Assisti
Lykke-Per (2018) de
Bille August na
Netflix. Eu não vejo esse filme como de uma história de amor. Fala muito mais dos traumas perpetuados na vida adulta, das diferenças culturais, financeiras, preconceitos e religião castradora. É um filme bastante complexo e difícil, inspirado no livro do dinamarquês
Henrik Pontopiddan, escrito entre
1898 e 1904. Impressionante que tenha sido escrito há tanto tempo e tenha tanta noção de psicologia. Esse livro é considerado o mais autobiográfico do autor que agora quero ler.
O protagonista é um homem muito difícil, ambicioso e egocêntrico. Mas conhecendo-o melhor, vemos que ele quer a todo custo provar a família castradora pela religião de que ele é capaz e vai ser bem sucedido em uma área que a família condena. Ele entra na faculdade de engenharia, mas o pai é contra, tinha outros planos pra ele, e diz que não vai dar o dinheiro caso ele siga com o projeto de fazer engenharia.

O protagonista, na ânsia de ser bem sucedido, comete atos que passam do limite do aceitável. Mas talvez ele conseguisse realizar os seus projetos se tivesse uma condição financeira melhor. Me assustou muito como a religião tenta a força obrigar as pessoas a se curvar a sua vontade. O protagonista se recusa, até porque sofreu muita violência na infância. Sim, ele tem pouquíssimo jogo de cintura e para atingir os seus objetivos abusa de comportamentos não éticos e oportunistas. Outra grande personagem é a mulher por quem ele se apaixona. Sim, é principalmente por interesse, por desejar o luxo que ela vive, mas ela tem uma compreensão dos atos dele de modo surpreendente. Tanto que ela monta uma escola para pobres, sem vínculos castradores religiosos, para que as crianças consigam crescer equilibradas e se realizem profissionalmente e pessoalmente. A compreensão dessa mulher sobre a opressão do amado é admirável. Ela é judia, a família dele repudia a união, mas ela é desrespeitada em vários lugares por ser judia, o que acontecia muito e se pensarmos atualmente, há ainda muita intolerância religiosa aos que não são cristãos. O filme mostra muito o contraponto entre a família castradora dele e a família acolhedora dela, mesmo quando a mãe descobre o que a filha fez ela tem apoio incondicional. Ela realmente percebe a diferença de estar em uma família que apoia, ajuda, e a outra que condena, espanca e critica. Ela consegue tomar as decisões, enquanto ele vive confuso com suas escolhas, frustrações e reprovação familiar.

Os dois estão muito bem: Esben Smed e Katrine Greis Rosenthal. O elenco tem ótimos atores: Julie Christiansen, Rasmus Bejerg, Anders Rove, Benjamin Kitter, Tommy Kente, Claus Flygare e Sara Viktoria Bjerregaard Christensen. A direção de arte e reconstituição de época impressionam.
Beijos,
Pedrita