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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
domingo, 6 de setembro de 2020
A vida, tão boa que é.
Rita,
então tu julgavas que eu não ia ver o filme que me deste? Pois vi, e vi ontem, parva. O êxtase
é muito, e aqui o partilho. Muchos hijos,un mono y un castillo foi das coisas mais divertidas e comoventes que me
entraram pelo espírito nos últimos e confinados meses. O filme, um documentário rodado por
Gustavo Salmerón durante 14 anos (será possível?), tem uma protagonista
hegemónica, retumbante e esmagadora: a sua mãe. Julita Salmerón, assim se chama
o portento (numa das entrevistas a propósito do filme, o realizador diz que o
pai é também co-protagonista, mas coitado dele). Bigger than life, telúrica, torrencial o que quiserem, Julita Salmerón é
Espanha por uma pena (o filme, aliás, começa com ela a beber chocolate quente e a comer bolachas, melhor era impossível). Depois, subimos por ali acima – muitos filhos,
um macaco, um castelo – e descemos em voo picado até à crise de 2008 e à hipoteca
devastadora. Uma montanha-russa emocional trazida com imensa mestria por Gustavo
Salmerón, sobre a qual choveram prémios atrás de prémios, todos mais que
merecidos. Está ali Espanha inteira, em casas atafulhadas de objectos (morte a ti, Marie Kondo!), cada
qual trazendo uma recordação da vida de uma mulher poderosa – ou, como lá
dizem, tremenda. Sobre o filme
choveram prémios. É bom que sobre ele também chova a sua atenção. Quando um
documentário nos faz rir e chorar, em doses variáveis, talvez a culpa seja
nossa – porque o documentário, esse, é perfeito e sem mácula. Quanto a ti,
Rita: obrigado, dos abismos do meu coração.
terça-feira, 3 de março de 2020
Eu, a minha Mãe e ABL.
Graças
à amizade de um grande e discreto amigo, fui passado domingo ver uma bela
biblioteca, livros preciosos, grátis e de oferta :), nem tive de me beliscar nem acordar do
sonho de uma longa lista de edições primeiras, lindíssimas, de Agustina Bessa-Luís.
Dela não vou falar, porque Mãe não deixa, ABL é dela, e assim será para sempre
(e eu respeito, Mãe, eu respeito). Só uma historiazinha nossa: ofereci-lhe Sebastião José quando era miúdo, com o prémio
de um concurso desses florais do colégio (e a memória, que me atraiçoa sobre o
que almocei ontem, traz-me inteirinhas e vivinhas todas as palavras do conto
vencedor, obviamente pavoroso).
Anos
depois, Mãe replicou com Santo António,
assinado e dedicado por ABL, com uma «saudação amiga», vede lá.
Trazida
pela minha Mãe, que Maria Joana se chama, a quem ABL deixou também muitas palavras
belas, singulares só dela, em muitos livros, como um de que gosto tanto e que aqui mostro, Longos Dias Têm Cem Anos, sobre Vieira, com Arpad ao fundo.
E
têm mesmo, Mãe: longos dias têm cem anos. Agora um beijo, claro.
P.S. e ainda em tempo – uma vez, tive a ventura de ver, nos
esconsos de um livreiro amigo, uma caixote com a obra toda de ABL, em 1ª
edição, pronta a ir para uma universidade da América. Maior ventura foi
constatar que a colecção ABL da Mãe não lhe ficava atrás, muito pelo contrário.
sábado, 12 de outubro de 2019
A minha mãe, a cochonilha e a pintura do Século de Ouro.
A apanha da cochonilha, México
|
Tenho
o jardim a morrer-me por causa da cochonilha. A culpa é de um limoeiro velho,
já devassado pela praga infecta. Por mais que tente, ela volta, sempre mais, e
mais em força. O remédio mesmo é deixar morrer, plantar de novo, uma e outra
vez – é este o fado da lusitana lavoura.
Queixinhas
à mãe, a cochonilha é má, isto e aquilo. A grande vantagem de termos uma mãe
culta e clássica é que contamos um desastre botânico e somos alentados por uma
lição de história da pintura. Um errozito materno: a cochonilha não foi usada
apenas pelos pintores do Siglo de Oro, como a minha mãe dizia, e não encontrei
vestígio de que viesse de laranjais atlânticos, dos Açores ou da Madeira, como
a senhora também me disse. Mas soube e confirmei aqui que a seiva ou o sangue
da cochonilha era matéria preciosa, usada num vermelho escarlate muitíssimo
apreciado. Foi descoberto pelos homens de Cortés nos mercados de Tenochitlán,
actual Cidade do México, então capital do império azteca. Michel Pastoreau tem
livros sobre o preto, o azul e o verde, mas sobre o vermelho há outro, de
Butler Greenfield, A Perfect Red, e é
aí que se conta a história da cochonilha. O seu rubro deslumbrou a Europa, até
aí marcada pelos St. John’s Blood e pelo Vermelho Arménio, A tintura da cochonilha
produzia 30 vezes mais corante por onça do que o Vermelho Arménio e em meados
do século XVI o insecto era dos negócios mais rentáveis do continente. Hoje
espalha-se por toda a parte, minando o jardim e o juízo de muita gente, eu
incluído. Devasta a hera, o alecrim, mas também tinge de invulgar beleza telas
como estas, ora vejam-nas (mas, antes disso, agradeçam muito à minha mãe, sff):
Caravaggio, Os Músicos, 1595
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Cristóbal de Villapando, Santa Rosa Tentada pelo demónio, 1695
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López de Arteaga, A Incredulidade de São Tomé, séc. XVII
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Caravaggio, A Incredulidade de São Tomé, 1601-02
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sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Catalina Martín-Chico: mães-coragem.
A
fotógrafa franco-espanhola Catalina Martin-Chico ganhou
o Canon Female Photohjournalist Award (aqui)
com um trabalho extraordinário sobre o drama das mulheres colombianas que foram
proibidas pelas FARC de terem filhos – mas decidiram tê-los, corajosamente.
Agora as suas imagens comoventes, deslumbrantes, estão no festival Visa pour l’Image
(aqui)
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Demasiado perfeita?
Circula
na Internet uma imagem demasiado perfeita.
Dizem ser de uma órfã iraquiana que desenhou a figura da mãe a giz, no chão,
tirou os sapatos e adormeceu no regaço materno. De cima, o fotógrafo captou o momento,
tudo sem uma falha. Longe de mim afirmar que a imagem não é pungente.
Parece-me, no entanto, demasiado pungente.
Nunca nos esqueçamos que, antes das fake news, a manipulação fotográfica já
existia, e à grande. Mais, as imagens manipuladas são talvez a maior fake new
do nosso tempo. Será o caso desta fotografia? Fica a dúvida, pois não consegui
obter praticamente nenhuma informação sobre a imagem (o que, aliás, reforça a
desconfiança e a dúvida). Para mais, vejam como circulam imagens em tudo semelhantes:
segunda-feira, 14 de maio de 2018
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
terça-feira, 14 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
Minha Mãe parteira oficiosa de Soutelinho da Raia.
Soutelinho da Raia
|
Sempre
que tomo conhecimento do nascimento de uma criança, penso logo em minha mãe,
pelo facto de ela ter sido a única parteira da minha aldeia, Soutelinho da
Raia, de umas quatrocentas e cinquenta almas, naquele tempo, durante várias
décadas.
Já eu
vivia nos Estados Unidos quando soube desse facto em pormenor. É que essas
coisas eram tabu, no tempo de eu menino e adolescente.
Quando chegava o dia ou a noite do
nascimento de uma criança, os pais mandavam os filhos para casa de algum
parente e eles só regressavam à casa paterna, quando havia menino novo ou
menina nova.
E
quanto ao exercício de parteira por parte de minha mãe, a primeira vez que tomei conhecimento dele, estava eu de
férias grandes do seminário (as únicas que os salesianos nos concediam durante
os quatro anos de aspirantado, pois, a partir do noviciado, nunca mais havia
férias com a família, no meu tempo de seminarista), quando um dia, pela manhã,
chega minha mãe a casa e começa a fazer uma grande barrela. E é nesse momento
que ouço a minha cunhada Matilde perguntar à minha mãe:
-
Então é menino ou menina?
Agora
os "pormenores" a que se aludiu atrás.
Tinha
minha mãe 16 anos quando um dia a sua Tia Hipólita bateu à porta de minha avó
Gracinda e lhe disse que lhe queria levar a filha (única) para a assistir num
parto. Que ela já começava a sentir-se cansada e que queria ensinar à sobrinha
a arte de parteira: que essa profissão tinha estado sempre na família e ela
queria que assim continuasse a ser.
E, com
o beneplácito da minha avó, minha mãe foi com ela e, depois da necessária
aprendizagem, passou a ser a parteira da terra durante os muitos anos que viveu
em Soutelinho da Raia.
E
rematava minha mãe, ao contar essa história, que as suas mãos tinham aparado
muito bebé e que, graças a Deus, só perdera um. Que depois de horas e horas de
tentativas o bebé não aparecia.
Visto o quê, montaram a parturiente a
cavalo de um burro, aparelhado com umas andas, a caminho de Chaves, numa
tempestuosa noite de inverno, a mais de
duas horas de distância. Vão bater à porta da clínica do Dr. Alcino, se me não
engano. O Dr. Alcino estava no café do costume e, também como de costume,
estava bêbedo como um cágado. Com muito esforço, lá o arrastaram como puderam
até à clínica, mas, infelizmente – acrescentava minha mãe muito comovida -,
quando chegou já era tarde.
Claro
que minha mãe não recebia qualquer honorário pelo exercício da profissão de
parteira. Antes pelo contrário. Como era frequente darem à luz criadas de
servir oriundas de terras longínquas, sem quaisquer relacionamentos, quantas
delas “sine patre, sine matre, sine generatione”, minha mãe não só lhes
“aparava” os filhos e lhes dava o enxoval, mas oferecia-se-lhes para madrinha
de baptismo, sempre que necessário, sendo padrinhos, em muitos desses casos, um
dos santos da Corte do Céu, desde Santo António a São José, desde Santa Ana a
Santa Isabel, colhendo São Sebastião as preferências de minha mãe, por ela ser
a zeladora do altar em que ele era venerado na Igreja Matriz de Soutelinho da
Raia, por sinal uma bela igreja barroca onde recentemente foram descobertos
cinco painéis de frescos, datados do século XVIII, reproduzindo quatro deles
cenas da vida religiosa e o quinto uma cena de contrabando, a testemunhar o
estatuto de Soutelinho da Raia como “povo promíscuo”, desde a Idade Média até
ao tratado de Lisboa de 1864 entre a Espanha e Portugal e, a partir dessa data,
o de aldeia raiana.
E esta
é a história sobre a maneira como minha saudosa mãe Delfina foi feita parteira
de Soutelinho da Raia e lá exerceu briosa e competentemente essa nobre
profissão, durante os muitos anos que aí viveu.
António Cirurgião
sábado, 4 de novembro de 2017
De como minha Mãe entrou para a escola.
Soutelinho da Raia
|
Nada e criada em
Soutelinho da Raia, uma aldeia e sede de freguesia do Concelho de Chaves, minha
mãe, atingida a idade escolar, que julgo ser então aos sete anos, viu-se
impossibilitada de entrar para a escola, dado que a legislação que vigorava
nesse tempo, a segunda década do século XX, não permitia o ensino misto nas
aldeias, não sei se em todas, se apenas nas mais pequenas, como era o caso de
Soutelinho da Raia, que só dispusessem de uma professora e, portanto, de uma
única sala de aula (Soutelinho teria, por essa altura, umas quatrocentas e
cinquenta almas).
Vamos por partes. Em
Soutelinho não havia edifício escolar propriamente dito. No tempo em que minha
mãe frequentou a escola, e em que, mais tarde, os meus irmãos e eu a
frequentamos também, entre a segunda década do século XX e os princípios da
década de 50, a tal sala de aula a que me refiro atrás ficava no primeiro andar
de uma casa arrendada ao Tio Domingos Pires, vulgarmente conhecido por Domingos
Tapado, um dos ricaços da aldeia. Informo também que esse edifício ficava em
frente da casa de meus pais, do outro lado da rua, portanto, o que quer dizer
que, para pena nossa, nem os meus irmãos nem eu podíamos dar-nos ao luxo de
fazer a gazeta da praxe, sem que os pais soubessem.
Dito o quê, passemos a
referir a maneira como minha mãe conseguiu frequentar uma escola reservada, por
lei, só a rapazes. Filha única, morgadinha, a viver ao lado da escola, minha
mãe sentiu um grande desejo de aprender oficialmente a ler, contar e escrever,
como então soía dizer-se. Digo “oficialmente”, pois, na realidade, ela, com a
ajuda do pai e de uma senhora amiga da família, professora da escola primária
de Seara Velha, aldeia da freguesia de Calvão, a uns catorze ou quinze ou
quilómetros de Soutelinho, ia aprendendo privadamente essas coisas.
(Esclarece-se, entre parêntesis, que essa professora da escola primária de
Seara Velha era a mãe do escritor Reis Ventura que em 1934 ganhou, em paridade
com Fernando Pessoa, o prémio de poesia Antero de Quental do SPN (Secretariado
de Propaganda Nacional), com o livro A Romaria, publicado nesse
ano, com o pseudónimo de Vasco Reis).
Pela vida fora, minha mãe
lembrava-nos, com justificado orgulho, que tinha aprendido as primeiras letras
com a mãe do escritor Reis Ventura. E, por ironia do destino, após a
independência de Angola, em 1975, sendo eu professor de Espanhol e Português na
Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, recebo um dia uma carta de um
senhor chamado Manuel Joaquim Reis Ventura, na qual me pedia o favor de lhe
proporcionar a emigração para os Estados Unidos, invocando a velha amizade que
o ligava a minha mãe. É que Reis Ventura fora viver para Angola nos anos 30,
depois de ter abandonado a ordem franciscana e a vida sacerdotal.
Feita esta longa
digressão, chegou o momento de reiterar que o desejo de minha mãe de frequentar
a escola da sua terra natal foi tão intenso, que se encheu de coragem e foi
bater à porta da professora oficial, a Dona Marquinhas, que morava perto de
nós, numa casa enorme, quase senhorial, juntamente com a sua irmã mais nova, a
Dona Aninhas, viúva, e com os dois filhos desta irmã - o Rubens e o Fernandinho
-, e pediu-lhe que a deixasse entrar para a escola. Segundo minha mãe nos
contava muitas vezes, a Dona Marquinhas respondeu-lhe mais ou menos nestes
termos:
- Ó minha menina, quem me
dera a mim poder satisfazer o teu pedido!
Mas a verdade é que isso está proibido por lei.
Se te deixasse entrar para a sala de aula e viesse o inspector escolar, como às
vezes acontece, fazer uma inspecção, mandava fechar imeditamente a escola. E o
resultado era ficarem todos os alunos impossibilitados de poder frequentá-la:
tu e os rapazes que andam nela. E tu não queres que isso aconteça, pois não,
minha filha?
Esclarecida,
mas não convencida, minha mãe despediu-se da Dona Marquinhas e voltou muito
triste para casa.
Porém,
no dia seguinte a Dona Marquinhas mandou chamar a minha mãe a casa, por uma
criada, e falou-lhe mais ou menos assim:
-
Olha minha filha, pensei muito no pedido que me fizeste ontem e cheguei à
seguinte conclusão: como sabes, eu tenho uma braseira debaixo da minha
secretária, para me aquecer. E como sabes também, para a braseira não se
apagar, é preciso mexer as brasas de vez em quando. Ora como é preciso que
alguém me mexa as brasas da braseira, tu sentas-te muito quietinha num
banquinho junto da minha secretária e mexes as brasas quando for necessário. E
se vier o inspector, eu explico-lhe – o que é verdade – que tu não és uma aluna
da escola, mas a filha de uma vizinha minha – o que é verdade também – que me
ajuda a manter a braseira sempre acesa.
E a
partir desse mesmo dia, minha mãe – menininha – passou a ser a única rapariga
daquela aldeia arraiana a frequentar a escola, só destinada ao sexo masculino,
segundo a lei.
Mas
a história não acaba aqui. Contava-nos minha mãe que, por casualidade – bendita
casualidade! (apetece dizer) –, ainda antes do final desse ano lectivo saiu uma
lei do Estado que criava as escolas mistas nas pequenas aldeias de Portugal. E
mais contava minha mãe também (facto que era muito fácil de comprovar numa
aldeia tão pequena, em que toda a gente se conhecia e em que as portas de casa
raramente se fechavam à chave) que, por muitos anos, ela não só foi a primeira
rapariga de Soutelinho da Raia a frequentar a escola, mas foi também a única
com a quarta classe. Daí vir eu a compreender, mais tarde, a razão por que
minha mãe lia e escrevia tanta carta a tanta gente da terra que tinha filhos na
tropa e família nas colónias, no Brasil e na América, e por que ela, a pesar de
ser mãe de cinco filhos, acompanhava tantas pessoas ao Porto, quando se tratava
de arranjar os papéis para embarcar para essas terras longínquas, e a razão por
que minha mãe acompanhava tantas pessoas de Soutelinho da Raia a Verín, na
Galiza, ou a Chaves, sede do concelho, quando necessitavam de consultar médicos.
António Cirurgião
PS. Tratando-se de uma questão importante, como é
o da educação, no tempo da primeira República, fiz várias diligências para
determinar a data precisa em que o governo promulgou a lei que autorizava a
criação de escolas mistas nas aldeias do Portugal profundo, em que se vivia
como no tempo dos afonsinos, no tempo de minha mãe menina. como era o caso de
Soutelinho da Raia, um dos três “coutos promíscuos” existentes entre Espanha e
Portugal, até à celebração do Tratado de Lisboa, de 1864, mas todas as
tentativas foram em balde. Semianalfabeto em cibernética, e a viver do outro
lado do Atlântico, ainda pedi a duas pessoas conhecidas, a trabalhar
actualmente no Ministério da Educação, que vissem se me podiam fazer esse
favor, mas até à data ainda não tive qualquer resposta. Se houver uma alma
generosa que me possa dar esse esclarecimento, ficar-lhe-ei muito grato.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Histórias de mulheres: IVF.
O
fotógrafo Antonio Faccilongo
traz-nos nesta série uma realidade que, na minha ignorância, desconhecia por
completo: o contrabando de esperma nas prisões israelitas. Assim dito, pode
parecer um pouco bizarro – e talvez o seja, independentemente da atitude ou
opinião que tivermos sobre o conflito israelo-palestiniano.
Expliquemo-nos, então: neste projecto
«Habibi – In Vitro Fertilization», que conheci graças ao João Gama
(obrigados!), Faccilongo capta imagens aparentemente inócuas e banais de
quartos com um fato de homem pendurado, mães com crianças, mulheres sozinhas. A
trouvaille está aí: os maridos destas mulheres, pertencentes à «resistência
palestiniana», encontram-se em cativeiro nas prisões israelitas, cumprindo
longas penas. Cerca de 7.000 palestinianos estão presos em Israel, dos quais
cerca de 1.000 cumprem penas de 20 ou mais anos. Não são permitidas visitas
conjugais. Mas há uma excepção: é permitido o contacto físico entre os reclusos
e os seus filhos, a quem são concedidos 10 minutos para se abraçarem, acarinharem.
É aí que os homens entregam clandestinamente às crianças o seu esperma. A
inseminação artificial das suas mulheres tem lugar em duas clínicas, uma em
Nablus, outra em Gaza. Nos últimos três anos, cerca de 70 mulheres puderam
engravidar graças a este estranho método concepcional. E assim nascem mais
crianças que, diz a página de Faccilongo na Internet, irão engrossar as
fileiras da resistência palestiniana. Uma história curiosa, num certo sentido
bela e fascinante, sobre a pulsão da maternidade, o desejo de um casal ter
filhos por controlo remoto, o que quiserem. Mas fica a dúvida: com a revelação
feita pelo fotógrafo italiano, tudo isto não irá acabar, passando a ser proibido
pelas autoridades israelitas? Como será o futuro destas mulheres, agora que se
sabe como engravidaram dos seus maridos? Ou será que isto não seria um segredo
de Polichinelo, fazendo os israelitas vista grossa a uma realidade que há muito
conhecem? Não sei. Fica a dúvida. E a dívida de gratidão para com o João, que é
Gama, Taborda da Gama, e tem muitos filhos com a Joana. Entre os quais o Nicolau, que é meu afilhado.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Dia da Mãe.
Kurt Reuber
Madonna de Estalinegrado
1942
|
Impressionou-me quando a vi pela
primeira vez em Berlim, exposta na Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche. Mas,
estupidamente, não lhe dei a atenção devida, nem a apreciei e estudei como merece. Para
mais, é grande, tendo 90 cm por 1,20m. Madonna
de Estalinegrado, porque hoje é Dia da Mãe.
Kurt Reuber (1906-1943), auto-retrato
|
Desenhada a carvão por Kurt Reuber, uma
Mãe abraça o Filho, amparando-o sob o calor do seu manto. A figura é ladeada pelos
dizeres: «Luz, Vida, Amor», do Evangelho de São João, e «Natal no Cerco 1942».
Foi feita em Dezembro de 1942, durante a batalha de Estalinegrado, e o seu
autor, Kurt Reuber, é uma personalidade fascinante e trágica. Médico, teólogo,
pastor protestante, artista, era amigo de Albert Schweitzer, sendo convocado em
1939 para servir o Reich, ainda que as autoridades o olhassem como um subversivo, dadas as posições
antinazis que frequentemente assumia nas suas prédicas. Em finais de 1942, Reuber
integrava a 16ª Divisão Panzer, pertencente ao 6º Exército, a qual seria
cercada pelas tropas soviéticas. Entre o frio e a fome, na iminência de uma
morte certa, o médico do 6º Exército decidiu desenhar uma mãe e um filho, com
as cabeças encostadas uma à outra, abrigados por um manto. «Procurei simbolizar
“segurança” e “amor materno”. Lembrei-me das palavras de São João: luz, vida,
amor. O que poderia acrescentar mais?». Nas trevas do seu abrigo, o Dr. Reuber
desenhou a Virgem e o Menino, utilizando um lápis minguante e o verso de um
mapa que fora capturado aos russos. Terminada a obra, abriu a porta do seu
abrigo, seguindo um antigo costume de Natal. Os homens foram entrando, ficando
em silêncio na contemplação de uma Mãe desenhada nas costas de uma carta
militar. Foi lá, diante da Madonna, que celebraram o Natal. Na véspera de Natal,
morreram 26 soldados, a juntar às dezenas de milhar que tinham perecido
entretanto, muitos dos quais abandonados pelo caminho, cadáveres sepultados
pela neve. Kurt Reuber passou o Dia de Natal a cuidar dos feridos, dos
moribundos. À noite, o comandante abriu a última garrafa de champanhe que
tinha, mas a celebração foi subitamente interrompida pelas bombas que começaram
a cair em seu redor. Um homem, prestes a morrer, cantou nos últimos momentos de
vida O du Frohliche, uma canção do
Natal da sua infância, no tempo da segurança e do amor materno. No princípio de
Janeiro, o cerco terminou com a detenção dos soldados alemães que restavam.
Entre eles, Kurt Reuber. Antes disso, por milagre, o último avião que voou de
Estalinegrado para a Alemanha trouxe consigo o desenho de Reuber, que o dera ao comandante da unidade.
Reuber seria preso pelos russos e levado para o campo de Yelabuga, cerca de mil
quilómetros a nordeste de Estalinegrado.
Kurt Reuber
Madonna dos Prisioneiros
1943
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No campo de Yelabuga, e também por
alturas do Natal, Reuber desenharia em 1943 a Madonna dos Prisioneiros, que, juntamente com algumas cartas, foi
entregue à sua família. Entre elas, a tocante Carta a uma Mulher e Mãe Alemã – Advento de 1943 (um trecho, aqui).
Poucas semanas depois, a 20 de Janeiro de 1944, Kurt Reuber morreria, vítima de
tifo. Dos cerca de 95 mil prisioneiros de guerra alemães capturados pelos
soviéticos, apenas 6.000 sobreviveram ao cativeiro.
Kurt Reuber (de óculos), a tratar um ferido em campanha
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Kurt Reuber, a desenhar, na frente de combate
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O original da Madonna de Estalinegrado seria colocado, muito mais tarde, na Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche,
na sequência de um pedido do Presidente da Alemanha, Karl Karsten, à família de
Kurt Reuben. Foi lá que a vi, apressada e turisticamente. Em sinal de
reconciliação entre a Alemanha, o Reino Unido e a Rússia, existem cópias nas
catedrais de Coventry, Kazan e Volgogrado (antiga Estalinegrado), bem como em
diversas igrejas alemãs (ver a lista aqui).
Fizeram-se poemas, vídeos e múltiplas recriações pictóricas de gosto
duvidoso, e também estudos académicos, densos e profundos
(ver também esta interessante nota).
Mas,
apesar das réplicas e recriações, insiste-se: o desenho original, saído das mãos de
Kurt Reuber, encontra-se em Berlim. Foi lá que o vimos, eu e a minha Mãe.
António Araújo
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