Showing posts with label pós-rock. Show all posts
Showing posts with label pós-rock. Show all posts

12 September 2025

"Adieu Lovely Erin"

(sequência daquiComo já acontecera antes com vários elementos de diversas bandas, membros dos Landless e Lankum, convergiram para formar os Poor Creature: Ruth Clinton (ex-membro dos Niamh & Ruth e dos Landless) juntou-se a Cormac MacDiarmada dos Lankum, mais tarde - em consequência de desassossegos pandémicos - passando a trio com John Dermody dos The Jimmy Cake (e baterista em concerto dos Lankum). Com All Smiles Tonight, criaram um álbum cuja particular identidade se constrói em torno da tensão entre sonoridades acústicas e contaminações pós-rock e gentilmente psicadélicas, acomodando drones de cordas (viola de arco e violino) e electrónica. Muito em particular, rebuscada na fertilíssima area vintage à qual Ruth Clinton foi ressuscitar uma "keytar" nascida nos 80s, uma Organetta Hohner que ofereceria o esqueleto primordial de duas ou três faixas, um Otamatone japonês e um vetusto Theremin.

16 June 2025

A FITA DO TEMPO
No ano passado, Rooting For Love apresentava-se com todos os preocupantes sintomas da obra de final de carreira: Laetitia Sadier, ao 5º álbum a solo após a separação dos Stereolab (2009), parecia desinteressar-se de vez do, até aí, fértil cruzamento entre a estética retro-futurista e o diálogo com o marxismo e o situacionismo e escorregava, ideologia abaixo, para o território das "personal politics", abeirando-se mesmo da involuntária comicidade "new age":“Smile at your spleen, inundated with light, and be serene, smile at your kidneys, lights escaping, color is blue, feel your organs smiling back at you”. Os Stereolab tinham emergido em Londres no acampamento "indie" local dos anos 90, mas, na verdade, nunca soaram como os seus contemporâneos. Se mantinham alguns pontos de contacto exteriores, estes situavam-se no pós-rock, no revivalismo do easy listening, na eletrónica experimental e na cena underground que revelou bandas como Pram, Broadcast e Plone.  (daqui; segue para aqui)

25 March 2024

PERSONAL POLITICS
Nos anos 90, Robert Christgau, decano da crítica musical norte-americana, despachava os Stereolab classificando-os como “Marxist background music” e, numa interrogação que deveria ser lida como um elogio, acrescentava: "So it isn't just silly punk songs - yet other people want to fill the world with silly Marxist songs, and what's wrong with that?" Era a altura na qual a banda de Tim Gane e Laetitia Sadier, socorrendo-se de todas as referências a que podia deitar a mão ("avant-pop", "electronica", "post-rock", "krautrock", "lounge", minimalismo, John Cage, bossa nova, "chanson"), se entretinha a polvilhar de alusões anarco-situacionistas o "consomé" sonoro da dezena de álbuns de estúdio que, entre 1992 e 2010, publicou. Exemplo supremo destes exercícios de ironia assassina, "Ping Pong" (1994): "It's alright, 'cause the historical pattern has shown / How the economical cycle tends to revolve / In a round of decades three stages stand out in a loop / A slump and war then peel back to square one and back for more / There's only millions that lose their jobs". (daqui; segue para aqui)

"Panser L'Inacceptable"

04 July 2017

COM HISTÓRIA DENTRO 


Em Vidas: Biografias, Perfis e Encontros, Maria Filomena Mónica conta como Cavaco Silva, tendo escolhido para o seu doutoramento, em 1971, a universidade de York (“uma instituição que, por ser recente, não tinha prestígio, mas que lhe pareceu adequada aos seus fins”), os dois anos e meio que ali viveu foram, para ele, pouco marcantes: “devido ao seu feitio retraído, os acontecimentos políticos e sociais” ter-lhe-ão irremediavelmente escapado. Nomeadamente, não terá reparado na “dureza do conflito entre os mineiros e o governo” – que acabaria por derrubar o gabinete conservador de Ted Heath –, preferindo recordar “o estoicismo com que a sua família encarou a falta de aquecimento durante o gélido Inverno de 1973”. Entre várias outras coisas, sgnifica isto que o ex-presidente dificilmente compreenderia um álbum como Every Valley, concebido como “uma história do declínio industrial, centrada nas minas de carvão do Reino Unido e do sul de Gales. (...) Uma história de que resultaram comunidades abandonadas e desprezadas e que conduziu ao ressurgimento de um tipo de políticas fundamentalmente malignas, cínicas e calculistas”

(words)

Quem o assina e assim o descreve são os Public Service Broadcasting, trio constituído por J. Willgoose, Esq. (guitarra e electrónicas), Wrigglesworth (bateria e teclados) e JF Abraham (baixo e fliscorne) que, nos dois álbuns anteriores – Inform - Educate – Entertain (2012) e The Race for Space (2015) – aperfeiçoou um modus operandi muito próprio de criar música com histórias (e História) dentro: construir – chamemos-lhes ainda assim – canções em torno de "samples" de documentários do British Film Institute, de arquivos de rádio e de programas informativos e educacionais, instalando memórias do passado numa rampa de lançamento para o futuro. Every Valley é, até, agora, o ponto culminante desse método: chamando a participar James Dean Bradfield (Manic Street Preachers), Traceyanne Campbell (Camera Obscura), as Haiku Salut, antigos mineiros e corais masculinos galeses, o fio da história que se desenrola sobre um tapete sonoro ora vibrantemente orquestral, ora kraftwerkiano, ora post-rock, obriga-nos a não ignorar “o orgulho, a raiva, a força e a derradeira derrota (...) do país de Gales das minas de carvão, do seu declínio e reestruturação. Ou, se não alinharem com o modelo thatcheriano, da sua destruição”.

09 June 2010

A DESCER EM MATEMÁTICA



Foals - Total Life Forever

Os manuais-pop poderão explicar-nos que o "math-rock" é um sub-género do "post-rock", caracterizado por uma maior complexidade rítmica, melodias estenográficas e afeição pela dissonância mas, em boa verdade, como diria Fernando Pessoa, trata-se apenas de uma tradução do binómio de Newton para partitura. Nas suas melhores versões, poderá, de facto, ser tão belo como a Vénus de Milo, e, nesse âmbito, o primeiro álbum dos Foals (Antidotes, 2008), embora ainda a razoável distância da elegância helénica da escultura de Alexandre de Antioquia, era um belo exemplo de articulação ginasticada entre as equações sonoras de Reich e Branca e as flexões musculares dos A Certain Ratio, Pop Group e Liquid Liquid. Total Life Forever – inspirado no futurismo de Raymond Kurzweil – conserva, no essencial, essa matriz (e também a irritante voz de Yannis-clone-de-Robert-Smith-Philippakis) mas o que lhe acrescenta parece denunciar uma perturbadora ambição de, a curto-prazo, trocar o estatuto de culto indie pela competição na arena com os U2. Pensem nos óptimos Simple Minds de Empires And Dance e no que eles se tornaram e terão uma ideia.

(2010)

23 February 2010

ANTI-TRIÂNGULO DAS BERMUDAS



Laia - Viva Jesus E Mais Alguém

As personagens: um cabo-verdiano devorador de bossa-nova (Milton Castro) e um marialva punk com patilhas até ao peito (Hélder Almada). O conceito: uma dupla memória carregada de audições de Fausto, Brigada Vítor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Gaiteiros de Lisboa e Carlos Paredes desejosa de injectar aí a espessura eléctrica do pós-rock. Estratégia: “instrumentos alterados, gravados para um computador em freguesias cosmopolitas”, entre Santa Maria dos Olivais, Santa Maria (Ilha do Sal), e Grafanil.



Funciona? Sim, por vezes, ainda com colagens e raccords excessivamente abruptos a denunciar uma técnica de transplante com problemas localizados de rejeição, mas, de um modo geral, rasgando uma via potencialmente acolhedora para o encontro da guitarra portuguesa com a galáxia-Mogwai/Godspeed e de ambas com o "spoken word" e a cava percussão dos adufes beirões. Algures a meio do Atlântico, numa espécie de anti-triângulo das Bermudas, onde nada é sugado para a inexistência e tudo é regurgitado para as alturas, em agradavelmente surpreendentes configurações.

(2010)

31 January 2008

A VELHA "VANGUARDA"
(VI - uma série exumada a partir daqui)



Set Fire To Flames - Sings Reign Rebuilder

A galáxia de Montreal, Godspeed You Black Emperor!/A Silver Mt. Zion e inúmeros afins, é, essencialmente, a representante contemporânea dos resíduos de uma já velha "vanguarda" musical (velha dos tempos em que o termo "vanguarda" ainda fazia algum sentido) que se entretem a reciclar procedimentos, atitudes e estéticas que emergiram no início dos anos 80, quando não muito antes: a utilização de "found sounds", as muralhas de guitarras, a exploração do "bruitismo" e do "concretismo", a espacialização atmosférica das sonoridades, uma certa violência "industrialista", o minimalismo e a repetição como estratégias arquitecturais, tudo isso GYBE! e co-conspiradores recuperam numa música seriíssima, compenetrada e, por vezes, francamente aborrecida. Catalogada sob o imenso guarda-chuva do "pós-rock", é o género de proposta acerca da qual se pode dizer que "tem dias": quando carrega na tecla dos modelos estereotipados por que fidelissimamente se rege, é verdadeiramente irrelevante, se deles se consegue libertar um pouco que seja, chega a produzir peças interessantes. A variante Set Fire To Flames (incluindo elementos dos GYBE!, A Silver Mt. Zion, Fly Pan Am, Hanged Up, Sackville e Exhaust), possivelmente em virtude da maior diversidade do "pool" genético, pertence à segunda categoria. Há alguma liberdade de movimentos, diversidade de ambientes e coloridos, vontade de exploração tímbrica e um certo espírito de aventura. Não foge demasiado à regra do convento mas antes assim. (2001)

30 January 2008

PÓS-ROCK?
(IV - uma série exumada a partir daqui)



Rachel's/Matmos - Full On Night




A Silver Mt. Zion - He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corner Of Our Rooms

A grande vantagem do conceito e da expressão pós-rock reside no facto de, em rigor, não significando nada (para além de indicar algo indefinido "que vem depois do rock"), poder, à medida dos desejos e intuições de cada catalogador, significar virtualmente tudo. É uma daquelas utilíssimas bengalas de bricolage verbal que nos permitem abarcar um considerável universo musical e que — e isso é tão essencial como o previu o seu inventor, Simon Reynolds —, desde que não sejam levadas demasiadamente a sério, facilitam bastante a vida. E a audição. Digamos, então, que Rachel's, Matmos e A Silver Mt. Zion praticam o pós-rock. Porquê? Pela muito simples razão de que, nem com a maior latitude de espírito, a música a que se dedicam poderia ser classificada como rock. E, não o sendo (nem exactamente jazz, nem propriamente clássica, nem certamente "world", nem precisamente electrónica), só poderá navegar nessa área de fronteiras indefinidas que já se chamou também "new music" ou "avant rock" ou, ou, ou... Essencial mesmo é que qualquer destes dois discos contém excelente matéria sonora (predominantemente instrumental) sofisticada e complexa mas sem nunca cair — e, se o progresso musical existe, essa é uma das enormes conquistas dos anos 80 e 90 — nos portentosos barroquismos que o "progressivo" (esse outro pós-rock "avant la lettre"...) instituiu como tique obrigatório.



Full On Night, nos tempos do vinil poderia ser dividido em lado A e lado B. No primeiro, encontrar-se-ia o tema-título (recuperado do primeiro álbum dos próprios Rachel's), desconstruido e remontado pelos seus autores com a inclusão de outros instrumentos de cordas, orgão e "sampler" e convertido numa pirâmide sonora invertida, em crescendo de complexidade estrutural, assalto de volume e dinâmica avassaladores, passagem quase alquímica do exercício de contraponto maníaco à pura "wall of sound" metálica. No outro, garantem-nos, está a mesma peça, rebaptizada como "The Precise Temperature Of Darkness" e entregue aos cuidados dos Matmos (isto é, o duo M.C. Schmidt e Drew Daniel), "electronic mavericks" de S. Francisco, que, mil passos mais à frente — em ensaio de esventramento radical com delirante utlização das possibilidades da estereofonia —, tratam de tornar inteiramente irreconhecível o que os Rachel's já haviam sabiamente dissimulado.



A Silver Mt. Zion, entretanto, é uma derivação lateral dos canadianos Godspeed You Black Emperor! aqui entregues à confecção de uma música que combina um certo espírito da música "concreta" (gravações de vozes misturadas e "fuzzy", "bruitismos" avulsos) com algum minimalismo e sinfonismo (ambos na sua versão mais severamente espartana) tal como algum Steve Reich e muito mais Gorecki o encaram. Tem, por vezes, uma certa tonalidade épica, outras, a rarefacção sonora aproxima-se do silêncio mas, em qualquer dos casos, é o género de experiência auditiva que apetece repetir, investigar e explorar.

(2000)