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18 March 2026

Já faz falta uma polémica catita como esta (mergulhando nas profundezas do blog, reparei que, ultimamente, foi bastante revolvida)

19 September 2025

 
(sequência daqui) Foi pelo final dos anos 80 que a reabilitação da obra de Nick Drake teve início com ponto de partida na retrospectiva de Len Brown no "NME" (1989) que considerava Five Leaves Left"uma obra prima da melancolia britânica". Sucessivamente reinvindicada por inúmeros músicos como fonte de inspiração, este boxset de 4 CD agora publicado - The Making of Five Leaves Left -, leva-nos a mergulhar no mundo criativo inicial de Nick Drake. Oferece uma visão reveladora sobre a forma como o álbum de estreia de Drake de 1969, foi concebido, desde os esboços iniciais e as faixas descartadas até à obra final remasterizada. Descoberto por Ashley Hutchings (Fairport Convention') e contratado pela produtora Witchseason de Joe Boyd, Drake ver-se-ia confinado ao estatuto de "artista folk". Five Leaves Left, gravado com um orçamento mínimo em 1969, contava com a participação de músicos que tinham contribuído para a criação do folk rock. No entanto, o seu era um estilo de folk rock muito diferente, com uma pincelada de jazz. Cantadas em tom semi-sussurrado, as canções eram impulsionadas por aquilo que tinha atraído Boyd para Drake: o estilo de guitarra de afinação aberta, tocado de forma particular. (segue para >aqui)

15 September 2025

MELANCOLIA BRITÂNICA 

Quando, a 3 de Julho de 1969, Five Leaves Left foi publicado, não teve direito a passadeira vermelha nem nada muito próximo disso. Na verdade - sem que sequer a presença dos "Thompson twins" Richard (dos Fairport Convention) e Danny (Pentangle) o pudesse contrariar -, a recepção crítica foi pouco mais do que morna: uma "tonalidade demasiado melancólica e uniforme", uma "atmosfera introspectiva excessivamente obscura e depresiva", e "ausência de dinamismo" foi o que, do "Melody Maker" ao "New Musical Express", ao "Daily Telegraph" e ao "Disc and Music Echo", se opinou, nunca indo além da classificação de "interessante", considerando as canções "incertas e indirectas", e o álbum "melodicamente monótono". Apenas Gordon Coxhill no "NME", admitia que Drake possuía um "considerável talento", mas o disco "carecia de diversidade", e a voz recordava-lhe a de Peter Sarstedt (a "one hit wonder" de "Where Do You Go To My Lovely?" que, em 2007, acabaria por ser ressuscitada por Wes Anderson para os filmes Hotel Chevalier e Darjeeling Limited) mas sem a sedução e profundidade deste. Um pouco mais simpático, porém, do que, parecia ser a opinião corrente na cave do nº 49 da Greek Street londrina onde, de 1964 to 1972, funcionou o clube folk Les Cousins e Drake era "aquele jovem nervoso que punha o público a dormir"... (daqui; segue para aqui)

25 March 2024

PERSONAL POLITICS
Nos anos 90, Robert Christgau, decano da crítica musical norte-americana, despachava os Stereolab classificando-os como “Marxist background music” e, numa interrogação que deveria ser lida como um elogio, acrescentava: "So it isn't just silly punk songs - yet other people want to fill the world with silly Marxist songs, and what's wrong with that?" Era a altura na qual a banda de Tim Gane e Laetitia Sadier, socorrendo-se de todas as referências a que podia deitar a mão ("avant-pop", "electronica", "post-rock", "krautrock", "lounge", minimalismo, John Cage, bossa nova, "chanson"), se entretinha a polvilhar de alusões anarco-situacionistas o "consomé" sonoro da dezena de álbuns de estúdio que, entre 1992 e 2010, publicou. Exemplo supremo destes exercícios de ironia assassina, "Ping Pong" (1994): "It's alright, 'cause the historical pattern has shown / How the economical cycle tends to revolve / In a round of decades three stages stand out in a loop / A slump and war then peel back to square one and back for more / There's only millions that lose their jobs". (daqui; segue para aqui)

"Panser L'Inacceptable"

11 June 2022


"Conheci a Paula Rego em Londres, quando para lá fui viver, em 1978, na qualidade de conselheiro cultural da nossa embaixada. Fui-lhe apresentado em casa do Helder Macedo. Logo me impressionaram muito o seu sorriso travesso, a quase intolerável amperagem dos seus olhos e a total despretensão da sua conversa. A Paula tornava-se rapidamente amistosa e recusava o jargão dos pseudo-cultos. Falava, com ironia mal velada, nos críticos de arte, que construíam grotescas catedrais de interpretação, à volta de soluções de pintura muito simples e muito óbvias. Em literatura, passa-se o mesmo, mas os críticos de arte refinam, neste delírio interpretativo. Ao longo da minha vida, conheci mais do que um pintor de nome que dizia gostar de ouvir opiniões sobre as suas obras, desde que não fossem opiniões de críticos de arte. Lembro-me de a Paula, que gentilmente me convidara a visitar o seu enorme estúdio, em Londres, me ter ali mostrado um seu quadro de enormes dimensões. Disse-me que quando concluíra aquela obra, notara que no canto inferior esquerdo, ficara um espaço em branco, que se tornou, para ela, irritante. Para obviar a isso, pintou lá uma figura de um animalzinho que me mostrou, comentando: 'Não imagina, Eugénio, as coisas delirantes que alguns críticos disseram do significado profundo deste animalzinho, que eu ali pusera só para encher espaço...'" (daqui)

19 March 2021

 
(sequência daqui) Tomemos, então, nota: 1) nos tempos que correm, é manifestamente impossível perguntar a Nick Cave o horário dos comboios de Brighton para Londres sem que a resposta venha embrulhada numa chuva de citações, do Génesis à Epístola aos Coríntios; 2) não há paradoxo ou absurdo teológico que um golpe de prestidigitação retórica não reduza a pó; 3) como “toda a arte é perfeitamente imperfeita” e “todos os juízos de valor acerca dela são largamente subjectivos e despropositados”, este texto deveria terminar imediatamente aqui. O que, convenhamos, é um gigantesco passo em frente relativamente ao período medieval do Bob Dylan-"born again": ele podia pregar aos gentios mas, pelo menos, não extrapolava de modo tão invasivo. É verdade que, desde o início, e, em especial, a partir de The Good Son (1990), Cave cultivou um certo perfil de profeta apocalíptico maldito. Mas, sem dúvida, “The Red Hand Files” proprcionou-lhe um púlpito de uma tentadora dimensão muito mais vasta, que tanto lhe serve a ele como megafone para elucubrações estético-teológicas como a nós para o encarar enquanto divã de psicanalista: Cave vai escrevendo e nós, armados em Sigmunds (ainda mais) de trazer por casa, vamos lendo e interpretando. O que até nem é extraordinariamente difícil e, no que toca a Carnage – de modo igual ao anterior Ghosteen (2019), anunciado quase casualmente num post como “um disco brutal mas muito belo abrigado numa catástrofe comunitária” –, tem pano para inúmeras mangas. (segue para aqui)

12 November 2019



 
Morris On - "Old Woman, Shepherds' Hey and Trunkles"