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23 February 2026

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (CII

 (com a indispensável colaboração do R & R)
 
(clicar na imagem para ampliar; ver e ouvir aqui)

12 September 2025

"Adieu Lovely Erin"

(sequência daquiComo já acontecera antes com vários elementos de diversas bandas, membros dos Landless e Lankum, convergiram para formar os Poor Creature: Ruth Clinton (ex-membro dos Niamh & Ruth e dos Landless) juntou-se a Cormac MacDiarmada dos Lankum, mais tarde - em consequência de desassossegos pandémicos - passando a trio com John Dermody dos The Jimmy Cake (e baterista em concerto dos Lankum). Com All Smiles Tonight, criaram um álbum cuja particular identidade se constrói em torno da tensão entre sonoridades acústicas e contaminações pós-rock e gentilmente psicadélicas, acomodando drones de cordas (viola de arco e violino) e electrónica. Muito em particular, rebuscada na fertilíssima area vintage à qual Ruth Clinton foi ressuscitar uma "keytar" nascida nos 80s, uma Organetta Hohner que ofereceria o esqueleto primordial de duas ou três faixas, um Otamatone japonês e um vetusto Theremin.

08 July 2025

The story of "Good Vibrations" is weirder than you thought

(sequência daqui) As gravações de Smile tinham começado em 1966 com "Good Vibrations". A estrutura da canção era modular, com secções, quase como se fossem andamentos de uma sinfonia. O single recebeu críticas positivas e Pet Sounds começou a ser reavaliado. Trata-se de um álbum inteiro composto por segmentos intermutáveis que fluiam uns nos outros, com repetições de secções, criando uma obra coerente. Brian trabalhava com os tubarões de estúdio de Phil Spector, The Wrecking Crew, e escrevia letras com Van Dyke Parks, enquanto os Beach Boys estavam em digressão. As sessões de gravação eram longas, à medida que Brian se torna cada vez mais perfecionista e obcecado com o seu trabalho. Eventualmente, os Beach Boys regressam ao estúdio e juntam-se a ele, adicionando as partes vocais. A banda, compreensivelmente, não entende totalmente o que são "The Smile Sessions" e Mike Love, embora tenha participado, mostrou-se desconfortável com algumas referências a drogas e com a diferença em relação aos álbuns anteriores dos Beach Boys. Wilson, no entanto, está ciente de que nos bastidores dos Abbey Road Studios, um grupo igualmente obcecado, natural de Liverpool, está a fazer as suas próprias experiências com a música pop. (segue para aqui)

16 June 2025

A FITA DO TEMPO
No ano passado, Rooting For Love apresentava-se com todos os preocupantes sintomas da obra de final de carreira: Laetitia Sadier, ao 5º álbum a solo após a separação dos Stereolab (2009), parecia desinteressar-se de vez do, até aí, fértil cruzamento entre a estética retro-futurista e o diálogo com o marxismo e o situacionismo e escorregava, ideologia abaixo, para o território das "personal politics", abeirando-se mesmo da involuntária comicidade "new age":“Smile at your spleen, inundated with light, and be serene, smile at your kidneys, lights escaping, color is blue, feel your organs smiling back at you”. Os Stereolab tinham emergido em Londres no acampamento "indie" local dos anos 90, mas, na verdade, nunca soaram como os seus contemporâneos. Se mantinham alguns pontos de contacto exteriores, estes situavam-se no pós-rock, no revivalismo do easy listening, na eletrónica experimental e na cena underground que revelou bandas como Pram, Broadcast e Plone.  (daqui; segue para aqui)

27 October 2024

Documentary movie about water in the Carpathians where special engineers created unique musical instruments that could "sound" only contacting the water. Using these sounds all of the musicians created a “Voice of Water" music track, which united ONUKA, Katya Chilly, The Maneken and DakhaBrakha
 

27 April 2024

"A Portal To Silver Linings"
 
(sequência daqui) E, à "Wire" acrescentaria: "A descoberta é a essência da minha prática. Está entranhada nos diferentes formatos segundo os quais o meu cérebro funciona quando penso em música, e na curiosidade de entender como tudo isto acontece e porque soa como soa. Uso muito o meu cérebro lógico e racional no acto de compor mas o objectivo é passar da lógica à emoção porque é aí que nos damos conta de que tudo está a correr bem. Ando sempre em bicos de pés entre duas versões de mim, procurando manter-me verdadeira em relação a ambas. A música ajuda-me a pertencer a esses dois mundos ao mesmo tempo". Composto à beira-mar na costa de Long Island, assenta todo ele em desdobramentos da clássica raga Bageshri (que exprime a emoção do encontro entre os amantes), rendilhada num psicadelismo translúcido de vagas de sintetizadores, voz, guitarra, violoncelo, marimba, flauta e sax, "drones" e fibrilhações sonoras.

24 April 2024

 DA LÓGICA À EMOÇÃO

Não confundir Arooj com Arushi. Até porque importa saber que Arooj Aftab - a saudita-paquistanesa radicada em Brooklyn, autora dos óptimos Vulture Prince (2021) e Love In Exile (2023) e primeira dama actual do que ainda se vai chamando "world music" (título que, aliás, rejeita: “Tenho raízes em imensos lugares. Vivi os últimos 20 anos em Nova Iorque e lá cresci musicalmente. Não me vejo na qualidade de artista ‘world’ ou ‘global’") - se inclui no mui activo círculo de apoiantes da indiana de Delhi, Arushi Jain. Após o estudo de música clássica indiana, também ela emigrou para os EUA - São Francisco e, depois, Nova Iorque -, onde se entregou â informática no Center For Computer Research In Music And Accoustics, da universidade de Stanford. Após a publicação de um primeiro álbum, Under The Lilac Sky (2021) que passaria despercebido no turbilhão pandémico, o novo Delight foi concebido como "um alerta para rejeitar firmemente qualquer existência da qual o deleite esteja ausente". (daqui; segue para aqui)

"Our Touching Tongues"

03 April 2024

"Vou Ficar Neste Quadrado"
 
(sequência daqui) Na verdade, o percurso apontava, desde o início, para uma ideia de articulação entre música popular tradicional portuguesa e música electrónica, com paragens de reabastecimento pelo meio: "Quando estudei piano, no convívio com a música clássica dei-me conta da preponderância dos dois modos - maior e menor. No estudo do jazz tive logo contacto com outros modos, dórico, frígio, mixolidio... que deixaram um rasto em mim. Estão presentes na minha música o que, antes, por não os ter conhecido nem estudado não afectava a minha forma de compor. Foram ferramentas que adquiri através do jazz embora este, em si, não esteja realmente presente", diz Ana Lua que, relativamente à música popular tradicional, confessa que - via dieta musical familiar - a descobriu através dos cantautores referidos acima, como igualmente por via de Michel Giacometti e descendência posterior. Muito em particular, em "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria", o arquivo online de vídeos de Tiago Pereira: "Todas essas recolhas foram, evidentemente, importantes para mim como são hoje também as do Tiago que serão uma versão moderna do trabalho do Giacometti: uma forma de registar a evolução que todas essas praticas vocais e instrumentais foram assumindo". (segue para aqui)

25 March 2024

PERSONAL POLITICS
Nos anos 90, Robert Christgau, decano da crítica musical norte-americana, despachava os Stereolab classificando-os como “Marxist background music” e, numa interrogação que deveria ser lida como um elogio, acrescentava: "So it isn't just silly punk songs - yet other people want to fill the world with silly Marxist songs, and what's wrong with that?" Era a altura na qual a banda de Tim Gane e Laetitia Sadier, socorrendo-se de todas as referências a que podia deitar a mão ("avant-pop", "electronica", "post-rock", "krautrock", "lounge", minimalismo, John Cage, bossa nova, "chanson"), se entretinha a polvilhar de alusões anarco-situacionistas o "consomé" sonoro da dezena de álbuns de estúdio que, entre 1992 e 2010, publicou. Exemplo supremo destes exercícios de ironia assassina, "Ping Pong" (1994): "It's alright, 'cause the historical pattern has shown / How the economical cycle tends to revolve / In a round of decades three stages stand out in a loop / A slump and war then peel back to square one and back for more / There's only millions that lose their jobs". (daqui; segue para aqui)

"Panser L'Inacceptable"

26 September 2023

 "Heat!"
 
(sequência daqui) Se RPG não quebrar esse reflexo condicionado, nada o fará: de manobras de corte e costura sobre "field recordings" a "samples" de farrapos de diálogos, "loops" vocais, alusões a jogos de vídeo, exercícios de "cadavre exquis" e ressuscitações corais de relíquias em Middle English do século XIII, o autoconfessado "mish-mash of sounds and influences, from folk to electronic, ambient, jazz and art-pop", na companhia dos sopros de Faye MacCalman e do contrabaixo de John Pope, conduziu-a a lugares que Meredith Monk, Julia Holter, Modern Nature ou This Is The Kit não tiveram ainda oportunidade de desbravar. Um maravilhoso delírio partilhado que tanto pode emergir do contacto com outras formas de arte como da "leitura da História, da visão de uma paisagem ou de um ruído fortuito, de passagem".

07 May 2023

Heinali - "Beatrice"
(do álbum Madrigals, na íntegra aqui)
 
"It was my deep love of Late Medieval and Renaissance polyphony that inspired this album. It is based on generative counterpoint — several independent self-playing melodies performed at the same time on a modular synth. I've been working on the patch since late 2017. After I had enough of recorded improvisations I contacted musicians who specialize in Early Music to look if we could combine period instruments with electronic polyphony on a modular system. On Beatrice, you can hear a brilliant violist Igor Zavgorodnii, from Kyiv, improvising on a baroque viola. Initially, I thought it to be the easiest piece to record but it proved to be much more difficult. At some point, I even considered discarding the piece altogether and changing the material. What helped, I think, was the mythology that gradually and miraculously emerged during several years I spent working on the patch. Generative voices turned into bird-like creatures inhabiting electric gardens of polyphony. One is tiny and full of vigour. It loves to sing high during the day but at night it dives deep under the water, where it hums her deep whale song. Another bird is a shadow. It flew into the garden straight from Elizabethan England, bringing melancholy, a fashionable malady, in its beak. Igor's task was to imagine himself as a different kind of bird in this unfamiliar garden, a caged one. His song dissents, he plays an old, period instrument, a baroque viola, but the microtonal technique he is applying comes straight from the 20th century. It is something that he improvised on the spot during the rehearsals and we just decided to go with it during our recording session".

05 May 2023


(sequência daqui) Aí, em conjunto com outros músicos, organizaria uma série de "live streams" musicais com o duplo objectivo de angariação de fundos e de elevar o ânimo da resistência. “Mas, à medida que os alarmes de ataques aéreos se tornaram mais frequentes, tivemos de cancelá-los até decidirmos que o próximo seria realizado a partir de um abrigo anti-aéreo próximo”. Tomaria como ponto de partida uma das peças que trabalhava para um álbum que a guerra interrompera – “Organa”, uma reconfiguração das polifonias da École de Notre Dame de Paris, dos séculos XII e XIII, em sintetizador modular. “Sem dúvida, uma justaposição bizarra dadas as circunstâncias. Mas, assim que comecei a tocar, senti que, pela primeira vez desde a invasão, redescobrira a ligação com uma parte de mim que julgava desaparecida para sempre. Naquela noite, regressei a casa e ouvi as notícias. Era o massacre de Bucha. Aquilo que pensava ter reencontrado dissipou-se ao aperceber-me que cada uma daquelas pessoas era eu. E elas eram todos nós”. (Live From A Bomb Shelter in Ukraine publicado em simultâneo com Kyiv Eternal - ver também aqui)

02 May 2023

E ELAS ERAM TODOS NÓS
Lviv foi, desde os anos 70 do século passado, a capital hippie do império soviético. Qual São Francisco da Europa de Leste, a ela acorreram pereginações de hirsuta juventude que, apesar de múltiplas tentativas do KGB para as afugentar, deixaram marcas, até hoje, na maior cidade do Ocidente da Ucrânia. Que tanto podem assumir a forma do “Cat Cafe”, da rua General Grigorenko (duas dezenas de divindades felinas prontas a conviver com a clientela), ao cuidado de Alik Olisevich – o mais velho hippie local e responsável pelo arquivo do movimento na cidade – , como no modo pelo qual, após a selvática invasão russa do ano passado, se converteu em “capital cultural” ucraniana ao acolher um imenso número de artistas e intelectuais em fuga. Um deles era Oleh Shpudeiko ("nom de plume", Heinali), compositor e “sound artist” que, após atravessar as fronteiras da Polónia e da Hungria para deixar a mãe e a mãe da namorada a salvo em Budapeste, de regresso à Ucrânia, deter-se-ia em Lviv. (daqui; segue para aqui)
 

13 January 2023

Concret PH - a musique concrète piece by Iannis Xenakis, originally created for the Philips Pavilion (designed by Xenakis as Le Corbusier's assistant) at the Expo 58  

(sequência daqui) Enquanto colaborava com Le Corbusier, estudava harmonia e contraponto e, em pleno palco dos grandes confrontos entre as luminárias da música da época, ia procurando quem lhe pudesse servir de ponto de apoio na descoberta da sua própria via. Nadia Boulanger rejeitou-o, Arthur Honegger franziu o nariz ao reparar no seu uso de oitavas e quintas paralelas, apenas Olivier Messiaen o acolheu. Como este recordaria depois “Apercebi-me imediatamente que ele não era como os outros. Tinha uma inteligência superior. Fiz com ele uma coisa horrível que não deverei fazer com mais nenhum outro aluno pois penso que é necessário estudar harmonia e contraponto. Mas este era um homem tão fora do vulgar que eu disse-lhe ‘Você tem quase 30 anos, tem a grande sorte de ser grego, de ser arquitecto e de ter estudado matemática. Tire partido destas coisas. Use-as na sua música’”.

Voyage Absolu Des Unari Vers Andromède

Para Xenakis que se lamentava de “ter nascido demasiado tarde e ter perdido dois milénios”, isso foi como um livre-trânsito que o autorizou a investigar (sem o adoptar) o serialismo, mas também a estudar a utilização de modelos matemáticos em música: processos estocásticos, teoria dos jogos, a teoria cinética dos gazes de Maxwell-Boltzmann, a distribuição dos pontos num plano, a álgebra de Boole, a distribuição Gaussiana, as cadeias de Markov, o movimento Browniano das partículas e a sequência de Fibonacci, assim como a música electrónica. Desenhou espaços para acolher músicas específicas e música para espaços pré-determinados. E, se recusou a ideia que nele apenas via um matemático que se envolvera com a música, também punha reticências a interpretações descabidamente políticas da sua música: quando, durante os motins do Maio de 68, em Paris, uma faixa onde se lia “Abaixo Gounod! Viva Xenakis!” foi dependurada nas janelas do conservatório, numa entrevista televisiva, fez questão de afirmar “Não se trata apenas de sons e música, é necessária uma transformação das pessoas também”. (Révolutions Xenakis - 03/12/2022 - 27/03/2023, Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian; segue para aqui)