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02 February 2026

CERCADOS PELA LINGUAGEM
No "Guardian", Alexis Petridis encontrou aquela que é provavelmente a melhor forma de caracterizar o papel da voz de Florence Shaw nos Dry Cleaning: "É um pouco como dizia o Stuart Moxham dos Young Marble Giants acerca da Alison Statton: 'Ela canta distraidamente como se estivesse na paragem, à espera do autocarro". Na verdade, Florence mal chega a cantar: da colagem de cut-ups e spoken word a que quase apaticamente se entrega qual Laurie Anderson dadaísta, resulta o que, ao longo dos três álbuns publicados - New Long Leg (2021), Stumpwork (2022) e, agora, Secret Love (2026) - foi encarado como poesia post-punk, sismogramas beatnick e surreal excelência idiossincrática de poetas punk londrinos. Nada, porém, de estratégias furtivas, jogos de dissimulação ou evasão. Apenas uma questão de acreditar numa ética do trabalho peculiar: "I make sure there are hidden messages in my work”. E de se manter fiel ao método que assegura que "the ordinary is worth mining for the extraordinary". (daqui; segue para aqui)
 
"Cruise Ship Designer" (legendas disponíveis)

03 June 2024

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XCVI)

(com a indispensável colaboração do R & R)
(clicar na imagem para ampliar)
 
"To Sleep" (do álbum One Of Our Girls Has Gone Missing, na íntegra aqui; ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui também)
 
"Bound By The Beauty" (do álbum homónimo, na íntegra aqui)
 
"Think Too Hard" (do álbum Surprise, na íntegra aqui)

01 April 2024

EXPLORAÇÃO DO(S) MUNDO(S)
Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, José Mário Branco. Mas também Portishead, Björk, Laurie Anderson. E ainda os lendários novaiorquinos Silver Apples, a banda de Simeon Oliver Coxe III que empilhava 9 osciladores audio e comandava 86 controlos com as mãos, pés e cotovelos mas nunca aprendeu a tocar piano. Todos estes figuram no panteão privado de Ana Lua Caiano que não só aprendeu a tocar piano aos 6 anos como frequentou durante 4 anos a escola do Hot Clube de Portugal. E passou por workshops de música concreta e cursos de adufe. Ela fala disto tudo quando lhe digo que, num primeiro contacto, a música que se descobre nos seus dois EP (Cheguei Tarde a Ontem, 2022, e Se Dançar É Só Depois, 2023) e, agora, no primeiro álbum, Vou Ficar Neste Quadrado, faz pensar no que poderia ter sido a estética sonora de pele e osso de uns Young Marble Giants nascidos à beira do Tejo, umas décadas mais tarde. (daqui; segue para aqui)
 
"O Bicho Anda Por Aí"

08 April 2021

 
(sequência daqui) “Foi como se fosse, outra vez, uma criança. Temos tendência para esquecer como é sermos principiantes. Levamos anos a estudar piano ou guitarra e, quando já os dominamos, uma boa parte do entusiamo inicial, perdeu-se. O Omnichord, apesar de ser tão simples, tinha tudo aquilo de que eu precisava. Era uma ‘one-man-band’ dentro de uma caixa pela qual tinha estado à espera toda a minha vida”, contou Lael à “Ourculture”. Havia só duas regras: imaginá-lo enquanto “lost album” descoberto, por acaso, num sótão – algo como The Story of Valerie, de Carola Baer – e apenas incluir "first takes". Na verdade, é um fascinante objecto dotado da estrutura óssea dos Young Marble Giants, da respiração de Liz Fraser (a canção-título vive a um passo de "Song To The Siren") e da bruma-Mazzy Star, onde, pelo meio do sibilo da cassete analógica, uma voz em tom de sépia murmura “How far is it to the end? Only a life, dear friend”.
 

29 January 2021

(álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Alison, com os Weekend, afro-jazz-abrasileiraria a matriz YMG mas Stuart Moxham, via The Gist, manter-se-ia fiel aos princípios: “Todas as minhas canções são como diagramas para o que poderiam ser se outros músicos as interpretassem”. Embrace The Herd (1982) puxaria um discreto lustro pop ao severo minimalismo mas, pouco sintonizado com o frívolo ar do tempo, Moxham, à excepção de meia dúzia de álbuns praticamente confidenciais, entraria em prolongado eclipse. Afinal, como Holding Pattern (2017) e, agora, Interior Windows demonstram, o cofre de The Gist encerrava ainda uma valiosa mão-cheia de tesouros. Sempre, porém, dentro daquelas coordenadas que Stuart, inflexivelmente, estabelece: “Para nos escutar, é preciso estar em silêncio. Costumo perguntar ‘Conseguem ouvir-nos bem nas filas de trás?’ Se a resposta é sim, digo “Ok, então vamos baixar o volume’”.

26 January 2021

MOLÉCULAS PRIMORDIAIS
 
 
Alison Statton e os irmãos Stuart e Phil Moxham eram o género de putos que, em 1980, até na Rough Trade — acabadinha de fundar e com imaculadíssima reputação indie — se sentiam como peixe fora de água: “Eu tinha 24 anos quando começámos a fazer música e não fazia a menor ideia do que iria ser a minha vida. Vivíamos em Cardiff que, na verdade, não existia no mapa da música, havia enormes obstáculos para ultrapassar. A solução foi fazer o oposto do que todos, à época, faziam e ver o que daí resultava. Mesmo quando nos mudámos para Londres, não nos sentíamos à vontade. Na Rough Trade, acolheram-nos de braços abertos, mas não éramos como nenhuma outra banda, sentíamo-nos de fora”, dizia Stuart, em 2015, à “Uncut”.

 
O “oposto do que se fazia” foi pegar numa guitarra, num baixo, num rudimentar órgão Galanti, numa "drum machine" (construída pelo primo, Pete Joyce, a partir de um artigo da  “Practical Wireless Magazine”), na voz de Alison (“A Alison não é uma cantora! Ela é só uma pessoa que canta como se estivesse na paragem, à espera do autocarro”, jurava Stuart a Simon Reynolds, em Rip It Up and Start Again) e, sob o nome Young Marble Giants, num único álbum — Colossal Youth, 1980 —, redefinir radicalmente o rumo da música: reduzida à essência das moléculas primordiais, pura geometria sonora apenas um passo à frente do silêncio, em 15 canções de que apenas três iam além dos 3 minutos. Colossal Youth — 40th Anniversary Edition reúne as provas do milagre tal como já se encontravam na reedição da Domino, de 2007, e acrescenta-lhes o registo do concerto final do trio, no Hurrah Club de Nova Iorque, em novembro de 1980. (...) (daqui: + aqui)

24 September 2019

UM LONGO CAMINHO

  
Dungeness é um promontório na costa de Kent, no sudeste de Inglaterra, uma reserva natural de Especial Interesse Científico devido à sua particular geomorfologia bem como às ricas fauna e flora. É também o local onde, desde 1983, se ergue uma central nuclear que, apesar de, diversas vezes, ter apresentado problemas graves, só tem o encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que Derek Jarman – cineasta, encenador, pintor, escritor, poeta e activista pelos direitos gay –, imediatamente após ter sido dignosticado HIV-positivo em 1986, comprou uma velha casa de pescadores em torno da qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria sob a assombração da central (“Vê-se um por-do-sol ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão foi o de 1993 e o título do diário, Modern Nature


Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral e tensão urbana como achou o nome da banda que sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern Nature. Escutando How To Live, apetece dizer que foi necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente, alguns dos locais de paragem – Richard Thompson, Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman, Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda – mas, à extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca), It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants. Num video dividido entre paisagem rural e marítima e fragmentos de "morris dancing", leia-se um discreto manifesto de serena perplexidade: “Modern nature, great failure, tired and broken old creator, grand space race, find a new place, high above the barren fixed state (…) hide my eyes, my ears, away to nature”.

21 May 2019

DAVA UM FILME 


1990 – Nascida na Suiça, de pai arménio/cipriota e mãe suiça, mas a viver em Londres desde os 7 anos, a "twentysomething" Carola Baer pensa em emigrar para a Austrália, com passagem por São Francisco. Chegada à Califórnia, acontece o proverbial episódio “boy meets girl”. Nunca viajará até à Austrália mas, ela que estudara piano até aos 16 anos e vagabundeara por Israel cantando canções de Neil Young e dos Eagles, incendiada pela paixão súbita, começa a compor e o amante-que-nunca-será-nomeado (também músico) grava-a. Aí, o enredo adensa-se: a namorada que ele deixara na Europa regressa aos EUA e Carola, só e abandonada, decide-se por um casamento de conveniência com um candidato de ocasião, apenas motivada pela obtenção do "green card". Numa sequência vertiginosa, o amante-que-nunca-será-nomeado, inopinadamente, reaparece e implora perdão, o que o utilitário consorte não vê com bons olhos. Apanhada entre dois fogos, Carola acaba quase sem abrigo e, em desespero, vê-se obrigada a telefonar à mãe, em Inglaterra, que trata do necessário para a viagem de repatriamento. O guião é apresentado em "fast-forward" mas, na realidade, entre o início e o (provisório) fim, decorreram 17 anos. 



2018 – Carola encontrava-se na sala de professores da escola de Surrey onde dá aulas quando o telefone tocou. De Portland, no Oregon, Jed Bindeman – fundador da novíssima "indie" Concentric Circles – comunicava-lhe que, numa loja de venda de artigos para fins de caridade, encontrara uma cassete com o nome dela e um número de contacto que permitira descobrir-lhe o rasto. E, totalmente rendido ao que escutara, propunha-se publicá-la. Ela recordava-se vagamente de, durante o exílio norte-americano, ter entregado a cassete – exemplar único! – a alguém ligado ao cinema que nunca lha devolvera nem dera notícias. Continha as gravações-banda sonora do romance de juventude, acrescentadas de outras posteriores a que, no conjunto, dera o título de “Open Door”. Renomeada The Story of Valerie na edição da Concentric Circles, a sensação que se experimenta é a de, inadvertidamente, estarmos a espiar um diário alheio, espécie de exorcismo transcrito na forma de uma partitura dos Young Marble Giants – voz, dois teclados Yamaha e Casio e "drum machine" – vitaminada por Philip Glass e sucessivamente interpretada por Lisa Gerrard, Nico e Elizabeth Fraser, sobre ecos balcânicos e médio-orientais. Se a vida de Carola Baer dava um filme, a música que o ilustraria está acabada e pronta a usar.

23 October 2018

ATRAVESSAR A PONTE

  
Louis Forster jura que não é utilizador da Go-Between Bridge, a ponte que, em Setembro de 2009, numa votação online proposta pelo City Council de Brisbane, na Austrália, foi assim baptizada em homenagem à banda de Grant McLennan e Robert Forster: “É preciso pagar uma portagem de 6 dólares, não tenho dinheiro para isso”. Aliás, Louis, filho de Robert, garante também que nunca ouviu a música dos Go-Betweens: “Às vezes, vêm ter comigo e fazem-me perguntas sobre um disco ou sobre uma determinada canção e chega a ser embaraçoso porque, de facto, nunca os escutei. Tenho sempre de pedir imensa desculpa e dizer que não faço ideia do que estão a falar”. Não é fácil acreditar: quem, sem qualquer informação sobre os autores, escutasse Up For Anything (2016) – o álbum de estreia dos Goon Sax, banda de Louis Forster, James Harrison e Riley Jones – não hesitaria em dizer que, muito provavelmente, tratar-se-ia de uma preciosa colecção de inéditos dos Go-Betweens. E se, continuando a não revelar nomes, se adiantasse tratar-se de um trio de Brisbane constituído por dois guitarristas/compositores e uma miúda baterista, as últimas dúvidas desapareceriam. 



Não sendo, aparentemente, um caso de disputa familiar – Robert Forster, há 2 anos, abençoou publicamente a obra da descendência –, só uma tentativa de esquivar-se à maldição dos "sons of" (numa já razoável lista de crias de famosos, apenas Jeff Buckley se mostrou à altura da ilustre paternidade) poderia explicar a recusa da óbvia linhagem. Ou, então, teremos entre mãos uma extraordinária prova da existência de ADN musical que caberá à ciência investigar. Agora que We’re Not Talking, o segundo álbum, é publicado, apetece dizer que aquilo que a Forster e McLennan levou quatro gravações para atingir – o esplendorosamente orquestral Liberty Belle And The Black Diamond Express (1986) –, os Goon Sax realizaram em duas: o díptico de abertura "Make Time 4 Love" (“Let's feel nervous in your room again”) e "Love Lost" (“So I look through film stores wondering what I should read, so I forget what movie I originally wanted to see”) passaria sem suspeitas por "bonus tracks" de Liberty Belle e as restantes dez, em diversos graus de parentesco – eles, agora, erigem altares às Raincoats, aos Orange Juice ou aos Love mas, se acrescentássemos Young Marble Giants, a genealogia ficaria mais completa –, não desmentem a filiação. Um dia destes, Louis Forster ainda há-de atravessar a Go-Between Bridge.

19 October 2017

FESTA


Trata-se de uma singularidade cósmica particularmente rara: o lugar onde o clube das bandas lendárias que publicaram apenas um álbum (Young Marble Giants, The United States Of America, Sex Pistols, The Germs, The Del-Byzanteens, Life Without Buildings, The Monks) se cobre com a poeira dos arquivos nos quais se ocultam os míticos "great lost albums". Com o incalculável valor acrescido de, no caso, não ser por gentileza ou reflexo de "hype" instalado que "great" acompanha "lost album": Slights Still Unspoken (Selected Recordings 1978-1979), dos Voigt/465, é, sem a menor dúvida, uma preciosa recuperação arqueológica por que teremos de ficar eternamente gratos à editora espanhola Guerssen Records. Oriundos da nunca suficientemente louvada cena rock australiana que, entre inúmeros outros, nos deu a conhecer os Triffids, Go-Betweens, Apartments, Nick Cave, The Saints, Radio Birdman e The Church, os Voigt/465 eram cinco catraios da Technical Boys High School, de Sidney (Rae Byrom, voz, Phil Turnbull, voz e teclados, Lindsay O'Meara, baixo, Rod Pobestek, guitarra, e Bruce Stalder, bateria), que, em 1976, no espaço de uma oficina cedida pelo pai de um deles, lançaram desordenadamente para o caldeirão das bruxas todos os ingredientes que tinham à mão. 



A saber, os mais suculentos nacos dos Velvet Undergtound, Roxy Music (fase Eno), Pink Floyd (aliás, The Piper At The Gates Of Dawn, isto é, Syd Barrett), Stooges, Pere Ubu e Devo, generosamente temperados com pitadas de Faust e Can, essências-garage, art-rock britânico, ruído avulso e libérrima improvisação. Como será fácil de compreender, uma tão rica e eclética dieta não conduz ao tipo de digestão fácil que faz desenrolar as passadeiras vermelhas para carreiras gloriosas. Na verdade, o radar da notoriedade apenas lhes assinalou a existência durante aqueles fugazes instantes em que o único single, “State”/“A Secret West” (1978), soou nas ondas radiofónicas de John Peel. Tanto assim que o solitário álbum que publicariam, Slights Spoken (1979) era só um registo para memória futura de uma banda já oficialmente dissolvida. Quase 40 anos mais tarde, apenas poderemos dizer que, como só improvavelmente acontece, nunca havíamos ouvido nada semelhante antes e dificilmente o viremos a fazer depois. Uma estrondosa festa para o canal auditivo.

11 October 2017

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XXXVII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

10 October 2016

VINTAGE (CCCXIX)

Young Marble Giants - "The Taxi"

(oportunamente sugerido nesta caixa de comentários)

30 August 2016

QUASE


Mesmo no final do ano passado, não pude deixar de registar aqui um inesperado "meeting of the minds" entre mim e o psiquiatra José Gameiro, a propósito da assombrosa experiência musical/sonora que é ser submetido a uma Ressonância Magnética Nuclear (RMN). A quase totalidade do mundo discorda violentamente de nós e permanece absolutamente convicta de que existem, de certeza, seriíssimas razões para precisarmos de uma RMN ao cérebro. Nesse “quase” habita, porém, Anna Meredith que, há seis anos, em colaboração com a compositora electrónica Mira Calix, o neurocientista Vincent Walsh, o laboratório visual Loop.pH e a Aurora Orchestra, apresentou, em Suffolk, “Brainwaves”, um concerto/performance/instalação, inspirado, justamente, no universo sonoro das RMN. Produto académico certificado pela York University e o Royal College of Music, ex-compositora residente da BBC Scottish Symphony Orchestra, Meredith é, no entanto, o género de criatura perfeitamente capaz de compor para bancos de jardim de Hong Kong, "sleep pods" de Singapura, desfiles de moda e estações de serviço da M8 britânica. Enquanto, em paralelo, colabora com Anna Calvi, Laura Marling, Goldie, James Blake ou These New Puritans.



Após dois EP a solo – Black Prince Fury (2012) e Jet Black Raider (2013) –, era praticamente inevitável que, mais cedo ou mais tarde, aspirasse ao maior fôlego de um álbum. Já aí está: Varmints, exercício algo (mas não demasiado) björkiano de intersecção entre pop, música de câmara e electrónica, deambula pelo meio de frenéticas fantasias alternativas para jogos de video "vintage", vertiginosas cargas de cavalaria digital, encantamentos xamânicos vertidos sobre enxames de besouros sonâmbulos, ondulantes mantras zen para metrónomos taquicárdicos e, sim, duas ou três tentativas de encapsular tudo isso no formato-canção que (à excepção de "Taken", lugar geométrico onde Steve Reich, Young Marble Giants e Nirvana se saudam) é o ponto sobre o qual Meredith não tem ainda pulso suficientemente firme. Regressando, entretanto, às experiências sonoras singulares, informa-se que, em Vale Del Rei, algures no Algarve, poderá desfrutar-se de concertos vocais de dezena e meia de canídeos, ricos de massas corais, apontamentos solísticos e vibrantes "ostinati" rítmicos, intervalados por pausas de silêncio rural cageano.

20 April 2016

E-Z 


No frenético vai-e-vem das recuperações, reavaliações e repescagens com que a indústria discográfica se entretém – e, através das quais, actualmente, tenta, pura e simplesmente, sobreviver – nenhuma terá sido tão inesperada e tão surpreendentemente interessante como a do “easy listening”/”muzak”/”elevator music”, na segunda metade dos anos 90 do século passado. Nem necessitava de se reivindicar de linhagem ilustre (de Bach a Telemann, Mozart, Satie, Cage ou Brian Eno), porque aquilo que o velho baú, há muito fechado, foi revelando valia por si mesmo: Les Baxter, Martin Denny, Ray Coniff, Burt Bacharach, Yma Sumac, Arthur Lyman, Juan Garcia Esquível (particularmente preciosos foram os cerca de 40 volumes da colecção Ultra Lounge, da Capitol) e inúmeros outros praticantes daquela música “sem qualquer assunto nem objectivo, semelhante a uma cadeira de repouso” sobre que Erik Satie e Henri Matisse terão divagado, não apenas demonstravam que existira vida musicalmente sofisticada antes do rock mas obrigavam também a redescobrir um universo sonoro francamente mais aventureiro do que muita música contemporânea.



A verdade, porém, é que esse movimento revivalista tivera, pelo menos, um antecedente notório: as duas E-Z Listening Muzak Cassettes publicadas, em 1981, pelos Devo, em exclusivo para o seu clube de fãs, e só seis anos depois, reeditadas em CD pela Rykodisc. Continham “Muzak versions of your favourite Devo tunes performed by Devo at a rare casual moment” e, nessa obliqua homenagem à empresa e conceito musical criados pelo brigadeiro George Owen Squier, despiam 20 peças do seu reportório (e "Satisfaction", dos Rolling Stones) até ao osso, como que numa ilustração sonora da sua “de-evolution theory”, defensora da ideia de que, em vez de continuar a evoluir, a espécie humana teria iniciado um processo de regressão evidenciado pelas disfunções e mentalidade de rebanho da sociedade americana. Agora empacotadas sob a forma de "box set" de dois CD ou dois vinis, curiosamente, o resultado a que os manos Mothersbaugh e Casale chegam não se situa demasiado longe daquele a que, exactamente pela mesma altura, em Cardiff, os Young Marble Giants (dos outros irmãos Moxham), em Colossal Youth e Testcard EP, tinham ido dar.

28 May 2015

NEO-PRIMITIVISMO 


É bem possível que tenha falhado desastradamente o alvo quando, há semanas, procurando explicar o pequeno milagre que é Bashed Out, dos This Is The Kit, escrevi “realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor”. É verdade que, com a sua própria banda e também com Sharon Van Etten, Dessner poderá reivindicar uma boa mão cheia de medalhas, mas o mesmo não poderá dizer-se dos feitos junto dos Local Natives, Luluc, Lone Bellow ou, mais recentemente, acerca da colaboração com os precocemente normalizados Mumford & Sons. Acontece, entretanto, que dados novos obrigam, agora, a encarar sob outra perspectiva o caso TITK. A saber, Friend, de Rozi Plain, também cantora e baixista nos TITK, de Kate Stables, e, como ela, natural de Winchester. A lógica do "small circle of friends" predomina – em Friend, participam Stables, Jamie Whitby-Coles (TITK), Amaury Ranger, Gérard Black (François & The Atlas Mountains), a harpista/"songwriter" Serafina Steer (autora do óptimo The Moths Are Real, de 2013, produzido por Jarvis Cocker) e o Hot Chip, Alexis Taylor, tudo gente-lá-de-casa – e é dela que, natural e algo artesanalmente, resulta um álbum que poderia, facilmente, escutar-se como indispensável "companion piece" de Bashed Out... sem nenhuma necessidade de intervenção dessneriana. 



Subtilíssimo manifesto de uma espécie de neo-primitivismo sofisticado que abre com as palavras “It will be reported to be a difficult year, a tumultuous year” entoadas sobre uma dissimulada alusão ao ostinato de "Tom’s Diner", faz pensar muito no que poderia surgir de uma ideia – só uma ideia – do que restaria da essência da folk se fosse possível traduzi-la para o tipo de psicadelismo pastoral a que só os Young Marble Giants poderiam dedicar-se. Isso ou, então, uma variação aquática e "naïve" sobre a destilação do "krautrock" operada pelos Stereolab, mas com a suavemente alucinada Clare Grogan, dos Altered Images, no lugar de Laetitia Sadier. Não excluindo, evidentemente, a hipótese de se tratar, aqui e ali, de uma visão-Playmobil do "afrobeat" tal como David Byrne e Brian Eno o escutaram e uma orquestra de robots infantis o interpretaria: “struggling to leave from a place you don’t know how to be in”.

18 February 2015

FOLHAS DE LÓTUS 


Foi originalmente publicado em 2001, reeditado o ano passado, mas para discos como Any Other City, dos Life Without Buildings, pensar em actualidade é nem sequer enxergar o alvo para que se aponta. Membros de pleno direito do mui selecto clube das bandas que deram ao mundo um único álbum – Young Marble Giants, United States Of America, Sex Pistols, The Germs, The Del-Byzanteens – e, por ele, foram, para sempre, recordados (ainda que, em alguns casos, só por glorificação póstuma), Any Other City, peça singular sem descendência estética que tanto poderia ter sido gravada em 1980 como depois de amanhã, é, simultaneamente, coisa da máxima simplicidade e – beleza maior – objecto que resiste obstinadamente a sucessivas tentativas de decifração. Will Bradley, Chris Evans, Robert Dallas Grey e Sue Tompkins seriam, hipoteticamente apenas mais uma proverbial "art school band" (da Glasgow School Of Art), se, entre 1999 e 2002, apropriando-se de um passaporte estético que fora, antes, emitido pelos Television, Slits, Go Betweens, MBV, ou Pavement, não tivessem ignorado tudo o que, nele, era acessório para o converter em exclusiva moldura para a voz de Tompkins. 



Gertrude Stein falava da sua escrita como "the excitingness of pure being", um “excess of consciousness”, e havia quem recomendasse que se escutasse as suas palavras, não procurando compreendê-las mas submetendo-nos ao seu encantamento. É obrigatório proceder do mesmo modo com Sue Tompkins: a única forma de aceder à gramática secreta do seu "spoken word/sprechgesang" é não oferecer resistência e aceitar as consequências de ser atropelado por aquela espécie de Tristram Shandy freneticamente gaguejado, decomposto em fonemas, triturado e re-re-re-repetido em "rush" de dopamina, mergulhar no eloquentíssimo fogo-de-artifício da ecolália, abdicar da distinção entre semântica, fonética, "nonsense", colagem extática e abstracção, e considerar perfeitamente natural que tudo se conclua com uma sequência de acordes aparentada à de "Sweet Jane" sobre a qual se tatua uma gincana verbal que não começa nem acaba em “eyes like lotus leaves, no not even like lotus leaves, eyes like lotus leaves, no not even like lotus leaves, the many ways, the many ways, I see the many ways, see things sure, eyes like lotus leaves”.

18 May 2013

RELAÇÕES IMORAIS 


Como diz Michel Chion em La Musique Au Cinéma, “A história das relações entre música e cinema é, certamente, e a isso teremos de nos resignar, imoral. (...) A nossa consciência racional e o nosso apreço pelo trabalho bem feito indignam-se quando uma determinada música acrescentada no último momento, escrita numa semana e recorrendo a uma retórica retrógrada, por uma espécie de acaso feliz, pelo engenho da montagem e pelo ‘dedo’ de um engenheiro de som, se vão inscrever no corpo de uma obra-prima, se vão converter no coração dessa estátua, como um coração de sopeirinha numa Vénus de mármore”. Que a inversa também é verdadeira, se não tivéssemos reparado antes, ficámos, definitivamente, a sabê-lo quando, há oito anos, a Ipecac publicou o prodigioso duplo de Ennio Morricone, Crime And Dissonance, preciosa recolha de radicais experimentalismos – fantasmagorias electrónicas, libérrimas improvisações, "musique concrète", atonalismos com o freio nos dentes, jazz esquartejado e colagens para orgasmo e taquicardia – generosamente oferecidos pelo mestre, entre 1969 e 1974, às subespécies dos "gialli", pornolixo "light" e outros produtos do catabolismo cinematográfico. E o mesmo se poderia dizer, por exemplo, das "electronic tonalities", de Louis e Bebe Barron, para O Planeta Proíbido, das partituras de Les Baxter para A Queda da Casa de Usher (de Corman), de Leonard Rosenman para Viagem Fantástica, ou de Bruno Maderna para La Morte Ha Fatto l'Uovo



É nesta micro-linhagem paralela que se inscrevem tanto o filme de Peter Strickland, Berberian Sound Studio (2012), como a banda sonora homónima agora editada, assinada pelos Broadcast (que será, talvez, a sua última gravação, após a morte de Trish Keenan, em Janeiro de 2011): história de um ensimesmado técnico de som britânico que, nos anos 70, é contratado para, em Itália, se ocupar dos efeitos sonoros do que, à partida, ignora ser um "giallo", o envolvimento activo, em atmosfera de máfia kafkiana, na produção da atmosfera de terror acaba por não exercer o mais desejável dos efeitos no seu espírito. A música para Il Vortice Equestre, o filme dentro do filme (de que apenas nos é dado ver o genérico inicial), foi aquilo de que se ocuparam os Broadcast – descendentes do minimalismo dos Young Marble Giants, meios-irmãos dos Stereolab e Pram, e devotos do ignorado e lendário álbum único dos United States of America (1968) que encaravam como a sua bíblia –, quase idealmente talhados para ela: o jogo de espelhos entre "giallo" e reapropriação contemporânea ironicamente opressiva do género é perfeitamente reflectida na sequência de 39 fragmentos sonoros que, sem que verdadeiramente nos apercebamos das costuras do "cut-up", opera por acumulação de sentidos, contrastando motivos, repetindo-os, distorcendo-os e, no processo, montando uma ficção alternativa inteiramente autónoma que, em simultâneo, homenageia sem vassalagem os antepassados Krzysztof Komeda, Fabio Frizzi, Goblin, Gene Moore ou Andrzej Korzyński. E também, mais ou menos subliminarmente, Cathy Berberian, a sobrenatural voz e musa de Luciano Berio.