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06 May 2026

A Dialéctica nas margens do Reno

 A dialéctica. Já ouvi falar da dialéctica: 

era assim uma espécie de regra de três

simples no papel pardo das mercearias,

a penitência dos bígamos, 

um motor a três tempos engatado

na quarta velocidade do pensamento. 

O jovem Carlos leu GWF nas longas, 

teutónicas noites de inverno e escreveu 

na Rheinische Zeitung um artigo 

sobre o roubo da lenha aos camponeses ou 

pelos camponeses: não sei bem. 

Alguns discutiram se O Capital é 

uma obra de maturidade ou um efeito 

secundário da furunculose. 

Por mim confesso: tenho saudades de tais tempos 

em que despontavam as mamas em raparigas 

acossadas pelo acne e pela delicadeza.

01 December 2025

 

"Lover, You Should've Come Over"

(sequência daqui) Um dos eixos principais do documentário é justamente o relacionamento de Jeff com a mãe que desempenha um papel central de narradora ao longo do filme. As entrevistas de Guibert oferecem um olhar profundamente pessoal sobre os anos de formação de Buckley, revelando traços do seu caráter e do intenso mundo emocional que ele habitava e que o habitava. Já em 2000, quando, a propósito da publicação de Mistery White Boy (colecção de actuações as vivo), conversámos em Paris, era absolutamente notório que ela tinha assumido por inteiro o papel de ferocíssima guardiã do legado artístico do filho. Senão mesmo de guia espiritual que, superiormente, lhe orientara o percurso: "Quando ele tinha 3 ou 4 anos, dediquei-me ao estudo da metafísica. Daí que, sempre que ele me fazia o género de perguntas que as crianças fazem, lhe tenha procurado transmitir o conceito de que cada um de nós é uma partícula de deus, da mesma forma que uma gota de água faz parte do oceano e que o nosso objectivo consiste em gozar a vida na sua plenitude. Quando descobriu o poeta sufi, Rûmi, foi como se tivesse encontrado uma luz naqueles poemas". E, estabelecendo a relação entre todos esses fios de sentido, "Foi isso que o conduziu até Nusrat Fateh Ali Khan e ao modo de vida sufi que é completamente o oposto de uma atitude ascética e monástica de rejeição do mundo material: viver a vida, casar-se, ter filhos, trabalhar, e, ao mesmo tempo, cultivar o amor pela vida. É muito fácil descobrir a iluminação num mosteiro mas já não é tão fácil fazê-lo numa autoestrada". Berg combina essas reflexões com a narrativa mais ampla da vida de Buckley, mostrando como a sua sensibilidade e turbulência interiores desempenharam um papel crucial na formação de sua expressão artística. (segue para aqui)

11 February 2025

UM OUTRO EU
Now, Voyager é um filme de 1942 realizado por Irving Rapper cujo título foi retirado de um poema de Leaves Of Grass, de Walt Whitman. A protagonista é Bette Davis que encarna a personagem de uma mulher envolvida num doloroso processo de autotransformação. Em determinado momento de A Complete Unknown, Bob Dylan e Suze Rotolo - a primeira namorada de Dylan desde que chegou a Nova Iorque - conversam sobre esse filme e ele conclui "Ela não se descobriu a ela mesma. Ela transformou-se numa outra pessoa diferente". Um pouco mais à frente, quando Suze se prepara para passar alguns meses na Europa, confessa a Dylan que irá ter saudades dele mas que, na verdade, tem consciência de que "não o conhece realmente". Ambas as cenas são, provavelmente, ficção urdida pelo argumentista Jay Cocks (colaborador de Martin Scorsese) que se baseou no livro de Elijah Wald, Dylan Goes Electric! Newport, Seeger, Dylan, and the Night That Split the Sixties (2015). Tal como, no filme, Suze Rotolo se chama Sylvie Russo, por pedido expresso de Dylan que, apesar de a ela se dever uma das memórias da época - o livro A Freewheeling Time (2009) -, não desejava expô-la como figura pública que nunca, na realidade, fora. (daqui; segue para aqui)

13 January 2025

"Gato Diplomata" (E. Lisboa)

(sequência daqui) Outra parceria peculiar foi com Michales Loukovikas: "Dar a um grego um poema francês, 'Les Chats', do Baudelaire, quando ele (que nem gosta de gatos!) de francês sabe muito pouco e ele ter aceitado, foi, realmente, uma prova de amor: só uma pessoa que não quer deixar ficar mal uma amiga é que aceita um pedido desses..." Com António José Martins, outro dos compositores, ocupar-se de 'Os Gatos (Lembro Que Um Dia)' tratou-se quase de um pedido expresso dele: "Achou imensa piada ao poema do Ary dos Santos que é quase um momento Disney, numa daquelas situações em que os rafeiros se enamoram das senhoras da nobreza de uma forma muito mais interessante do que acontece nos nossos romances mais humanos. 'Os Gatos (Há Um Deus)', do Manuel António Pina, independentemente da dificuldade que aquilo pudesse conter (e continha!), eu tenho uma admiração tremenda por ele - gatófilo notório - e nunca me permitiria deixá-lo de fora. Por outro lado, o Eugénio Lisboa foi logo o primeiro. Os amigos eram presenteados quase diariamente com sonetos de aviso, sonetos de amor, sonetos de compaixão, que, como ele intitulou o último livro dele, são todo um Manual Prático De Gatos Para Uso Diário E Intenso. Felizmente, ele ainda chegou a ouvir o 'Gato Diplomata" à guitarra: deu-me a sua aprovação e contou-me da alegria que isso lhe trouxe". (segue para aqui)

10 January 2025

"Se o Gato Fosse Só Gato"
 
(sequência daqui) Por essa altura, já interiorizara alguns dos muito mais do que 10 mandamentos que o Felis Catus, ao longo dos séculos, foi revelando a alguns dos infinitamente inferiores humanos cuidadosamente seleccionados : "O mais pequeno felino é uma obra-prima" (Leonardo Da Vinci); "Vivi com diversos mestres Zen - eram todos gatos" (Eckhart Tolle); "Não há gatos vulgares" (Colette); e "Na antiguidade, os gatos eram venerados como deuses; nunca se esqueceram disso" (Terry Prattchett) são apenas alguns dos muitos dogmas da felinologia cujas declinações Amélia Muge foi investigar junto de autores como Hélia Correia, Ary dos Santos, Manuel António Pina, Fernando Pessoa, José Jorge Letria, Teresa Muge, Eugénio Lisboa, W.B. Yeats e Charles Baudelaire. Daí - acrescentando-se aos 31 poemas - resultaram 16 canções (acessíveis através de código QR presente no livro), na voz de Amélia, dois coros infantis (um da Póvoa de Varzim e outro de Linda-a-Velha), na guitarra de André Santos, de um quarteto de cordas e no ilusionismo electrónico de José Martins. E também na voz de Hélia que, em "Se o Gato Fosse Só Gato", repete a proeza vocal do "Epitáfio de Seikilos", do álbum Periplus (2012): "Tive a sorte de ter a Hélia Correia a responder a uma chamada e a um pedido urgente de poema - escreveu a 'Deusa' - que, para minha desgraça, me remeteu para um lado mais oriental que, para cantar, é um bocadinho complicado. Caio sempre na mesma esparrela: alguma coisa transporta-me para determinado ambiente e nem sequer penso na dificuldade que irá ser cantá-lo. Mas estou aqui para servir os poemas, se eles me põem trabalhos, que remédio tenho eu senão aceitar isso?... Por outro lado, a Hélia já tinha cantado no 'Seikilos' que era um tema sagrado. E não me parece que, para ela, o tema sagrado fosse mais sagrado do que os gatos". (segue para aqui)

07 January 2025

"Gato Que Brincas Na Rua" (F. Pessoa)
 
(sequência daqui) Mas, desta vez, o modus operandi de Amelia para abordar o tema dos pequenos tigres de salão alterou-se: "Não foi como nos outros. Comecei a trabalhar aquele tema, houve leituras, e a busca de ideias que me ajudassem a criar uma narrativa. Inclusivamente, o facto de eu ter percebido o intenso lado emocional vivido pelas pessoas que gostam deles e os têm, levou-me também a canalizar o meu interesse para uma escrita mais diversificada: não pensar só nos adultos mas também nos mais pequenos e poder ter nesse espaço de escrita um campo mais alargado". Estava Amélia naquela hesitação de "vou fazer alguma coisa/não vou/se fizer é só um livro", quando teve uma conversa com André Santos (guitarrista, Melech Mechaya) que foi, nesse momento, decisiva: "Ele insistiu e convenceu-me que não teria nenhum sentido não fazer um trabalho também musical. Como eu já tinha dois temas - 'Gato Que Brincas Na Rua', do Fernando Pessoa, e a 'Maria Gata' que tinha escrito para a Mariana Abrunheira, a partir daí, dei uma espreitadela para o mundo dos escritores para tentar descobrir o que os gatos tinham trazido â escrita e fiquei, de facto, espantada: há imensos escritores que reconheceram essa divindade de diversas formas, umas mais explícitas, outras menos, e em ambientes muito diversos". (segue para aqui)

02 December 2024

"Sem Deus Nem Senhor"

(sequência daqui) JL - Em que medida te apercebeste ainda do Zé Mário anterior que não gostava de fado e tinha mesmo um preconceito contra o fado? 

    C - Já não existia. Aliás, nessa altura, ele tinha já até escrito uns fados para o Carlos do Carmo. E o Sérgio Godinho, o Janita, também já tinham feito esse mesmo trajecto. O Zé Mário adorava fado tradicional. A nossa relação nunca foi política. Era fado. 

    JL - Como é que essa vossa colaboração se foi desenvolvendo? 

    C - Eu pegava, por exemplo, em poemas do David Mourão Ferreira ou do Fernando Pessoa e colocava-os nos fados tradicionais. Oferecia-lhe várias opções para ele poder escolher, em relação aquela poesia, qual o fado tradicional que lhe assentava melhor e conseguia transmitir o registo emocional daquele poema. Os fados tradicionais são imensos. Quando se canta um poema, é preciso que a música daquele fado o queira acolher. Ele criou uma sonoridade para o meu fado que tinha (e tem) muito a ver com tudo isto. Neste espectáculo de homenagem ao Zé Mário, estão os fados que ele escreveu para mim, fados inéditos que, hoje, são considerados fados tradicionais. Mais cinco músicas do reportório dele que nunca tinha cantado. 

    JL - Quando foi publicado o teu primeiro álbum (Uma Noite de Fados,1995), escrevi algo que se colaria para sempre à tua e à minha pele quando anunciei que a "nova Amália é um homem e chama-se Camané"... 

    C - (risos) Achei piada. Tinha a ver com o contexto da época, andava-se sempre à procura da nova Amália... Claro que ela teve uma enorme importância na minha vida e no que eu gosto de fazer. Por exemplo, na busca de poesias capazes de serem integradas no reportório do fado. Com a ajuda do Zé Mário e da Manuela de Freitas, também consegui ir por esse caminho. Havia muito quem dissesse que o Fernando Pessoa não era um poeta cantável. E eu cantei muitos fados com poemas dele sobre fados tradicionais - o "fado Rosita", o "fado Isabel", o "fado Alfacinha". Poetas e poemas que não eram normalmente utilizados no fado. Tem que se escolher muito bem e identificar o registo emocional de cada poema. (segue para aqui

24 July 2024

Um bom ponto de partida 
para uma visita a Lisboa
"Inimigo de hipócritas e frades: eis Bocage, em quem luz algum talento" (Óleo de Fernando dos Santos, 1935 Lisboa, Café Nicola)

19 July 2024

"Na Gul"
 
(sequência daqui) Em "Na Gul", apossando-se de um poema de Mah Laqa Bai Chanda, música indiana de Hyderabad e cortesã do século XVIII, Arooj coloca-a em diálogo com Chand Bibi, rainha de Ahmadnagar, do século XVI, que desagua num estuário de barroco oriental; "Aey Nehin" oferece um voluptuoso tapete de repuso harmónico; "Bolo Na" serpenteia por entre as profundas frequências do contrabaixo e e a melodia flutuante da voz; "Autumn Leaves" ("Les Feuilles Mortes", de Joseph Kosma) deixa-se extirpar de todos os clichés acumulados, mas, em contraluz, permanece fantasmaticamente reconhecível; "Last Night Reprise", sobre uma poesia de Rumi, hesita entre o enraizamento granítico e o voo desordenado; e "Whiskey" é a canção que um Tom Waits hindustânico deveria ter escrito para Rickie Lee Jones. Com os quais, como o título do álbum denuncia, Arooj partilha uma particular afeição pelas horas tardias ("Toda a gente parece melhor quando a noite cai. Não gosto de ver as pessoas à luz do dia. É do conhecimento universal que os músicos adoram a noite. A noite é nossa amiga, oferece-nos um abrigo no qual podemos mover-nos sem nos expormos tanto"). Mas, em qualquer dos casos, qual Bob Dylan pós-Newport, recusando sempre o papel de porta-voz de uma qualquer causa que lhe estaria supostamente atribuida: "Detesto ser rotulada. Não desejo transformar-me numa pessoa responsável pela defesa de uma qualquer tradição. Um artista é imensas coisas em simultâneo. Muita gente diz: 'Ela é uma cantora de ghazal (forma poética originária da Pérsia do século VII)'. Outras interrogam-me: 'Pode falar-me sobre aqueles textos secretos antigos que canta na sua música tradicional?' Por vezes, num concerto, no final da primeira canção, há já quem diga 'Ah... afinal, ela não é a deusa sufi que viemos escutar. Está a beber vinho tinto e a dizer palavrões ao microfone'. Só me apetece dizer-lhes: 'Não querem escrever um guia acerca de como eu deveria ser? Prometo que vou tentar segui-lo!'"

11 July 2024

"Aey Nehin"
 
(sequência daqui) Foi no intervalo de tempo entre esses dois álbuns (com Love In Exile, de 2023 - na companhia do pianista e compositor,  Vijay Iyer, e do multi-istrumentista Shahzad Ismaily -, de permeio) que a miúda paquistanesa emigrada aos 19 anos para os EUA com o objectivo de frequentar o Berklee College of Music identificou exactamente o alvo que perseguia: se o ambiente familiar liberal já a orientara para a devoção a Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Abbey Lincoln, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen, em Boston e, posteriormente, Brooklyn a missão consistia agora em criar uma sonoridade que não decorresse de nenhum modelo pré-existente. "Vulture Prince foi um álbum profundamente ancorado na tradição e na minha interpretação do que isso significa, do que significa a herança cultural, do que significa a nossa casa, do que a poesia Urdu descreve e como articular tudo isso. Mas, uma vez que o fiz, de certo modo, libertei-me e criei uma base para aquilo que pretendia construir". 20 anos após a chegada à Big Apple e concluída a formação no Berklee, permite-se já declarar com total segurança ao "Exclaim Magazine: "Não me deixo confinar pelas regras da música. Sendo alguém que cria coisas novas, trata-se talvez apenas de irreverência. Mas é uma atitude de ousadia e coragem que me parece faltar muitas vezes na música. Temos demasiado medo. É a consequência de vivermos numa sociedade profundamente capitalista na qual é obrigatório que as coisas se vendam. Para mim, foi sempre absolutamente natural ir contra a corrente e estar-me nas tintas para o resto". (segue para aqui)