Assisti
Poemaria (2024) de
Davi Kinski no
Canal Brasil. Como eu queria ver esse filme. É uma ode a poesia! Várias pessoas declamam e falam sobre poesia. O elenco é muito diverso! A estrutura é a usada por Eduardo Coutinho. Uma pessoa fica em uma cadeira e nós não vemos o entrevistador.
Adelia Prado é quem acaba resumindo brilhantemente o projeto. Ao falar de poesia, ela fala de toda a essência de
Poemaria. Sem falar na camiseta dela com coruja que fiquei encantada. Seu carisma é tocante.
Disretmia
Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento
o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
para me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
não existe o destino.
Quem é premente é Deus.
Adélia Prado, Bagagem
Fiquei emocionada em ver a saudosa e talentosa
Rosaly Papadopol.
Foi bem emocionante o relato da médica
Ana Claudia Quintana Arantes. Ela é médica de cuidados paliativos e contou que estava muito difícil lidar com o trabalho e que foi a poesia que transformou esse momento. Ela encontrou na poesia um respiro e passou a levar também aos pacientes.
Gostei muito de conhecer poetas como
Ingrid Morandian.
tu ficaste apenas uma noite
e antes de iniciar o reencontro com as ruas
tomei posse de todos os teus afetos e abraços
rompi com a loucura de subjugar olhares
o toque silencioso das mãos inaugurou a despedida
o afago
nalgum horário da infância, as mãos curiosas
tateavam a vida, as pequenas descobertas
os móveis, os brinquedos, os talheres
a aventura do riso
na puberdade, as mãos ansiavam o desejo
pelo outro, pelas camadas de pelos-bocas-voracidade
mundo habitável, tempestuoso
mais à frente, o muito caminhar, andante alguns anos
nas passagens de tempo e sobrevida
segurar a horda provocadora de tantas tempestades
chega um tempo, elas silenciam, os gestos são pequenos
quase esquecimento do lugar na terra
acompanham a coreografia de anunciação do desprendimento
Bashô sorri quando as folhas vermelhas caem
as mãos apagam as luzes

Nos créditos vem o nome de todos os que participaram e todos os poemas que foram declamados. Falaram e declamaram Alexandre Borges, Leona Cavali, Nilton Bicudo, Clarice Abujamra, Hamilton Faria, Martha Nowill, Nany People, Gero Camilo, Marilia Gabriela, Ignácio de Loyola Brandão, Claire Feliz Regina, Paula Valéria Andrade, Paula Cohen, Marcelino Freire, Guta Ruiz, Rosana Banharoli, Jean Wyllys, Fause Haten e Jorge Emil. Boa parte do elenco é de São Paulo. Seria uma delícia um poemaria em cada cidade, estado, por todo o Brasil.
Poemaria é um
projeto. Há um site com textos, dados, não só sobre o filme. E um aplicativo, onde as pessoas podem declamar poemas e enviar os vídeos. Nos créditos do filme colocaram alguns desses vídeos.
Eu fiquei me imaginando participando do filme, logo eu que odeio aparecer e fiquei escolhendo o poema que gostaria de declamar. E escolhi uma do livro
Invenção de Orfeu de
Jorge de Lima que comentei
aqui.
A ilha ninguém achou
porque todos a sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.
Beijos,
Pedrita