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24 January 2026

COMO AS COISAS DEVEM SER FEITAS

Originalmente construído por James Burton, em 1797, como estábulo para cavalos de trabalho doentes, The Horse Hospital, em Bloomsbury, Londres, converter-se-ia, mais de 2 séculos depois, num espaço artístico independente cuja actividade se concentraria em histórias sub-culturais, contra-culturais, de arte marginal e emergente assim como na organização de projecções cinematográficas underground e exposições. Fundado em 1992 por Roger K. Burton, iniciou actividades, em 1993, com "Vive Le Punk!", uma retrospectiva do design punk de Vivienne Westwood. Em Abril de 2024, durante a Crass Art Exhibition, seria aí apresentada a obra original de Gee Vaucher (bem como cenários e outros artefactos punk), dos lendários Crass. A exposição na galeria incluiu projecções, sessões de perguntas e respostas e actuações. Entre estas, Eve Libertine - outro elemento primordial dos Crass - apresentou-se com a guitarrista experimental chilena Eva Leblanc. (daqui; segue para aqui)

06 December 2016

BURN PUNK LONDON


A 7 de Junho de 1977, coincidindo com a publicação de "God Save The Queen" ("God save the queen, she ain't no human being, there is no future in England's dreaming") e com a celebração do Jubileu de Prata da rainha Isabel, Malcolm McLaren e os Sex Pistols fretaram um barco que navegou pelo Tamisa e onde, frente ao Parlamento, a banda se lançou numa interpretação sísmica de "Anarchy In The UK". Exactamente quarenta anos após o lançamento de "Anarchy..." (a 26 de Novembro de 1976), Joseph Corré, filho de McLaren e Vivienne Westwood, cumprindo a promessa que havia feito em Março passado, a bordo de um outro barco, perto da Albert Bridge, em Chelsea, lançou fogo a uma arca de memorabilia punk avaliada em cerca de 5 milhões de libras, numa acção de protesto contra a “Punk Rock Swindle” que a declaração de 2016 como o “Year Of Punk” – uma iniciativa do British Film Institute, British Library, Design Museum, Museum of London, Photographers' Gallery, Rough Trade e Roundhouse – constituiria. Junto a efígies de David Cameron, Tony Blair, Theresa May e George Osborne (também incineradas), a uma faixa onde se lia “Extinction: your future” e sob bandeiras vermelhas carimbadas com nomes de multinacionais e bancos, Corré disparou: “Bem-vindos ao acto final do 'establishment' punk – uma era em que podemos comprar 'punky nuggets' no McDonalds, possuir cartões de crédito-Anarchy In The UK com uma anuidade de 19% ou calças 'bondage' Louis Vuitton!” E prosseguiu: “O punk nunca, nunca pretendeu ser nostálgico: ofereceu uma oportunidade para a geração 'no future' dos anos 70 descobrir um caminho: não confiar nos media, não confiar nos políticos, investigar a verdade pelos próprios meios. DIY. O punk morreu. É tempo de o incendiar e começar tudo de novo!”



O funeral do punk encenado por Corré terá, sem dúvida, um poder simbólico muito especial no UK do Brexit. Mas não custaria muito ter reparado como, pelo menos, desde há cinco anos, o testemunho foi passado às russas Pussy Riot que não apenas sofreram na pele as consequências dos seus gestos transgressivos – ano e meio nas cadeias do regime proto-fascista de Putin – mas, após a libertação (essencialmente, através da iniciativa de Nadya Tolokonnikova), não desistiram de manter-se permanentemente na ofensiva. Em particular, com uma brilhantíssima colecção online de videoclips: "Putin Will Teach You How To Love The Motherland" (pela libertação dos presos políticos), "I Can’t Breathe" (Nadya e Masha Alyokhina são sepultadas vivas com o uniforme da polícia de choque russa), "Refugees In" (uma performance na Dismaland – uma Disneyland transviada –, do "street artist", Banksy), "Chaika" (sobre o escândalo de corrupção do procurador geral russo, Yuri Chaika), "Straight Outta Vagina" (“Pussy is the new dick, ladies, oh bondage, up yours”), "Organs" (Nadya, num literal banho de sangue: “Shitfaced parliament bans condoms, agony, spasm, big bang of the falling down crown”) e "Make America Great Again" (uma Trumpland distópica). “Flowers in the dustbin, the poison in your human machine”.

26 April 2016

The McLaren Westwood Gang 
(aka Anarchy! The Last Revolution)


"Phil Strongman’s new documentary Anarchy! McLaren Westwood Gang is a politically-fueled, fashion-conscious deeper look at how the English punk explosion was ignited — how the bomb was built and under what circumstances, in other words. Coming in at almost two and a half hours with an incredible cast of characters, Anarchy! McLaren Westwood Gang traces Malcolm McClaren back to his birth with loads of never before seen films and photos, personal information and interviews with family members, friends and others, taking us into the all important mid-sixties where the real nucleus of the Sex Pistols concept begins to form within the Situationist movement, King Mob (the UK equivalent), art school and observing the tribal customs and costumes of rock ‘n roll fanaticism (...)" (aqui)

10 August 2011

EM MARCHA-ATRÁS


Simon Reynolds - Retromania: Pop Culture’s Addiction 
To Its Own Past



Black Lips - Arabia Mountain

Como Simon Reynolds escreve na última linha de Retromania, também eu prefiro acreditar que “the future is out there”. Mas, justamente da mesma forma que ele (em todas as outras 400 e tal páginas), partilho daquela insegurança que J.G. Ballard, em Myths Of The Near Future, definia assim: “Resumiria o meu medo em relação ao futuro numa só palavra: aborrecimento. É esse o meu único medo: que tudo tenha já acontecido, que nada de novo, excitante ou interessante possa acontecer outra vez, que o futuro seja apenas um vasto e resignado subúrbio da alma”. Pode dizer-se que, de modo avassaladoramente erudito, extensamente documentado e persuasivamente argumentado, todo o livro de Reynolds é uma imensa variação, em três andamentos – “Now”, “Then” e “Tomorrow” – e doze capítulos, em torno dessa possibilidade inquietante. A questão de fundo nada tem a ver com a criação como reciclagem e reformulação de formas, estilos, géneros e atitudes do passado: na pop e fora dela, a amnésia nunca foi um ponto de partida e, reconheçamo-lo, a reivindicação de inovação, ruptura e “progresso” estético permanentes é uma obsessão razoavelmente recente. O que assusta Reynolds é outra dúvida: “No cenário musical contemporâneo, o que existe de suficientemente rico e fértil – isto é, suficientemente não-derivativo – para alimentar futuras formas de revivalismo e retro? É inevitável que, em determinada altura, a reciclagem acabará por degradar a matéria-prima para além daquele ponto em que algum valor ainda dela possa ser extraído”.



Exactamente ao contrário do que possa parecer, não se trata de desvalorizar a cultura pop actual relativamente à das décadas anteriores: o perigo decorre, sim, de – na era das mil-e-uma reedições, dos revivalismos, das "new-waves" de inúmeras outras "new-waves", dos museus e "rock curators" (o episódio da visita à British Music Experience, assombrada, à saída, pela figura de Johnny Rotten, uivando “No future!” é memorável), dos documentários de nostalgia histórica, da "super-hybridity", do sampling, do "record-collection rock", do tempo e do espaço eterna e infinitamente ressuscitados e preservados no YouTube – o passado sufocar o presente e colocar em risco a viabilidade do futuro.



Eric Harvey, da “Pitchfork”, dizia que “os anos zero parecem destinados a ser a primeira década da pop que irá ser, essencialmente, recordada pela tecnologia musical (Napster, Soulseek, Limewire, Gnutella, iPod, YouTube, Last.fm, Pandora, MySpace, Spotify), "super-brands" que ocuparam o lugar de super-bandas como os Beatles, Stones, Who, Dylan, Zeppelin, Bowie, Sex Pistols, Guns’n’Roses ou Nirvana” e Vivienne Westwood (ambos citados por Reynolds), já em 1994, declarava “Modern is a question we have to abandon”. Resta, então, um paradoxo à espera de resolução: “Na era analógica, a vida quotidiana movia-se lentamente (...) mas a cultura como um todo, parecia avançar. No presente digital, a vida quotidiana assenta na hiper-aceleração e na quase instantaneidade (...), mas, ao nível macrocultural, as coisas parecem estáticas e imobilizadas”.


+ parte 4

Na frente pop propriamente dita, não serão, de certeza, os Black Lips a resolvê-lo. E não deixa de ser esclarecedor passar os olhos pelas "reviews" de Arabia Mountain que os incensam na qualidade de messias do garage-rock, todas elas centradas na fidelíssima produção “faux-60s” de Mark Ronson, na utilização de “retro recording techniques”, no Nuggets style playbook” a que, caninamente, obedecem, e na “retro-rock reverence” de que dão provas. Tudo verdades indiscutíveis, ainda toleráveis numa banda de caloiros mas irremediavelmente retromaníacas quando se trata de um sexto álbum.

(2011)