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01 October 2007

UMA PRODIGIOSA SUCESSÃO DE ACONTECIMENTOS CONDUZIU-ME A RESSUSCITAR UMA MÃO-CHEIA DE "OFF-THE RECORDS", DE NOVO (plus ça change...), DESGRAÇADAMENTE PERTINENTES (IV)



A NOVA PEDAGOGIA

Há cerca de dois anos, por altura da "grande final" da "Operação Triunfo", e a propósito de ter recusado o convite para um dos painéis do júri da pseudo-escola, escrevi aqui neste espaço: "Nenhuma escola deverá enganar os seus alunos, fazendo crer que lhes está a rasgar horizontes de futuro radiosos. E a "escola" da "OT", ao pretender (não) formar basicamente artistas de variedades para o circuito dos casinos — o que, como se sabe, em Portugal, praticamente não existe — está a iludi-los. (...) Quando, daqui a um ano, já ninguém se lembrar dos nomes da maioria (ou de todos) os concorrentes da "OT" a quem, a cada domingo, é garantida uma carreira brilhante, em que lugar irá esta "escola" aparecer nos "rankings" anuais de "sucesso escolar" do Ministério da Educação? Porque até é uma escola pública paga com o dinheiro dos contribuintes, não é?". Hoje, e após uma segunda edição da "OT", quem sabe onde param todos aqueles a quem, diariamente, se convencia a "acreditar no sonho"? Um ou dois até sei: os seus nomes podem ser vistos em cartazes de estradas de província a abrilhantar arraiais de aldeia e festarolas de coreto.


O Presidente do Conselho Pedagógico

E, agora, acerca de outro e de uma infeliz camarada de infortúnio dessa maratona de humilhação e achincalhamento da SIC de nome "Ídolos", ficámos a conhecer o horizonte brilhante que lhes é reservado: representar a RTP na suprema irrelevância musical do Festival da Eurovisão. Fatalmente, a coisa tem intuitos de "promoção da pátria". Segundo Nuno Santos, director de programação da televisão do Estado (in "Público" de 18 de Abril), "a canção 'Amar' pretende rasgar fronteiras e encher de orgulho os portugueses, muito especialmente os que vivem na Europa" (edit: não rasgou, não encheu, mas isso já se sabia). E, naquele atávico reflexo nacional de deixar sempre fugir o pé para a chinela mais fedorenta, explicou ainda: "A canção também é, de certa forma, o padrão-Mourinho, bem parecida e bem produzida". Tinha de ser, Portugal não entenderia sem a inevitável metáfora da bola. O bom gestor, o excelente executivo, o "homem de sucesso", a canção perfeita têm de aprender com a "cultura" do futebol. Com a instrutiva leitura dos autos do "Apito Dourado". Com os sórdidos métodos do "bas fond" e dos iletrados das "quatro linhas". Já tínhamos a escola-modelo da "OT". Foi-nos revelado agora o paradigma pedagógico. (2005)

30 September 2007

UMA PRODIGIOSA SUCESSÃO DE ACONTECIMENTOS CONDUZIU-ME A RESSUSCITAR UMA MÃO-CHEIA DE "OFF-THE RECORDS", DE NOVO (plus ça change...), DESGRAÇADAMENTE PERTINENTES (III)



ESCOLA PÚBLICA

Há algumas semanas, num sábado à tarde, recebi inesperadamente um telefonema. Quem me falava era da produção da "Operação Triunfo" e pretendia convidar-me para o painel do júri do dia seguinte. Não me foi perguntado se seguia o programa (não, não seguia), se fazia uma ideia das capacidades, talento e percurso dos concorrentes (apenas muito vaga, decorrente do ocasional zapping), se apreciava positivamente a iniciativa da televisão pública ("that's entertainment", responderia eu). Apenas queriam saber se "amanhã podia". Respondi que não. "E noutro domingo, pode?", "Não, não posso nunca". Porque, de facto, não se pode nem se deve participar numa falsificação.



Por diversas razões:

1) Nenhuma escola digna desse nome (e a "big-brotheriana-casa-mas-agora-com-muita-dignidade" da "OT" apresenta-se como uma "escola") tem inscrito nas suas regras de funcionamento que todas as semanas expulsa um aluno. Uma escola actua exactamente ao contrário, procurando chamar a si aqueles que tendem a ser excluidos ou a auto-excluir-se. Eu sei. Sou professor. De música.

2) Nenhuma escola digna desse nome convida para um juri de avaliação seja quem for sem que o convidado tenha um conhecimento mínimo daqueles que deverá avaliar. Um professor não procede segundo critérios de apreciação instantânea, não deve ser recrutado de acordo com padrões de notoriedade mediática, não está ao serviço de "shares" de audiência.

3) Nenhuma escola deverá enganar os seus alunos, fazendo crer que lhes está a rasgar horizontes de futuro radiosos. E a "escola" da "OT", ao pretender (não) formar basicamente artistas de variedades para o circuito dos casinos — o que, como se sabe, em Portugal, praticamente não existe — está a iludi-los.



4) A "escola" da "OT" não é, por isso, uma escola. Tal como o futebol profissional deixou há muito de ser desporto para ser apenas um ramo da indústria do espectáculo, esta "escola" é exclusivamente uma peça na engrenagem de uma iniciativa comercial estabelecida entre a televisão pública, uma editora discográfica e uma telefónica com o objectivo de garantir o lucro decorrente da venda de discos, das chamadas para as "votações" e da colocação de publicidade que as audiências rendem. Ali, a pedagogia, a formação, o talento ou a própria música são acessórios. Ali, é preciso cantar mesmo aquilo de que não se gosta, "that's showbizz!". Ali, o "verdadeiro artista" é o que fica incapaz de distinguir entre Sérgio Godinho e Celine Dion, entre Caetano Veloso e Elton John, que canta o que é preciso ser cantado desde que o público aplauda e os discos vendam.

5) Quando, daqui a um ano, já ninguém se lembrar dos nomes da maioria (ou de todos) os concorrentes da "OT" a quem, a cada domingo, é garantida uma carreira brilhante, em que lugar irá esta "escola" aparecer nos "rankings" anuais de "sucesso escolar" do Ministério da Educação? Porque até é uma escola pública paga com o dinheiro dos contribuintes, não é? (2003)