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sábado, 9 de outubro de 2010

Olhos lívidos

















Olhos lívidos pendem-me das cortinas escuras,
são gotas espessas escorrendo pelo vidro gelado
e no parapeito uma poça salgada e difusa
onde vejo o meu rosto desfigurado.

Escondo as cicatrizes nas noites sem luar,
quando as montanhas se dissipam no horizonte
e o céu tinge-se de negro absoluto...
é um véu que se abate sobre a terra clara
e apaga qualquer vestígio de luz.

Morcegos, corujas e mochos,
insectos e lobos
são os únicos sobreviventes desta clausura.
Devoram as presas com prazer e gula
protegidos pela cegueira dos animais diurnos.

Escuto os gemidos atrás da folhagem húmida...
...começou a chover...
o vento empurra-me as portadas de madeira fina
sacode os ramos seminus dos carvalhos
agora ainda mais despidos e solitários
E as nuvens fogem da aurora matinal
cavalgando para a linha umbilical
que prende a terra ao mar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Strong enough


"Strong Enough" - Sheryl Crow


God, I feel like hell tonight
Tears of rage I cannot fight (should be lie)
I'd be the last to help you understand
Are you strong enough to be my man?

Nothing's true and nothing's right
So let me be alone tonight
Cause you can't change the way I am
Are you strong enough to be my man?

Lie to me
I promise I'll believe
Lie to me
But please don't leave

I have a face I cannot show
I make the rules up as I go
Just try and love me if you can
Are you strong enough to be my man?

When I've shown you that I just don't care
When I'm throwing punches in the air
When I'm broken down and I can't stand
Would you be MAN ENOUGH to be my man?

Lie to me
I promise I'll believe
Lie to me
But please don't leave

terça-feira, 2 de junho de 2009

Rosa selvagem


Única flor do meu jardim,
habitas-me a boca do inferno
e dos lábios bebes o néctar
que te alimenta a cor lasciva
enquanto desembainhas as garras assassinas
e me sufocas a vulva líquida!

A lágrima perdida
lava-te a alma imunda,
acariciando-te os espinhos afiados…
… raptores dos rios e lagos macios,
das borboletas coloridas
e da brisa quente
que te serenava as pétalas rubras.

Rosa Selvagem!
És a essência que me perfuma o corpo…
Escudo protector!
Algemas de dor!



quinta-feira, 28 de maio de 2009

Onde estás

Escorrem-me tintas cinzentas
pelos dedos gelados…
Cada gota manchada no rosto
seca-me os poros febris
numa dor muda,
silenciada pelo grito da tua ausência…

Onde estás tu,
entre o nevoeiro cerrado
que deixaste atrás de ti,
entre as cores da paleta,
que só conhecem o cinza…

Onde estás tu?
Quando olho para a tela vazia, nua…
Branco, só branco…berro ensurdecedor...!



terça-feira, 26 de maio de 2009

Trovoada

 
Man Ray

Suor,
lágrimas,
orgasmos,
saliva...
... aroma de corpos em lava…
almas condenadas!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tua

Luz de água
pinta-me as pálpebras cansadas,
humedece-me as pestanas
num fio prateado e macio!

Brisa nocturna
afaga-me o rosto dorido,
enrola-me os cabelos negros
e desliza-me pelo decote escondido
numa carícia quente e doentia!

Desaperta-me a blusa justa, suada…
Refresca-me a pele febril,
suga-me a alma dos poros
que se abrem nus para ti..

Dou-te de beber esta noite!
Solto o meu suco
e rego as tuas vísceras erectas…

Sou tua!



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Está nas nossas mãos

... mudar a cor das lentes com que vemos o mundo, as mãos com que moldamos o barro da nossa existência, os pés com que avançamos e recuamos...

Está nas nossas mãos... perder as lágrimas ou guardá-las nos recantos dos lábios, para lhes saborear a textura macia e salgada...

Look no further... it's in our hands...


sábado, 2 de maio de 2009

The Cosmic Gate

Entra... e deixa-te levar...



sexta-feira, 1 de maio de 2009

Aguarela

Aguarelas turvas

dançam-me na íris escura,

desenham caminhos fantasma,

portas que se abrem vazias…


Pálpebras de luz e água
desaguam no rio da alma,
um fio de acidez crua
que se infiltra na pele muda…

E quando o sol mergulha no mar
a espuma tinge-se de violeta
e as ondas desfazem-se num manto de seda.

Pegadas na areia molhada perdem-se
entre o nevoeiro e a mancha de oceano.
Seco a pele salgada ao vento,
enquanto absorvo os primeiros raios lunares.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ser



Sal…
branco cristalino,
paladar intenso...

To…
Antes do Be,
to be,
com sal
faz salto.

Salto
e sou,
pedra,
grão,
ou flor.

Mutante num planeta estranho…
Seis dedos na mão,
três no pé,
pescoço de serpente,
voz de sereia.

domingo, 26 de abril de 2009

Ser inexistente

Escuto-te do interior desta concha,

febril e húmida.
Vestígios de ti,
espinhos invisíveis
tingem-me a alma de negro!

Olhos de terra presos no horizonte…

Pesadas nuvens
rasgam-me o ventre
encharcado de sal e água!

Puxas-me o cabelo para trás,
enquanto me acaricias as pernas
arranhadas da escalada do tempo.
Voo nas tuas asas de vento.
Sinto-te mesmo inexistente!

Serás fruto do sonho
Da imaginação imbecil?

Quero abraçar-te num só suspiro
Quase homicida, quase suicida,
esvaindo-me num manto de pétalas
sobre um arco-íris perfumado de rosas;
ser alimento de corvos
chuva que cai torrencialmente
maré-cheia, espuma branca na areia
ou raio de luz que beija os mamilos em flor…

Quero ser e não existir…



My Weakness - Moby do álbum "Play"

domingo, 19 de abril de 2009

Casca de limão

Pele rugosa,

Uma fina curva de acidez…


Os poros ainda transpiram

o sumo do gomo a que pertencia,

da fruta vitamínica

que me mantinha viva.


Solto-me da lâmina afiada

que desliza entre a carne e a pele

e esvoaço livremente

por entre a água quente

e o ar frio da noite.


Já não sou fruto,

apenas casca.