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19 August 2025
10 October 2023
Era o início de Outubro de 1990 e, junto à janela do primeiro andar de um pequeno café da Rue du Bac, em Paris, com os pés descontraidamente pousados sobre a cadeira da frente, Tom Waits discursava acerca do motivo que o conduzira à capital francesa: a apresentação, no Théâtre du Châtelet, da ópera The Black Rider que escrevera com William Burroughs e Robert Wilson. De súbito, lá em baixo, na rua, a figura de Kathleen Brennan - co-compositora, companheira e força da ordem no mundo de Waits -, saída do hotel em frente, surge, gesticulando para ele. Como quem faz apenas uma pausa para logo a seguir continuar o que ficara suspenso, em modo de ditador benévolo, Tom Waits diz-me: "Faça-me a próxima pergunta, deixe o gravador aqui e, por favor, vá até à rua para saber o que ela quer". Qual pombo correio, cumpri a missão em 5 minutos. Mais tarde, verificaria que ele fora também fiel ao compromisso, falando ininterruptamente durante todo o tempo. Apenas mais uma prova de que, pelo menos tão fascinante como a sua obra musical, Tom Waits em discurso directo é invariavelmente muito melhor do que qualquer tentativa de o caracterizar (daqui; segue para aqui)
"November" (The Black Rider, na íntegra aqui)
30 December 2022
(sequência daqui) Mas, pelo meio, podemos observar como, diversas vezes, Florence consulta o placard coberto de folhas com fragmentos de textos, fonte de alimentação das canções em processo de gravação. Algures por ali – sob os espectros de Sterne, Burroughs, Gysin e Laurie Anderson –, John Parish, no posto de (discreto) comando, esforça-se por arrumar tudo ao jeito de um diário dadaísta, acondionado por um "brainstorming" instrumental em comunicação mental com os Wire, Pavement, Johnny Marr e Robert Fripp. Na capa do sucessor de New Long Leg, um sabonete no qual o título do álbum se desenha numa elegantíssima filigrana de pelos púbicos. Um manifesto? “For a happy and exciting life, locally, nationwide or worldwide, stay interested in the world around you”.
21 February 2022
AFINAL, O QUE É UMA HISTÓRIA?
Laurie Anderson parece já ter feito tudo mas tem sempre alguma coisa por fazer. Após mais de uma dezena de álbuns (e o dobro disso em colaborações com outros artistas – William Burroughs, John Giorno, Peter Gabriel, Lou Reed, Marisa Monte, John Zorn, Kronos Quartet...) e outros tantos filmes, videos e "audiobooks", a criação de espectáculos de música/"spoken word"/"performance art" e exposições, a participação enquanto curadora (e em inúmeros júris) de festivais de cinema, e a criação de instrumentos (o "tape-bow violin" e o "talking stick"), em 2003, aceitou ser a primeira (e, até agora, única) artista residente da NASA, de que resultaria o espectáculo The End Of The Moon: “À superfície, é o meu relatório sobre o período que lá passei. As actividades que mais me interessaram lidavam com grandes extensões temporais, podem levar até 10 000 anos a serem concluídas. Há a tendência para se pensar em intervalos de tempo muito curtos ou para se considerar apenas o futuro e esquecer o imenso passado que temos para trás. Interessaram-me as formas muito diversas como ali o tempo é abordado”, explicou-nos, na altura. Quase duas décadas depois, o Charles Eliot Norton Professorship of Poetry da Universidade de Harvard, convidou-a a ser a responsável de 2021 pelas Norton Lectures, uma iniciativa anual sobre “poesia no sentido mais amplo”, na qual ela iria acrescentar o nome a tão ilustres antecessores como T. S. Eliot, Robert Frost, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Leonard Bernstein, Umberto Eco, Luciano Berio ou Agnés Varda. (segue para aqui)
04 March 2021
(sequência daqui) Excerpts from Chapter 3... é um tremendo petardo sonoro e, afinal, em confissões anteriores, os Rats haviam revelado uma genealogia bastante mais plausível: The Fall, Echo & the Bunnymen, Gang of Four, Cure, Pop Group, Wire, e Joy Division aos quais, agora, após uma digressão pelo Japão, acrescentam Inoyamaland, Miharu Koshi e a nunca suficientemente amada Phew. Todos friamente esventrados para que, do exame das vísceras, se enxergue o futuro, e submetidos a um superior desígnio: “Que os que nos escutam fiquem com a sensação de terem sido esmagados por um rolo compressor e que gostem do que sentiram”. E o futuro é coisa inquietante, desarticulada e quase burroughsiana, história frenética de perseguições, pragas, conspirações e pesadelos, afogada em ruído urbano e tempestades, uma cavalgada cega através de um labirinto mental, desenhada em modelo de furiosa ópera psych-pop forrada de aceradas lâminas punk.
09 February 2021
VINTAGE (DLIII)
It's Immaterial - "New Moon"
(sequência daqui) Porém, coincidindo a publicação com o processo de encerramento da editora Siren – uma subsidiária da Virgin que Richard Branson, por esses dias mais interessado em projectos de aviação comercial, não hesitou em sacrificar –, seria por ela praticamente ignorado, e muito poucos o ouviriam. Voltaram ao estúdio de Malcolm para iniciar a gravação do que viria a ser House For Sale até ao dia em que à companheira de John Campbell foi diagnosticado cancro e tudo parou. Durante três décadas. John foi dando aulas de arte, em Liverpool, e Jarvis fundou uma escola de música. Há cerca de 6 anos, descobertas as fitas originais, reiniciaram o trabalho interrompido. Por pouco tempo: chegaria a vez de, desgraçadamente, Campbell ter também de enfrentar o demónio oncológico. Felizmente recuperado, House For Sale ficaria, enfim, concluído, financiado através de uma plataforma de "crowdfunding"... que, na pior altura, faliu. Transposto mais esse obstáculo, no início deste ano, o lendário “lost album” estava pronto a sair para a rua. Foi, então, que a pandemia surgiu. A vida tinha sido dura mas eles continuavam vivos. E, quando já se tornava difícil acreditar que alguma vez poderíamos chegsr a escutá-lo, ei-lo disponível na admirável Burning Shed (“run by artists for artists”)! Nunca seria caso para defender que o martírio é sempre recompensado mas valeu toda a pena esperar por esta magnífica continuação das atmosferas verdadeiramente imateriais de Song, laboriosamente depurada até à essência e feita de melodias de vidro finíssimo sobre aguarelas de céu, chuva e névoa.
01 July 2020
RECONHECER OS SEUS
Tinha Bob Dylan sete anos quando, em 1948, Jackson Pollock exibiu a primeira obra de "drip painting", na qual a tela era salpicada com tinta que gotejava e se entrelaçava segundo padrões aleatórios. A inspiração viera da “pintura automática” de Roberto Matta, pintor chileno que encontrara em Nova Iorque um porto de abrigo após a ocupação de Paris pelas tropas nazis. Lá atrás, na raiz de tudo, estava Les Champs Magnétiques (1920), dos surrealistas André Breton e Philippe Soupault, primeiro volume de “escrita automática” que, di-lo Alberto Manguel em Ler Imagens, oferecia “uma solução para um dilema: como reagir emocionalmente ao mundo, não para o copiar ou melhorar, ou para comunicar algo sobre ele, mas apenas para partilhar o seu impulso criativo?”. Mais tarde, Pollock observaria que “um crítico escreveu que os meus quadros não tinham início nem fim. Não o disse como um elogio, mas foi um belo elogio”. Não teriam início nem fim mas, tal como a “escrita automática” tiveram, certamente, consequências: a “prosa espontânea” de Jack Kerouac, os “cut-ups” de William Burroughs ou o “first thought, best thought” de Allen Ginsberg foram aí beber e, apenas um passo mais à frente, também o jovem Bob Dylan que a todos venerava.
Agora mesmo, a propósito da publicação de Rough And Rowdy Ways – sucessor, a oito anos de distância, de Tempest –, em entrevista ao “New York Times”, sobre "I Contain Multitudes" (a mui whitmaniana canção que abre o álbum), diz: “Não foi preciso muito esforço. É o tipo de coisa em que empilhamos versos 'stream of consciousness', esquecemo-los, e, depois, regressamos a eles. Nessa, em particular, os últimos versos foram os primeiros. Era por esse caminho que a canção desejava seguir. O catalisador foi, obviamente, o título. É uma daquelas que se escreve por instinto. Numa espécie de estado de transe... ou melhor, num autêntico estado de transe. A maioria das minhas canções recentes é assim. Os textos são verdadeiros, tangíveis, não são metáforas. As canções sabem o que querem, escrevem-se sozinhas e contam comigo para as cantar. Cada uma é como um quadro, é impossível apreendê-lo na totalidade se o olharmos perto de mais. Os pormenores individuais são apenas partes do todo”.
Podia estar a pensar numa tela de Pollock mas, afinal, falava acerca do exíguo espaço da canção (“Got a tell-tale heart like Mr. Poe, got skeletons in the walls of people you know, I’ll drink to the truth and the things we said, I’ll drink to the man that shares your bed, I paint landscapes and I paint nudes, I contain multitudes”) onde Shakespeare, William Blake, Edgar Allen Poe, Walt Whitman, Wes Anderson, Gene Vincent, Warren Smith, David Bowie, Anne Frank, Indiana Jones, os Rolling Stones, Heráclito, Marcel Carné, Carl Perkins, Abraham Lincoln e ele próprio se acotovelam: “Estas canções aparecem-me do nada, sem justificação. Nunca são planeadas nem escritas com uma intenção. Vêm do espaço e caem-me em cima. Sei tanto quanto qualquer um de vós por que motivo as escrevi”. Nós, porém, sabemos que, desde há muito, a escrita poética de Bob Dylan – impressionista, visionária, maliciosa, ácida, sarcástica, caótica, abstracta, demencial, caleidoscópica – o transformou na voz mais perfeitamente equipada para habitar o mal estar, a paranoia e o pavor contemporâneos. De "A Hard Rain’s A-Gonna Fall" a "It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)", "Ballad of a Thin Man", "All Along the Watchtower", "This Wheel's on Fire", "Subterranean Homesick Blues", "Everything’s Broken", "Pay In Blood" ou "Not Dark Yet", nunca deixou de nos alvejar os ouvidos com instantâneos de um “World Gone Wrong” ou de nos conduzir até à "Desolation Row" onde, provavelmente agora mais do que nunca, nos descobrimos, “three miles north of purgatory, one step from the great beyond”.
Em sintonia arrepiantemente exacta com um tempo de peste, insurreição urbana e desmantelamento de mitos e estátuas, inesperadamente, à meia-noite de 27 de Março, Dylan publicava o épico "Murder Most Foul", uma História da América com epicentro no assassinato de Jack Kennedy, sob a forma de um “jukebox” alucinado, espécie de arquivo vivo alojado no cérebro de 79 anos de um supremo mestre do "remix" enquanto desfile prodigiosamente emaranhado de memórias, lendas, ameaças, conspirações e escombros. Dias depois de Donald Trump ter criminosamente sugerido a administração de injecções de desinfectante como tratamento para a Covid-19, surgia "False Prophet" (“I ain't no false prophet, no, I'm nobody's bride, can't remember when I was born, and I forgot when I died”), um blues musculado de terra nas unhas que não esconde a ascendência em "If Lovin’ Is Believin’’, de Billy "The Kid" Emerson. Na capa, um esqueleto de cartola brandindo uma seringa. Não é a única homenagem enviezada: o título do disco dobra o joelho perante "My Rough and Rowdy Ways", do santo padroeiro da “country”, Jimmie Rodgers; "Goodbye Jimmy Reed" (“You won't amount to much, the people all said, ‘cause I didn’t play guitar behind my head, never pandered, never acted proud, never took off my shoes, throw 'em in the crowd, goodbye Jimmy Reed, goodbye, goodnight, put a jewel in your crown and I put out the lights”) presta tributo ao bluesman do Mississippi que abriu os ouvidos de Elvis Presley e Keith Richards; e, por todo o resto do álbum – com a vigorosa guitarra "old school" de Charlie Sexton ao comando de um combo de acordeão, bateria, baixo, violino e harmónica –, Dylan vai ampliando um panteão tão privado como colectivo (Martin Luther King, Gregory Corso, Ginsberg, Kerouac, Leon Russell, Liberace, S. João apóstolo, Al Pacino, Marlon Brando, Dante, Hendrix, Louis Armstrong, Harry Truman, Homero, Ricky Nelson, Janis Joplin…).
Bob Dylan sabe reconhecer os seus. Na tarde escura e tempestuosa de 23 de Julho de 2009 em que se preparava para dar um concerto em New Jersey, resolveu sair do hotel e dar uma volta pela Ocean Avenue e ruas adjacentes. Quando a jovem agente da polícia Kristie Buble, tomando-o por um sem-abrigo, lhe pediu a identificação, não a tinha, e dizer-lhe que se chamava Bob Dylan e ia dar um concerto nada significou para ela. A custo, conseguiu convencê-la a transportá-lo até ao hotel onde o "tour manager", de olhos arregalados, viu um Dylan encharcado sair de uma carrinha da polícia mas rapidamente resolveu o problema. Poucos chegaram a conhecer, na altura, o motivo da escapadela: procurava a casa onde Bruce Springsteen tinha escrito "Born To Run".
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24 March 2020
"The Ticket That Exploded continues the adventures of Agent Lee in his mission to investigate and subvert the methods of mind control being used by The Nova Mob, a gang of intergalactic criminals intent on destroying Earth. From the book:
'The basic nova technique is very simple: Always create as many insoluble conflicts as possible and always aggravate existing conflicts—This is done by dumping on the same planet life forms with incompatible conditions of existence—There is of course nothing 'wrong' about any given life form since 'wrong' only has reference to conflicts with other life forms—The point is these life forms should not be on the same planet—Their conditions of life are basically incompatible in present time form and it is precisely the work of the nova mob to see that they remain in present time form, to create and aggravate the conflicts that lead to the explosion of a planet, that is to nova'"
23 March 2020
É prá quarentena
Entre 2008 e 2011, a Islândia, como o resto do mundo, estava em crise profunda. E, como no resto do mundo – apesar de o país ter sido lesto a engaiolar cerca de duas dezenas de meliantes da alta finança –, algumas das 350 000 criaturas que povoam o grande rochedo de gelo e lava no Atlântico Norte começaram a alimentar ideias de privatização e venda de recursos naturais para acolchoar o desastre. Björk não apenas se manifestou, pública e veementemente, contra tais projectos mas tirou partido das circunstâncias para se lançar na concepção e criação de Biophilia, o género de peça conceptual multimédia que, tivesse Wagner à sua disposição toda a tecnologia contemporânea, bem poderia ter criado enquanto exemplo supremo da Gesamtkunstwerk (a obra de arte total). Imensa “meditação sobre a música, a natureza e a tecnologia” e “first app album”, por ocasião da estreia no Manchester Museum of Science and Industry, em Julho de 2011, Björk explicava-se: “Por questões de defesa ambiental, tinha-me envolvido bastante em iniciativas que procuravam encorajar as pessoas a pensar que existem coisas mais importantes do que construir mais umas quantas fábricas de alumínio. É impossível viver em sociedades totalmente separadas da natureza, cortar esse cordão. Pude conceber um programa diferente para cada canção, baseando cada uma num elemento diferente da natureza, abordando-o, ao mesmo tempo, sob um ângulo emocional e musicológico. Era como se estivesse a elaborar um projecto sobre o Universo e tudo à volta!”
E, para dez canções estruturadas a partir dos movimentos celestes ou do pêndulo de Foucault, acerca de planetas, relâmpagos, vírus, estruturas de cristais, solstícios, matéria negra e placas tectónicas, não se limitou a recorrer a uma instrumentação invulgar e deliberadamente desenhada para elas (gameleste – um híbrido de gamelãs e celeste –, bobina de Tesla, órgão digital de tubos, harpas pendulares, "sharpsicord"): explorando as possibilidades do suporte iPad para o qual foi pensado, Biophilia incluía igualmente um potencial virtualmente inesgotável de jogos, animações, alegorias visuais, partituras (convencionais e contemporâneas) e aplicações que permitiam ao utilizador modificar os próprios temas. Uma riquíssima ocupação de tempos livres – voluntária ou forçada – com bónus filosófico de especial pertinência actual em “Virus” (“Like a virus needs a body, as soft tissue feeds on blood, some day I'll find you, the urge is here, the perfect match, I adapt, contagious, you open up, say welcome, you fail to resist my crystalline charm, like a virus, patient hunter, I'm waiting for you”), uma metáfora para “relações fatais”: “Algo como ter um novo vizinho com o qual temos de aprender a viver”.
William S Burroughs, em The Ticket That Exploded (1962), anunciara que “language is a virus from outer space”. Um virus em tão perfeita e oculta simbiose com o hospedeiro que este deixara de o identificar como tal, utilizando inconscientemente essa infecção como meio de comunicação e controlo. Burroughs optou por “recortar” a linguagem. Laurie Anderson pegou na ideia e transformou-a em canção - "Language Is a Virus" - que incluiria no magnífico filme/concerto Home Of The Brave (1986) e no CD homónimo.
11 March 2020
26 June 2019
RATSO
Larry “Ratso” Sloman é aquilo que, tecnicamente, se designa por “um pintas”. Não carregando demasiado no jargão científico, pode mesmo considerar-se “um melga”. Pelo que é possível apurar-se do "mockumentary" de Martin Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue, de Bob Dylan, se alguma unanimidade existia entre todos os participantes da aventura, era acerca de Sloman: o fulano era insuportável! Então jornalista da “Rolling Stone” enviado para cobrir a digressão, segundo a lenda, terá sido Joan Baez quem, devido às óbvias semelhanças com a personagem de Ratso Rizzo – o vigarista encardido de Midnight Cowboy, interpretado por Dustin Hoffman – lhe terá atribuído a alcunha de “Ratso” que nunca mais largaria. A meio do percurso, a “Rolling Stone” mandou-o passear mas Ratso, já mestre na técnica de lapa-cola-e-não-despega, manteve-se a bordo e daí resultaria o livro On The Road With Bob Dylan, que o próprio Zimmerman classificaria como “the War and Peace of rock and roll”. Seguir-se-iam o auto-explicativo Reefer Madness: A History Of Marijuana (com prefácio de William Burroughs), três volumes a meias com o figurão Howard Stern, várias biografias e The Secret Life of Houdini, no qual defende que o famoso" escape artist" era espião inglês e foi assassinado por uma conspiração de espiritistas.
À sua peculiar maneira, Ratso será um fala barato mas é também um sedutor. Só assim se explicam as amizades e ligações que foi estabelecendo e que, embora com um prolongadíssimo período de gestação, lhe permitiram, à beira dos 70 anos, gravar o seu... álbum de estreia, Stubborn Heart, com um leque de participações (directa ou indirectamente) absolutamente invejável. A começar por John Cale, aqui representado pelas duas canções – "Caribbean Sunset" e "Dying On The Vine" – que co-escreveu com Ratso (sim, é verdade, e com uma mãozinha de Tom Waits e Chuck E. Weiss, presentes no quarto de hotel de Sunset Boulevard onde o parto poético se deu), mas igualmente Nick Cave (num dueto em "Our Lady Of Light") que arrastou Warren Ellis, Dylan (via os 12 minutos inteirinhos de "Sad-Eyed Lady of the Lowlands") e Sharon Robinson, voz e esteio musical de Leonard Cohen, outro íntimo de Ratso. E é por aí que tudo corre muito mal: optando por aquele género de arranjos – teclados, coros femininos, e batida metronómica – que só ficavam bem a Cohen (mesmo quando lhe ficavam mal) e por um inacreditável registo vocal Dylan-imitando-Cohen-a-imitar-Dylan, não há como dar-lhe a benção. Já tinha idade para ter juízo.
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01 February 2018
VADE RETRO
Como ensinaram alguns dos mais respeitados estudiosos da demonologia – tais que Johann Weyer (Pseudomonarchia Daemonum, 1563) e Collin de Plancy (Dictionnaire Infernal, 1818) –, a corte dos infernos não é extraordinariamente diferente de qualquer governação humana conhecida. Composta por 69 individualidades, deverão destacar-se Belzebu (chefe supremo e Senhor das Moscas e da Pestilência), Satanaz (líder do partido da oposição), Nergal (chefe da polícia secreta), Astharot (ministro das finanças) e Baal (comandante-chefe dos exércitos), não esquecendo uma considerável nomenclatura de assessores, juízes, grandes escanções, chefes dos eunucos, superintendentes das casas de jogo, e outro pessoal menor como Nybbas, “grande parasita, palhaço e charlatão”. Weyer afirmava que todos os estados europeus tinham um embaixador infernal designado e, na História Política do Diabo (1726), Daniel Defoe assegurava que “Satanás teve muitas vezes parte no método, senão mesmo no desígnio, de propagação da fé cristã”. Mas foi o bastante mais recente Gerald Messadié, em História Geral do Diabo (1993), quem – recordando que Reagan chamara à URSS “o Império do Mal” e o ayatollah Khomeini designara os EUA por “Grande Satã” – explicou que “o Diabo é uma personagem de utilização política. Ora, toda a gente sabe que a política é o domínio da mentira”. Não surpreende, pois, que, tão frequentemente, o Demónio continue a ser invocado e as propostas de vender-lhe a alma se repitam.
Paganini - Caprice No. 5 (Shlomo Mintz)
Sejamos, porém, justos: a política não tem o exclusivo do comércio com o chifrudo. Falando apenas de música (não esquecer que, segundo os Prefab Sprout, “The Devil has all the best tunes” e que os Stones lhe manifestaram a sua simpatia), Giuseppe Tartini (1692–1770) terá confessado que compôs a Sonata para Violino em Sol menor, o famoso “trilo do Diabo”, após um sonho em que com ele estabelecera um pacto, e Niccolò Paganini (1782–1840), foi acusado de ser filho do próprio Demo e de as cordas de seu violino serem feitas dos cabelos deste, ao que deveria o seu sobrenatural virtuosismo. Acerca do lendário "bluesman", Robert Johnson, conta-se que a transformação de guitarrista de nenhum talento em executante genial aconteceu após um encontro de negócios com o maligno, à meia-noite, “at the crossroads”, e os rumores sobre idêntica transacção de Jimmy Page nunca se extinguiram. Mas quem, melhor que todos, contou a história do contrato faustiano foram Tom Waits e William S. Burroughs em The Black Rider. (1993).
23 January 2018
Tom Waits/William S. Burroughs - The Black Rider
(de "Provas de Contacto" ed. Assírio & Alvim; clicar na imagem para ampliar)
27 March 2017
27 December 2016
MÚSICA 2016 - INTERNACIONAL (IV)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 26)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
A atmosfera geral – de Cohen a PJ Harvey, Burroughs, Darren Hayman, Shirley Collins, Paul Simon, Christy Moore – não foi propriamente festiva. Há anos assim. Mas alguns, como este, na música e no resto, carregam claramente nas tintas. Do francamente sepulcral à nostalgia dorida, ao delírio assombrado ou à denúncia política, a paleta raramente recorre às cores primárias. O que, seria facilmente acentuado se, dilatando a lista dos dez primeiros, incluíssemos Blackstar, de David Bowie, Lover, Beloved: Songs From An Evening With Carson McCullers, de Suzanne Vega, Skeleton Tree, de Nick Cave, ou You Can't Go Back If There's Nothing to Go Back To, dos Richmond Fontaine. Fiquemos, pois, gratos à vibrante experimentação electro-acústica de Anna Meredith, ao suave neo-classicismo de Meilyr Jones (e, noutro registo, Bob Dylan) ou à iconoclastia de Luke Haines e Neil Hannon, por terem permitido que um pouco de luz penetrasse.
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22 December 2016
"In a most Burroughs-ian gesture, this year a 'single-serving' website calling itself 23Skidoo came into being, with the promise of supplying readers with '23 random paragraphs from Naked Lunch' every time the refresh button is activated. The reader is invited to take in the newly forged juxtapositions while the inimitably phlegmatic voice of Burroughs reads from the work" (daqui)
(ver também aqui)
15 August 2016
GÉNIO
A obra literária de William S. Burroughs – entre textos de ficção e não-ficção – não é extraordinariamente extensa mas, se lhe acrescentarmos a discografia, o panorama altera-se significativamente. Desde os numerosos álbuns de "spoken word" puro (em particular na Giorno Poetry Systems) às colaborações com diversos músicos (Frank Zappa, John Cage, Philip Glass, Laurie Anderson, Bill Laswell, Ministry, Kurt Cobain, R.E.M.), seria, porém, sob produção de Hal Willner que a articulação entre texto, voz e música(s) descobriria as condições ideias de temperatura e pressão para ocorrer da melhor forma. Willner, especialista de álbuns monotemáticos – Amarcord Nino Rota (1981), Lost In The Stars: The Music of Kurt Weill (1985), Stay Awake: Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films (1988), Weird Nightmare: Meditations on Mingus (1992), Closed On Account Of Rabies - Poems And Tales Of Edgar Allan Poe (1997), The Raven (de Lou Reed, também em torno de Poe, 2003), Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs and Chanteys (2006) e Son of Rogues Gallery (2013) – entregues nas mãos e talentos de gente vária, capitaneara para Burroughs os óptimos Dead City Radio (1990, com John Cale, Donald Fagen, Chris Stein e os Sonic Youth) e Spare Ass Annie and Other Tales (1993, com os Disposable Heroes of Hiphoprisy).
E, sabemo-lo agora, pouco antes da morte de Burroughs, em 1997, recrutara o guitarrista Bill Frisell, o teclista Wayne Horwitz e o violinista Eyvind Kang, para criarem a moldura sonora numa leitura de textos de Naked Lunch. Segundo Willner, em linguagem convenientemente burroughsiana, esses registos ficaram, até hoje, “abandoned and collecting dust on a musty shelf as forgotten as a piece of rancid ectoplasm on a peep show floor”. Quase vinte anos depois, e decisivamente enriquecido pelos contributos do canadiano Arish Ahmad Khan/King Khan, do compositor, “performer” e contra-tenor novaiorquino M Lamar, e da banda psych/punk australiana The Frowning Clouds, Let Me Hang You, abrindo com a voz de além-túmulo de Burroughs a proclamar “They call me The Exterminator!”, é mais uma belíssima peça no glorioso cânone de psicose e devassidão de, segundo Norman Mailer, “the only living American novelist who may conceivably be possessed by genius".
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24 January 2016
LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XXVIII)
MÚSICA EM "X"
Por muitas páginas que já tenham sido escritas acerca de X-Files/Ficheiros Secretos, poucas coisas definem tão bem a atmosfera da série criada por Chris Carter como o curto motivo melódico de seis notas na tonalidade de ré menor que constitui o tema musical do genérico. Autêntico logotipo sonoro que, instantaneamente, estabelece o clima conspirativo e misterioso em que decorre cada episódio, limita-se, no fundo, a prosseguir uma gloriosa tradição de temas musicais para séries de televisão que contribuíram de forma determinante para lhes estabelecer a identidade. Provavelmente, muito poucos se recordarão da totalidade dos episódios das suas séries favoritas mas, sem dúvida, todas identificarão imediatamente os temas de Lalo Schiffrin para Missão Impossível, de Pete Rugolo para O Fugitivo, de Ted Astley para Robin dos Bosques, de Marty Manning para a Quinta Dimensão ou de Jerry Goldsmith para The Man from U.N.C.L.E.
Mark Snow, o autor do tema dos Ficheiros Secretos, tem "pedigree" académico: aluno ilustre da ilustre Julliard School of Music de Nova lorque, estudou com Itzhack Perlman e Pinchas Zuckerman, apaixonou-se pela música barroca e do Renascimento mas, apesar de oboísta, pianista e percussionista distinto dos cursos da Julliard, rapidamente cedeu à tentação da "baixa cultura" e, com o "room mate" Michael Kamen (outro notável actual da "film music" de Hollywood), fundou o New York Rock'n'Roll Ensemble que, nos anos setenta, se dedicava a combinar a tradição clássica com o rock. A aventura durou cinco anos mas, pouco depois, o universo da televisão acabaria por o atrair irremediavelmente. Responsável pelas bandas sonoras para diversas séries norte-americanas (de que as mais importantes terão sido Cagney and Lacey e Bagdad Cafe), seria, porém, com os X-Files e Millennium que o seu nome se haveria de impor como referência no pequeno mundo daquelas personagens obrigatórias e indispensáveis quando se trata de estabelecer uma relação imediata entre imagens e sons.
Agora que os Ficheiros Secretos se transferiram do formato televisivo para o grande ecrã, Mark Snow acompanhou também, naturalmente, essa mudança. Mas, talvez mais interessante seja reparar como os Ficheiros — na televisão e no cinema — já deram origem a cinco gravações diferentes. A saber: The Truth and the Light/Music from the XFiles, Songs in the Key of X, The X-Files/Fight the Future (BSO), The X-Files: The Album e Extremis. É fácil agrupá-los. Songs in the Key of X e The X-Files: The Album contêm a música "from and inspired by the X-Files". O primeiro, na versão televisiva (com Nick Cave, William Burroughs, Foo Fighters, Elvis Costello, Brian Eno, Soul Coughing ou os R.E.M.), o outro, na actual versão para cinema (com Mike Oldfield, Sting, Bjõrk, X, Noel Gallagher, Dust Brothers, Filter ou, outra vez, os Foo e Soul Coughing). No suporte CD, a comparação pende claramente para o lado da televisão: Songs in the Key of X é nitidamente mais pensado e "trabalhado", as canções do filme são apenas uma colecção de nomes mais ou menos "trendy" que fica bem no retrato mas que, em rigor, têm muito pouco a ver com o espírito dos Ficheiros e, de um modo geral, não são propriamente a "crème de la crème" da música do momento. Poderá ser somente uma questão de fundamentalismo mas, com as aventuras de Scully e Mulder não há outra forma de lidar...
The X-Files/Fight the Future e The Truth and the Light são as "pièces de resistence" de Mark Snow. E, aqui, convém dizer que ele é consideravelmente mais consistente no pequeno formato televisivo do que no ambicioso fôlego orquestral e sinfónico a que, nestes dois álbuns, se arrisca. Não é Bernard Herrmann quem quer e o duvidoso passado "progressivo" de Snow que, nos dois registos perigosamente ressuscita, não constitui exactamente o melhor cartão de visita. Embora, talvez, ajude a explicar as razões por que Mike Oldfield foi o escolhido para, em The X-Files: The Album, transformar o famigerado "tema X" nunca coisa chamada "Tubular X"... Se calhar, a peça de colecção que vale mesmo a pena guardar religiosamente é Extremis, o single de Gillian Anderson/Dana Scully com os Hal onde a lendária "unresolved sexual tension" entre ela e Mulder se resolve lateralmente num episódio de sexo virtual com seres alienígenas em registo de surrealismo/sci-fi/easy listening/electrónico que faz mais pelo engrandecimento do mito do que mil bandas sonoras "oficiais". E que, se não ajuda muito a redescobrir as raízes confessadamente punk de Gillian Anderson, por outro lado, situa bem melhor os Ficheiros e a sua protagonista na região esotérica e alternativa onde se construiu o seu sucesso. (1998) + "The new, six-episode X-Files miniseries, which premières this Sunday, is as weird and spontaneous as the original show"
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20 January 2016
Na Tailândia, o Khao Manee – uma das três principais estirpes de gatos autóctones, em conjunto com o Siamês e o Korat – é venerado como uma quase divindade. O nome significa “jóia branca” (é também conhecido como “gato dos olhos de diamante”), caracteriza-se pelo pêlo imaculadamente branco e, na variedade mais rara e preciosa, possui olhos de cor diferente: um azul, outro amarelo-dourado, o que, por milagre da genética, o salva da surdez que é comum nos que têm ambos azuis. Naturalmente, como todos os gatos, dispõe de nove vidas.
David Robert Jones, de modo muito semelhante, viveu outras tantas. Na primeira, sob esse mesmo nome, muito cedo, adquiriu uma das características do Khao Manee: uma briga escolar, provocou-lhe a anisocoria que, para sempre, lhe deixaria os olhos com a fortíssima aparência de colorido diferente. Na segunda, a mais curta, após ter tropeçado em "Tutti Frutti", de Little Richard, declarou ter “ouvido deus”, chamou-se Davy Jones, recebeu como presente um saxofone de plástico, imaginou-se nos Beatles, Who, Stones e Velvet Underground e apresentou-se na televisão como porta voz da Society For The Prevention Of Cruelty To Longhaired Men. A terceira, espécie de enorme tela sobre a qual desenharia todas as seguintes, viveu-a sob o nome de David Bowie, apelido extorquido ao pioneiro norte-americano, Jim Bowie, ou, mais exactamente, ao punhal que celebrizou.
Foi logo no início dessa que se gerou a quarta, a de Major Tom, que voltaríamos a encontrar, intermitentemente, em "Ashes to Ashes", "Hallo Spaceboy" e "Blackstar", mas igualmente o momento em que surgiria a suspeita sobre se Lauren Bacall ou Marlene Dietrich se teriam apoderado do seu corpo nas capas de The Man Who Sold The World e Hunky Dory. Na verdade, a quinta vida seria a de Ziggy Stardust, entidade apocalíptica, profética e bissexual, gerada nas incubadoras de William Burroughs e Anthony Burgess, antecedente da sexta, protagonizada pelo esquizóide Aladdin Sane (“a lad insane”), híbrido de Iggy Pop e Jean Genet de relâmpago no rosto, e da sétima, na qual, evocando, por contraste, o “diamond eye cat”, Halloween Jack, chefia o gang Diamond Dogs, e encena um Orwell sci-fi, niilista e quase punk.
Na oitava vida, seria a vez de a “jóia branca” assumir a forma do Thin White Duke – aristocrata demente, zombie amoral ou glacial super-homem ariano –, ainda em embrião na "plastic soul" brandida pelos Young Americans mas, sob dieta exclusiva de leite e pó-dos-sonhos, rapidamente entrado na idade adulta em Berlim, onde o cirurgião Brian Eno lhe extrairia as três pedras da loucura (Low, Heroes e Lodger) que, desde Station To Station, o atormentavam. A nona e última, sempre sobre o pano Bowie de fundo, viu-o fugaz e alternadamente lunar como Pierrot, sob o heterónimo de Nathan Adler, investigando o “art-ritual murder” de Baby Grace Blue – e perplexo com a dúvida “It was definitely murder - but was it art?” –, pluralmente dançante, “vacilando entre ateísmo e gnosticismo”, filósofo da “pós-filosofia” (“Nos últimos 20 anos, a realidade transformou-se numa abstracção para muita gente. Coisas que eram vistas como verdades extinguiram-se e é como se agora pensássemos pós-filosoficamente. Não há conhecimento, apenas a interpretação dos factos com que nos inundam diariamente, sentimo-nos como que à deriva no mar. E as circunstâncias políticas ainda empurram o barco mais para longe”), crepuscular até ao final. “Ashes to ashes, funk to funky”. Foram óptimas nove vidas. Poderá ter sido mais bem escutado numas do que noutras. Mas, em todas, a visão bicolor do Khao Manee assegurou-lhe um magnífico ouvido.
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