos contava muitas vezes, a Dona Marquinhas respondeu-lhe mais ou menos nestes termos:
- Ó minha menina, quem me dera a mim poder satisfazer o teu pedido!
          Mas a verdade é que isso está proibido por lei. Se te deixasse entrar para a sala de aula e viesse o inspector escolar, como às vezes acontece, fazer uma inspecção, mandava fechar imeditamente a escola. E o resultado era ficarem todos os alunos impossibilitados de poder frequentá-la: tu e os rapazes que andam nela. E tu não queres que isso aconteça, pois não, minha filha?
         Esclarecida, mas não convencida, minha mãe despediu-se da Dona Marquinhas e voltou muito triste para casa.
         Porém, no dia seguinte a Dona Marquinhas mandou chamar a minha mãe a casa, por uma criada, e falou-lhe mais ou menos assim:
         - Olha minha filha, pensei muito no pedido que me fizeste ontem e cheguei à seguinte conclusão: como sabes, eu tenho uma braseira debaixo da minha secretária, para me aquecer. E como sabes também, para a braseira não se apagar, é preciso mexer as brasas de vez em quando. Ora como é preciso que alguém me mexa as brasas da braseira, tu sentas-te muito quietinha num banquinho junto da minha secretária e mexes as brasas quando for necessário. E se vier o inspector, eu explico-lhe – o que é verdade – que tu não és uma aluna da escola, mas a filha de uma vizinha minha – o que é verdade também – que me ajuda a manter a braseira sempre acesa.
       E a partir desse mesmo dia, minha mãe – menininha – passou a ser a única rapariga daquela aldeia arraiana a frequentar a escola, só destinada ao sexo masculino, segundo a lei.
         Mas a história não acaba aqui. Contava-nos minha mãe que, por casualidade – bendita casualidade! (apetece dizer) –, ainda antes do final desse ano lectivo saiu uma lei do Estado que criava as escolas mistas nas pequenas aldeias de Portugal. E mais contava minha mãe também (facto que era muito fácil de comprovar numa aldeia tão pequena, em que toda a gente se conhecia e em que as portas de casa raramente se fechavam à chave) que, por muitos anos, ela não só foi a primeira rapariga de Soutelinho da Raia a frequentar a escola, mas foi também a única com a quarta classe. Daí vir eu a compreender, mais tarde, a razão por que minha mãe lia e escrevia tanta carta a tanta gente da terra que tinha filhos na tropa e família nas colónias, no Brasil e na América, e por que ela, a pesar de ser mãe de cinco filhos, acompanhava tantas pessoas ao Porto, quando se tratava de arranjar os papéis para embarcar para essas terras longínquas, e a razão por que minha mãe acompanhava tantas pessoas de Soutelinho da Raia a Verín, na Galiza, ou a Chaves, sede do concelho, quando necessitavam de consultar médicos.
 
 
António Cirurgião


 
PS.  Tratando-se de uma questão importante, como é o da educação, no tempo da primeira República, fiz várias diligências para determinar a data precisa em que o governo promulgou a lei que autorizava a criação de escolas mistas nas aldeias do Portugal profundo, em que se vivia como no tempo dos afonsinos, no tempo de minha mãe menina. como era o caso de Soutelinho da Raia, um dos três “coutos promíscuos” existentes entre Espanha e Portugal, até à celebração do Tratado de Lisboa, de 1864, mas todas as tentativas foram em balde. Semianalfabeto em cibernética, e a viver do outro lado do Atlântico, ainda pedi a duas pessoas conhecidas, a trabalhar actualmente no Ministério da Educação, que vissem se me podiam fazer esse favor, mas até à data ainda não tive qualquer resposta. Se houver uma alma generosa que me possa dar esse esclarecimento, ficar-lhe-ei muito grato. 


 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Histórias de mulheres: IVF.

 
 






O fotógrafo Antonio Faccilongo traz-nos nesta série uma realidade que, na minha ignorância, desconhecia por completo: o contrabando de esperma nas prisões israelitas. Assim dito, pode parecer um pouco bizarro – e talvez o seja, independentemente da atitude ou opinião que tivermos sobre o conflito israelo-palestiniano.
         Expliquemo-nos, então: neste projecto «Habibi – In Vitro Fertilization», que conheci graças ao João Gama (obrigados!), Faccilongo capta imagens aparentemente inócuas e banais de quartos com um fato de homem pendurado, mães com crianças, mulheres sozinhas. A trouvaille está aí: os maridos destas mulheres, pertencentes à «resistência palestiniana», encontram-se em cativeiro nas prisões israelitas, cumprindo longas penas. Cerca de 7.000 palestinianos estão presos em Israel, dos quais cerca de 1.000 cumprem penas de 20 ou mais anos. Não são permitidas visitas conjugais. Mas há uma excepção: é permitido o contacto físico entre os reclusos e os seus filhos, a quem são concedidos 10 minutos para se abraçarem, acarinharem. É aí que os homens entregam clandestinamente às crianças o seu esperma. A inseminação artificial das suas mulheres tem lugar em duas clínicas, uma em Nablus, outra em Gaza. Nos últimos três anos, cerca de 70 mulheres puderam engravidar graças a este estranho método concepcional. E assim nascem mais crianças que, diz a página de Faccilongo na Internet, irão engrossar as fileiras da resistência palestiniana. Uma história curiosa, num certo sentido bela e fascinante, sobre a pulsão da maternidade, o desejo de um casal ter filhos por controlo remoto, o que quiserem. Mas fica a dúvida: com a revelação feita pelo fotógrafo italiano, tudo isto não irá acabar, passando a ser proibido pelas autoridades israelitas? Como será o futuro destas mulheres, agora que se sabe como engravidaram dos seus maridos? Ou será que isto não seria um segredo de Polichinelo, fazendo os israelitas vista grossa a uma realidade que há muito conhecem? Não sei. Fica a dúvida. E a dívida de gratidão para com o João, que é Gama, Taborda da Gama, e tem muitos filhos com a Joana. Entre os quais o Nicolau, que é meu afilhado.


  


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Dia da Mãe.



 
Kurt Reuber
Madonna de Estalinegrado
1942

 
 

         Impressionou-me quando a vi pela primeira vez em Berlim, exposta na Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Mas, estupidamente, não lhe dei a atenção devida, nem a apreciei e estudei como merece. Para mais, é grande, tendo 90 cm por 1,20m. Madonna de Estalinegrado, porque hoje é Dia da Mãe.
 
 
Kurt Reuber (1906-1943), auto-retrato
 
 
 
         Desenhada a carvão por Kurt Reuber, uma Mãe abraça o Filho, amparando-o sob o calor do seu manto. A figura é ladeada pelos dizeres: «Luz, Vida, Amor», do Evangelho de São João, e «Natal no Cerco 1942». Foi feita em Dezembro de 1942, durante a batalha de Estalinegrado, e o seu autor, Kurt Reuber, é uma personalidade fascinante e trágica. Médico, teólogo, pastor protestante, artista, era amigo de Albert Schweitzer, sendo convocado em 1939 para servir o Reich, ainda que as autoridades o olhassem como um subversivo, dadas as posições antinazis que frequentemente assumia nas suas prédicas. Em finais de 1942, Reuber integrava a 16ª Divisão Panzer, pertencente ao 6º Exército, a qual seria cercada pelas tropas soviéticas. Entre o frio e a fome, na iminência de uma morte certa, o médico do 6º Exército decidiu desenhar uma mãe e um filho, com as cabeças encostadas uma à outra, abrigados por um manto. «Procurei simbolizar “segurança” e “amor materno”. Lembrei-me das palavras de São João: luz, vida, amor. O que poderia acrescentar mais?». Nas trevas do seu abrigo, o Dr. Reuber desenhou a Virgem e o Menino, utilizando um lápis minguante e o verso de um mapa que fora capturado aos russos. Terminada a obra, abriu a porta do seu abrigo, seguindo um antigo costume de Natal. Os homens foram entrando, ficando em silêncio na contemplação de uma Mãe desenhada nas costas de uma carta militar. Foi lá, diante da Madonna, que celebraram o Natal. Na véspera de Natal, morreram 26 soldados, a juntar às dezenas de milhar que tinham perecido entretanto, muitos dos quais abandonados pelo caminho, cadáveres sepultados pela neve. Kurt Reuber passou o Dia de Natal a cuidar dos feridos, dos moribundos. À noite, o comandante abriu a última garrafa de champanhe que tinha, mas a celebração foi subitamente interrompida pelas bombas que começaram a cair em seu redor. Um homem, prestes a morrer, cantou nos últimos momentos de vida O du Frohliche, uma canção do Natal da sua infância, no tempo da segurança e do amor materno. No princípio de Janeiro, o cerco terminou com a detenção dos soldados alemães que restavam. Entre eles, Kurt Reuber. Antes disso, por milagre, o último avião que voou de Estalinegrado para a Alemanha trouxe consigo o desenho de Reuber, que o dera ao comandante da unidade. Reuber seria preso pelos russos e levado para o campo de Yelabuga, cerca de mil quilómetros a nordeste de Estalinegrado.
 
 
Kurt Reuber
Madonna dos Prisioneiros
1943
 
 
        No campo de Yelabuga, e também por alturas do Natal, Reuber desenharia em 1943 a Madonna dos Prisioneiros, que, juntamente com algumas cartas, foi entregue à sua família. Entre elas, a tocante Carta a uma Mulher e Mãe Alemã – Advento de 1943 (um trecho, aqui). Poucas semanas depois, a 20 de Janeiro de 1944, Kurt Reuber morreria, vítima de tifo. Dos cerca de 95 mil prisioneiros de guerra alemães capturados pelos soviéticos, apenas 6.000 sobreviveram ao cativeiro.  
 
Kurt Reuber (de óculos), a tratar um ferido em campanha


Kurt Reuber, a desenhar, na frente de combate
 
 
         O original da Madonna de Estalinegrado seria colocado, muito mais tarde, na Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, na sequência de um pedido do Presidente da Alemanha, Karl Karsten, à família de Kurt Reuben. Foi lá que a vi, apressada e turisticamente. Em sinal de reconciliação entre a Alemanha, o Reino Unido e a Rússia, existem cópias nas catedrais de Coventry, Kazan e Volgogrado (antiga Estalinegrado), bem como em diversas igrejas alemãs (ver a lista aqui). Fizeram-se  poemas, vídeos e múltiplas recriações pictóricas de gosto duvidoso, e também estudos académicos, densos e profundos (ver também esta interessante nota).
Mas, apesar das réplicas e recriações, insiste-se: o desenho original, saído das mãos de Kurt Reuber, encontra-se em Berlim. Foi lá que o vimos, eu e a minha Mãe.
 
 
António Araújo