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26 May 2020

O AZUL DISTANTE


Quando, no dia seguinte a ter estado presente numa reunião da Socialist League, William Guest acorda, descobre-se, inesperadamente, num mundo maravilhoso onde não existem propriedade privada, sistema monetário, tribunais, casamentos, prisões, nem autoridade, e toda a estrutura social assenta na propriedade comum dos meios de produção. Porém, tal estado de felicidade não se atingira através da industrialização e do progresso tecnológico que libertaria a humanidade do pesado fardo do trabalho mas pelo regresso a uma idílica sociedade agrária respeitadora da natureza, na qual toda a actividade deveria ser livre, criativa e fonte de prazer. Durante a sua deslumbrada viagem de barco pelas águas límpidas do Tamisa, vai descobrindo igualmente que a Hammersmith Bridge que sempre conhecera feita de aço fora substituida por outra, em pedra, mais bela que a Ponte Vecchio de Florença, o barqueiro que o conduz veste-se à maneira do século XIV, a fétida Manchester fora apagada do mapa, e, de um modo geral, tudo à sua volta se parecia com uma tela de Bruegel. 

Muito resumidamente, é este o enredo, situado em 2102, de News From Nowhere (1890), o romance de ficção política do escritor, socialista e figura central do movimento Arts & Crafts, William Morris, que, em Electric Eden, Rob Young cita, observando: “A mente britânica, até certo ponto, não parece ser capaz de imaginar o futuro senão sob a forma do passado”. Justamente aquilo que poderia dizer-se acerca de The Weight of the Sun, terceiro tomo do quarteto Modern Studies. O que, no caso, não é sequer depreciativo: essencialmente pastoral e bucólico, o álbum da banda de Emily Scott, Rob St. John, Joe Smillie e Pete Harvey (gente com pedigree do conservatório, ao rock, à folk, e à "sound art"), gerado entre o Lancashire e a Escócia, não fecha as portas ao presente mas, na sua equação de “classicismo e experimentalismo com uma canção pop no meio”, escutam-se distintamente ecos dos Fairport Convention (revistos pelos Stereolab), dos Velvet Undergound ("Sweet Jane" a viver numa eterna "Sunday Morning") ou do "chiaroscuro" dos Elysian Fields e Mazzy Star. Uma folk de câmara, outonal e suavemente psicadélica, impressionista e de harmonias tangenciais, a dar corpo às palavras de Rebecca Solnit que, em "The Blue Of Distance", evocam: “The world is blue at its edges and in its depths. This blue is the light that got lost”.

06 July 2016

OLDE ENGLAND


Arthur Mee (1875-1943), jornalista, escritor e pedagogo inglês, foi o autor da obra em 42 volumes, The King's England – um guia exaustivo cobrindo 10,000 cidades e aldeias –, na qual criou o conceito de “thankful villages”: aqueles locais de onde todos os homens que partiram para combater na primeira Guerra Mundial regressaram sãos e salvos após o Armistício. Em Let England Shake, PJ Harvey já se havia debruçado sobre a selvagem carnificina, assassina de 16 milhões, e cujos incontáveis horrores Wilfred Owen, em "Dulce et Decorum Est", gravou com a cor do sangue: “If you could hear, at every jolt, the blood come gargling from the froth-corrupted lungs, bitter as the cud of vile, incurable sores on innocent tongues, my friend, you would not tell with such high zest to children ardent for some desperate glory, the old lie: Dulce et decorum est pro patria mori. Darren Hayman, logo após a conclusão do óptimo álbum do ano passado, Chants For Socialists (sobre textos de William Morris, romancista, poeta e iniciador do movimento Arts & Crafts no final do século XIX), em conversa com o guitarrista, Ian Button (Death In Vegas, Thashing Doves), teve conhecimento da existência das “thankful villages”, pretexto instantâneo para a concepção de novo disco.

Strethall, Essex (Thankful Villages/IV)

A intenção não era compor sobre a guerra (embora, inevitavelmente, aqui e ali, ela surja) mas, tirando partido da definição de Mee, ter um ponto de partida para visitar 54 lugarejos perdidos da Olde England: “Sou agorafóbico mas interessa-me particularmente a ideia de que a música criada em determinados lugares leva consigo algo deles. Tanto desejei ser bem acolhido, sentar-me e conversar com as pessoas como mover-me como um fantasma, silencioso e invisível. Algumas visitas foram planeadas, outras completamente às cegas em busca de uma reacção imediata à paisagem e ao local”. Foi assim que, em Thankful Villages Vol.1, espécie de From Gardens Where We Feel Secure mais rural e num registo algures entre "field report" e "field recording", Hayman procurou um fio narrativo entre as experiências vividas nos 18 primeiros locais, gravou o vento ou a leitura de velhas cartas e poemas, pelo meio, inventou esboços de canções (e, tal como fizera PJ Harvey, uma sequência de videoclips paralela) e, enfim, auscultou o coração daquela antiga e amável Inglaterra que não confia na Europa. 

17 March 2015

MUSCULAÇÃO 


Não é preciso recuar até ao comunismo radical da Irmandade do Livre Espírito medieval. Podemos começar por aquele improvável momento do século XVIII em que Thomas Jefferson, inspirado por John Locke, a 4 de Julho de 1776, na Declaração de Independência dos EUA, ao lado da “vida” e da “liberdade”, inscreveu a “busca da felicidade” como um dos três “direitos inalienáveis” de todos os homens. Quase 75 anos depois, na 11ª Tese sobre Feuerbach, Marx declararia que “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas formas, o que importa é transformá-lo" e, em 1873, nas páginas de Une Saison En Enfer, Rimbaud exigia “mudar a vida”. André Breton, em 1935, ensaiou a síntese (“Transformar o mundo e mudar a vida: para nós, estas duas palavras de ordem são apenas uma”) e, duas décadas mais tarde, os radicais livres de Isou, Debord e Vaneigem, enfim livres de todo o fetichismo do trabalho – “Ne travaillez jamais!”, proclamava Débord em 1952 –, não se contentavam com menos do que “Viver sem tempos mortos e gozar sem limites” porque “nada pode dispensar a vida de ser absolutamente apaixonante”



Desde então, foram muitos os espectros que assombraram a Europa (e o mundo), todos, porém, concentrados na ideia de que a existência humana é demasiado curta para nos satisfazermos em ser apenas peças no tabuleiro de um imenso jogo. Em 2000, os Hefner de Darren Hayman, militantemente politizados à custa de Billy Bragg, cantavam, eufóricos de antecipação, “We will laugh the day that Thatcher dies, even though we know it's not right, we will dance and sing all night”. Treze anos e mais de duas dezenas de álbuns e EP a solo após a separação do grupo, Hayman, em visita ao museu de William Morris – poeta, romancista, pioneiro do movimento Arts & Crafts e socialista britânico do final do século XIX – tropeçou num panfleto com poemas de Morris inspirados na condição operária e pareceu-lhe um óptimo pretexto para a criação de um disco de “canções para situações de emergência” como, não restam grandes dúvidas, são as que, hoje vivemos. O banho ideológico é, naturalmente, obreirista e pré-Situacionista, mas o exercício de musculação política de Chants For Socialists, em registo Pavement "meets" Richard Thompson "meets" Big Star é francamente recomendável.