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15 March 2025

 
(sequência daqui) E ele - que se reivindica de Raymond Carver, Sam Shepard, Randy Newman, Tom Waits e Shane MacGowan - admitiu-o de imediato: "Pelos meus 17 anos, tinha já lido 6 dos livros dele. Tornou a minha vida muito melhor. Tinha uma fotografia dele por cima da minha cama ao lado das dos Clash, Jam, Rank & File e X". O último álbum, Mr. Luck & Ms. Doom surgiu a partir de uma súplica de Amy Boone: "Por favor, escreve-me uma canção de amor como deve ser, em que ninguém morra nem tudo corra mal, ou acabo por dar em doida". Vlautin concordou e respondeu com uma história sobre um criminoso falhado e uma empregada de limpeza depressiva. E com todas as outras acerca das Lorraines, das Maureens ou da Nancy do "Pensacola pimp", embrulhadas com trastes "with a wife and kids, a left hook like Frazier and words that hit just as hard“.

12 March 2025

A NOSSA CIDADE EM RUÍNAS
Muito provavelmente, é um esforço inglório. Mas, mesmo que alguma esperança ainda exista, é obrigatório reconhecer que pouco resta tentar para que o mundo se aperceba do muito que tem andado a perder ao ignorar a belíssima obra de Willy Vlautin. Sim, o homem de Reno, Nevada, publicou já, desde 2007, 7 livros de "short novels" celebrados pela crítica e dois dos quais adaptados ao cinema (The Motel Life, em 2013, e Lean On Pete, 2017); com os Richmond Fontaine, entre 1994 e 2016, ofereceu-nos uma dúzia de riquíssimos álbuns - quem nunca tenha sequer tentado escutar The Fitzgerald (2005) não merece o ar que respira; e, nos Delines de Colfax (2014), The Imperial (2019) e The Sea Drift (2022), entregando às belíssimas nuances da voz de Amy Boone a missão de desocultar os vários recantos da narrativa, criou um universo tão intimamente pessoal quanto retintamente norte-americano. Ursula K. Le Guin chamou-lhe "um Steinbeck não sentimental que nos fala de quem, na realidade, vive hoje na nossa America, na nossa cidade em ruinas" (daqui; segue para aqui)
 

07 April 2022

 
(sequência daqui) Desde 1996 – primeiro, com os 12 álbuns dos Richmond Fontaine e, depois, a partir de 2014, com os 3 dos Delines – que ele não faz outra coisa. Mas fá-lo tão assombrosamente bem (nas canções e nos 6 romances que, entretanto, foi publicando) que não desejamos senão que nunca pare. Se, para cenários virtuais, optou, até agora, por hotéis de beira-da estrada (The Imperial, 2019), espeluncas a 28 dólares/noite (The Fitzgerald, 2005), ou avenidas que tanto acolhem papas como prostitutas em horário de trabalho (Colfax, 2014), desta vez é The Sea Drift, cidade minúscula da Gulf Coast onde descobriu “estas histórias à deriva”. Pela voz de Amy Boone – belíssima combinação do melhor de Dusty Springfield e Rickie Lee Jones – comecem, por exemplo, aqui: “There's a half pack of Winstons and an overfilled ashtray, a pint of V.O. that’s nearly put away, and sitting on the TV is a loaded .38, he lights a cigarette and says nothing, just stares out into space”.

04 April 2022

HISTÓRIAS À DERIVA
 
 
Sem aviso, somos forçados a ver: “Little Earl is driving down the Gulf Coast, sitting on a pillow so he can see the road, next to him is a twelve pack of beer, three frozen pizzas and two lighters as souvenirs”. Logo a seguir, apercebemo-nos que “Little Earl's brother is bleeding in the backseat, it's been twenty miles and he can't stop crying”. Tal como começou, de súbito, termina: “Little Earl don't know what to do, he's looking for a hospital even though his brother don't want him to, he's starting to panic he's too scared to stop, he's never driven at night and he keeps getting lost”. Willy Vlautin dá poucas explicações mas adianta que procurou “uma tonalidade cinematográfica para a história de dois irmãos que se envolvem num assalto que corre mal a um mini-mercado nos arredores de Port Arthur, no Texas”. E sublinha: “Gosto muito de canções que nos projectam, inesperadamente, no meio de uma cena”. (daqui; segue para aqui)

22 March 2016

GOSTAR DAS TREVAS


“Ouvia o meu coração a bater. Ouvia o coração de toda a gente. Ouvia o ruído humano que fazíamos, sem que nenhum de nós se movesse, nem sequer quando a luz da sala se apagou. Quando vivemos durante tanto tempo nas trevas, começamos a gostar delas. E elas a gostarem de nós. O rosto vira-se para as sombras e elas aceitam, curam. Mas também devoram. Alguma coisa morreu em mim. Foi preciso muito tempo mas, agora, morreu. Apetecia-me ir ao pátio e gritar ‘Nada disto vale a pena!’ Não sei o que me irá acontecer nem a qualquer outro neste mundo. Noites sem início que não têm fim. A falar sobre o passado como se ele tivesse realmente acontecido. Tentando convencer-se que, para o ano, por esta altura, as coisas irão ser diferentes. No fim, as palavras são tudo o que temos e é bom que sejam as palavras certas”. O que acabaram de ler é uma montagem de citações de Raymond Carver, ele do "dirty realism" literário norte-americano. 



Considerem, agora, esta outra: “He'd wake up in the middle of the night, his heart racing so fast that he thought he was dying but it wouldn't go away, it wouldn't go away, so he'd go running and he'd keep running until he couldn't think anymore. We came home one night and our door was open, most of our things were gone or broken, all our clothes were thrown around the rooms and even our pictures were wrecked too, and the overpass where the endless miles of cars would pass, it hummed night and day and night and day, we used to think it sounded like a river, but all that slipped away that day. In the morning I'd go home, she'd be up all night from crying alone, watching a credit card TV and holding a credit card phone, sitting on a credit card couch still in her mom's beat up and ugly robe”. Carver também? Não, Willy Vlautin, dos Richmond Fontaine e Delines, mas igualmente romancista premiado. Gente da mesma família. Os Fontaine chegaram ao fim e You Can't Go Back If There's Nothing to Go Back To (magnífico, como os anteriores, por vezes, também arrepiantemente dylaniano) é o ponto final. Quando uma débil esperança espreita, ouve-se “it’s a wonderful world if you put aside the sorrow, better take the time to know it if you feel anything at all”. Não adianta respirar fundo, de alívio: os Delines vão continuar.

07 May 2015

MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE

  
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.



Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.

07 April 2015

BALANÇO E CONTAS


Mui compreensivelmente, Allan Jones, na “Uncut”, pergunta a David Corley porque lhe foi necessário tanto tempo para gravar o álbum de estreia. E ele responde “É preciso viver uma vida para poder escrever sobre ela. Não é coisa que possa ser inventada”. E, ao "Hear! Hear!" Music, quase em modo Fight Club, explica: “Tenho duas regras acerca da escrita de canções. A primeira é: ‘é melhor ter algo para dizer’; e a segunda é: ‘é melhor ter algo para dizer’”. Não estaremos, pois, perante o caso inédito de um “difícil primeiro álbum”, uma vez que não se terá tratado de uma questão de dificuldade mas apenas de respeitar o imprescindível período de maturação. O que, contudo, não torna menos invulgar o facto de Corley, só agora, aos 53 anos, ter publicado o primeiro tomo da sua discografia, Available Light, e reclama algum conforto biográfico. Filho de Lafayette, Indiana, fugiu do "Twinkle, Twinkle Little Star" nas aulas de piano e atirou-se a um "songbook" dos Beatles, estudou informática na Universidade de Athens, Georgia (na mesma altura em que os R.E.M., moços da mesma criação, por lá iam começando a fazer história), e não hesitou em adquirir o estatuto de "dropout".



Nos trinta e picos anos seguintes, foi camionista, carpinteiro, empregado de mesa, operário, barman, agricultor. Mas aquele tipo menos comum de elemento das classes laboriosas que lia Joyce, Whitman, Blake e Rilke enquanto, na consagrada tradição americana, deambulava, de costa a costa. E ia vivendo imensamente mais do que o indispensável para ter algo que dizer. Da destilação de tudo isso, em registo de exemplar classicismo (imaginem o mais que perfeito lugar geométrico onde Springsteen, Willy Vlautin, Mark Eitzel, Dylan, Van Morrison, Randy Newman, Tom Waits, David Ackles e Lou Reed coabitam – sim, são esses os seus pares) e interpretadas com o género de voz de quem já consumiu a quantidade de cigarros e bourbon recomendada, as dez canções de Available Light, balanço e contas de perdas, desencontros e erros (“I hopped up into my truck but I headed to the wrong bar, got way too fucked-up, started wishin' on the wrong star, but the sky, man, it's so large, that's just an easy mistake”), constituem exactamente aquilo que se costuma designar como clássico instantâneo.

14 May 2014

ESPECTROS 


Vinte anos, dez álbuns, quatro romances e, à excepção daquele escasso punhado de gente que fez o necessário para ter acesso à "password" (leia-se: realizou um pequeno esforço de investigação), Willy Vlautin continua a ser um total desconhecido. As palavras Richmond Fontaine também fazem tocar pouquíssimas campainhas e associar um nome ao outro não melhora extraordinariamente a situação. Introduzir ainda na equação o factor The Delines, provavelmente só irá piorar as coisas. Mas não deveria. Porque aquele universo de personagens, histórias e canções que “começam a beber logo pela manhã mas, mesmo assim, conseguem cambalear até ao emprego”, viajantes frequentes na discografia dos Richmond Fontaine, terá, talvez, encontrado os seus intérpretes ideais neste novo heterónimo colectivo de Willy Vlautin – com Jenny Conlee (dos Decemberists), Amy Boone (Damnations), Sean Oldham (repescado dos Richmond) e Tucker Jackson (Minus 5) – e em Colfax, álbum de acolhimento para dez planos fixos de espectros assinados por Vlautin e um outro, a assombrada "Sandman’s Coming" (“It's a great big dirty world, if they say it ain't, they're lyin' sandman's coming soon, you know he's coming soon”), de Randy Newman. 



"The longest, wickedest street in America", foi como, uma vez, a “Playboy” caracterizou a Colfax Avenue, em Denver, no Colorado. A mesma que Sal Paradise/Jack Kerouac mitificou em On The Road e que, mais prosaicamente, há oito anos, o “Denver Post” apresentava enquanto “anfitriã de um papa [Karol Wojtyla, em 1993] e local de trabalho de prostitutas”. Irmã-gémea do Fitzgerald and Casino Hotel, espelunca a 28 dólares por noite, de Reno, no Nevada, cenário de The Fitzgerald (2005) ou de qualquer um dos desolados panos de fundo das páginas de The Motel Life (2006), Northline (2008), Lean on Pete (2010) e The Free (2014). Vlautin reivindica-se de Steinbeck, Carver, Tom Waits e Shane MacGowan mas, desta vez, foi Amy Boone a atear o fogo: “Passei um ano inteiro a escrever canções, pensando na voz dela: metade destroçada, metade lindíssima, uma imensa fadiga interior”. Das cinzas, varridas pela insinuação dos "glissandi" da "steel guitar", de Jackson, e o pontilhismo do Fender Rhodes, de Conlee, ergue-se algo, magnífico, como uns Mazzy Star com muito menos láudano e bastante mais bourbon.

20 January 2007

28 DÓLARES/NOITE

Richmond Fontaine - The Fitzgerald

Wes deve dinheiro a um tipo. Cruza-se com ele, por acaso, no "Astro Lounge", e acaba com a cara desfeita e uma mão partida. Harry tem a camisa encharcada em sangue e J.P. foi abatido a tiro. Em Conklin Creek, na boca de uma mina, está o cadáver de um puto, nem ainda vinte anos, morto há menos de dois dias, "cause there was no smell and you could still see life in his face". Ao balcão do bar do "Swiss Chalet", "a madness came over him", alucinado pela memória de Francine. No parque de estacionamento do "Gold And Silver", as luzes do casino "only bring darkness to the night". Logo a seguir ao desvio 194B da autoestrada, há uma casa igual a todas as outras e o fantasma de um irmão desaparecido em combate.



À beira de Laramie, Wyoming, um homem é esfaqueado num hotel abandonado. Depois de sete horas de carro, num quarto de motel, ela suplica "'Save my life'; he grabbed her hand and said 'That's all I ever wanted to do'". Os néons cintilam lá fora e, "in a foreign room, with foreign noise, in a foreign bed, in a foreigh town", ela só consegue pensar "don't look and it won't hurt". São três da manhã, "Summer In Siam" toca uma e outra e outra vez, "and you and me and our whole place we're okay, now that I'm in your arms again". Willy Vlautin escreve como Raymond Carver escrevia, como Hopper pintava, como Springsteen, Dylan e Waits compõem, sabe-o e admite-o de bom grado.


(Willy Vlautin lê um excerto de The Motel Life)

Um pouco também da mesma forma que Lou Reed canta Nova Iorque. Mas, aí, já não se reconhece tanto: não ouviu muito da obra de Reed e assegura que ele sempre lhe meteu medo. Se, porventura, alguma vez, ele e Mark Eitzel pensassem em escrever juntos, seria difícil imaginar quem teria estômago para escutar o que daí resultasse. Acrescentar ainda David Berman seria já convocar estupidamente a catástrofe. Para The Fitzgerald, encerrou-se durante duas semanas no Fitzgerald and Casino Hotel (28 dólares/noite), em Reno, Nevada, a esquálida capital do jogo: no meio do deserto, a observar os infinitos desertos interiores das personagens que povoariam estas onze peças do sexto álbum dos Richmond Fontaine, a banda de Vlautin. Descobrir um autor imenso, assim, dez anos depois do seu início, não é habitual. E é difícil garantir que há aqui canções, sequer melodias, tal como as conhecemos. Existem, sim, escombros, detritos, ruínas, prolongados grandes planos de coisa nenhuma com sombras lá dentro, Johnny Cash e Hank Williams em contraluz, vestígios de violino, piano, harmónica, acordeão e contrabaixo à volta de uma guitarra e de uma voz (apetece dizer "voz off"), as entranhas desmazeladas de um "heartbreak hotel" onde nem, como se reconfortava Eitzel, o vento que sopra através do cabelo de Gena Rowlands chega para impedir o mundo de desabar. (2005)