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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Retrato de um Certo Oriente

Assisti Retrato de um Certo Oriente (2024) de Marcelo Gomes no Canal Brasil. Como queria ver esse filme! Eu tinha amado o livro de Milton Hatoum que comentei aqui. Esse diretor está entre os meus favoritos e ele é genial. O filme é retrato, o livro é relato! E que obra de arte! Não é um filme fácil de localizar. Dá pra alugar, mas não está disponível em nenhum streaming. Quem sabe reprisa no maravilhoso Canal Brasil!

Dois irmãos vivem no Líbano. Ele resolve vir para o Brasil, vende a casa da mãe sem consultar a irmã, ela fica muito brava, mas acaba aceitando. Ele não quer ir para a guerra. Ele compra uma passagem só pra ela e pra economizar entra clandestinamente no navio. A escolha do elenco é primorosa. Belíssima Wafa´a Celine Walani que está impressionante, que atriz. A leveza e naturalidade como ela vai absorvendo novas culturas e tomando suas decisões. Seu irmão já é rancoroso e tempestivo, Zakaaria Kaakour.
No navio ela se encanta com um muçulmano, o irmão fica possesso. Os pais deles foram mortos por muçulmanos e ele generaliza. Ela tenta convencê-lo que nem todos iguais, mas o rancor dele é assustador. O muçulmano é interpretado por Charbel Karmel.

Ele a ensina um pouco de português e ela decide seguir com o irmão para Manaus. Os três seguem em um barco. Ela sempre aberta a vida, faz amizades com os passageiros, descendentes de indígenas e vai trocando informações da cultura de cada um. Ela fica muito amiga da personagem de Rosa Peixoto. Tuna Dwek faz uma participação.

Eles vão passar um tempo na floresta, lindíssima a cena ao fundo indígenas em um ritual religioso, a jovem católica rezando e o muçulmano em seu tatame virado ao sol rezando. O filme é milimétrico, poético, com uma fotografia acachapante. Verdadeira obra de arte!

Beijos,

Pedrita

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Prédio Vazio

Assisti Prédio Vazio (2025) de Rodrigo Aragão no Canal Brasil. Eu amo esse diretor e seus filmes de terror e esse é uma verdadeira preciosidade. Sim, é muito, mas muito violento, mas é absolutamente genial! Fiquei estarrecida. E que elenco!

Sim, é um prédio vazio. Começa com uma matéria falando de Guarapari, é Carnaval quando o prédio não fica vazio. Mas como é sinistro o prédio. Eu fiquei curiosíssima para descobrir como tudo foi feito porque é assustador demais. Aragão é mestre em fazer filmes de terror com baixíssimos recursos e orçamentos. Ficava imaginando como tinha feito. No prédio mora um fofo casal de idosos. Começa com os dois na praia e tudo já é assustador. As pessoas alugam os apartamentos no Carnaval. A maravilhosa Rejane Arruda é uma das inquilinas da temporada e está com o namorado pavoroso.
A filha da ótima Lorena Corrêa é sensitiva e tem um pesadelo pavoroso com a mãe. Ela e o namorado de Caio Macedo seguem para Guarapari.

A zeladora do prédio é a inacreditável Gilda Nomacce e seu martelo. que pavor. Eu que sou craque em filme de terror me surpreendi absurdamente ao final. Caí direitinho de tão bem feito que é.

Que filme bem realizado!


Beijos,
Pedrita

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Espelho: 20 Anos Depois

Assisti o primeiro episódio do Espelho: 20 Anos Depois de Lázaro Ramos no Canal Brasil. Eu adoro esse programa e fiquei surpresa que já tem 20 anos. Adoro que nos canais fechados há temporadas de programas, com começo meio e fim. Diferente da tv aberta que arrastam programas sempre iguais. Com temporadas, dá sempre pra refletir e modificar e é sempre o que acontece com o espelho.

Adorei que o primeiro foi com duas jornalistas. Sou fã da Zileide Silva, jornalista que me inspiro e tanto admiro. E Kenya Sade que é muito talentosa também. Zileide falou que no começo eram poucos negros no jornalismo, que ela se inspirava em Gloria Maria. O programa mostrou trechos da entrevista com Gloria Maria. Kenya lembrou que apesar de poucas negras no jornalismo já são mais que no passado. Zileide lembrou da importância de se checar notícias, ainda mais nos dias de hoje. Para procurarmos veículos que apuram as informações muitas vezes, até ser publicada. Para Zileide, Lázaro perguntou o que fazia 20 anos atrás. Zileide disse que estava em Brasília cobrindo política e economia e que na época nem imaginávamos que passaríamos pela pandemia. Kenya comentou que almeja a mesma diversificação do Lázaro, que quer voltar a cantar, que quer dirigir filmes, quer ampliar suas áreas. Lindo como os três se admiram!

Eu vi um entrevista do Lázaro Ramos para o Cinejornal onde ele dizia que seus figurinos agora terão frases icônicas faladas nesses 20 anos de programa pintadas em suas roupas.

Aqui eu comentei o primeiro episódio de 2010 com Wagner Moura.
 

O programa tem um quadro de literatura que adoro com Fernanda Felisberto. Ela começou no Espelho um ano depois de sua existência. Ela conheceu Lázaro em um evento. Ela falou que na época tinham menos publicações de autores negros e que agora não só existem muitos, como temos uma negra na Academia Brasileira de Letras. E falou de vários autores que ganharam evidência também no cenário internacional.
Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Duetto

Assisti Duetto (2022) de Vicente Amorim no Canal Brasil. Eu gosto muito desse diretor. O canal tem colocado filmes que quero muito ver. Esse eu pus pra gravar quando estava passando e vi um pouco depois. O roteiro é de Rita Buzzar e João Segall. Gostei bastante!

O elenco é incrível. O personagem de Rodrigo Lombardi morre logo no começo do filme de acidente de carro. O filme se passa na década de 60. Ele deixa a viúva, a filha e a mãe, as três são as maravilhosas Marieta Severo, Maeve Jinkins e Luisa Arraes. A avó decide ir com a neta para a Itália resolver uma questão de um terreno. A mãe da  jovem não gosta, mas a jovem vai.

É quando entra as paisagens e o elenco italiano. A avó tem uma irmã, Elisabetta de Palo, e seu marido, Giancarlo Giannini. A avó pede que a neta não conte que o pai morreu. Percebemos muitos segredos. Tem 40 anos que a avó não ia mais a Itália.

Na cidade vai acontecer um festival de música com o cantor Marcello Bianchini de Michele Morrone que a jovem é fã. Gostei que a personagem da Thuanny Parente aparece, é uma candidata ao festival e canta uma música.
O casal italiano tem um filho adotivo de Gabriel Leone. São lindos os figurinos.

Beijos,
Pedrita

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Natal dos Silva

Assisti a série O Natal dos Silva de Gabriel Martins no Canal Brasil. A série é dos Filmes de Plástico. Procurei na busca porque não estava no streaming do Canal Brasil, mas no terceiro episódio começou a ficar desencontrado o som com a imagem. Como o Canal Brasil fez maratona com a série, vi no canal voltando pelo controle remoto. São cinco episódios. A série foi realizada em Belo Horizonte com artistas mineiros. A abertura é linda, com os objetos da casa, os de Natal.

É o primeiro ano sem a matriarca da família. Só uma filha mora na casa que foi da mãe. É irmão que não acaba mais, Rejane Faria é a que mora na casa, outros são interpretados por Calandréia Ribeiro, Ítalo Laureano, Marisa Revert, Carlos Francisco, Norberto Novais Oliveira. Eles não brigam mais porque não tem como. Nossa, quanta desavença. Eu entendo que a casa tenha que ser vendida e dividida, é muito irmão, mas dá dó. Espaçosa, a árvore é montada na mangueira no quintal, muitos cômodos. São lindas as cenas em planos sequência dos convidados atravessando a casa.
O filho, Robert Frank, leva a namorada pela primeira vez sem avisar, da doce Aisha Brunno, que personagem lindo, me emocionei. Ela que vai tecendo na doçura todas as desavenças familiares. 

Alguns outros do elenco são Renato Novaes, Preto Amparo e Raquel Pedra. Sempre ao final a família faz a oração e é o último episódio, é quando os ânimos diminuem, as conversas acontecem. Espero que levem pra vida. Me emocionei bastante.
Beijos,
Pedrita

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Os Sapos

Assisti Os Sapos (2024) de Clara Linhart no Canal Brasil. Como queria ver esse filme. Tentei nos cinemas, mas estava em um único horário muito tarde. Nem acreditei que estreou no canal. Assisti voltando pelo controle remoto, mas está no streaming. Que filme repleto de sutilezas, que roteiro de Renata Mizhari inspirado em uma experiência que ela teve. O filme foi gravado em Boa Esperança, em Nova Friburgo.
 

Começa com a personagem da Thalita Carauta, Paula, andando em uma estradinha de terra em uma região só com mata. Ela chega em uma casinha rústica procurando por Marcelo, de Pierre Santos. Ele está na casinha em clima de romance com Luciana de Karina Ramil. Marcelo tinha convidado a turma do colégio para um churrasco na casa dele. Iam se encontrar depois de 20 anos. Desmarcou e esqueceu de avisar a Paula. Eu sabia dessa premissa por isso queria tanto ver. Imagina a situação. Você vai no fim do mundo sozinha, encontrar um colega que não via há 20 anos, em um encontro desmarcado e ele está em intimidade com a namorada. Paula quer voltar na hora, mas é avisada que só há um único ônibus por dia e que só poderia ir embora no dia seguinte. Que situação. Ela resolve então ir ver a cachoeira. Marcelo vai junto.
Toda essa premissa que eu relatei vai desmoronando tijolinho por tijolinho. A casa que o Marcelo convidou os colegas foi na verdade alugada pela namorada que diz pra Paula: "sabe como é", ele não teria como. 

Pra bagunçar ainda mais, surge um outro casal de Paulo Hamilton e Verônica Reis. Ele vai fazer um show irado à noite, mas uns querem a fogueira. Até que se descobre que ele sempre toca as mesmas músicas. Ele desiste do show porque ninguém aparece. Esses dois homens pra lá de babacas e encostados nas companheiras começam a assediar Paula. 
Nós e ela vamos ficando muito desconfortáveis. 

As três mulheres tem profissão, trabalham, enquanto eles são falidos. Pra piorar Marcelo deixa ventilar que Luciana não é namorada dele. Luciana diz que há anos eles estão juntos, mas não são um casal. E se queixa das inúmeras outras que aparecem. Vejam que surreal. Ela aluga a casa que ele ama e vai sempre porque ele não tem condições, mas ele não se dá ao trabalho de assumir a jovem. E pior, ainda dá em cima da antiga colega. Sim, engolimos sapos demais. E só Paula é livre, só Paula se liberta e vai embora. As outras duas infelizmente perdoam os horrores daqueles dois, continuam sustentando os arrogantes que se acham superiores e engolem muitos, mas muitos sapos.
Beijos,
Pedrita

domingo, 5 de outubro de 2025

Virgínia e Adelaide

Assisti Virgínia e Adelaide (2024) de Yasmin Thayná e Jorge Furtado no Canal Brasil. Como queria ver esse filme. Descobri por um acaso indo o olhar o que o canal passava e assisti voltando ao começo pelo controle remoto. É a história da primeira psicanalista do Brasil, Virgínia Bicudo, que teve muita dificuldade de ser reconhecida no Brasil. Ela foi socióloga, mas queria ser médica. Foi impedida de cursar medicina por ser negra. Ela procura a médica, psicanalista alemã judia Adelaide Koch. Inicialmente para fazer psicanálise, mas também para se especializar no tema.
 

Eu adoro essas atrizes, Gabriela Corrêa e Sophie Charlote. As duas interpretam as duas psicanalistas, mas os diálogos são ficção. A história é fato, mas as conversas foram criadas. Elas se conheceram em 1937. Virgínia passou um tempo como paciente de Adelaide, depois passaram a estudar e trocar juntas a psicanálise. Adelaide foi proibida na Alemanha de exercer a medicina e a psicanálise por ser judia, é quando decide ir com a família para o Brasil.
Gostei da estrutura do filme que são só com as duas atrizes. Entre as conversas, elas aparecem em outro formato individualmente contando suas histórias e de suas famílias. As duas sofreram preconceito de raça e dificuldade de exercer suas profissões por sua origem. Virgínia teve familiares escravizados. Seu pai não pode estudar medicina por ser negro. Adelaide era uma respeitada psicanalista na Alemanha, até os nazistas a impediram de exercer a profissão pela raça.

Cansada das dificuldades de estudo no Brasil, Virgínia segue para a Inglaterra onde passa 5 anos estudando. Ela escrevia colunas em jornais, livros e teve uma participação efetiva na psicanálise no Brasil. Estava em todo os importantes grupos de estudos, tinha contato com psicanalistas do mundo todo. Quero ler mais sobre ela.

Beijos,
Pedrita

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Poemaria

Assisti Poemaria (2024) de Davi Kinski no Canal Brasil. Como eu queria ver esse filme. É uma ode a poesia! Várias pessoas declamam e falam sobre poesia. O elenco é muito diverso! A estrutura é a usada por Eduardo Coutinho. Uma pessoa fica em uma cadeira e nós não vemos o entrevistador.


Adelia Prado é quem acaba resumindo brilhantemente o projeto. Ao falar de poesia, ela fala de toda a essência de Poemaria. Sem falar na camiseta dela com coruja que fiquei encantada. Seu carisma é tocante.

Disretmia

Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento
 
 o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
para me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
não existe o destino.
Quem é premente é Deus.

Adélia Prado, Bagagem

Fiquei emocionada em ver a saudosa e talentosa Rosaly Papadopol.


Foi bem emocionante o relato da médica Ana Claudia Quintana Arantes. Ela é médica de cuidados paliativos e contou que estava muito difícil lidar com o trabalho e que foi a poesia que transformou esse momento. Ela encontrou na poesia um respiro e passou a levar também aos pacientes.

Gostei muito de conhecer poetas como Ingrid Morandian.

tu ficaste apenas uma noite
e antes de iniciar o reencontro com as ruas
tomei posse de todos os teus afetos e abraços
rompi com a loucura de subjugar olhares
o toque silencioso das mãos inaugurou a despedida
o afago
nalgum horário da infância, as mãos curiosas
tateavam a vida, as pequenas descobertas
os móveis, os brinquedos, os talheres
a aventura do riso
na puberdade, as mãos ansiavam o desejo
pelo outro, pelas camadas de pelos-bocas-voracidade
mundo habitável, tempestuoso
mais à frente, o muito caminhar, andante alguns anos
nas passagens de tempo e sobrevida
segurar a horda provocadora de tantas tempestades
chega um tempo, elas silenciam, os gestos são pequenos
quase esquecimento do lugar na terra
acompanham a coreografia de anunciação do desprendimento
Bashô sorri quando as folhas vermelhas caem
as mãos apagam as luzes
Nos créditos vem o nome de todos os que participaram e todos os poemas que foram declamados. Falaram e declamaram Alexandre Borges, Leona Cavali, Nilton Bicudo, Clarice Abujamra, Hamilton Faria, Martha Nowill, Nany People, Gero Camilo, Marilia Gabriela, Ignácio de Loyola Brandão, Claire Feliz Regina, Paula Valéria Andrade, Paula Cohen, Marcelino Freire, Guta Ruiz, Rosana Banharoli, Jean Wyllys, Fause Haten e Jorge Emil. Boa parte do elenco é de São Paulo. Seria uma delícia um poemaria em cada cidade, estado, por todo o Brasil.
Poemaria é um projeto. Há um site com textos, dados, não só sobre o filme. E um aplicativo, onde as pessoas podem declamar poemas e enviar os vídeos. Nos créditos do filme colocaram alguns desses vídeos.

Eu fiquei me imaginando participando do filme, logo eu que odeio aparecer e fiquei escolhendo o poema que gostaria de declamar. E escolhi uma do livro Invenção de Orfeu de Jorge de Lima que comentei aqui.

A ilha ninguém achou 
porque todos a sabíamos. 
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia. 

Mesmo nesse fim de mar 
qualquer ilha se encontrava, 
mesmo sem mar e sem fim, 
mesmo sem terra e sem mim. 

Mesmo sem naus e sem rumos, 
mesmo sem vagas e areias, 
há sempre um copo de mar 
para um homem navegar.

Beijos,
Pedrita