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19 July 2023

Remember what the dormouse said: feed your head (XXXI)

"O racismo nas páginas de 'A Esfera' atinge uma maior virulência no campo artístico. Aí é que os nossos germanófilos perdem as estribeiras e, de caneta em riste, alongam-se em artigos contra a 'degenerada música negra': o jazz. Para um germanófilo, o que era o jazz quando comparado com a alta estética da música alemã? Poderíamos dar vários exemplos mas este artigo, que surge na edição de 20 de Março de 1945 (...), é paradigmático. Satiriza essa 'música espiritual dos negros', cujo batuque o articulista escutou depois de 'esfregar os olhos de espanto' e depois de constatar que 'se aquilo é arte, então a missão civilizadora dos portugueses em África de nada valeu'. O jazz não ia ao encontro do gosto germanófilo de 'A Esfera' (...). Como garantia Eduardo Frias (...), o jazz era um conjunto de 'sonoridades roucas, bacanais e rugidos, dissonâncias loucas, monstruosidades grotescas como esgares acústicos, [sendo evidente a] origem satânica desta irrupção do primitivismo selvagem'" (Sérgio Luís de Carvalho - Lisboa Nazi: A cidade secreta dos portugueses que lutaram pelo Terceiro Reich

(ver também aqui e aqui)

07 February 2023

Duvidais ainda? Os avisos dos sábios não bastaram? Então, abri os olhos e vede,  vede bem, como Belzebu se apodera das nossas mentes!!!

(o video integral da apresentação em palco desaparece sucessivamente a uma velocidade... demoníaca)

13 November 2021

30 March 2019

18 December 2018

DIZER O CONTRÁRIO 


Dando como exemplo a "Modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República" – na qual, em 1729, Jonathan Swift, "nunca quebrando a absoluta gravidade da exposição”, propunha que os irlandeses comessem os próprios filhos –, Fernando Pessoa, dois séculos mais tarde, explicava que “Por ironia entende-se, não o dizer piadas (...), mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz”. Não será levar longe de mais essa ideia se a aplicarmos aquilo que, desde 1980, os eslovenos Laibach praticam: encarnando hiperbolicamente todos os modelos e estereótipos estéticos dos vários totalitarismos (do “romantismo de aço” de Goebbels, ao realismo-socialista de Zhdanov ou à variante "über-kitsch" maoísta) e, por meio deles, reconfigurando o vocabulário pop – em reportório original e álbuns de versões dos Beatles (Let It Be, 1988), Rolling Stones (Sympathy For The Devil, 1990), Bach (Laibachkunstderfuge, 2008, sobre a Arte da Fuga), hinos nacionais (Volk, 2006), e diversos, de Holst aos Europe, Status Quo ou Pink Floyd (NATO, 1994) –, o que daí resulta não são caricaturas a traço grosso mas um feroz exacerbamento identitário que, como diria Pessoa, apenas por ser tão excessivo não pode ser levado inteiramente a sério. 



Isso não os impediria, no entanto, de, a 15 de Agosto de 2015, se fazerem convidados das cerimónias de comemoração do 70º aniversário da vitória da Coreia do Norte sobre o Japão. Uma sobreposição tão perfeita quanto problemática: encenar a representação do poder desmedido em pleno universo ultra-orwelliano de delirante ficção política, ampliada ainda pelo facto de o programa ser essencialmente constituido por temas de The Sound of Music. Momento histórico, pois, no qual o bombástico perfil marcial-industrial-neo-clássico dos eslovenos desvenda um arrepiante avesso de "Sixteen Going on Seventeen" e "My Favourite Things" e a sinistra voz gutural de Milan Fras, dialogando com a candura de coros infantis, reveste tudo de uma muito apropriada sordidez obscenamente gótica. Embora presente no álbum, no concerto de Pyongyang, não ousaram incluir a paráfrase "How Do We Solve a Problem Like Korea?" mas, de regresso da missão diplomática Leste-Oeste, confessaram que a cerveja e a canábis da RPDC são óptimas.

19 September 2017

OUTUBRO 



Quem, um século depois, e exaustivamente conhecida a sanguinária distopia em que se transformou, sonha ainda com a “Grande Revolução Socialista” de Outubro de 1917? Quem, à excepção dos guardiães das relíquias ideológicas, continua a comemorá-la? Resposta: os Test Dept, no festival Assembly of Disturbance, que, entre 5 e 7 de Outubro próximos, terá lugar na Red Gallery, em Londres, durante o qual apresentarão também o novo álbum, Disturbance. Segundo o programa, a intenção é “Explorar o modo como, cem anos após a Revolução Russa ter desencadeado forças radicais em busca de uma sociedade nova, o actual clima político estará também a gerar a necessidade de uma profunda mudança”. É importante, contudo, saber que a “revolução russa” a que os TD se referem é a dos futuristas e construtivistas, de Dziga Vertov e Eisenstein, de Mayakovsky, El Lissitzky e Malevitch, de Arseny Avraamov e da sua Sinfonia para Sirenes de Fábricas, da Proletkult, dos atonalismos de Roslavets e da Fundição, de Mosolov. Isto é, todas as vanguardas a que a insurreição escancarou as portas mas que o realismo-socialista de Estaline/Zhdanov não demoraria muito a esmagar. 


Foi no início dos anos 80 que Graham Cunnington, Paul Jamrozy, Jonathan Toby Burdon, Paul Hines e Angus Farquhar, "squatters" de New Cross Gate, em Londres, sufocados pela atmosfera da era Thatcher – guerra das Falklands, duríssimo e prolongado conflito entre sindicatos e governo em torno do encerramento das minas de carvão, as 54 semanas de greve dos tipógrafos do grupo Murdoch, os "Brixton riots" –, fundaram os TD, colectivo militante de produção de imagens (fotografia e cinema) e música, inspirada na actividade cultural dos primórdios da cultura revolucionária soviética mas também no que, pela mesma altura, os Laibach, Cabaret Voltaire, Einstürzende Neubauten ou SPK já praticavam: no caso dos TD, uma música literalmente “industrial”, criada a partir da convulsiva percussão de todo o tipo de desperdícios de fábricas desactivadas, aí mesmo executada ou transportada para os diversos cenários das lutas que apoiavam. Separados em 1997 (mas todos individualmente ainda activos), após a exibição e publicação, em 2014 e 2015, do filme DS30 e do livro Test Dept: Total State Machine, Jamrozy e Cunnington regressaram no ano passado como Test Dept:Redux. Já no início de 2017, as tréguas seriam definitivamente rompidas: o quase vertoviano video de guerrilha audiovisual “Faces of Freedom (HeadFuck)”, higiénico exercío de violenta desfiguração de Trump e demais jagunços do Apocalipse.

25 December 2016

27 September 2016

DIABOLUS


Na Idade Média e início do Renascimento, a igreja condenava severamente a utilização, na música sacra, do modus lascivus – o modo grego jónico, aliás, a banal escala de Dó maior – que, por ser vulgar na música popular profana, era inevitavelmente associado a abomináveis comportamentos licenciosos e imorais. Também particularmente mal visto era o trítono – o intervalo de 4ª aumentada –, excomungado na qualidade de diabolus in musica. Uma severa tradição de crítica musical divinamente inspirada que, embora bastantes séculos depois, tornou quase previsível a imprecação contra o rock, de Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora directa do Tribunal da Santa Inquisição), em 2001, classificando-o como “expressão de paixões elementares que (...) assumiu carácter de culto, ou melhor de contra-culto que se opõe ao culto cristão” e acusando-o de “querer falsamente libertar o homem por um fenómeno de massa, perturbando os espíritos pelo ritmo, o barulho e os efeitos luminosos”

Dmitri Shostakovich: Symphony No.10 - Valery Gergiev dir. Orquestra do Teatro Mariinsky, 2013

Um pouco mais surpreendente (mas não demasiado) é que surgisse enquanto eco simétrico da feroz invectiva que, apenas meio século antes, Andrei Zhdanov, oficiante da igreja do realismo-socialista soviético, dirigira contra os compositores “formalistas” (Shostakovitch, Prokofiev, Khatchaturian...), apontados como responsáveis pelo pecado de “substituirem uma música natural e formosamente humana por uma música falsa, vulgar e com frequência, simplesmente patológica” através da qual “começamos a trespassar os limites do racional, a passar para lá do limite não só das emoções humanas, mas também da razão humana normal (...) Não é certo, não é justo que o som dos pratos e tambores deveria constituir a excepção e não a regra na composição musical? (...) Deixemos que esses criadores de música inacessível fiquem isolados das grandes massas do povo. Ninguém necessita da música incompreensível (...) Exijamos que os nossos compositores nos dêem música humana normal!” Em O Ruído do Tempo, de Julian Barnes (2016), a arrepiante história de génio e auto-humilhação de Dmitri Shostakovich perante a ditadura estética e política do estalinismo é uma tela sobre a qual se projectam as imagens de uma época em que para ser declarado “inimigo do povo” – e sofrer as terríveis consequências – bastava que o grande líder e supremo crítico, em dia não, declarasse que o que ouvira não era música mas “chinfrim”. O diabolus in musica continuava teimosamente vivo.

29 October 2015

HERESIAS

  
Quando, em Janeiro passado, se comemorou o centenário de Ewan MacColl (morto em 1989), Shirley Collins, a matriarca da folk britânica, chamada a depor pelo “Guardian”, não mediu as palavras: “Ewan teve uma influência bastante perniciosa na folk. Todos os músicos sobre quem exerceu influência acabaram a soar iguais. Era terrivelmente sexista, pretensioso e pomposo”. Não era, de facto, flor que se cheirasse o fulano que, aos 17 anos, enquanto militante da Juventude Comunista, já tinha dossier aberto no MI5: de acordo com o dogma maccoll-zhdanovista, a folk deveria manter-se imaculadamente pura e fidelíssima à vetusta tradição, higienicamente afastada de qualquer influência burguesa e/ou imperialista – cada canção teria de ser cantada no sotaque de origem, nada de vis contaminações americanas, mesmo o jovem Dylan-cantor-de-protesto era encarado como “lixo capitalista” –, cantora folk digna desse nome livrasse-se de pintar as unhas e, até ao fim (tendo, nos anos 60, alinhado com a dissidência maoista do Partido Comunista da Grã Bretanha), nunca renegaria a sua "Ballad Of Stalin" (“Joe Stalin was a mighty man and a mighty man was he, he led the Soviet people on the road to victory”). 



Mas foi também o dramaturgo e actor aplaudido por Bernard Shaw, o criador, nos anos 50, do programa “Radio Ballads”, para a BBC, e fundador do Singers Club, em Londres – que, apesar do colete de forças ideológico, foram gatilhos decisivos para o "folk revival" –, o intérprete e colector (com A. L. Lloyd) de centenas de espécimes tradicionais, e autor de canções como "Dirty Old Town" ou "The First Time Ever I Saw Your Face", gravadas por Elvis Presley, Phil Ochs, Pogues, Planxty e Johnny Cash. Shirley Collins terá, então, de se resignar ao facto de, no ano em que foi publicado o seu álbum de homenagem, Shirley Inspired, sair também Joy Of Living - A Tribute to Ewan MacColl, sobreexcelente duplo CD que reúne a "crème de la crème" de várias gerações e dinastias folk (Marry e Norma Waterson, Martin e Eliza Carthy, Christy Moore, Martin Simpson, The Unthanks) com "snipers" exteriores (Paul Buchanan, Jarvis Cocker, Billy Bragg, Steve Earle), entregues às heréticas delícias da desobediência à linha dura em matéria de estética.

12 December 2013

NATURAL E FORMOSAMENTE HUMANA


Bryan Ferry nem sonhava no sarilho em que se ia meter (embora, talvez, devesse) quando, em Abril de 2007, numa entrevista à edição de domingo do jornal alemão “Die Welt”, elogiou o sentido da encenação e a espectacularidade do regime nacional-socialista de Adolf Hitler: “Falo dos filmes de Leni Riefenstahl, dos edifícios de Albert Speer, das grandes movimentações de massas, das bandeiras. Absolutamente fantástico. Verdadadeiramente belo". Instantaneamente, o mundo – dirigentes de comunidades judaicas, responsáveis políticos e clientes da Marks & Spencer, com quem Ferry celebrara um contrato de publicidade – caiu-lhe em cima. Razoavelmente embaraçado, o ex-estudante de Belas-Artes, logo no dia seguinte, apresentava "desculpas incondicionais por qualquer ofensa causada pelos meus comentários sobre a iconografia nazi, que foram feitos exclusivamente de um ponto de vista da história de arte” e fazia questão de sublinhar que “como qualquer pessoa sã de espírito, considero o regime nazi e tudo o que ele representou, maligno e abominável”. Verdadeiramente interessante é que, se, em vez de se ter referido à estética do nacional-socialismo, Ferry tivesse preferido falar do assombroso cinema de Eisenstein ou do glorioso "kitsch" das óperas da Revolução Cultural Chinesa (ambos armas de propaganda ao serviço de regimes responsáveis por um número de vítimas não inferior ao da barbárie nazi), é bem possível que a entrevista não tivesse provocado nenhum sobressalto. 



Mas poderia também ter recordado o Côro do Exército Vermelho, essa venerável instituição fundada, em 1929, nos primórdios da União Soviética, e ainda hoje em actividade que, na condição de embaixadora de charme, está para a imperial Mãe-Rússia como o Mormon Tabernacle Choir está para a agremiação da divindade que habita o planeta Kolob. Dividido em dois colectivos, o veterano Alexandrov Ensemble (criação de Alexander Vasilyevich Alexandrov, Artista do Povo da URSS, Prémio Estaline, autor do Hino da União Soviética e do Exército Soviético) e o MVD Ensemble, dez anos mais jovem e actual organismo oficial do Ministério do Interior da Federação Russa, tanto um como o outro demonstrarão, certamente, muito pouco apreço pela estética-punk das Pussy Riot, até porque continuam a seguir fielmente a doutrina que, em 1946, Andrei Zhdanov, comissário para a política cultural soviética, estabeleceu: combatendo “a música falsa, vulgar e com frequência, simplesmente patológica” de Shostakovich ou Prokofiev, contra o excesso “do som dos pratos e tambores”, exigia “uma música natural e formosamente humana” (opinião, aliás, próxima da de Joseph Ratzinger, que, em 2001 – na qualidade de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Sacra Congregação do Santo Ofício –, acusava o rock, essa “expressão de paixões elementares”, de “perturbar os espíritos pelo ritmo, o barulho e os efeitos luminosos”). Formosamente viril e naturalissimamente harmónica, entre "Kalinkas", "Barqueiros do Volga" e (diria Zhdanov, não Putin) o indesculpável desvio de direita do "Ave Maria", de Bach, podem comprová-lo escutando o MVD no recente duplo The Soul of Russia:The Ultimate Collection.

07 May 2013

VIVA A CULTURA AO SERVIÇO DA CLASSE OPERÁRIA E DO POVO TRABALHADOR! (ou Zhdanov e as Teses de Yenan reavaliados segundo o Zé - via Leopardo)

26 March 2012

O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO TEM TÃO POUCO DE QUE SE OCUPAR QUE VÁ PERDER UM SEGUNDO QUE SEJA COM AS MARIQUICES DOS GEBOS DA BOLA?


... notar que a pobre "Atirei o pau ao gato" se converteu já em zhdanoviana "canção de exaltação ao Benfica" e o fino recorte literário de "se acabem de uma vez por todas com práticas".

(2012)