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08 March 2009

SEREMOS IRRELEVANTES?


U2 - No Line On The Horizon

Do modo mais cientificamente correcto, é aquilo a que só se pode chamar “uma óptima oportunidade para ter ficado calado”. Ou, mais exactamente, várias. Na primeira, Bono anunciou que “ou deixamos de tocar rock ou o rock terá de se tornar mais duro; seja como for, não continuaremos a ser como éramos”. À segunda (estavam os U2 a gravar em Marrocos), prometeu “influências trance e a colaboração de músicos Gnawa locais. A última foi… como dizer?... a mais embaraçosa: com a data de edição de No Line On The Horizon sujeita a sucessivos adiamentos, numa daquelas manifestações de subtileza que o celebrizaram, proclamou ao universo que “se este não for o nosso melhor álbum de sempre, seremos irrelevantes!”. Oops… e agora? É que nem deixaram de tocar rock nem ele ganhou músculo (isto é, ficaram precisamente como estavam), do trance há, sejamos benévolos, uns vestígios de segundos em “Fez – Being Born” e – aqui a coisa agrava-se seriamente – não só este não é o melhor álbum de sempre dos U2 como é bem capaz de ser um dos piorzinhos.


Serão, então, hoje, irrelevantes? Depende do ponto de vista: vendas de milhões? Claro que sim, sejam os “milhões” aquilo que forem no actual estado comatoso da indústria discográfica. Relevância musical? Bem, aí, convém nem pensar em fazer comparações com Boy, Achtung Baby, Zooropa ou mesmo com o imerecidamente mal amado Pop. Porque, após cinco anos de uma gestação que passou das mãos de Rick Rubin para as do triunvirato Eno/Lanois/Lillywhite e de meses dos habituais teatrinhos das audições “secretas” sob juramento de sangue nas instalações do patronato (coroados, pouco antes da data oficial de edição, com a fuga para o filesharing ilegal, cortesia de um lapso da… loja online da Universal australiana!), No Line On The Horizon faz inteiramente juz ao título. “Magnificent” já se chamou “Where The Streets Have No Name”, “Moment Of Surrender” é a cara da mãe – “Tryin’ To Throw Your Arms Around The World” –, “No Line...” passava muito bem por “The Fly”, “I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight” roubou a password a “I Still Haven’t Found...” e por aí fora. Duas interessantes experiências falhadas onde se sente o dedo de Eno (“Fez” e “Cedars Of Lebanon”) e uma, só uma, canção, “Unknown Caller”. Bono voltou a abrir a boca e, para o final do ano, prevê um novo álbum “mais meditativo sobre o tema da peregrinação”. Ai, ai, ai…

(2009)

10 April 2007

UMA BANDA DE ROCK'N'ROLL COM 4000 ANOS DE IDADE



Quando, há cerca de cinco anos, Lee Ranaldo, dos Sonic Youth, se encontrou nas montanhas do Rif marroquino com os Master Musicians Of Jajouka, foi apenas mais um numa já considerável série de músicos, artistas e escritores europeus e americanos que se deixaram fascinar pela música extática e ritual deste colectivo norte-africano. Dessa vez, Ranaldo utilizou uma velha guitarra electrica que Chris Stein, dos Blondie, havia oferecido a Bachir Attar, o líder do grupo, enquanto este tocava o bandolim de três cordas local (o guimbri) e um violinista, também marroquino, completava o trio de improvisadores entregue a mais outro diálogo transcultural e transcontinental. Antes dele e desde os anos 60, já por lá haviam passado William Burroughs, Paul Bowles, Brion Gysin, Brian Jones — que, então, revelaria a música de Jajouka ao resto do mundo —, Ornette Coleman ou Bill Laswell.



E, agora, também o produtor anglo-indiano Talvin Singh que, através do recém editado CD Master Musicians Of Jajouka Featuring Bachir Attar, acrescenta mais um valioso capítulo a esta história de sedução mútua entre culturas aparentemente distantes. No seu diário de viagem, Lee Ranaldo confessa-se desvanecido com a hospitalidade dos habitantes da aldeia de Jajouka e tece os mais rasgados louvores à superior qualidade do "kif" marroquino e à sua importância na intensificação da atmosfera gerada pela música. Mas, quando, em conversa com Bachir Attar, o assunto é abordado, ele próprio (que, em muito aproximativo inglês, fala de tudo um pouco), parece não lhe atribuir nenhum especial relevo...



Este não é a primeira gravação em que os Master Musicians Of Jajouka colaboram com músicos europeus e ocidentais. Como é que vê esse processo de diálogo entre pessoas provenientes de tradições culturais tão diferentes?
Nós temos o desejo de participar em experiências musicais e culturais mistas com artistas diferentes, de todo o mundo. Esse desejo existe desde que o Brian Jones e, depois dele, vários outros vieram ter connosco e conhecer-nos: estabelecer uma espécie de canal de comunicação entre a cultura de Marrocos e as outras.

Mas sente que tanto o Brian Jones como, por exemplo, o Ornette Coleman ou, agora, o Talvin Singh compreenderam verdadeiramente o sentido da vossa música?
O Ornette Coleman terá sido o que mais profundamente se apercebeu do significado da música de Jajouka quando veio ter connosco em 1973. Demos, depois, vários concertos juntos que voltámos a repetir no ano passado. Trabalharmos com músicos do calibre dele é fácil para nós. E também não sentimos dificuldade em dialogar com músicos que provenham da tradição clássica ou do rock'n'roll. Tudo isso pode contribuir para a sobrevivência da música e da tradição de Jajouka.



Esses vários processos de colaboração aconteceram de um modo mais ou menos livre e espontâneo ou a forma como vocês e os músicos que vieram ter convosco exigiu algum tipo de planeamento, de programação, relativamente a como iriam interagir em conjunto?
Com o Ornette foi tudo muito livre. Ele conhece-nos bem desde 1973, estudou a nossa música, por isso, a integração connosco foi muito fácil. O Talvin Singh, ouviu-nos, deixou-nos tocar e procurou captar a essência daqueles momentos. Com o Lee Ranaldo, dos Sonic Youth, também, tocámos juntos, espontaneamente.

Fora de Marrocos, por vezes, confunde-se a música de Jajouka com a música dos Gnawa que são referidas como sendo o mesmo. Qual é a diferença entre as duas?
São completamente diferentes. A música de Jajouka é distinta de todas as outras que existem no resto do mundo. Mesmo em Marrocos, era uma música especial, oferecida no palácio ao rei. Existe, pelo menos, de acordo com a tradição, já desde há seis gerações de reis, há cerca de seiscentos anos. Mas, nas ruas das cidades, há muitos outros tipos de música como a dos Gnawa que referiu. Os Jajouka são um único grupo, uma única família que transmite a sua música de pais para filhos, através dos séculos.



Do ponto de vista da tradição religiosa em que a vossa música se integra, também já vi referi-la tanto como tendo a ver com o sufismo islâmico como com o antigo culto "pagão" de Pan. Qual é a verdade?
Muita da nossa música é realmente sufi, outra tem um caracter terapêutico, curativo, e outra ainda é especificamente dirigida para o corpo e para a dança. É uma música muito aberta a que cada geração acrescenta sempre novos elementos. Temos realmente centenas de músicas. Mas, de um modo geral, pode-se dizer que é uma música dirigida a Deus e dedicada à paz.



Um dos aspectos mais curiosos do diário do Lee Ranaldo acerca do tempo que passou convosco é a referência que ele faz à importância que, para o caracter extático e religioso da vosso música, assume o facto de vocês fumarem doses gigantescas de "kif". É, de facto, verdade?
Talvez ele tenha ficado com essa ideia... Mas isso não tem nada a ver com fumar ou deixar de fumar. Nós concentramo-nos na música. Ela não depende em nada das substâncias que nós consumimos. Ele pode ter falado disso no diário tal como o Paul Bowles também já o havia feito mas o importante não é isso.

Falou no Paul Bowles e, na verdade, para além dos músicos, também escritores como ele ou William Burroughs foram importantes na apresentação da vossa música ao Ocidente. O que sentiu que os atraia para a música de Jajouka?
Todos eles (o Brion Gysin também), nos anos 50, vieram até nós, descobriram a nossa música e escreveram acerca dela. O Brion, por exemplo, veio só de férias e acabou por se deixar ficar por cá durante vinte anos. Foi através dessa pista que a nossa música se insinuou no Ocidente. O Paul Bowles chegou logo a seguir e, depois, vieram outros como o professor Timothy Leary que se deixaram prender pelas experiências de transe induzidas pelos músicos de Jajouka e que a procuraram compreender. O que levou, por exemplo, o William Burroughs a descrever a nossa sonoridade como a de "uma banda de rock'n'roll com 4000 anos de idade".



E essa descrição parece-lhe corresponder ao que é realmente a vossa música?
Acho que sim. Já ouvi muitos tipos de música diferente mas julgo que ele se referia aquele tipo de energia crua e intensa que se desprende do que fazemos. Mas que também se pode descobrir no jazz ou até na própria música clássica ocidental. (2000)
DESTE LADO DO MUNDO


Existirá na génese do fado uma raiz longinquamente árabe, muçulmana ou, sequer, magrebina? Terão as características melismáticas do "cante" alentejano alguma coisa a ver com o canto moçárabe? A verdade é que — inúmeras hipóteses e especulações à parte — a única resposta honesta que, até agora, tem sido possível dar é "não sabemos". Exactamente da mesma forma que o Ocidente, arrogantemente, desconhece praticamente tudo da música árabe e islâmica. Existem seguramente os nichos de especialistas, eruditos, académicos e cultivadores do exotismo. Mas, mesmo para quem se interessa de verdade pelo conhecimento das "músicas do mundo", é perfeitamente possível ignorar nomes, datas, géneros, acontecimentos cruciais. Como, há dez anos, me sucedeu no café mouro M'Rabet, do "souk" El-Attarine, em Túnis: hipnotizado pela avassaladora voz de barítono que, emergindo do pequeno leitor de cassetes, envolvia todo o ambiente, ousei perguntar quem cantava. Fui devidamente humilhado: "É apenas o maior cantor árabe de todos os tempos, Mohamed Abdel Wahab", responderam-me com justo e visível desprezo. Como se, em Portugal, um vil bárbaro americano me perguntasse "Então, quem é essa tal Amália Rodrigues?"...



Vergastado, tomei nota. Investiguei e era mesmo verdade. Era bem feito. Conhecia Oum Kalthoum e pensava que sabia quase tudo. Afinal, como já deveria desconfiar, sabia muito pouco. A sublime diva egípcia, Oum Kalthoum, e Mohamed Abdel Wahab são apenas dois exemplos em relação aos quais, por exemplo, a consulta das colecções de CD do Club du Disque Arabe poderia evitar embaraços semelhantes.


Oum Kalsoum

Mas quem faz sequer uma vaga ideia da importância que, no início do século XX, teve um género musical como o "dawr", de Casablanca a Argel, de Tripoli a Cartum, de Beirute a Damasco, do Cairo a Bagdad? Quem conhece a "femme fatale" tunisina dos anos 20, Habiba Msika? Quem ouviu falar de Sayid Darwich, de Asmahan ou Farid al-Atrash? Dir-se-à que, até há dois ou três anos, também quase tudo se desconhecia sobre os optimos veteranos músicos de Cuba. E é verdade. Eis, pois, agora, uma óptima oportunidade — ainda que pelas piores razões — para se começar a saber o que há muito se devia. Por exemplo, que, tal como no Ocidente, existe uma sofisticadíssima e elaborada música clássica árabe. Ou que, como ibéricos que somos, a cultura do Al-Andalus deveria dizer-nos muito mais do que o quase nada que nos diz. Alguns, não muitos, conhecerão o canto "qawwali" sufi do (já desaparecido) quase pop-star paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Mas quantos serão os que terão escutado os, pelo menos iguais, Sabri Brothers ou terão sequer uma ínfima ideia do revelador sentido filosófico/gnóstico do pensamento sufi islâmico?


Sabri Brothers

E quem terá ouvido a moderníssima iraniana residente em Nova Iorque, Sussan Deyhim, em Madman Of God, interpretando o sobrenaturalmente sábio Rûmi (para Leonard Cohen, "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Saadi, Djami e outros autores sufis, do século XI ao XIX? Haverá os que conhecem alguma coisa do pop-raï argelino por via de Khaled mas quantos já se terão atrevido a explorar o "malouf", a modalidade dos "tab" e "maqám", a "escola árabe-andaluz de Tlemcen" ou a música judaico-árabe de Ezzine-Ezzine, Ala Diennat ou Berouel Asbaine? E terá sido muita a curiosidade por músicos tão geniais como o marroquino Hassan Hakmoun, o turco Necdet Yaçar ou por todos os outros revelados pelas excelentes colectâneas da World Network?


Hassan Hakmoun

Como quase sempre acontece, a pop/jazz/rock foi à frente. E, sem esgotar exemplos, foi ela que através dos Saqqara Dogs, C-Cat Trance, Loop Guru, Trans-Global-Underground ou Jah Wobble se atreveu — directa ou indirectamente — a revelar o êxtase/transe/sufi/universal que, mais "etnologicamente autêntico", emergiu através de compilações como Crossroads Of Time e Trance, exemplos do "dikhr", recitação auto-encantatória do nome de Deus, que Brian Jones, William Burroughs, Paul Bowles, Ornette Coleman, Brion Gysin, Jimi Hendrix, Pharoah Sanders, Maceo Parker, Timothy Leary, Bill Laswell, Dissidenten, Marianne Faithfull e Sonic Youth aprenderam a declinar com os músicos marroquinos de Jajouka, Gnawa e todos os outros.


Dissidenten

Mas, acreditem, como quase todos nós, deste lado do mundo, eles conheciam muito pouco profundamente aquilo com que lidavam... (2002)