Showing posts with label Wes Anderson. Show all posts
Showing posts with label Wes Anderson. Show all posts

15 September 2025

MELANCOLIA BRITÂNICA 

Quando, a 3 de Julho de 1969, Five Leaves Left foi publicado, não teve direito a passadeira vermelha nem nada muito próximo disso. Na verdade - sem que sequer a presença dos "Thompson twins" Richard (dos Fairport Convention) e Danny (Pentangle) o pudesse contrariar -, a recepção crítica foi pouco mais do que morna: uma "tonalidade demasiado melancólica e uniforme", uma "atmosfera introspectiva excessivamente obscura e depresiva", e "ausência de dinamismo" foi o que, do "Melody Maker" ao "New Musical Express", ao "Daily Telegraph" e ao "Disc and Music Echo", se opinou, nunca indo além da classificação de "interessante", considerando as canções "incertas e indirectas", e o álbum "melodicamente monótono". Apenas Gordon Coxhill no "NME", admitia que Drake possuía um "considerável talento", mas o disco "carecia de diversidade", e a voz recordava-lhe a de Peter Sarstedt (a "one hit wonder" de "Where Do You Go To My Lovely?" que, em 2007, acabaria por ser ressuscitada por Wes Anderson para os filmes Hotel Chevalier e Darjeeling Limited) mas sem a sedução e profundidade deste. Um pouco mais simpático, porém, do que, parecia ser a opinião corrente na cave do nº 49 da Greek Street londrina onde, de 1964 to 1972, funcionou o clube folk Les Cousins e Drake era "aquele jovem nervoso que punha o público a dormir"... (daqui; segue para aqui)

06 April 2024

"Se Dançar É Só Depois"
 
(sequência daqui) Foi durante os dois anos de isolamento pandémico que, com todo o imenso tempo disponível, Ana Lua se empenhou integralmente "na exploração desses dois mundos que me interessavam". Se, num primeiro instante, a intenção era que o que acabou por serem dois EP tivesse sido publicado como um único álbum, o risco de "engarrafamento" dos muitos temas impôs a divisão, cabendo agora a Vou Ficar Neste Quadrado o papel de longa duração de estreia oficial e cartão de visita do projecto de "folktronica" lusa. Mais a exploração de uma ideia do que será a realidde - tímbrica, melódica, rítmica e harmónica (vocal e instrumental) - da música tradicional do que uma expedição etno-respeitosa de recuperação do património popular, neste edifício electro-acústico de vários andares coabitam "loop stations", sintetizadores, memórias de polifonias beirãs e assombrações de Meredith Monk, bombos e "drum machines". A sublinhar o estatuto de butleriana Erewhon do território em que tudo decorre, é obrigatório conhecer os videos - fruto da colaboração com a irmã Joana, realizadora de cinema e video em Inglaterra - que decorrem de cada canção: um mundo fantástico onde micro ranchos folclóricos afro-nortenhos se cruzam com jogos de espelhos, quadros de gótico oitocentista e evocações chaplinianas deixam-se rectificar por Wes Anderson e ser coloridos por Almodovar. "O mundo visual dela, neste projeto, foi também o meu. Se eu experimentava uma articulação da música tradicional com a electrónica, os dois universos acabaram por sobrepor-se. Pegávamos em motivos visuais mais ou menos tradicionais e dávamos-lhes a volta, virávamo-los de pernas para o ar. Esse processo de exploração com ela acabou por tornar-se a minha linguagem visual". (segue para aqui)

01 December 2021

 
(sequência daqui) Para o último, The French Dispatch, voltou a recorrer a Desplat que comporia música inspirada em Erik Satie e Thelonious Monk e pediu a Jarvis Cocker que gravasse uma versão de "Aline" (1965), baladona lacrimejante de Christophe, ídolo “romântico” da pop francesa. Não se ficariam, no entanto, por aí: o nativo de Sheffield com o mais tolerável sotaque francês do Reino Unido, sob a produção executiva de Anderson, ampliaria a ideia para um álbum inteiro – Chansons d’Ennui Tip-Top –, “companion piece” e “extensão musical” do filme, onde, com supremo garbo e nenhuma iconoclastia, e na companhia ocasional de Lætitia Sadier (Stereolab), ressuscitaria 12 vetustos sucessos de Dalida, Brigitte Bardot, Nino Ferrer, Jacques Dutronc, Serge Gainsbourg, Françoise Hardy, Alain Delon, Marie Laforêt e Brigitte Fontaine. No filme, "Aline" é escutada emanando diegeticamente do jukebox do café Le Sans Blague. É, sem dúvida, a melhor forma de saborear esta “period piece”.

29 November 2021

DO JUKEBOX
 
 
No universo paralelo do cinema de Wes Anderson, há (entre várias outras) duas particularidades que o definem: a obsessão pela simetria visual e uma concepção da banda sonora já designada como “crate-digger soundtrack”. Isto é, composta a partir do tipo de música e canções que tendem a ser apenas descobertas nos caixotes de feira-da-ladra e lojas de segunda mão, ponto de vista próximo mas não exactamente idêntico ao que costuma orientar Quentin Tarantino na mesma missão: se este tende a propor a redenção do mais obscuro e (muitas vezes, injustamente) desclassificado “kitsch”, Anderson, com a indispensável colaboração do farejador Randall Poster, valoriza o “vintage” de fina casta. Em Hotel Chevalier, prequela de The Darjeeling Limited (2007), "Where Do You Go To (My Lovely)?", do meteórico Peter Sarstedt, ocupava todo o espaço sonoro e, no próprio Darjeeling, reapareceria por diversas vezes, na companhia de canções dos Kinks, Rolling Stones e Joe Dassin. Mas, em toda a restante filmografia, lado a lado com peças do reportório clássico e música original de Alexandre Desplat e Mark Mothersbaugh (Devo), é um desfile contínuo de memórias dos Proclaimers, Ramones, Velvet Underground, Elliot Smith, Zombies, Sigur Rós, The Creation, Chad & Jeremy, Cat Stevens, The Who, Yves Montand, John Lennon, Faces, West Coast Pop Art Experimental Band, Nico, Dylan, Clash, Devo, Stooges, Scott Walker, Beach Boys, Charles Aznavour, e até de versões de David Bowie por Seu Jorge.(daqui; segue para aqui)
 
Jarvis Cocker - "Aline" (real. Wes Anderson)

17 April 2014

"You see, there are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity. Indeed that's what we provide in our own modest, humble, insignificant... oh, fuck it"

21 January 2013

O SEGREDO



Lawrence Arabia - The Sparrow

T. E. Lawrence, alias, Lawrence da Arábia – arqueólogo, herói militar, espião, diplomata e escritor britânico –, após uma vida trepidante e aventurosa, quando, em 1935, no Dorset, se dirigia de mota a uma estação de correios para enviar uma encomenda de livros a um amigo, morreria, vítima de queda, ao procurar evitar o embate com dois ciclistas. Lawrence Arabia, aliás, James Milne –, músico e "songwriter" neozelandês – no terceiro álbum, The Sparrow, intitula um dos nove temas "Bicycle Riding" mas, antes de acedermos a ele, no "booklet", deveremos tropeçar no pequeno conto homónimo do disco (antecedido pela qualificação “Honorary Bedouin”) que faz as vezes dos proverbiais textos das canções, ficha técnica e "liner notes": a narrativa da alucinação do jovem Henry Fredericks, patologicamente hipersensível à textura dos tecidos, à própria anatomia e ao obsessivo piar de um pardal, contada a um amigo alfaiate, depois de uma noite a deambular de bicicleta.


Como começará a suspeitar-se, Milne obedece a raras convenções: afirma-se discípulo de Scott Walker e Gainsbourg mas, logo nas primeiras apresentações, "Travelling Shoes" dá-se ares de "Stand By Me" cantado por David Byrne a pensar em "Femme Fatale" e, pouco depois, "The Listening Times" coloca a hipótese de Syd Barrett ter sido mais parcimonioso na dieta de LSD e ter-se transformado em Burt Bacharach, enquanto, três faixas adiante, em "Early Kneecappings", reconhecemos o velho "Walrus" (a silhueta de Lennon já tinha sido avistada antes) prestes a trepar pelo crescendo orquestral de "A Day In The Life". Considere-se ainda o "lounge" em decomposição de "Dessau Rag" ou a pop de câmara orquestralmente desviante de "Legends" e descobriremos, por fim, o segredo: Milne é Kevin Ayers refugiado num filme de Wes Anderson.

06 September 2009

NARCISO FERIDO


Noah & The Whale - The First Days Of Spring

Costuma ser receita garantida para o tédio irredimivel: jovem poeta/músico/artista, de coração dilacerado pela ruptura de uma relação amorosa, verte toda a sua dor oceânica sobre a página/o microfone/a tela, insufla-lhe fôlego conceptual à escala himalaica da tragédia e não descansa enquanto não tiver aborrecido de morte o último habitante da galáxia. Não é, realmente, fácil achar forma de contar ainda outra vez a mais antiga história do mundo sem correr o risco de voltar a pisar, uma por uma, todas as pegadas já milhões de vezes deixadas por outros. Apresente-se, agora, Charlie Fink, desapiedadamente abandonado pela namorada (Laura Marling, starlet pop-folk ascendente e ex-elemento da banda de Charlie), e que, para aprofundar a ferida narcísica, foi o responsável pela produção do álbum Alas, I Cannot Swim de que resultou a nomeação dela para o Mercury Prize.



Uma réstea de luz acende-se – mas, como se sabe, isso nunca é garantia de nada – quando se descobre que Noah & The Whale, o nome da banda, se inspirou no filme The Squid and the Whale, realizado por Noah Baumbach, e que, na lista de afinidades electivas de Fink, se encontra também Wes Anderson. A música, então: primeira faixa (a canção-título), sete minutos de lenta mas avassaladora ascensão orquestral, da glacial secura marcial dos Joy Division até à explosão do fogo de artifício final em 70 mm. Tema: “I do believe that everyone has one chance to fuck up their lives". KO instantâneo e hipóteses de análise fria reduzidas a cacos. É, por isso, sob séria reserva de temporária insanidade, que, escutado todo o disco (tema geral: “If you gotta run, run from hope”), afirmo que The First Days Of Spring é o melhor álbum de dor-de-corno desde Sea Change, de Beck, coisa próxima de The Opiates, dos Anywhen, ou de Ocean Rain, dos Echo & The Bunnymen, o género de odisseia pop capaz de reduzir os Arcade Fire à sua insignificante dimensão e de obrigar Neil Hannon a colocar-se em sentido. Paralelamente, Fink realizou uma curta metragem homónima. Se for digna de caminhar na sombra de Wes Anderson, será a cereja em cima do bolo.

(2009)