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10 October 2024

(sequência daqui) Laurie Anderson - É curioso porque, durante todo o processo de composição, nunca tive consciência dessa relação. E, de facto, ambas têm como desfecho um desastre. Não faço a menor ideia de por que motivo isso aconteceu. 

    João Lisboa - Amelia teve um longo percurso até atingir esta forma final... 

    LA - Amelia deu os primeiros passos em 2000. Foi uma encomenda. O Dennis Russel Davies - actual maestro da Filarmónica de Brno, na República Checa - veio ter comigo, disse-me que iria apresentar no Carnegie Hall um espectáculo cujo tema era o voo e no qual seriam apresentadas peças de Philip Glass, Kurt Weill, e Samuel Barber. E perguntou-me se não me apeteceria escrever também alguma coisa, se me sentia capaz de escrever uma obra orquestral. Não fazia a menor ideia de como o fazer. Não me pergunte porquê mas prefiro sempre sentir-me no lugar do principiante. Gosto de fazer coisas que não sei como fazer, se já sei fazê-las não me interessam tanto. Por isso, não me acobardei. E o resultado foi muito mau. Mesmo. No entanto, alguns anos depois, o Dennis veio ter outra vez comigo e disse-me que gostava muito das partes de cordas dessa primeira tentativa. Fomos, então, por aí e a recuperação nem resultou mal. O passo seguinte seria deixar de lado todo o resto. Por mim, o processo estava concluído. Mas, durante a pandemia, ele veio-me com a ideia de aproveitarmos esse tempo e gravarmos tudo. Na verdade, as três versões que foram sendo concretizadas têm entre si apenas uma relação familiar muito longínqua. E, uma vez que tenho em curso um outro projecto, Ark, precisava de concluir este com alguma rapidez. (segue para aqui)

24 July 2024

... e, no melhor estilo siciliano, rematam ameaçando: "Esta decisão vai afectar irremediavelmente o modo como operadores privados e Ministério da Saúde se articulam"

08 December 2023

ECOS DO FUTURO 


Preparem-se porque vai tratar-se de uma longa viagem de quase 30 anos. Mais ou menos pela mesma altura (1995) na qual Peter Gabriel iniciara a gravação de Up - publicado em 2002 -, havia já embriões de ideias para o que lhe deveria suceder. E data marcada para isso: 2004. Candidatas a figurar em Up, em diversos estados de evolução, existiam mais de 130 canções das quais 10 passariam todos os testes. Acerca das que restavam, Gabriel planeava virem a integrar um álbum com o título i/o (que fora provisoriamente o de Up). Com diversas digressões, a actividade da sua editora de world music "Real World", o envolvimento em múltiplos projectos de âmbito político/social, a gravação de bandas sonoras e dos álbuns de versões Scratch My Back (2010) e New Blood (2011) pelo caminho, 2004 ficara lá para trás. Mas, um ano depois, existia um caldeirão de 150 canções que, com o engenheiro de som Richard Chappell e o percussionista Ged Lynch, ia fazendo borbulhar: "Tenho escrito principalmente sobre o nascimento e a morte, com sexo pelo meio", diria ele, então, à "Rolling Stone". Um salto de 8 anos e, à mesma publicação, confessaria que tinha cerca de 20 canções no forno: "Provavelmente, as coisas não têm acontecido tão rapidamente quanto desejaria. As canções ainda cá estão, embora queira regravar algumas. E há sempre outras novas a aparecer". Mais uma pausa de 6 anos (com problemas de saúde familiares pelo meio) e, finalmente, em 2019, anuncia que desta vez é que é: há 50 ideias prontas a eclodir e até ao final do ano tudo deverá estar concluído. Interrupção dramática para alerta de Covid e comunicado oficial informando que "o lockdown atrasou-nos um pouco" mas "há canções suficientes para gravar um álbum de que me possa orgulhar". (daqui; segue para aqui)

Peter Gabriel - "i/o (Bright-Side Mix)"

10 May 2023

QUANDO O COMBOIO DESCARRILOU 

Há dois anos e meio, ninguém o adivinharia. Falando a partir da Califórnia por ocasião do lançamento do seu álbum a solo, Serpentine Prison, Matt Berninger referia-se à paralização geral a que o confinamento resultante da emergência pandémica obrigara (“Toda a gente tem de repensar a forma como lida com a vida. Foi tudo virado de pernas para o ar. Não parou apenas a indústria musical, parou praticamente tudo. Tem sido uma situação dramática. Não é possível planear coisa nenhuma”), expelia fel sobre a tenebrosa era-Trump (“Custa a acreditar como uma nação se deixou dominar por um criminoso patético e transparentemente maligno e dói ver a aceitação de tal brutalidade. Teremos de reconstruir a América praticamente a partir de zero mas acredito que o ideal americano mantém a força suficiente para, optando por Biden e Kamala Harris, reinventar o país”), mas, quando lhe perguntei qual o critério para distinguir o que viria a ser uma canção dos National de outra para o seu reportório pessoal, respondeu: “Tenho escrito bastante. Estou sempre a escrever, nunca paro. Há muitos músicos e autores de canções amigos que me enviam esboços de ideias. Quando o Aaron, o Bryce, o Brian ou o Scott me enviam alguma coisa, será uma canção dos National”. (daqui; segue)

"The Alcott" (feat. Taylor Swift)

28 March 2023

 
(sequência daqui) No que respeita a Songs Of Surrender, também nem tudo é coerente. Concebido como guia de audição complementar da leitura da autobiografia de Bono – 40 faixas do reportório da banda revistas em modo quase-"unplugged" para outros tantos capítulos do livro –, na verdade, apenas 28 canções são comuns a livro e disco mas, à excepção de October (1981), No Line On the Horizon (2009), e Original Soundtracks 1 (1995), toda a discografia dos U2 está representada. Num dos capítulos do livro, Bono conta que “Durante o confinamento, tivemos oportunidade para reimaginar cerca de 40 canções o que me permitiu viver no interior delas enquanto escrevia estas memórias. E também me possibilitou lidar com uma coisa que me irritava há muito: os textos de algumas delas nunca me pareceram verdadeiramente acabados”. Dave “The Edge” Evans, o "guitar hero" que não queria ter nada a ver com "guitar heroes" e preferia Tom Verlaine, Keith Levene (PIL) e John McKay (Siouxsie & the Banshees) acrescenta: “Tínhamos curiosidade de saber como seria transportar as nossas canções antigas para o presente e dar-lhes o benefício de uma reconfiguração do século XXI. O que começou como uma experiência rapidamente se transformou numa obsessão pessoal. A intimidade substituiu a urgência pós-punk. Assim que abdicámos da reverência pelas versões originais, cada canção abriu-se a uma autêntica voz deste tempo e das pessoas que somos agora. Algumas cresceram connosco. Outras deixámo-las para trás. Uma grande canção é indestrutível. Mas a essência de todas elas permanece connosco”. (segue para aqui)

02 March 2023

 
"It was an exercise in vulnerability and trust. The music and structure were composed in real time, while the tape rolled on the very last day of tracking. My bandmates and I combined three different chord progressions and keys, each originating from different demos we had individually brought in. It was an experiment, one of the many examples of true collaboration that Every Acre is built upon. At its narrative core, the lyrics expose my struggle with depression through an unfiltered lens—calling it what it is, shaking hands with it, unapologetically honoring the power of its grip. It’s a mysterious and unpredictable companion that can make walking this world feel like slogging through unforgiving fields of mud. It’s exhausting. During this specific stretch of time, only my most primitive senses seemed accessible; the stillness of observation became the earnest way forward: train whistles told me it was time for supper; daybreak ushered a procession of morning light colors—blue, violet, pink, gold; the smell of burnt rubber and snarling engines signaled a Saturday night. Navigating the nuances of pandemic isolation while under a debilitating depression fog was the most alone I have ever felt. To embody grief honestly, to embrace its clumsy and unhinged corners—to survive—required efforts and elixirs of self-preservation. The chorus became an anthem, of sorts; a mantra for letting go of guilt in needing these things—whether medication or TV shows or other vices—to offer myself some grace"

04 January 2023

"Sen Benim Mağaramsın"
 

(sequência daqui) Ela própria explica como, durante os anos de peste pandémica, encerrada em casa, escreveu para cima de 100 canções: “Senti-me como uma cientista lidando com uma reacção química que expandia os géneros que conhecia: pop-folk da Anatólia, música clássica turca, rock psicadélico turco, pós-punk, jazz, surf, e umas pitadas de disco e de música africana. É um meteoro turco: sangue, suor e lágrimas numa paisagem de cavalos selvagens”. Celebrando o metafórico despertar do dragão adormecido (“Vivemos um clima político no qual a luta pela identidade feminina é revolucionária. A única resistência só pode ser uma acção colectiva”), estas “histórias para o futuro” narradas sobre filigrana psicadélica de guitarra, baixo, bateria, violino, baglama, cümbüş e sazbüş, são o empolgante manifesto de quem se apresenta como “uma nadadora olímpica numa piscina cheia de lâminas”.

30 November 2022

NUM MUNDO ÀS AVESSAS

Em Through the Looking-Glass, and What Alice Found There – a sequência de 1871 para Alice's Adventures in Wonderland, publicado seis anos antes –, Lewis Carrol faz Alice penetrar, através de um espelho, num outro mundo fantástico no qual, tal como sucede numa imagem reflectida, tudo se encontra invertido. A propósito de Looking Glass (sucessor de Cusp, 2018), Alela Diane reconhece a ascendência literária e, à God Is In The Tv, explica: “Após a pandemia, demos connosco a viver num mundo às avessas, o oposto do que seria normalmente de esperar. Uma grande parte da nossa realidade foi distorcida através de uma lente com que não contávamos. No contexto do álbum, Looking Glass tanto se refere a um portal para o passado e o futuro como é um reflexo de tudo o que existe entre ambos. Tiraram-nos o tapete debaixo dos pés. Amparámo-nos na memória, aprisionados no aquário das nossas casas – acenando a um amigo através do vidro. Um ecrã de telemóvel – uma conversa por Zoom –, a toca digital do coelho deixada para trás por aqueles que desapareceram das nossas vidas ou, simplesmente, se afastaram”. (daqui; segue)

20 November 2022

MONSTERPIECE
Há 5 anos, Peter Buck decidiu comprar um dos 75 retratos de uma série sobre Lou Reed que Luke Haines colocara à venda. Inesperadamente, Haines propos-lhe gravarem um álbum a meias. Sem nunca se terem encontrado fisicamente, assim nasceriam as dez canções de Beat Poetry For Survivalists (2020), mui peculiar objecto em cujas esquinas Andy Warhol, Liberace, os Ramones, Captain Beefheart e Maria Callas se cruzavam. Supostamente, não teria sucessor. Mas, com os constrangimentos pandémicos a pesar, o ex-R.E.M. e o ex-Auteurs/Black Box Recorder/Baader Meinhof optaram por dar uso útil ao muito tempo disponível e reactivar a colaboração: “Apercebi-me que, com o Luke, não há limites. Tudo o que lhe enviava ele concluía. Era o Verão de 2021 em Portland, com incêndios, ondas de calor e protestos, e dei comigo a pensar ‘Será que preciso realmente de escrever mais uma canção bonitinha em Mi menor com um riff de guitarra catita?...’ Que se lixe, não era esse o meu estado de espírito na altura”, contou Buck à UCR“. (daqui; segue para aqui)