No passado mês de Março, a Warner Music comunicou ao mundo ter sido a primeira editora a assinar contrato com um algoritmo. Criado pela Endel, um “cross-platform audio ecosystem” especializado na produção de “mood music”, o algoritmo, será responsável pela fabricação de 600 faixas para 20 álbums que serão disponibilizados em plataformas de "streaming". Os cinco primeiros já estão acessíveis e orientam-se para o design de atmosferas propícias â concentração e/ou ao relaxamento. Aparentemente, nada de extraordinariamente novo se recordarmos a vetusta historia da "muzak"/"ambient music" ou, há dois anos, Reflection, de Brian Eno, um projecto de música infinitamente auto-gerada a partir de uma série de algoritmos criados em colaboração com Peter Chilvers. A diferença crucial está no facto de, na qualidade de entidade dotada de poderosa Inteligência Artificial (IA), o algoritmo Endel oferecer igualmente “frequências sonoras personalizadas baseadas em dados pessoais dos utilizadores: a hora do dia, o horário de trabalho, a batida cardíaca, a meteorologia ou o padrão de condução automóvel”. Cândida e inquietantemente, Oleg Stavitsky, co-fundador e CEO da Endel, declara: “Desejamos compreender o contexto do seu dia-a-dia e reconfigurar todo o seu ambiente sonoro”. Com a vantagem adicional de exigir “um mínimo de envolvimento humano”, o que, a crer no dilúvio de publicações acerca da iminente devastação no mercado de trabalho – e a selvática violação da privacidade que “The Privacy Project”, do “New York Times”, analisa em profundidade – consequência da IA, tenderá a transformar-se no modus operandi habitual.
Em Platform (2015), Holly Herndon, apropriando-se do ponto de vista do colectivo Metahaven, autor dos videos para esse álbum – “Science fiction politics need science fiction aesthetics” –, propunha “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”. Quatro anos depois, PROTO dá um largo passo em frente e coloca Herndon literalmente a interagir com Spawn, uma “bebé”-IA treinada para aprender, interpretar, desenvolver e desfigurar a matéria vocal que lhe é proposta e, a seguir, integrar-se simbioticamente no ensemble humano. O que escutamos, então, é um fabuloso exercício de corais desencarnados, polifonias entre o êxtase e a ansiedade, a desagregação e a recomposição, até que, em “Extreme Love”, a interrogação decisiva é, enfim, formulada: “Is this how it feels like to become the mother of the next species?”
22 September 2016
JANOTA
Tony Visconti, o produtor de 13 álbuns de David Bowie, conta à “Uncut” que, embora não de uma forma absolutamente inflexível, este levava muito a sério o princípio artístico de não promover em palco a obra passada. O mesmo se aplicava no que respeita à habitual estratégia de reedições sobrecarregadas de demos, faixas inéditas, outtakes: “David tinha uma opinião muito firme de que um álbum concluído era um álbum concluído”. E tudo o que, posteriormente, se lhe acrescentasse seria, invariavelmente, supérfluo. Inevitavelmente, ao longo de inúmeras republicações e mudanças de editora, isso seria muito poucas vezes respeitado. Por maioria de razão, após a sua morte em Janeiro passado, ninguém acreditaria que a Parlophone fosse capaz de travar o impulso para, de acordo com a máxima “the best rock star is a dead rock star” (traduzida por Tom Waits para “o que o show-business tem de mais bonito é que é a única actividade em que se pode ter uma carreira depois de morrer”), tirar o máximo partido do catálogo de Bowie. Não travou.
Who Can I Be Now? (1974-1976), "box-set" incluindo Diamond Dogs, Young Americans, Station To Station (original e com remistura de 2010), David Live (original e com remistura de 2005), Live @ Nassau Coliseum 1976 e Re:Call 2 (colectânea de versões em single e lados B), centra o grande alarido promocional no suposto facto de conter também “um disco nunca antes editado”, The Gouster. A multidão de fãs ouve falar em "lost album" e, pavlovianamente, saliva. Mas só até se dar conta de que, afinal, não é mais do que a primeira encarnação de Young Americans – “os despojos esborrachados da música étnica tal como ela sobrevive na idade do Muzak rock, escrita e cantada por um britânico branco”, Bowie dixit -, antes de ter legado quatro das sete faixas à versão definitiva, havendo, entretanto, as restantes sido integradas, mais tarde, em diversas reedições e compilações.
Vale a pena, porém, conhecer a história do título: em plena “fase americana”, Bowie precisava de uma nova personagem que desse corpo ao que ficaria conhecido como "plastic soul" (para a edificação da qual recrutou os músicos Carlos Alomar, Luther Vandross e Andy Newmark, baterista de Sly and the Family Stone). Descobriu-a no guarda-roupa do trompetista de jazz, Don Cherry (pai de Ava Cherry, namorada da altura e corista da banda), inspirado no estilo "gouster"/janota dos "gangsters old-school" – calças largas, suspensórios e gravata – que uma canção ("The Gouster", 1964) do grupo vocal negro de Chicago, The Five-Du Tones, consagraria. Recorda, agora, Ava Cherry que, no final da digressão durante a qual Bowie vestiu um dos fatos de Don, quando ela lhe pediu que o devolvesse, ele se recusou a fazê-lo: “Nem pensar, isto sou eu!”
Na seríissima e erudita Very Short Introduction To World Music, de Philip V. Bohlman (publicada pela Oxford University Press), um capítulo inteiro é dedicado ao Festival da Eurovisão – dissecando tudo quanto ele implica de ambiguidade na delicada questão das “identidades nacionais” – e, nele, é particularmente analisada a figura de Dana International, o transsexual que, em 1998, o venceu concorrendo por Israel, sintetizado nestas palavras: “Dana’s songs mix and remix the nation”. Venus On Earth, terceiro álbum dos Dengue Fever (tal como os recentes dos Gogol Bordello, Devotchka, Chicha Libre ou Vampire Weekend), bem poderia ser lançado também para o caldeirão dessa polémica: banda constituída por instrumentistas americanos e cantora cambojana dedica-se à recuperação do obscuro "psych-lounge-surf-garage-pop" do Camboja que a ditadura dos Khmers Vermelhos extinguira; como Dana, entregam-se ao “mix and remix” desse vocabulário, convertem-no em matéria pop contemporânea e a Realword publica-os. No caso, porém, nem vale a pena o debate estético/ideológico: na maioria dos temas, pouco se vai além da muzak-chá-de-jasmim que se pode escutar durante o jantar, na instalação sonora de um vulgar restaurante chinês.
(2008)
20 June 2008
O MUNDO JÁ NÃO ERA O QUE É
Hoje, é perfeitamente claro: desde o fim dos anos 50/início de 60, está em marcha uma conspiração com o objectivo de apagar da História da música a pop-antes-da-pop. Dirigida pela maçonaria da «nova pop» contra a «velha pop» e pelo rock contra tudo aquilo que o antecedeu, só fugazmente a memória do que era a música popular anterior a essa época é autorizada a vir a superfície. Sob o imenso guarda-chuva do «easy listening» (ou «muzak» ou «música de fundo» ou «música ambiente», ou «música para elevadores» ou...) foi deliberadamente lançado em arquivo morto tudo o que sucedeu antes da era inaugurada pelo rock'n'roll, considerando essa pré-história como mero «entretenimento ligeiro» que uma geração posterior de «artistas» animada de uma superior missão estética haveria de sepultar no caixote de lixo da História. Por acaso, a verdade não é bem essa. A «velha pop» não era mais «ligeira» ou mais «séria» do que a «nova» e nem sequer as tradições de que se inspiraram eram tão diferentes uma da outra. Num e noutro caso, convergiram as heranças da música branca, negra e do resto do mundo, numa como na outra se revelaram notáveis músicos, autores e compositores. Tudo o mais decorre apenas dos cíclicos fenómenos de moda e, se hoje (por um desses inexplicáveis eternos retornos de que só Zeus e a indústria discográfica conhecem os segredos), o tal «easy listening» parece estar de volta, não é isso que o vai tornar mais ou menos respeitável.
Andy Williams - "Music To Watch Girls By"
Já se sabe que Bach, Mozart, Satie, Debussy, Chet Baker, Tom Jobim ou Brian Eno não teriam considerado como insulto chamar-se «música ambiente» a muitas das peças que escreveram. Convém agora que se perceba igualmente que o «easy listening» propriamente dito também não tem de se ofender por ser assim tratado. E o momento para isso não podia ser mais adequado com toda uma série de velhas jóias a serem trazidas à superfície e, de novo, expostas à curiosidade de quem com elas nunca travou conhecimento. Pode começar-se mesmo pelo princípio, isto é, por um CD da respeitabilíssima editora Hyperion, totalmente dedicado aos British Light Music Classics, interpretados pela New London Orchestra, dirigida por Ronald Corp. Façam então o favor de descobrir, entre outros, os notáveis Archibald Joyce (1873-1963, «the british waltz king»), Sydney Baines (1879-1938, director da trupe de «dancing girls» do Palace Theatre), Albert William Ketelbey (1875-1959, expoente da «música narrativa exótica»), Eric Coates (1886-1957, rei da rádio e criador de música para espevitar os ritmos laborais), Charles Williams (1893-1978, «film, radio and TV musician»), Ronald Binge (1910-1979, inventor das «cascading strings» na orquestra de Mantovani) ou o «jovem» Robert Farnon (1917, autor do tema mais utilizado de sempre em genéricos, «Jumping Bean»). Estão lá todos e ajudam bastante a introduzir um certo sentido de perspectiva e a definir uma linhagem ilustre.
Xavier Cugat - "She's a Bombshell from Brooklyn"
Depois, há o verdadeiro baú do tesouro: a sumptuosa colecção de 12 CD da Capitol * que dá pela designação genérica de Ultra Lounge. Minuciosamente concebida e executada (do grafismo, aos textos, ao «artwork», à selecção de materiais e à organização temática), todos os títulos, do primeiro ao último, exigem ser referidos de tal modo são auto-explicativos: Mondo Exotica, Mambo Fever, Space Capades, Bachelor Pad Royale, Wild Cool and Swinging, Rhapsodesia, The Crime Scene, Cocktail Capers, Cha Cha De Amor, A Bachelor In Paris, Organs In Orbit e Saxophobia falam por si próprios. O que, traduzido por outras palavras, equivale a um verdadeiro luxo asiático daquela imensa variedade de músicas que, entre ritmos latinos, variedades francesas, vaudeville, êxitos da Broadway e do cinema, «crooning», jazz e swing bands, «torch songs», exotismos, futurismos e experimentalismos diversos, constituiram a dieta sonora jndispensável antes (e, num universo paralelo, durante e depois) de E1vis Pres1ey ter subido ao trono.
Joi Lansing - "Web Of Love"
Os textos introdutórios de R. J. Smith combinam sabiamente erudicão e humor fino, o fundo da caixa de cada disco é uma muito apropriada reprodução de pele de leopardo e, em todos, existe a sugestão do «cocktail» adequado (e respectiva receita) para acompanhar a audição. Nos 12 títulos, há varias presenças recorrentes (gigantes como Martin Denny, Les Baxter, Yma Sumac, Julie London, Nelson Riddle, Dean Martin ou Billy May) e é absolutamente necessário saborear as deliciosas ilustrações de Tommy Steele e Andy Engel bem como os «headlines» e textos de contracapa que sintetizam cada álbum. Exemplos avulsos: The Crime Scene anuncia «Spies, thighs & private eyes», Cha Cha De Amor situa-se «From Mamboland to Bossanovaville» e Saxophobia promete «A horn-a-copia of sax-ual delights», enquanto nas costas de A Bachelor In Paris se explica o seu conteúdo como «eighteen vintage hi-fi ensembles from our designer vaults styled with a continental flair. Haute couture! C'est magnifique! C’est si bon! Vive la diffférence! Vive la France! French fry! French toast! Ooh-la-la ma chérie! Bon appetit! Voilá!». A atenção ao pormenor e à encenação de cada conjunto de temas é exactamente o que se desejaria num arquivista enciclopédico que, em simultâneo, dominasse a ironia «kitsch» e a arte do «marketing» superiormente culta. Em suma, o género de colecção que qualquer hedonista digno desse nome revolve céus e terra para lhe chamar sua.
Martin Denny - "Quiet Village"
Mergulhando um pouco mais em profundidade no catálogo da Capitol, há ainda o magnífico duplo The Exotic Sounds of Martin Denny, compilação de música do criador do universo sonoro «exotica», uma espécie de «world music avant la lettre», concebida por desígnio divino no Havai, na esplanada do Dagger Bar, de Don the Beachcomber. Denny tinha nascido em Nova Iorque e estudado com tão insignes mestres como Doctor Wesley La Violette (professor de piano e contraponto, fervoroso crente na teoria da reencarnacão e tradutor do épico sânscrito Bhagavad Gita) e Doctor Arthur Lange (especialista da instrumentacão para «small combo» e expoente máximo da sinestesia tal como a Sociedade Teosófica a entendia). No início, enquanto pianista, acompanhou luminárias extraordinariamente ignoradas com The Incomparable Hildegarde, mas foi em Honolulu que lhe ocorreu a ideia de conjugar timbres polinésios, africanos, orientais, árabes, vibrafones jazzy, o coaxar das rãs, o canto dos pássaros e uma visão do mundo como Disneylandia sonora, para fornecer o pano de fundo musical sob o qual os turistas debicavam pipocas e lendário surfista Duke Kahanamoku bebericava Blue Hawaiians. Em 1959, James A. Michener escreveu-lhe as «liner notes» para o álbum Hypnotique («Esta é musica para ser vista e, neste disco, há muitos sons novos que obrigarão o ouvinte a criar as suas próprias imagens verbais»), Sammy Davis, Xavier Cugat ou John Sturges alimentaram a lenda e, numa íntima relação com Les Baxter, encarregou-se de popularizar ao vivo as ideias que o outro concebia no laboratório do estúdio. Modernos discípulos como os Beach Boys, Devo, Yellow Magic Orchestra ou Combustible Edison prolongaram o mito. Mas não há como escutar «Quiet Village», «Bali Hai», «Ringo Oiwake», «Oro (God of Vengeance»), «Llama Serenade», «The Left Arm Of Buddha», «Mau Mau», «Tse Tse Fly» ou «Voodoo Love» para compreender como o mundo, muito antes da aldeia global, já tinha deixado de ser o que é.
Há um ano, esta era a música do passado. E de um passado consideravelmente distante. Hoje é, pelo menos, uma das músicas do futuro. Haverá alguma lição a retirar daí? Provavelmente só aquela que ensina que, daqui em diante, vigora a mais absoluta amoralidade estética. Por outras palavras, não há princípios firmes e eternos. Se o «easy listening» (em leitura contemporânea, «E-Z listening») era uma história longínqua de avós às voltas com a decoração de interiores e a melhor forma de não incomodar os ouvidos dos convidados durante a «cocktail-party», agora, acha-se reconvertido em «música ambiente» respeitada e aceitável, reivindicando-se de Mozart, Satie, Cage e Brian Eno. A verdade é que sempre foi assim. Pensava-se em Ray Coniff, Percy Faith e Martin Denny e regressavam a galope os fantasmas da «música de fundo» decorativa e descartável... Mas se os nomes fossem Eno, Chet Baker ou Debussy, o escudo de respeitabilidade cultural já era diferente. O problema (se existe um problema...) é que já ninguém pensa muito nisso. Nenhum é melhor do que os outros e, se se trata de aromatizar a atmosfera com sons, é apenas uma questão de gosto.
Yma Sumac - "Pachamama"
Mike Flowers, a recente vedeta E-Z - após a versão de «Wonderwall» dos infinitamente inferiores Oasis -, fala, com toda a razão, dos conceitos de «pop orchestra» e «expanded combo». Explica logo a seguir que se trata de um «não-género» com referência à canção popular, ao jazz, à música latina, à pop, ao rock, à folk, ao country e ao classicismo orquestral, misturando «os sons exóticos de Bacharach e Bjork, a perspectiva histórica e caleidoscópica do cravo eléctrico e a exuberância de Jimmy Webb» num cadinho psicoacústico que convida o público a saborear «as atmosferas criadas pelos Velvet Underground e Sérgio Mendes, apimentadas por Prince, com um toque de tijuana». Tem programa e tudo: «A nossa ética é essencialmente positiva, desafiamo-nos a esquecer as diferenças e a procurar um terreno comum. Depois, descontraiam-se e divirtam-se pois trata-se de uma atitude não competitiva em que o objectivo é o prazer e a aceitação mútua, um divertimento democrático e espectacular para toda a família». Como escreveu Christophe Conte, em «Les Inrockptibles», a propósito das versões de Mike Flowers para «Wonderwall», e «Light My Fire», «tudo bem pesado, qual dos dois grupos é mais 'kitsch', Mike Flowers Pops ou Oasis? Qual dos dois cantores roça mais de perto o ridículo, Mike Flowers ou Jim Morrison?». Aceitam-se todas as respostas, rejeitam-se os conflitos entre «Please Release Me», de Engelbert Humperdinck, e «All Tomorrow's Parties»/«Venus in Furs»/«White Light White Heat», dos Velvets, em nome do ecumenismo E-Z (não é a «Velvet Underground medley», como diz Mike Flowers, a «ambient section» dos seus concertos em que o ambiente é Nova Iorque?) e compreende-se inteiramente que os Tindersticks encomendem partituras a Juan Garcia Esquivel, o papa exótico da música de vida fácil.
Frank Pourcel - "Concorde"
Para conferir profundidade histórica ao empreendimento, existem também as reedições em CD de Dig It e The World of James Bond/Adventure, oriundos da época em que o «easy listening» dava novos mundos sonoros ao mundo. Acompanhando o desenvolvimento dos sistemas de alta-fidelidade, «Dynagroove», da RCA, «Dynacoustic», da Somerset, «Visual Sound Stereo», da Liberty, «Living Presence Series», da Mercury, «360 Degree Sound», da Columbia, ou «Full Dimensional Stereo», da Capitol, o «Phase Four Stereo», da London, distribuía vozes e timbres instrumentais pela esfera acústica e, com as orquestras de Frank Chacksfield, Larry Page, Ted Heath, Roland Shaw, Ivor Raymonde ou Ronnie Aldrich, convertia a subversiva pop emergente em amenas aguarelas sonoras capazes de estimular digestões difíceis e aplacar conflitos domésticos. Ontem como hoje, de «Tequilla» a «These Boots Are Made for Walking» ou às composições de John Barry para James Bond, a receita era eficaz e, no final da refeição, havia sempre lugar para os «40 exotic rhythms from the ruler of all things latin», isto é, Edmundo Ros, celebridade da rádio, «superstar» absoluta do início dos anos 60 nos clubes noturnos londrinos, favorito da realeza e das donas de casa. Rumbas, sambas, temperos exóticos, «pop à la carte» ou árias de ópera com molho de calypso faziam as delícias dos convivas.
Martin Denny - "Exotica"
Algo mais vanguardistas (entendam a palavra como quiserem) eram Les Baxter, Martin Denny, Chick Floyd, Yma Sumac ou os 80 Drums Around the World. Nenhum deles sabia mas, nos anos 50, estavam a inventar o conceito de «world music», observado sob a perspectiva «naive» americana. Chamavam-lhe «exotica», combinava sons da Polinésia, da China, do mundo árabe, de África, da Índia, do Havai e do coaxar das rãs e gerou personagens únicas como Les Baxter, explorador pioneiro do «theremin» e único compositor em simultaneo para os filmes de Ingmar Bergman, Roger Corman e Ed Wood. Exportam-nos, hoje, ao lado de receitas para «cocktails», evocações de colonialismo turístico e aventuras na selva. Espécimes destes e muito mais é o que consta de Mondo Exotica e da série Ultra Lounge, da Capitol, que promete poesia pura em títulos como Bachelor Pad Royale, Space Capades, Wild, Cool & Swinging, Rhapsodesia, Cha Cha de Amor, Organs in Orbit ou Saxophobia...
(1996)
15 June 2008
MÚSICA DE VIDA FÁCIL
Em 28 de JuIho de 1945, um bombardeiro B25 da aviação americana colidiu com o 79° andar do Empire State Building. As chamas tomaram rapidamente conta dos túneis dos elevadores, destruindo os cabos e ameaçando cercar 50 pessoas retidas no 88° andar. Na edição do dia seguinte, o «New York Times» relatava: «Mesmo nesta terrível circunstância, o sistema sonoro continuou a emitir música gravada e os sons tranquilizantes de uma valsa ajudaram a que todos se controlassem». Como exemplo extremo das virtudes da «música para elevadores», é dificil encontrar melhor. Chame-se-lhe «easy listening», «moodsong», «música ambiente» ou «muzak», há que reconhecer que a sua história é algo mais ilustre e antiga do que, à primeira vista, se diria. Mesmo sem recuar à mitologia grega, à musica das esferas pitagórica ou à primeira banda sonora generosamente oferecida par Nero ao incêndio de Roma, os antecedentes não podiam ser mais ricos nem numerosos: na Utopia, Sir Thomas More não se esquecia de referir que, entre outros benefícios de uma sociedade justa e igualitária, «nenhum jantar deveria ter lugar sem música»; o arcebispo Coloredo encomendava peças a Mozart e esclarecia que, esperando companhia para uma refeição, desejava «uma serenata agradável, mas que não perturbe a conversa nem a digestão», enquanto Telemann se dedicava à «Musique de Table». Bach, pelo seu lado, respondia ao pedido do Conde Kaiserling que lhe solicitava tratamento adequado para um grave problema de insónias, escrevendo as Variações Goldberg de acordo com a prescrição que exigia «uma invariabilidade constante da harmonia fundamental» como sedativo sonoro apropriado.
Erik Satie - Gymnopédie nº 1
Deve ter sido, contudo, Erik Satie, que, muito antes da corporação Muzak ou de Brian Eno, teorizou acerca daquilo a que chamou «musique d'ameublement». Segundo uns, tudo teria nascido de uma conversa corn Henri Matisse sobre a criação de uma forma de arte «sem qualquer assunto nem objectivo, semelhante a uma cadeira de repouso». Outros, referem um jantar com Ferdinand Leger, num restaurante em que a orquestra residente tocava tão alto que forçava os comensais a abandoná-lo. O episódio terá levado Satie a reagir com um discurso inflamado em que defendia a existência de uma música «que faça parte dos ruídos ambientes e os tenha em consideração. Vejo-a melodiosa, dissimulando o som das facas e dos garfos, sem os abafar por completo. Preencheria os silêncios embaraçosos que, por vezes, se intrometem na conversa. Evitaria as banalidades habituais. Mais do que isso, neutralizaria os ruídos da rua que, indiscretamente, perturbam o cenário». Numa carta a Jean Cocteau iria mais longe, reclamando que ela estivesse sempre presente «em bancos, escritórios de advogados e cerimónias de casamento. Que ninguém entre em casa sem música ambiente». A 8 de Março de 1920, na Galerie Barzanges, concretizaria o conceito num arranjo para piano, três clarinetes e trombone, executado nos intervalos de uma peça de Max Jacob. E irritou-se seriamente quando os presentes se decidiram a prestar-lhe imensa atenção em vez de conversarem, deambularem e fazerem ruído...
Caberia, entretanto, ao brigadeiro norteamericano George Owen Squier inventar, nos anos 30, o conceito (e a empresa) «Muzak», jogando com as palavras «música» e «Kodak». Em torno dele giraria quase um século de «música ambiente», que passaria por nomes cruciais como Ray Coniff, Percy Faith, Jackie Gleason, Horst Jankowski, Bert Kaempfert, Andre Kostelanetz, Burt Bacharach, Francis Lai, Michel Legrand, Mantovani, Paul Mauriat, Malachrino, Norrie Paramor, Frank Pourcell, The Sandpipers, Swingle Singers, Liberace ou Lawrence Welk. Se a corporação Muzak se dedicou a elaborar estudos e monografias acerca dos efeitos da programação musical nos frequentadores de supermercados, na promoção da imagem das empresas ou na acção sobre o comportamento alimentar (chegando mesmo a determinar que a utilizaçãoo de «música funcional» nos locais de trabalho reduzia o absentismo em 88 par cento), outros retomaram a visão de Satie, caso do britânico Frank Chacksfield, que enquadrava a sua música num contexto de utilidade social: «A anfitriã musicalmente atenta já não permite que o marido ou o mordomo coloquem música no gira-discos ao acaso. Já não se arrisca ao perigo de a sopa ser perturbada por uma sinfonia de Haydn ou de que alguém se engasgue com o peixe porque uma trompete de jazz o assustou. Agora, ela possui uma música de fundo pronta a usar, elegante e adequada, que transforma a noite numa festa de prazer e nervos apaziguados». Pelo meio, esse desejo de decoração sonora de interiores impulsionaria avanços nas técnicas de gravação, enquanto, entre outros, os astronautas da NASA (mais tarde homenageados por Brian Eno em Apollo) confessavam preferir a escuta de Andre Kostelanetz nos seus passeios lunares.
Mantovani - "Kashmiri Song" (1938)
Houve, naturalmente, inimigos ferozes. O dramaturgo J.B. Priestley gabava-se de «ter deligado emissões de 'muzak' em alguns dos meIhores sitios», o cómico Spike Milligan declarava que «se a tranquilidade liberta a alma, a 'muzak' destrói-a», e um comentador americano definia Bill Clinton como «o equivalente político da 'muzak': apropria-se de temas sérios, e, a partir deles, cria portentosas geleias de retórica sem nunca assumir uma atitude decidida». Mas Andy Warhol adorava-a («Gosto seja do que for de 'muzak', é tão audível... devia passar na MTV») e Brian Eno recentemente explicou como a sua Music For Airports teve origem nos discos de Ray Coniff do tio, que ouvia antes de ir para a escola: «o importante não era a melodia nem o ritmo, mas aquele banho de sonoridades corais de que os Ray Coniff Singers eram um excelente exemplo».
The Ray Conniff Singers - "Golden Earrings" (1963)
A notícia, então, é que, se o «easy listening» sempre esteve por aí (nas salas de espera, nos centros comerciais, nas pausas dos telefonemas), agora ele está detinitivamente de volta. Melhor ainda, na moda. David Lynch e Angelo Badalamenti terão dado o pontapé de saída em Twin Peaks (é Badalamenti que conta como a sua música é material indispensável em consultas de psicoterapia), mas outros como os Enigma, Beautiful World, Deep Forest, El Bosco, Adiemus, Kenny G, Yanni ou o patriarca Vangelis encarregaram-se de levar a missão até ao fim, liofilizando o canto gregoriano, as raízes étnicas, a clássica, o jazz ou o rock. Os ensaios analíticos sucedem-se (Elevator Music, de Joseph Lanza, ou Ocean Of Sound, de David Toop, formulam as regras), e recém-chegados e clássicos redescobertos dão cartas.
Mike Flowers Pops, The Karminsky Experience, uma colectânea de Burt Bacharach, ou Esquivel do seminal mexicano Juan Garcia Esquivel são os sintomas próximos. O primeiro, de peruca loira e fatinho azul-petróleo, canta e dirige uma orquestra de treze elementos, teoriza sobre a extinção do pós-modernismo e gaba-se dos seus encontros com Gil Evans e John Cage. Tem 35 anos e faz versões arredondadas dos Oasis, Bjork, Beatles, Jimmy Webb, Black Grape, Velvet Underground e dos Doors. Frequentou a Chelsea School of Arts e acha que é libertador «encarar a música como entretenimento ligeiro em vez de arte». Com ele, tudo se resume ao regresso à estética de Sinatra ou Tony Bennett, seja qual for o pretexto. Prepara uma canção comemorativa do Campeonato da Europa de Futebol e uma versão de «Manic Depression» de Jimi Hendrix. Tem um CD prometido para Maio, que se segue ao primeiro single, "Wonderwall", dos Oasis, que tomou as tabelas de vendas britânicas de assalto.
Mike Flowers Pops - "Wonderwall"
The Karminsky Experience foram pioneiros do «easycore revival»: «Numa pequena cave do Soho, nos primeiros meses de 91, um grupo de boémios, frequentadores de clubes, international 'jet-setters' e modernistas japoneses encontraram-se para afastar a melancolia do Inverno. O choque dos copos de tequilla ecoava no ar como percussões vudu. Os DJ James e Martin Karminsky exploravam um ritmo soprado de outra dimensão». O que eles fizeram foi substituir os vinis de «rare groove» que não tinham possibilidades de adquirir por exemplares de «easy listening» disponíveis, descobrindo uma mina de «novos sons». É o que expõem agora em In Flight Entertainment, onde se alinham «Mambo Mania», de Bert Kaempfert, ou uma deliciosa versão latina de «Light My Fire» por Edmundo Ross ao lado de outros imortais do género com Paul Mauriat, Augusto Algueró, Michel Legrand ou o clássico «Tu Veux Ou Tu Veux Pas», de Brigitte Bardot. Todos tematicamente organizados em três andamentos: «O viajante de sofá», «O swinger» e «O observador curioso».
Dionne Warwick - "Do You Know the Way to San Jose" (Bacharach/David, 1968)
Adorado por milhões, inspirador dos Portishead, Oasis, Massive Attack, Bjork, R.E.M. e K. D. Lang, Burt Bacharach é o indisputado papa do estilo. Iniciando-se nos anos 50 ao lado do letrista Hal David, especializou-se na composição de pequenas sinfonias de supermercado, unidades perfeitas de três minutos como «Do You Know The Way To San Jose?», «Raindrops Keep Falling On My Head» ou «This Guy's In Love With You», que foram interpretadas por nomes como Aretha Franklin, Barbra Streisand, Linda Ronstadt ou Dionne Warwick. Como observou Noel Gallagher, dos Oasis, exactamente o género de música que, se não chegar para seduzir uma dama, é melhor tirar daí a ideia... Acabado de editar, The Best Of Burt Bacharach contem 20 sugestões para outras tantas tentativas.
arranjo de Juan Garcia Esquivel para "Andalucia" (pela Mr. Ho's Orchestrotica)
Juan Garcia Esquivel foi o mexicano que, nos anos 50 e 60, conciliou a estética «easy listening» com audácias experimentais, introduzindo timbres exóticos, sonoridades «espaciais» e instrumentos pouco explorados como o theremin e o ondioline. More Of Other Worlds, Other Sounds devolve-os agora em toda a sua glória estereofónica, no pico da alta tecnologia de 1962, usando os sistemas «Dual 35MM/120 CMPS». Tomando de empréstimo as palavras de Joseph Lanza em Elevator Music, «estes discos são o mais próximo a que a América chegou de criar um surrealismo genuíno e próprio. Agora que os 'media' colonizaram e esgotaram as regiões obscuras do espírito, transformando-o em puré feito de filmes e romances de terror, a 'mood music' encanta-nos com as suas paisagens exageradas de ordem e felicidade».
(1996)
01 June 2008
SEX KITTENS, VESTIDOS E FLUÍDOS ORGÂNICOS
Vários - Divas/Exotica
Ao contrário do que possa pensar-se, a história dos vestidos com manchas incriminadoras de fluídos orgânicos masculinos não começou com Bill Clinton e Monica Lewinsky. Mamie Van Doren (a única sobrevivente das famosas três "M" de Hollywood, juntamente com Monroe e Mansfield), por exemplo, garante que, na realidade, Rock Hudson não era irredutivelmente gay mas sim bissexual e que possui um vestido com as nódoas apropriadas capazes de o provar. Para além disso, a "first sex kitten in cyberspace" de quem se dizia que "a terceira coisa em que nela se reparava era o facto de não saber, de todo, cantar" não se incomodava nada com a má língua e cantava mesmo, como se comprova em Divas/Exotica, uma extensão da colecção Ultra Lounge que reune um conjunto de dezoito sereias cantoras do cinema e da música, dedicada a uma missão: "corrigir todos aqueles que pensam que já ouviram tudo". É nessa exacta medida que este álbum se assume como "um antídoto contra o grunge de quatro acordes e o drum'n'bass de um só acorde. Aqui se encontram dezoito mulheres com idade para serem vossas avós e com uma única ideia na cabeça. Aqui se descobrem algumas melodias que nunca imaginámos que regressassem e outras que nunca desapareceram. Umas já eram autenticamente estranhas quando apareceram, outras foram justamente celebradas como clássicos. Outras ainda, exploravam um mundo crepuscular à maneira de Ed Wood onde um certo entusiasmo tonto vencia o mau gosto e uma devastadora ausência de talento".
Colocada a questão de outra maneira, não há nenhuma razão plausível para que quem viaja até ao sétimo céu na companhia dos Pizzicato Five não seja capaz de se fazer transportar até ao mesmo lugar pela mão destas divas. Elas podem ser bastante entradotas (ou nem sequer já serem vivas) mas, acreditem, não foram sempre assim. E, quando gravaram estas canções, estavam ainda suficientemente capazes de ensinar meia dúzia de coisas a todas as Madonnas e Sharon Stones deste mundo. Ann Margret — a loiríssima sueca que contracenou com Elvis Presley — era uma deusa, para a mais "antiga" Marlene Dietrich gravar um quase-rock como "Near You" equivalia a uma heresia, "Teach Me Tiger", de April Stevens, era uma condenação às eternas labaredas do inferno e "That Makes It", de Jayne Mansfield, "Let's Misbehave", de Eartha Kitt (segundo Cole Porter), "Heatwave", de Marilyn Monroe ou "Go, Go, Calypso" de Mamie Van Doren tinham o que bastava para convocar uma reunião de urgência do Comité Central da Santíssima Inquisição de todas as épocas.
Claro que a passagem do tempo atenua (e até valoriza) os tais "mau gosto e devastadora ausência de talento" mas, nesta compilação, se, de um lado, há as puríssimas transgressões de Brigitte Bardot ("Je me donne a qui me plait ça n'est jamais le même mec"), a saborosa frivolidade de Sophia Loren em "Zoo Be Zoo Be Zoo", a "gaieté" parisiense de Josephine Baker de "Don't Touch My Tomatoes" ou a gloriosa descerebração luso-tropical de Carmen Miranda em "Mamã Eu Quero", por outro lado, também existem outras coisas um bocadinho mais sérias (mas que não estragam o bom ambiente geral) como "Do Your Duty", de Billie Holiday, o magnífico "Forbidden Fruit", de Nina Simone, "Jezebel", de Edith Piaf, a acetinada sofisticação de Astrud Gilberto em "So Nice", o bondiano "Goldfinger" de Shirley Bassey, o exotismo "over the top" e supostamente étnico da voz de múltiplas oitavas de Yma Sumac ou o outro calypso ("Since Me Man Has Done Gone And Went") de Maya Angelou, poetisa, historiadora, actriz, escritora, dramaturga, activista dos Direitos Civis, nomeada para o prémio Pulitzer e — lá vamos nós outa vez... — devota de Bill Clinton, para além de bailarina sensual e competentíssima cantora de calypsos.
(1999)
06 May 2008
ARQUEOLOGIA FUTURISTA
Peter Thomas Sound Orchester (Neo Astronautic Sound) - Warp Back To Earth 66/99
Uma parte muito interessante da pop contemporânea assemelha-se bastante ao que se poderia chamar uma espécie de arqueologia futurista. Ao contrário da pura atitude "retro" que se limita a mimetizar as estéticas do passado transpondo-as tal e qual para a actualidade, os arqueólogos futuristas desenterram literalmente os tesouros esquecidos para, a partir dos fragmentos deles, construir novos edifícios de uma idade pós-pós-moderna onde a realidade anulou o conceito de tempo e a legitimidade de todos os impulsos sonoros é equivalente desde que musicalmente eficazes e funcionais.
Warp Back To Earth 66/99, acabado de publicar, é um dos mais eloquentes exemplos do género. Os principais instigadores da conspiração foram os Pulp que, ao utilizarem um "sample" de "Space Patrol" em This Is Hardcore, redescobriram o ignorado Peter Thomas, um até aqui obscuro compositor alemão de bandas sonoras dos anos 60.
Foi o bastante para que a editora Bungalow congeminasse o projecto deste álbum duplo onde 29 temas de Peter Thomas servem de material reciclável destinado à concepção do "neo astronautic sound", condensado em 17 reelaborações de grupos músicos e remisturadores actuais como os Stereolab, Tipsy, John McEntire, High Llamas, Momus, Coldcut, Stock, Hausen & Walkman, St. Etienne ou Yoshinori Sunahara. De acordo com a versão "oficial", a história é um bocadinho mais "sci-fi": "Em 1966, o compositor Peter Thomas — hoje com 73 anos de idade — abandonou o planeta Terra para acompanhar musicalmente as viagens aventureiras da Space Patrol Orion. Os seus sons, demasiado bizarros e futuristas para a época, não tinham sido devidamente apreciados e compreendidos. Por esse motivo, o seu regresso atrasou-se exactamente 33 anos. Poucas pessoas valorizavam o se trabalho e ninguém quis cobrir os custos do seu bilhete de volta. Mas, agora, as coisas mudaram. Estamos a poucos passos do novo milénio e a Terra está a ser povoada por uma nova geração de pessoas e músicos que veneram este pioneiro musical e criativo excêntrico — e não apenas músicos alemães. O trabalho de Peter Thomas é hoje reconhecido por todo o mundo (e mesmo nas galáxias mais longínquas) ao nível de outros como Henry Mancini, Esquível, John Barry, Ennio Morricone e, especialmente, Gator Gnulp do planeta Org".
O texto não refere sob o efeito de que substâncias o autor estava quando o escreveu mas devem ter sido mais ou menos as mesmas que as dos músicos no momento em que, a partir dos 29 "soundbytes" seleccionados (de um total de 2734, como precisa o livrete), montaram uma épica odisseia espacial em modelo "cadavre exquis". Vagueando entre os planetas "E-Z", "Techno", "Ambient" e uma dúzia de asteróides situados no espaço sideral que os envolve, Warp Back To Earth é verdadeiramente educativo: para a superior ilustração de quem o escuta, oferece ainda num segundo CD os 29 extractos dos temas originais de Peter Thomas (surpreendentemente modernos, intrigantes e inspiradores) como material de estudo comparativo e deleite auditivo geral. No Além digital onde paira a alma de Hal 9000, esta é a música que lhe ocupa os tempos livres durante toda a eternidade.