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02 February 2026

CERCADOS PELA LINGUAGEM
No "Guardian", Alexis Petridis encontrou aquela que é provavelmente a melhor forma de caracterizar o papel da voz de Florence Shaw nos Dry Cleaning: "É um pouco como dizia o Stuart Moxham dos Young Marble Giants acerca da Alison Statton: 'Ela canta distraidamente como se estivesse na paragem, à espera do autocarro". Na verdade, Florence mal chega a cantar: da colagem de cut-ups e spoken word a que quase apaticamente se entrega qual Laurie Anderson dadaísta, resulta o que, ao longo dos três álbuns publicados - New Long Leg (2021), Stumpwork (2022) e, agora, Secret Love (2026) - foi encarado como poesia post-punk, sismogramas beatnick e surreal excelência idiossincrática de poetas punk londrinos. Nada, porém, de estratégias furtivas, jogos de dissimulação ou evasão. Apenas uma questão de acreditar numa ética do trabalho peculiar: "I make sure there are hidden messages in my work”. E de se manter fiel ao método que assegura que "the ordinary is worth mining for the extraordinary". (daqui; segue para aqui)
 
"Cruise Ship Designer" (legendas disponíveis)

04 September 2025

Erik Satie (1866 – 1925)

(II) 

 
"It is november 1924 and the three men are René Clair, Francis Picabia and Erik Satie. (...) One... two... three - here they are. Side by side with their heads in the clouds, on top of the world or at least the roof of the venerable Théatre des Champs Elysées" (Ian Penman - Erik Satie - Three Piece Suite)

03 June 2025

 
(sequência daqui) À beira da desintegração por manifesto desinteresse das gentes (por essa altura, mais motivadas pelo carnaval Britpop), entra em cena Russell Senior, guitarrista e violinista, fundador da Dada Society - também conhecida como New Wave Society - na universidade de Bath (onde também desempenharia o papel de Josef K., numa encenação de O Processo, de Kafka), e activamente militante durante a greve dos mineiros de 1984 em cuja violenta Batalha de Orgreave participou. "O Russell, realmente, salvou-nos. Tinha a opinião que não deveríamos ser exclusivamente um projecto musical, que deveríamos incluir outras formas de expressão artística", conta hoje Jarvis à "MOJO". Prosseguiram, então, na qualidade de Jarvis Cocker Experience & The Wicker Players que, em diversos pubs, apresentariam The Fruits Of Passion, uma peça surrealista na qual o baterista Magnus Doyle tentava o coito com uma laranja. (segue para aqui)

15 January 2025

Recordando um bonito momento dada-situacionista das presidenciais de há 4 anos
"Nenhum de nós tinha o mínimo interesse pela coragem que é preciso ter para se deixar matar a tiro pela ideia de uma nação que, na melhor das hipóteses, é uma união de interesses de comerciantes de peles e traficantes de couro, e, na pior, uma associação cultural de psicopatas que, como na 'pátria' alemã, saíam de casa com o seu livrinho de Goethe na mochila para, de baioneta em punho, porem os franceses e os russos no espeto" (Richard Huelsenbeck - En Avant Dada: Uma História do dadaísmo  + leitura complementar)

22 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (VI)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Poderia ainda acrescentar ao rol de desatinos a reacção inexplicavelmente alérgica a Steve McQueen (1985), dos Prefab Sprout ("É impossível não franzir o nariz a esta pop quase sem espinha nem energia, hipercarregada de efeitos e complicativa, piscando incessantemente o olho a si mesma e que, deslumbrada com tanta aparente versatilidade, é incapaz de seguir de modo escorreito um percurso melódico sem ceder à tentação de lhe sobrepor desvios 'espertalhões' a mostrar aos entendidos que a sabedoria até vai além dos desprezíveis quaternário e cadência de dominante-tónica") mas é obrigatório reconhecer que não se colecciona asneiradas apenas virando o polegar para baixo. O inverso também pode ser generosamente produtivo. 
 
Uma década depois, em Dublin, o festival Green Energy converter-se-ia em palco de aparições milagrosas. E juro solenemente, cross my heart and hope to die, que nada disso teve sequer vagamente a ver com o facto de o patrocinador do evento ser a cerveja Heineken. Por lá andavam Lou Reed, Goldie, Orbital e inúmeros anónimos (ou quase) mas a primeira revelação ocorreria num dos inúmeros palcos de bar/pub , de Temple Bar, o Fitzsimmon's. Poucos passos à minha frente, Nine Wassies From Bainne. Abalo existencial instantâneo: "Colisão frontal e fulgurante entre Zappa, a comédia Dada, Zorn, o fantasma electrocutado do rock, Hendrix, Captain Beefheart e todos os arredores mais delirantes desta área de catástrofe. Apenas uma bateria-turbo, um baixo em estado de taquicárdia e uma guitarra que viaja em voo picado, da distorção ao timbre de trompete, passando pelo contraponto de pedais e sonares alucinados, 'flashes' de derrapagem orquestral e intervalos de melodia encaixilhada em arame farpado", escreveria eu, ainda em levitação. E, solenemente, proclamava: "São de Cork, evitam a Inglaterra (demasiado 'trendy') e estão a caminho de Nova Iorque, em busca de editora. Não se esqueçam, foi aqui que ouviram falar deles pela primeira vez". Pela primeira e, muito provavelmente, a última. Porque, embora tenham encontrado a editora que procuravam, nela gravariam Ciddy Hall, único álbum da sua meteórica carreira discográfica, e pouco depois esfumar-se-iam. (segue para aqui)

08 May 2024

 
(sequência daqui) Se Tragedy (2011) e Loud City Song (2013) foram álbuns orientados, desde o início, por um estímulo temático - Hippolytus, de Euripides, e Gigi, a novela de Colette convertida em musical por Alan Jay Lerner e Frederick Loewe -, Something..., como todos os outros, foi descobrindo o seu sentido â medida que as canções iam surgindo e ficando gravadas. Não sendo, de todo, imune ao que, no mundo - e no seu mundo interior - ia ocorrendo ("Sim, a música é, definitivamente, um reflexo de tudo isso. A vida, a morte, o isolamento, as transformações do corpo, acabaram por influenciar o que gravei"), a tradução disso para o universo das palavras foi tudo menos linear: os textos têm quase um certo ar de "cut-ups", de poesia dadaista, colando segmentos de frases e extraindo daí diferentes significados... Cautelosamente, Julia discorda: "Não sei... mas neste álbum, na verdade, não me parece que existam canções em que tenha recorrido a essa estratégia embora já o tenha feito no passado. Essa abordagem do processo de escrita, no entanto é algo que me fascina e me interessa bastante". (segue para aqui)

05 January 2024

"The Down Below"
 
(sequência daqui) Ao quarto álbum, após os óptimos Choose Your Own Adventure (2016), The Age of Immunology (2019) e Ookii Gekkou (2021), os Vanishing Twin - agora, a formidável Valentina Magaletti (percussões), Susumu Mukai (multi-instrumentista, electrónica ) e Cathy Lucas (voz e guitarra) - já não são tanto os delfins dos Stereolab e/ou Broadast mas sim uma poderosa central de difusão de singularidades visionárias (escutem "Brain Weather", "Marbles", "Lotus Eater", "Lazy Garden"). À "The Quietus", Magaletti explica-se: "Dadaístas ou surrealistas, são esses os artistas que dão corpo à nossa estética. É essencial gostar do que fazemos e nunca o fazer por obrigação. Desejamos sempre ver o que se esconde por trás da moldura". Em menos palavras: "A realidade, lá fora, está cheia de coisas interessantes".

03 October 2023

 
(sequência daqui) "A mais imaterial das artes", em Ticket To Fame, emergiu de um processo informal de composição, no qual, uma vez sintonizado o "writing flow", as canções "transpiravam com agilidade". Entre um estúdio de Colónia (Alemanha) - "uma nave espacial recheada de sintetizadores: um Prophet, um modular, um Juno, um Jupiter, um Rodeo, um com o desenho de uma abelha e outro dos anos 80 que a Kate conhecia", conta Deradoorian -, uma sala de ensaios de Los Angeles e um roupeiro onde gravaram as vozes, erguer-se-ia-se-ia um jogo de transparências sonoras em modo de geometria colorida mais leve do que o ar, que tanto pisca o olho aos Talking Heads como à 9ª de Beethoven, a Laurie Anderson e aos Gershwin, ou verte o "ennui" contemporâneo em poesia Dada/lista de compras: "Anatomy bathing suit, real life potato head, kitty thief piggy bank, lizard glow bowling ball".

30 December 2022

 
(sequência daqui) Mas, pelo meio, podemos observar como, diversas vezes, Florence consulta o placard coberto de folhas com fragmentos de textos, fonte de alimentação das canções em processo de gravação. Algures por ali – sob os espectros de Sterne, Burroughs, Gysin e Laurie Anderson –, John Parish, no posto de (discreto) comando, esforça-se por arrumar tudo ao jeito de um diário dadaísta, acondionado por um "brainstorming" instrumental em comunicação mental com os Wire, Pavement, Johnny Marr e Robert Fripp. Na capa do sucessor de New Long Leg, um sabonete no qual o título do álbum se desenha numa elegantíssima filigrana de pelos púbicos. Um manifesto? “For a happy and exciting life, locally, nationwide or worldwide, stay interested in the world around you”.

22 November 2022

A JOKE A DAY KEEPS THE DOCTOR AWAY (XCVI)

Aleluia!... Mais de um século depois, alguém, finalmente, denuncia a "Fontaine" de Duchamp (aliás, de Elsa von Freytag-Loringhoven)! Está cada vez mais próximo o momento em que a falta de jeito dos egípcios que desenhavam as figuras de perfil será também desmascarada!!!

25 May 2022

Sudan Archives - "Dogtown"
 
(sequência daqui) O anátema de maléfica harpia japonesa responsável pela desagregação dos Beatles – depois bastamente desmontado – decorria, em parte, do currículo anterior de Yoko: filha de abastado banqueiro japonês que, após o pesadelo da 2ª Guerra Mundial, se havia mudado para Nova Iorque, inicialmente devota de Schoenberg e Alban Berg, rapidamente se envolveria com os neo-dadaístas do Fluxus, convertendo o seu loft no nº 112 de Chambers Street em espaço para concertos e performances (com Marcel Duchamp e Peggy Guggenheim entre os convidados) de La Monte Young, Joseph Byrd – posteriormente, motor criativo dos United States of America –, John Cage e Henry Flynt. O explosivo cocktail de arte conceptual, Dada, poesia concreta, arquitectura, performance e literatura assemelhava-se demasiado a uma ameaça ao equilíbrio colectivo dos, até aí, quatro despreocupados “mop tops” que, contudo, por essa época, com Revolver, até pareciam ter-se tornado particularmente permeáveis à sedução de todo o espectro de experimentalismos. Yoko, porém, em algum ponto, pisara uma linha vermelha. (segue para aqui)

10 February 2022

A mui oportuna intervenção estética de um vigilante compreensivelmente entediado com o primeiro dia de trabalho na obra de uma Artista Homenageada da República Socialista Federativa Soviética da Rússia,  com uma esferográfica do Centro Presidencial Boris Yeltsin de Yekaterinburg onde o quadro se encontrava em exibição, não é um gesto (mais do que) duchampiano que merece ser saudado?

Anna Leporskaya - Três Figuras (1932/1934), após a intervenção

26 December 2021

 
(sequência daqui) Ookii Gekkou (em japonês, “Big Moonlight”) aprofunda e dilata o horizonte desta enigmática terra incógnita assente sobre infinitas fantasias Dada-abstraccionistas, "space-age free jazz" em lento processo de dissolução, orientalismos em contraluz, o infatigável dínamo rítmico de Valentina Magaletti, evocações distorcidas de afrofunk e “samples” de ronronar felino. Uma microscópica música molecular em interminável mutação às mãos do (agora) quarteto composto pela “mastermind” Cathy Lucas, Magaletti, Susumu Mukai e Phil MFU, armados de xilofone, glockenspiel, sintetizadores, mellotron, guitarra, baixo e bateria, com o recrutamento externo de cordas e sopros eventuais (e da "special guest star" Lætitia Sadier, em guitarra). Caleidoscópio do ano.