(sequência daqui) Um dos eixos principais do documentário é justamente o relacionamento de Jeff com a mãe que desempenha um papel central de narradora ao longo do filme. As entrevistas de Guibert oferecem um olhar profundamente pessoal sobre os anos de formação de Buckley, revelando traços do seu caráter e do intenso mundo emocional que ele habitava e que o habitava. Já em 2000, quando, a propósito da publicação de Mistery White Boy (colecção de actuações as vivo), conversámos em Paris, era absolutamente notório que ela tinha assumido por inteiro o papel de ferocíssima guardiã do legado artístico do filho. Senão mesmo de guia espiritual que, superiormente, lhe orientara o percurso: "Quando ele tinha 3 ou 4 anos, dediquei-me ao estudo da metafísica. Daí que, sempre que ele me fazia o género de perguntas que as crianças fazem, lhe tenha procurado transmitir o conceito de que cada um de nós é uma partícula de deus, da mesma forma que uma gota de água faz parte do oceano e que o nosso objectivo consiste em gozar a vida na sua plenitude. Quando descobriu o poeta sufi, Rûmi, foi como se tivesse encontrado uma luz naqueles poemas". E, estabelecendo a relação entre todos esses fios de sentido, "Foi isso que o conduziu até Nusrat Fateh Ali Khan e ao modo de vida sufi que é completamente o oposto de uma atitude ascética e monástica de rejeição do mundo material: viver a vida, casar-se, ter filhos, trabalhar, e, ao mesmo tempo, cultivar o amor pela vida. É muito fácil descobrir a iluminação num mosteiro mas já não é tão fácil fazê-lo numa autoestrada". Berg combina essas reflexões com a narrativa mais ampla da vida de Buckley, mostrando como a sua sensibilidade e turbulência interiores desempenharam um papel crucial na formação de sua expressão artística. (segue para aqui)
19 July 2024
"Na Gul"
(sequência daqui) Em "Na Gul", apossando-se de um poema de Mah Laqa Bai Chanda, música indiana de Hyderabad e cortesã do século XVIII, Arooj coloca-a em diálogo com Chand Bibi, rainha de Ahmadnagar, do século XVI, que desagua num estuário de barroco oriental; "Aey Nehin" oferece um voluptuoso tapete de repuso harmónico; "Bolo Na" serpenteia por entre as profundas frequências do contrabaixo e e a melodia flutuante da voz; "Autumn Leaves" ("Les Feuilles Mortes", de Joseph Kosma) deixa-se extirpar de todos os clichés acumulados, mas, em contraluz, permanece fantasmaticamente reconhecível; "Last Night Reprise", sobre uma poesia de Rumi, hesita entre o enraizamento granítico e o voo desordenado; e "Whiskey" é a canção que um Tom Waits hindustânico deveria ter escrito para Rickie Lee Jones. Com os quais, como o título do álbum denuncia, Arooj partilha uma particular afeição pelas horas tardias ("Toda a gente parece melhor quando a noite cai. Não gosto de ver as pessoas à luz do dia. É do conhecimento universal que os músicos adoram a noite. A noite é nossa amiga, oferece-nos um abrigo no qual podemos mover-nos sem nos expormos tanto"). Mas, em qualquer dos casos, qual Bob Dylan pós-Newport, recusando sempre o papel de porta-voz de uma qualquer causa que lhe estaria supostamente atribuida: "Detesto ser rotulada. Não desejo transformar-me numa pessoa responsável pela defesa de uma qualquer tradição. Um artista é imensas coisas em simultâneo. Muita gente diz: 'Ela é uma cantora de ghazal (forma poética originária da Pérsia do século VII)'. Outras interrogam-me: 'Pode falar-me sobre aqueles textos secretos antigos que canta na sua música tradicional?' Por vezes, num concerto, no final da primeira canção, há já quem diga 'Ah... afinal, ela não é a deusa sufi que viemos escutar. Está a beber vinho tinto e a dizer palavrões ao microfone'. Só me apetece dizer-lhes: 'Não querem escrever um guia acerca de como eu deveria ser? Prometo que vou tentar segui-lo!'"
11 July 2024
"Aey Nehin"
(sequência daqui) Foi no intervalo de tempo entre esses dois álbuns (com Love In Exile, de 2023 - na companhia do pianista e compositor, Vijay Iyer, e do multi-istrumentista Shahzad Ismaily -, de permeio) que a miúda paquistanesa emigrada aos 19 anos para os EUA com o objectivo de frequentar o Berklee College of Music identificou exactamente o alvo que perseguia: se o ambiente familiar liberal já a orientara para a devoção a Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Abbey Lincoln, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen, em Boston e, posteriormente, Brooklyn a missão consistia agora em criar uma sonoridade que não decorresse de nenhum modelo pré-existente. "Vulture Prince foi um álbum profundamente ancorado na tradição e na minha interpretação do que isso significa, do que significa a herança cultural, do que significa a nossa casa, do que a poesia Urdu descreve e como articular tudo isso. Mas, uma vez que o fiz, de certo modo, libertei-me e criei uma base para aquilo que pretendia construir". 20 anos após a chegada à Big Apple e concluída a formação no Berklee, permite-se já declarar com total segurança ao "Exclaim Magazine: "Não me deixo confinar pelas regras da música. Sendo alguém que cria coisas novas, trata-se talvez apenas de irreverência. Mas é uma atitude de ousadia e coragem que me parece faltar muitas vezes na música. Temos demasiado medo. É a consequência de vivermos numa sociedade profundamente capitalista na qual é obrigatório que as coisas se vendam. Para mim, foi sempre absolutamente natural ir contra a corrente e estar-me nas tintas para o resto". (segue para aqui)
22 June 2023
SEM NUNCA NOS PERDERMOS
Conhecemos Arooj Aftab aquando da publicação, em 2021, de Vulture Prince, precioso exercício de fusão molecular entre ghazals paquistaneses, a poesia de Rumi, guitarra acústica, harpa, trompete, sintetizadores, violino e contrabaixo, respondendo ao apelo da voz de sereia de Arooj. Ela nascera na Arábia Saudita mas, durante a adolescência, emigrara com a família – “progressistas, liberais, super cool” que, contou ela à “Songlines”, lhe deram a conhecer Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen - para o Paquistão. Daí, aos 19 anos, viajaria até Boston para estudar no Berklee College of Music, acabando por fixar-se em Brooklyn. A propósito do Grammy para Best Global Music Performance que, em 2022 lhe foi atribuído, diria: “Tenho raízes em tantos lugares diferentes. Passei os últimos 20 anos a viver e a crescer musicalmente em Nova Iorque. Por isso, não me vejo na qualidade de artista ‘world’ ou ‘global’. A minha música é o resultado das minhas experiências. Não quero ter nada a ver com esta tolice de me arrumarem numa caixa. Aprendi que as coisas que herdamos podem provir de onde quer que estejamos. É esse o motivo por que a música que faço vai além da tradição. É singular, minha, parte da minha vida”. (daqui; segue para aqui)
"To Remain/To Return"
31 May 2022
LABIRINTO
Foi em Milwaukee, a 30 de Setembro de 1859, numa feira da Wisconsin State Agricultural Society, que Abraham Lincoln contou a história de um monarca oriental que dirigiu aos sábios às suas ordens o desafio de inventar uma frase capaz de exprimir a realidade em todas as épocas e circunstâncias. Observando antes que, se ocasiões como as de então proporcionavam benefícios duradouros, “os vencedores, se aliviarem o seu esforço, serão rapidamente vencidos, e os derrotados de hoje hão-de triunfar mais tarde”, Lincoln acabaria por revelar a frase que seria proposta ao monarca: "And this too shall pass away". Aparentemente originária da poesia Sufi persa, haveria de ressurgir sob formas diversas (Bob Dylan: “For the loser now will be later to win, for the times they are a-changin'”) e também agora, de modo deliberadamente inacabado – This Too –, enquanto título do segundo álbum do extraordinário Kinnaris Quintet. (segue para aqui)
Live at MG ALBA Scots Trad Music Awards
22 November 2016
SÓ A VOZ E AS PALAVRAS
Na madrugada da sexta-feira de há duas semanas, demo-nos conta de que estávamos há quatro dias sem Leonard Cohen e só nessa altura tínhamos reparado. Quando nos chamaram a atenção para isso, compreendemos rapidamente que terem-no feito antes, em plena tempestade que se desencaderia no dia a seguir a termos deixado de o ver (“Morrer é só não ser visto”, explicou outro poeta), poderia apanhar-nos demasiado desatentos para reparar que o que se passava diante dos nossos olhos já ele o havia visto claramente, muito antes, em 1988: “Everybody knows that the plague is coming, everybody knows that it's moving fast (…) Everybody knows that the dice are loaded, everybody rolls with their fingers crossed, everybody knows that the war is over, everybody knows the good guys lost, everybody knows the fight was fixed, the poor stay poor, the rich get rich, that's how it goes, everybody knows”. Vinte anos antes, imaginara, com caracter de urgência, outro mundo: “Espero que as mulheres se apressem e tomem o poder. Vai acontecer inevitavelmente, por isso será melhor que se despachem. Poderemos, então reconhecer, finalmente, que as mulheres são a mente e a força que sustentam o mundo; os homens são apenas coscuvilheiros e artistas. Nós ficaríamos entregues às nossas tarefas infantis e elas manteriam o mundo a funcionar. Sou realmente a favor do matriarcado”. É possível que isso tenha alguma coisa a ver com uma história que Iggy Pop conta sobre um dia em que ambos – é verdade, eles davam-se – se entretinham a ver anúncios classificados num jornal. Num deles, uma mulher desejava conhecer um homem “com o corpo de Iggy Pop e o espírito e a sensibilidade de Leonard Cohen”. A resposta seguiu por carta, com a assinatura de ambos.
É uma oportuna – ainda que oblíqua – deixa para varrer já do terreno um ou dois obstáculos que sempre obstruiram a porta de entrada para a obra de Cohen, dos quais, só há quatro anos, a propósito de Old Ideas, me apercebi com clareza. Perdoem se me repito: “À excepção da catedral em forma de abismo, Songs Of Love And Hate – e, mesmo aí, por motivos (sérios mas secundários) de ordem exclusivamente cenográfica –, nele, a música não tem a menor importância. Em qualquer dos doze álbuns que, desde 1967, registou, apenas duas coisas contam: os textos e a voz. No limite, poderia até dizer-se que toda a sua discografia é exclusivamente um exercício de "spoken word", musicalmente emoldurado, e isso também nos casos em que o que contém mais possa assemelhar-se a canções. Pelo que, não faz qualquer sentido valorizar ou desvalorizar cada disco de acordo com a sua suposta ‘qualidade’ musical: preferencialmente aconchegadas à austeridade folk ou enquadradas por arranjos de salão de baile pelintra (como se Leonard só soubesse salmodiar – isto é, entoar cânticos de louvor – demolindo a solenidade em atmosferas profanas de lupanar), voz e palavras precisam de pouco mais que um embalo para acharem a cadência exacta. Se possível, amparadas pelo sopro de coros femininos. Não por serem coros mas por serem femininos”.
Por coincidência (ou não, com Leonard Cohen nunca se deve estar demasiado seguro), são também de Old Ideas duas canções que ajudam muito a vê-lo mais de perto. Numa, "Going Home", falando de si para si, em solilóquio ironicamente auto-depreciativo, primeiro apresenta-se: “I love to speak with Leonard, he’s a sportsman and a shepherd, he’s a lazy bastard living in a suit, but he does say what I tell him, even though it isn’t welcome, he just doesn't have the freedom to refuse, he will speak these words of wisdom, like a sage, a man of vision, though he knows he’s really nothing but the brief elaboration of a tube”. E, logo a seguir, desmonta a caricatura: “He wants to write a love song, an anthem of forgiving, a manual for living with defeat, a cry above the suffering, a sacrifice recovering, but that isn’t what I need him to complete, I want him to be certain that he doesn’t have a burden, that he doesn’t need a vision, that he only has permission to do my instant bidding, which is to say what I have told him to repeat”. Na outra canção, "Darkness", antecipava, afinal, aquilo (“I caught the darkness drinking from your cup, I said is this contagious? you said just drink it up, I got no future, I know my days are few, the present's not that pleasant just a lot of things to do. I thought the past would last me but the darkness got that too”) que, quando notou que, para o entendermos, era necessário carregar no traço, reescreveu em forma de provocação: You Want It Darker.
Judeu quase involuntário (“De facto, não me foi oferecida a oportunidade de escolher entre ser franciscano ou judeu. É verdade que essa tradição era muito forte na minha casa. Mas nunca ninguém me disse que existia um deus e, se existia, o que pretendia de mim. Havia uma total ausência de tirania teológica. O que, vivendo eu numa cidade fortemente católica, contrastava imenso com as histórias de horror que os meus amigos me contavam sobre as suas relações com os padres. Cresci sem sentir quaisquer obrigações em relação a nenhum ser supremo”, confessava-me ele, em 1994, à beira de um café, em Madrid), atraído pelos místicismos cristãos, sufis, tântricos, “todos esses processos de união com deus que passam por uma metáfora sexual, por uma embriaguês com o ser amado, a ideia de me render como um ébrio perante esse mistério”, desde o início dos anos 60, tinha uma noção exacta de a quem se dirigia. Numa carta a um editor de poesia, identificava, então, os seus hipotéticos leitores: “inner-directed adolescents, lovers in all degrees of anguish, disappointed platonists, pornography-peepers, hair-handed monks, popists, French-Canadian intellectuals, unpublished writers and curious musicians”. Três anos depois de Madrid, pedi-lhe que explicasse o porquê de, na compilação que, por essa altura, publicava, incluir "The Great Event", um poema em prosa recitado por Victoria (uma voz "text-to-speech" dos MacIntosh da época) no qual anunciava que “o Grande Acontecimento que irá pôr fim ao louco mergulho da humanidade no sofrimento será o momento em que tocarei a ‘Sonata Ao Luar’ do fim para o princípio”. Jikan, o Pouco Convincente, monge zen no mosteiro de Mt. Baldy, aliás, o Fundador da Ordem do Coração Unificado e discípulo de Roshi com quem aprendeu a distinguir correctamente um Rémy Martin de um Courvoisier, respondeu-me “É uma metáfora para a esperança, para uma esperança desesperada e absurda. Uma esperança sem qualquer esperança a que todos temos de nos agarrar e que é tudo o que possuímos”. O também Field Commander Cohen, “patron saint of envy and the grocer of despair”, dizia que “a poesia é só uma prova de vida. Se a vida arde bem, a poesia é apenas as cinzas”. E, amavelmente, punha termo a uma conversa, declarando: “Quando me embrenho na escrita lenta e dolorosa de uma canção, há certas realidades maiores e melhores do que eu que se manifestam e que já não comando. O resto é só a minha vida pessoal, tola e caótica”.
13 January 2016
NENHUMA BANDEIRA
Não estará próximo de vir a tornar-se realidade mas não é proibido sonhar: uma comunidade da apreciadores de Monteverdi entre os Guarani do Brasil; uma rede oculta de praticantes de rockabilly no Conselho Geral da Opus Dei; uma célula clandestina de discípulos do pacifismo de Gandhi nos mais elevados escalões do Daesh; um nicho de fãs do "twerking" no interior da ordem sufi dos dervixes rodopiantes. Uma espécie de brigadas de guerrilha contracultural empenhadas no combate à ditadura dos estereótipos identitários (genuínas armas de destruição massiva, diria Amin Maalouf) e na oposição à obediência fiel às “tradições” da nação, da religião, da tribo, do partido e do clube, radicais livres do levantamento contra uniformes e emblemas que bem poderiam fazer seu o verso de Rûmi “Apenas o mastro em que a bandeira é hasteada e o vento. Nenhuma bandeira”. Não é, realmente, proibido sonhar e passar os olhos por alguma literatura será uma boa ajuda. Por exemplo, The Invention Of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, ou Imagined Communities, de Benedict Anderson, exemplares desmontagens de várias ficções de carácter mais ou menos letal.
Entretanto, vale a pena ir prestando atenção a extraordinários pioneiros como aqueles que, no “Guardian”, as foto-reportagens de Frank Marshall e Paul Shiakallis têm dado a conhecer: a subcultura das bandas de heavy metal do Botswana, os "marok", seus fãs, e – publicadas no passado dia 25 – as imagens das “leather-clad rock queens of Botswana”, amazonas feministas do Kalahari, protagonistas do projecto de Shiakallis, Leathered Skins, Unchained Hearts, “um diálogo entre a fluidez da identidade e os seus imensos rostos, como ela se revela e esconde – a relação com os arquétipos da cultura africana e o modo pelo qual as 'marok queens' a reinventam”. No menos corrupto país africano (segundo a Transparency International, em igualdade com Portugal no ranking mundial, duvidosa honra para o campeão da democracia em África), inspiradas pela New Wave of British Heavy Metal do final dos anos 70, personagens que respondem por Dead Demon Rider, Coffinfeeder ou Ishmael Phantom Lord, filhos e netos não caucasianos dos Motörhead e Iron Maiden pouco dados a reverências perante o folclore local, magnificamente alheios às cartilhas da "apropriação cultural", quais Hell’s Angels da savana reconfigurados por Tarantino, imaginam um universo alternativo, com o centro em Gaborone e um raio de dimensão ainda por calcular.
"Made attractive to men is the love of desires – women
God has made her attractive, so how can men escape from her?
Since He created Eve, so that Adam might find repose in her, how can Adam cut himself off from her?
(...)
She is the radiance of God, she is not your beloved. She is the creator – you could say she is not created". (Rumi, sec XIII)
(2011)
29 July 2008
THE JOB OF PERMANENT UNEMPLOYMENT
"Paresse et luxure ou le sommeil" - Gustave Courbet, 1866
"As for us, He has appointed the job of permanent unemployment.
If He wanted us to work, after all,
He would not have created this wine.
With a skinfull of this, Sir,
Would you rush out to commit economics?"
(Rumiin Diwan-e Shams)
(2008)
16 March 2008
SINFONIAS QUÂNTICAS
Opiate - While You Were Sleeping
Thomas Knak, um terço dos dinamarqueses Future 3 (os outros dois terços são Jasper Skaaning e Anders Remmer, identificáveis também em Acustic, Altra e Dub Tractor), é Opiate. E While You Were Sleeping, como também, noutro plano, o recente Chiff-Chaffs & Willow-Warblers de Minotaur Shock, é uma delicada e minuciosa orquestra electrónica de câmara de um único executante dedicada à confecção de hologramas em miniatura que reproduzem sonoramente o movimento browniano das partículas, uma poética ultramicroscópica do infinitamente pequeno transposta para o contexto musical:
altura, timbre, volume e duração como unidades fractais mínimas, filigranas de "mobiles" calderianos suspensos sobre o universo electro-acústico, imobilizações e repetições de um único compasso num eco em espiral sobre si mesmo, o cruzamento de reflexos e refracções de luz convertidos em vibração audível, o processo de replicação viral observado em caldo de cultura digital. Colaborador de Björk em Vespertine (de que aqui é recuperada a matriz quintessencial de "Undo"), Thomas Knak dá-nos a ouvir as rarefeitas sinfonias quânticas misteriosamente alojadas na matéria e, de súbito, somos todos monges zen e extáticos sufis. (2002)
24 October 2007
INTERNATIONAL RUMI YEAR (VIII) "Only the holder the flag fits into and wind. No flag"
Keep walking, though there's no place to go to.
Don't try to see through the distances.
That's not for human beings. Move within,
but don't move the way fear makes you move.
No better love than love with no object,
no more satisfying work than work with no purpose.
If you could give up tricks and cleverness,
that would be the cleverest trick.
(trad. Coleman Barks e John Moyne)
(2007)
30 September 2007
INTERNATIONAL RUMI YEAR (VII) (September 30, 1207–December 17, 1273) "Only the holder the flag fits into and wind. No flag"
Outside, the freezing desert night.
This other night inside grows warm, kindling.
Let the landscape be covered with thorny crust.
We have a soft garden in here.
The continents blasted,
cities and little towers, everything
become a scorched, blackened ball.
The news we hear is full of grief for that future,
but the real news inside here
is there's no news at all.
(trad. Coleman Barks e John Moyne)
(2007)
24 September 2007
INTERNATIONAL RUMI YEAR (VI) "Only the holder the flag fits into and wind. No flag"
I have lived on the lip
of insanity, wanting to know reasons,
knocking on a door. It opens.
I've been knocking from the inside.
The way of love is not
a subtle argument.
The door there
is devastation.
Birds make great sky-circles
of their freedom.
How do they learn it?
They fall, and falling,
they're given wings.
(trad. Coleman Barks e John Moyne)
(2007)
12 September 2007
INTERNATIONAL RUMI YEAR (V) "Only the holder the flag fits into and wind. No flag"
Stay together, friends
Don't scatter and sleep.
Our frienship is made
of being awake.
The waterwheel accepts water
and turns and gives it away,
weeping.
The way it stays in the garden,
whereas another roundness rolls
through a dry riverbed looking
for what it thinks it wants.
Stay here, quivering with each moment
like a drop of mercury.
In the slaughterhouse of love, they kill
only the best, none of the weak or deformed.
Don't run away from this dying.
Whoever's not killed for love is dead meat.
(trad. Coleman Barks e John Moyne)
(2007)
02 September 2007
METAL NOBRE
Richard Thompson - Sweet Warrior
Uma extraordinária singularidade cósmica deverá seguramente ter tido lugar a 27 de Maio de 1967, com efeitos particularmente intensos sobre a região de Londres: no mesmo dia e, muito provavelmente, à mesma hora, na igreja de St Michael (a noroeste da capital britânica) e no Royal Festival Hall, subiam pela primeira vez a um palco, respectivamente, os Fairport Convention e os Pentangle. Por outras palavras, apenas as duas bandas (faltará apenas somar-lhes os Steeleye Span, constituídos dois anos mais tarde pelo dissidente dos Fairports, Ashley Hutchings) que estiveram na origem do “big-bang” que criou o folk-rock britânico e, de caminho, começou a desenrolar o novelo de uma das mais intrincadas genealogias – entre grupos, subgrupos, projectos laterais e carreiras individuais – da música popular. A reforçar ainda mais o elevado grau de improbabilidade de tudo isto acontecer, em ambas as bandas se encontravam dois elementos sem qualquer relação familiar mas com o mesmo apelido: Richard Thompson e Danny Thompson.
Aligeiremos a revisão da matéria histórica e recordemos apenas que, acerca de Richard Thompson, nunca será excessivamente sublinhado quanto ele (nos álbuns com Linda Thompson e a solo) adquiriu o estatuto de membro de absoluto direito do mui exclusivo clube de “songwriters” onde nos habituámos a encontrar Dylan, Cohen ou Elvis Costello – não esquecendo que, enquanto guitarrista, tem lugar cativo naquele panteão onde não é autorizada a entrada ao primeiro Eric Clapton que bata à porta; Danny Thompson, contrabaixista, não só já detinha respeitável currículo pré-Pentangle, como, posteriormente, o enriqueceu, ao lado de John Martyn, June Tabor, T. Rex, Nick Drake, Marianne Faithfull, Tim Buckley, Kevin Ayers, Moondog, Incredible String Band ou David Sylvian... e do próprio Richard Thompson (onze álbuns desde 1988, para além do magnífico Industry, 1997, co-assinado por ambos). Ah!... e (sim, é verdade) ambos se converteram ao sufismo islâmico.
É, então, perfeitamente natural voltar a descobri-los juntos em Sweet Warrior, o novo opus de Richard após Front Parlour Ballads (2005), com interpolados DVD (1000 Years Of Popular Music) e portentoso caixotão de 40 anos de raridades e inéditos (The Life & Music Of Richard Thompson), os dois de 2006. “Um álbum de tempo de guerra” é como Thompson o qualifica, socorrendo-se de um soneto de Edmund Spencer (“Sweet warrior when shall I have peace with you? High time it is the war now ended were”) para lhe definir os contornos: o conflito demasiado humano entre as eternas personagens de enredos de “love gone wrong", entre absurdos impérios, pátrias e povos (o Iraque do devastador “Dad’s Gonna Kill Me” – “It’s somebody else’s mess that I didn’t choose, at least we’re winning on the Fox Evening News” – ou a Irlanda de “Guns Are The Tongues”), entre menos que nada e as vis iniquidades domésticas (“And by and by they get get down to the job of man and wife, back to the old comforts of the missionary life”), em catorze sobrenaturais canções esculpidas naquela matéria-prima a que a tradição britânica, a fibra do rock’n’roll e uma certa sobriedade enxuta conferem a indispensável densidade de metal nobre para edificar mais um clássico instantâneo de Richard Thompson. (2007)
28 August 2007
CANÇÕES DE AMOR E ÓDIO
Richard Thompson - RT: The Life And Music Of Richard Thompson
Ambrose Bierce bem se poderá ter divertido a amarrotar o ego de muito e bom músico (no Dicionário do Diabo, entre vários outros amáveis exemplos, definia "acordeão" como "instrumento que está em harmonia com os sentimentos de um assassino" e explicava que "piano" era um "utensílio de salão que serve para subjugar o visitante impenitente; para o pôr a funcionar, primem-se as teclas e deprimem-se os ouvintes") que não foi isso que impediu Richard Thompson de, na contracapa do seu primeiro álbum a solo (Henry The Human Fly, de 1972), citar a sua definição de "mosca": "um monstro do ar que presta obediência a Belzebu. (...) Ela é o Rei, o Chefe, o Patrão! Saúdo-a". Nada de surpreendente em Thompson.
Quando o interrogaram acerca do significado do título de Mirror Blue (1994), referiu o poema de Tennyson, "The Lady Of Shalott" ("And sometimes thro' the mirror blue, the knights come riding two and two, she had no loyal knight and true, The Lady Of Shalott") e esclareceu que "a Senhora é uma figura amaldiçoada, apenas vê a realidade como um reflexo. Se olhar directamente para o mundo, morre. O mesmo se poderia dizer da música. Não que, por causa dela, possamos morrer, mas porque se trata apenas um reflexo da realidade".
Richard Thompson, nada de confusões, é o exacto contrário do "name dropper". Mas, a um dos seus biógrafos, Patrick Humphries (Richard Thompson: Strange Affair, The Biography), chegou a confessar que não seria uma ideia completamente idiota incluir uma bibliografia nas capas dos seus discos. Dave Smith (em The Great Valerio - A Study Of The Songs Of Richard Thompson), por outro lado, raia o absurdo na tentativa de demonstrar como praticamente tudo o que ele compôs se inscreve na directíssima descendência de T.S. Eliot, Yeats, Blake, Shakespeare, Robert Graves, a Bíblia e o Corão (para ficarmos por uma síntese moderada).
Ainda que, de caminho, se tenha dado ao trabalho de — nas trezentas e tal páginas da exegese — demonstrar como, nas canções de Thompson (ou como ele postula: "numa típica canção de Richard Thompson"), estão invariavelmente presentes, pelo menos, oito "clusters" temáticos, de que os mais frequentes são "violência/armas/sangue/guerra/tortura" (64%), "amor/ódio/coração" (56%), "riqueza/pobreza/roubo" (50%), "morte/sepultura/fantasmas" (40%) e "luz/trevas/dia/noite/sol/lua" (36%). Adicione-se a isto a afirmação de Greil Marcus que garante que "muitas vezes, Richard Thompson parece cantar os anos da peste, caminhando atrás de uma carroça cheia de cadáveres", recupere-se o que Thackeray dizia do mesmo Tennyson mencionado umas boas linhas atrás ("ele lê todo o tipo de coisas, engole-as e digere-as como uma gigantesca boa-constrictor poética") e teremos o retrato acabado de Richard Thompson "songwriter" erudito, gótico e infernal, profeta de todas as abominações e apocalipses.
É uma boa parte da verdade mas está bastante longe de ser a verdade toda. Porque esse é precisamente o mesmo Richard Thompson que, em 1000 Years Of Popular Music (2003), acha perfeitamente razoável incluir nos "all time classics" do milénio, "Oops! I Did It Again", de Britney Spears (é verdade, ele até tem um bem avinagrado sentido de humor). E que, a Paul Zollo (Songwriters On Songwriting), indica como modelos Buddy Holly, The Shadows, Scotty Moore, Les Paul, Django Reinhardt e, sobre todos, Bob Dylan. E Phil Ochs. Do qual, fez questão de actualizar, em contexto pós-Iraque, o militante "I Ain't Marching Anymore". Mas também aquele outro que, por ocasião do nascimento da filha, Muna, escreveu a "lullabye" — "The End Of The Rainbow" — definitivamente suicidária ("I feel for you, you little horror, safe at your mother's breast, no lucky break for you around the corner, 'cos your father is a bully and he thinks that you're a pest, and your sister, she's no better than a whore"), o mesmo que suplicou que, no dia em que alinhasse na peganhenta tradição confessionalista dos "singer-songwriters", lhe dessem um tiro na testa, e o que (mas, façam um esforço, compreendam a crucial diferença) desde há mais de trinta anos, aderiu ao sufismo islâmico.
São todos estes Richard Thompsons que se podem encontrar nesta sua "arca da vida" tematicamente organizada. Nem uma só gravação foi antes publicada. Ninguém também sonhe — entre incontáveis "bootlegs", inúmeras colaborações, obscuridades avulsas, versões alternativas, reeencontros, bandas paralelas, amabilidades várias e gravações oficiais — possuir-lhe, alguma vez, a interminável discografia exaustiva. Mesmo no que respeita a clássicos miseravelmente ignorados como os magníficos Industry (1997) ou o renascentista, escatológica e exuberantemente radical, The Bones of All Men (1998). Mas, desta vez (na compilação, até aqui, indiscutível, do que nunca antes ouvimos), há cinco CD — as marcas urbanas de Londres, as escolhas dos fâs, a guitarra além-estrelas, as versões e os inéditos absolutos —, onde, dos Fairport Convention ao estado de graça com Linda Thompson e a tudo o que veio a seguir, se pode ganhar infinitamente mais do que muitas vidas a abocanhar sofregamente música e palavras. (2006)
25 August 2007
RICHARD THOMPSON - SOLITARY LIFE (documentário BBC 2003, narrado por John Peel)
(2007)
24 August 2007
ESPREITANDO AS ARCAS DO TESOURO
Aos Fairport Convention, deve-se muito mais do que à maioria das bandas de qualquer género: a fundação do folk-rock britânico (alegadamente, à maneira de Cristovão Colombo: pretendiam emular os Jefferson Airplane e foram ter a outro lugar muito diferente); uma discografia portentosa e interminável com What We Did On Our Holidays, Unhalfbricking e Liege And Lief à cabeça; uma cantora e "songwriter", Sandy Denny, sobrenaturalmente excepcional; uma ilustríssima descendência (Steeleye Span, The Bunch, Fotheringay, a série Morris On, as várias Albion Bands, Home Service, Carnival Band e é melhor ficarmos por aqui...); e um gigantesco guitarrista e autor-compositor, Richard Thompson.
Foi o próprio Thompson que, no prefácio de uma biografia ainda por publicar de Sandy Denny, da autoria de Pamela Murray Winter —, escreveu: "Por estes dias, não ouvimos Sandy Denny na rádio. Os seus discos, apesar de poucos, não se ajustam aos formatos correntes, não provocam paroxismos aos programadores, não põem os ouvintes a votar. Nunca se pensa nela a propósito da nostalgia dos êxitos dos anos 60 e 70: ela nunca teve êxitos. Estações de rádio de rock? Nunca vendeu álbuns em número suficiente. Até Nick Drake se consegue insinuar num ou noutro programa de 'easy listening', com a sua música embaladora dissimulando a dor que a habita através de uma superfície atraente, algo de romântico a que um culto se pode agarrar. Mas onde está o culto de Sandy? Onde estão os vigilantes da sepultura à maneira de Jim Morrison? As dissertações culturais dos suplementos? Os epitáfios do South Bank Show e os maus 'biopics' que nos informam acerca de quem deverá ser importante para as nossas vidas? Algures pelo caminho, os gurus do gosto falharam na sua missão junto do rebanho, não conseguiram dizer-nos, após vinte anos de oportunidades para isso, que Sandy Denny foi a maior artista britânica da sua geração". E, depois de caracterizar o encontro entre os Fairport Convention ("um grupo de tímidos e reservados intelectuais do Norte de Londres") e Denny em 1968 — altura em que esta se juntaria ao grupo substituindo a anterior cantora Judy Dyble — como "uma colisão entre um Mini e um camião carregado de tijolos", Thompson confessa: "Ela ensinou-nos a exprimir as nossas paixões musicais, deu-nos uma voz autêntica no limite mais agudo da nossa criatividade e fez-nos deitar cá para fora tudo o que tínhamos sem nos preocuparmos com mais nada. (...) Talvez seja preciso uma campanha concertada para colocar Sandy no mapa, no lugar que merece. É tempo para uma justa avaliação de Sandy e talvez seja apenas uma questão de clima: agora que a poeira assentou acerca dos excessos hippies dos anos 60, podemos perceber melhor quem era verdadeiramente criativo e quem era apenas perturbado".
(som periclitante...)
É este o texto que também abre o indispensável "booklet" biográfico que se inclui naquela que poderá ser a última peça essencial para essa urgente reavaliação de Sandy Denny: a sumptuosa caixa de cinco CD, A Boxful Of Treasures — aliás, o título original da canção (que aqui se escuta na primitiva versão) que acabaria por se chamar "Fotheringay" —, viagem diagonal através da preciosa discografia de Alexandra Elene MacLean Denny, nascida a 6 de Janeiro de 1947 numa pacata família da classe média de Wimbledon e desaparecida 31 anos depois, vítima de hemorragia cerebral, em consequência de um absurdo acidente doméstico.
(imagem e som... é o que há)
Aqui, em 90 faixas (das quais, mais de um quarto inéditas), tanto das gravações "oficiais" com os Strawbs, Fairport, Fotheringay, The Bunch, Ian Matthews ou a solo, como de "home tapes", registos ao vivo ou sessões de rádio, fica absolutamente patente o desmedido talento de alguém que, da folk, ao rock ou à canção de veia mais tradicionalmente clássica, desenhou um percurso absolutamente singular como cantora (só Linda Thompson e June Tabor se arriscariam a ser comparadas com ela) e "songwriter" de melodias enganadoramente serenas e textos de uma melancolia perturbada que, ainda assim, não deixavam verdadeiramente adivinhar uma real personalidade terminalmente excessiva, desequilibrada, insegura e, ano após ano, crescentemente alcoólica. Foi a 27 de Novembro de 1977, em Londres, no Royalty Theatre de Portugal Street, que Sandy Denny deu o seu ultimo concerto. Encerrou-o com "Who Knows Where The Time Goes?". Uma das suas mais belas canções para que ela não teve (e nós continuamos a não ter) resposta.
Sobre Richard Thompson, entretanto, o momento também é favorável para que definitivamente fique clara a invulgar dimensão (como autor-compositor e guitarrista) daquele sobre quem Greil Marcus escreveu "tudo estava lá desde o início - ou, pelo menos, desde aquele dia em 1968, quando, como elemento dos Fairport Convention, escreveu as linhas impossivelmente duras e impiedosas de 'Tale In A Hard Time': 'Take the sun from my heart, let me learn to despise'". Ou que, enquanto objecto de estudo e de análise nas monumentais 330 páginas que lhe dedica Dave Smith em The Great Valerio - A Study Of The Songs Of Richard Thompson, não apenas o coloca na descendência directa de Yeats, Blake ou Eliot como — citando o que este último afirmou sobre John Webster — o descreve "much obsessed with death, he saw the skull beneath the skin". Identificar "o melhor de Richard Thompson" (em duo com Linda Thompson ou a solo) é tarefa de catalogador psicótico. O melhor é praticamente tudo. Mas e recente reedição ("digitally remastered" e com faixas-extra) dos três primeiros álbuns com Linda, I Want To See The Bright Lights Tonight (1974), Hokey Pokey (1975) e Pour Down Like Silver (1975) bem como do DVD The Richard Thompson Band/Live In Providence pode abrir, sem dúvida, duas ou três portas bem iluminadas sobre uma das mais impressionantes discografias de sempre. Porque, se Hokey Pokey e Pour Down (coincidentes com o momento de conversão de Thompson ao gnosticismo sufi islâmico) são indispensáveis colecções de canções em absoluto estado de graça, é francamente difícil encontrar um disco mais perfeito e inesgotável do que I Want To See The Bright Lights Tonight: "When I Get To The Border" é a exacta metáfora-Houdini para a fuga à desgraçada realidade, continuada pelo polaroide de desesperado hedonismo proletário da faixa-título e pela vingança "lumpen" de "Poor Little Beggar Girl"; "The Calvary Cross", "Withered And Died", "The Great Valerio" e "Down Where The Drunkards Roll" são quase puro Fellini; "Has He Got A Friend For Me" é "pathos" terminal e a devastadora "The End Of The Rainbow" é a canção de embalar ("Life seems so rosy in the cradle, but I'll be a friend, I'll tell you what's in store, there's nothing at the end of the rainbow, there's nothing to grow up for anymore") que reduz os Joy Division à dimensão de felizes e despreocupados escuteiros. Gravado a 23 de Julho de 2003, em Providence, Rhode Island, o DVD, em treze canções (e oito extras repescando aparições de televisão passadas), faz o ponto acerca do Richard Thompson actual e revisita alguns dos santuários do seu "songbook". Mas, acima de tudo — particularmente numa versão arrasadoramente incandescente de "Shoot Out The Lights" —, faz entrar pelos ouvidos dentro a evidência de Thompson ser o mais assombroso guitarrista que o mundo faz questão de não reconhecer. (2005)