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23 March 2026

Boston Camerata (dir. Joel Cohen) - "Fauvel Cogita"
(de Le Roman de Fauvel, na íntegra aqui

(sequência daqui) O incerto autor terá sido Gervais du Bus, notário da chancelaria real de França mas, poucos anos depois, Chaillou de Pestain, expandiu o texto original com seis poemas políticos de Geoffrey de Paris e outras interpolações. O Romance de Fauvel, monumental Singspiel, tornar-se-ia assim uma importante fonte de música medieval e um dos primeiros exemplos da "Ars Nova", bem como um exemplo pioneiro de arte políticamente interventiva. Desconhece-se quem acerca dele pudesse ter ousado afirmar "Temos de ficar fora da política porque, se fizermos obras que sejam declaradamente políticas, entraremos no campo da política. Nós somos o oposto da política”, como, assaz inexplicavelmente, 700 anos depois, diria Wim Wenders enquanto presidente do júri do Festival de cinema de Berlim. (segue)

15 February 2026

Isto não é tudo demasiado adolescente, excessivamente ignorante 
e insuportavelmente idiota?...

27 August 2021


(sequência daqui) O que, na voz de quem, candidamente, confessa “I haven’t aged since I was four years old”, ganha, naturalmente, muito particulares sentidos aos quais, como acontece com os filmes de David Lynch, há que permitir que nos conduzam, sem resistência nem busca de explicação racional. Por que motivo a demolição sonora de "Bull of Heaven" desagua, sem pausa, no lirismo translúcido de "Obsidian Lizard"? Como coabitam ambos em "Before a Black Tea" onde Erin incorpora a voz de Mimi Goese (Hugo Largo)? Pode, num momento, dizer-se “take me for the music, take me for a human” e, no seguinte, “I've never been a human, but I'm a good friend”? Existe matéria nesta surreal ópera noturna para a imaginar (sugestão de Erin) como episódios inéditos das Canterbury Tales criados à imagem de The Wall (Pink Floyd), Until the End of the World (Wim Wenders) e da reinvenção da arquitectura de Nova Iorque por June Jordan e Buckminster Fuller? Ela também não sabe mas isso não tem importância nenhuma.

11 October 2019

Peter Handke - "Song of Childhood" 
 (As Asas do Desejo - real. Wim Wenders, 1987)

25 October 2017

... e, quando um fulano menos espera, salta-lhe em cima um Marselfie qualquer que lhe espeta uma carica na lapela!... Mas aquilo por que o p.o.v.o. verdadeiramente anseia é que o ex-"sit-down comedian" exija um pedido de desculpas público a Jean-Yves Ferri e Didier Conrad pela ultrajante representação dos bravíssimos Lusitanos em Astérix e a Transitálica! Ou isso ou o corte imediato de relações diplomáticas!!!

27 April 2016

ENTRE OS ESCOMBROS 


Harriet Tubman foi uma negra norte Americana, ex-escrava e abolicionista que, no século XIX, participou em treze missões de libertação de escravos usando o Underground Railroad, uma rede de activistas anti-esclavagistas que oferecia o apoio indispensável à fuga para o Canadá. Na sua biografia, conta como "Wade In The Water" – um dos espirituais negros que eram utilizados na qualidade de mensagens cifradas contendo instruções acerca das precauções que deveriam ter no arriscado caminho para a liberdade –, avisava os fugitivos para preferirem rotas que atravessassem rios de modo a dificultar a perseguição pelos cães dos esclavagistas. Em "River Anacostia", a quinta canção de The Hope Six Demolition Project, de PJ Harvey, "Wade in The Water" é entoada segundos antes das primeiras palavras (e, no final, em jeito de coda): “Oh, my Anacostia – do not sigh, do not weep – beneath the overpass your saviour’s waiting patiently, walking on the water that flows with poisons from the naval yard”. Mas, aqui, o código refere-se ao Anacostia, afluente infecto do Potomac, em Washington, D.C., um dos três destinos (juntamente com o Kosovo e o Afeganistão) escolhidos por Polly Jean para a exploração dos últimos círculos do inferno contemporãneo. A leste do Anacostia, concentra-se a maioria dos bairros social e economicamente devastados da capital dos EUA: “this is just drug town, just zombies (...), the highway to death and destruction, South Capitol is its name, the school looks like a shit hole (…), here’s the old mental institution, now the Homeland Security base, here’s God’s Deliverance Centre, a deli called M.L.K.”



Acompanhada pelo fotógrafo, Seamus Murphy (com quem já colaborara, há cinco anos, em Let England Shake, e, no ano passado, no livro de fotos e poesia The Hollow Of The Hand), a decisão de viajar até esse amaldiçoado triângulo geopolítico decorreu da necessidade imperiosa de “cheirar o ar, tocar o solo e encontrar-me com as pessoas destes lugares. Recolher apenas informação em segunda mão seria distanciamento demais relativamente aquilo sobre que queria escrever”. Mais ou menos inevitavelmente, tal proximidade determinou que a maioria das canções fosse quase uma variação hiperrealista sobre o modelo enumerativo de "A Hard Rain’s A-Gonna Fall", de Dylan – “Fizzy drinks cans and magazines, broken glass, a white jawbone, syringes, razors, a plastic spoon, human hair, a kitchen knife and a ghost of a girl who runs and hides (…) they’ve sprayed graffiti in Arabic and balanced sticks in human shit, this is the Ministry Of Remains”, “I saw a displaced family eating a cold horse's hoof (...) Air drops were dispersed, I saw people kill each other just to get there first”, “At a junction on the ground an amputee and a pregnant hound sit by the young men with withered arms, as if death had already passed (…) A million beggars silhouettes near where the money changers sit by their locked glass cabinets” –, que tanto pode terminar à beira de citar Elliot (“These are the words written under the arch, scratched in the wall in biro pen, this is how the world will end”) como "Money, That’s What They Want" do bluesman Jerry McCain.



"Field report" de um mundo fracturado com velhíssimas feridas por cicatrizar, espécie de versão aterradora do registo documental dos movimentos humanos tal como os anjos caídos de As Asas do Desejo, de Wim Wenders, o praticavam, Hope Six, terceiro tomo da mudança de pele iniciada em White Chalk (2007), não se fica por esse testemunho do fedor da morte e das iniquidades do poder, da religião, da raça e da desigualdade: caminhando sobre terrenos (literalmente) minados, é também um potentíssimo ciclo de canções, ora coralmente empolgadas, ora incendiadas pelo sax pirómano de Terry Edwards, ora esculpidas em puríssima electricidade, ora tudo isso ao mesmo tempo. Com uma única advertência da repórter de guerra, Polly Jean Harvey, sintetizada em três palavras, escritas por entre os escombros: “Enough is enough”.

01 February 2010

AMÉRICA LENDÁRIA



Vários - We Are Only Riders: The Jeffrey Lee Pierce Sessions Project

Jeffrey Lee Pierce – jovem suburbano da periferia industrial de Los Angeles que, apesar de aluno brilhante, era dado a apresentar ensaios sobre Ernest Hemingway constituídos por dez páginas em branco –, no final dos anos 70, era crítico de música do fanzine punk, “Slash”, de Los Angeles, e escrevia sobre rockabilly, blues e reggae. Era também o presidente do clube de fãs dos Blondie e sonhava trabalhar para o departamento de música do Smithsonian Institute na pesquisa de velhas gravações de blues e country. Do mesmo remoinho do punk de LA que envolveria os X, Blasters, Circle Jerks, Germs e Black Flag, inventou The Gun Club, alucinação de vudu, psychobilly, Ornette Coleman, “Tales From The Crypt”, álcool, blues, heroína e country.



Fire Of Love (1981) iniciou o percurso que, em 1996, aos 37 anos, terminaria como conta Mark Lanegan: “No princípio de 96, foi para o Japão mas, imediatamente antes, tínhamos estado em casa da mãe dele a escrever canções. Parecia estar realmente em boa forma, o que nem sempre acontecia: por vezes, mal conseguia andar de tão desfeito que estava. Quando regressou do Japão, deixou-me meia dúzia de mensagens no atendedor de chamadas. Parecia completamente fora de si apesar de não estar embriagado. Uma coisa estranhíssima, dava a ideia de ter endoidecido. Alguém acabou por me contar que ele tinha voltado a beber, o fígado lhe havia intoxicado o organismo e sofria de dcemência. No hospital tinham-lhe dado alta dizendo que nada podiam fazer por ele. Pouco depois, recebo um telefonema: estava no Utah e, aparentemente, normal. Disse-me ‘Que raio, meu, toda a gente me diz que vou morrer, é sempre o mesmo’. Uma semana depois, entrou em coma e morreu”.



Nunca tendo alcançado verdadeiramente uma projecção universal (e, por hoje, razoavelmente esquecidos), os Gun Club e Jeffrey Lee Pierce deixaram, no entanto, um considerável culto em cujos fiéis se incluíram os R.E.M. White Stripes, Nick Cave, Wim Wenders, os Pixies ou Henry Rollins, entre diversos outros. Foi um deles, Cypress Grove (com Pierce, em 1992, gravaria Ramblin' Jeffrey Lee and Cypress Grove with Willie Love, essencialmente, um álbum de versões de blues de Howlin' Wolf, Lightnin' Hopkins e Skip James), que, ao arrumar gavetas, tropeçou numa cassete de maquetas e esboços que ambos haviam gravado pouco antes da morte de Jeffrey. A partir dali, iria ser possível reconstituir, então, a última parcela inédita da obra de Pierce, com a participação de fãs, discípulos e herdeiros, este We Are Only Riders. Porque o número de temas sobreviventes era escasso, alguns são objecto de duas e três interpretações mas, só pontualmente, as balas deste Gun Club parte-II falham o alvo.



Nick Cave, a solo e com Debbie Harry, em "Ramblin’ Mind" e "Free To Walk", é imperial, ela, sozinha, em "Lucky Jim", assina a sua melhor interpretação desde há muito, Mark Lanegan (com e sem Isobel Campbell), arrancam pelas tripas o Cash que se acoitava na alma de Jeffrey Lee, os Raveonettes projectam "Free To Walk" para um céu semeado de mazzy stars e Lydia Lunch, David Eugene Edwards, The Sadies, Johnny Dowd, Kid Congo Powers (ele, o nómada que circulou dos Gun Club para os Cramps, Die Haut, The Fall e Bad Seeds) Mick Harvey, Dave Alvin e os Crippled Black Phoenix (o inesperado único elo débil nesta colecção) – com aparições do fantasma da guitarra samplada de Pierce recuperada das cinzas – compõem aquilo que é tanto uma justíssima homenagem quanto um óptimo álbum de música daquela América "borderline" e lendária que nunca nos fatigaremos de escutar, ler e admirar.

(2010)

19 July 2008

E, SIM, LOU REED TAMBÉM ESTÁ CÁ HOJE


Lou Reed "sob o céu de Berlim"
(As Asas do Desejo - real. Wim Wenders)


(2008)

18 January 2008

THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN * (V)

(* segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")

O ESPÍRITO DO LUGAR



Buddy & The Huddle - Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree"

Na terminologia do espiritismo, a isto, chama-se "channelling": a abertura de um canal através do qual se torna possível a passagem e incorporação de um espírito noutro corpo físico. Foi exactamente isso que aconteceu com Roland Kopp e Michael Ströll, aliás, Buddy & The Huddle, em Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Sutree". Mas, neste caso, numa dimensão que excede claramente a superfície de uma mesa de pé de galo. O espírito que eles incorporaram foi o de uma cultura, de um lugar e de uma música inteiros. Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é a banda sonora imaginária para um filme imaginário realizado a partir de um potencial argumento real, o romance Suttree, do escritor sulista norte-americano Cormac McCarthy.


Cormac McCarthy

E foi justamente a paisagem geográfica, espiritual e humana desse mesmo Sul mítico de Faulkner ou Flannery O'Connor reencenada pela história e pelas personagens de McCarthy (em Knoxville, no Tenessee) que serviu de ponto de partida e de inspiração para o projecto de Kopp e Ströll. O detalhe mais desconcertante é que — como os seus apelidos deixam adivinhar — ambos são alemães, tendo-se deslocado propositadamente ao Tenessee para absorver a atmosfera local. Foi, decerto, aí que o "channelling" teve lugar. Kopp e Ströll deixaram-se literalmente possuir pelo espírito do lugar que já antes se entranhara em McCarthy (embora sulista pelo estilo, nasceu em Rhode Island) e criaram aquele que é, indiscutivelmente, um dos mais assombrosos álbuns genuinamente norte-americanos. Porque a verdade é que este Sul "fake" e virtual (tal como o de Paris, Texas do também alemão Wim Wenders) é mil vezes mais real do que a realidade.



Utilizando uma variedade de cordas, sopros e percussões tanto "locais" como "universais" (banjo, bandolim, lap-steel guitar, resophonic guitar, vibrafone, marimbafone, glockenspiel, acordeão, didgeridoo, sampling, guimbarda, sax, tuba, trompete, quartetos de cordas), a orientação nunca foi, contudo, a do documentarismo etno-antropológico. O mergulho na América profunda e no ambiente da narrativa de McCarthy é que determinou o rumo da criação musical e das diversas escolhas que se sucederam nesta sequência de vinte e cinco instantâneos musicais que obedecem exclusivamente a um ordenamento do tipo "stream of consciousness". Do country desolado e metafísico às trompetes mariachi, ao rockabilly e ao jazz/cabaret de fim de noite passando por paisagens sonoras que poderiam ter sido assinadas por Ry Cooder, Jon Hassell ou Tom Waits ou pelos "separadores" cirurgicamente extraidos do idioma minimalista, Music For A Still Undone Movie Maybe Called "Suttree" é uma permanente alucinação que paira sobre uma geografia paralela. Tanto mais perturbadora quanto se descobre como ela coincide ponto por ponto com a imagem que os verdadeiros mapas revelam. (1998)