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11 July 2025

"Don't Go Near The Water" (de Surf's Up, na íntegra aqui)

(sequência daquiSmile foi arquivado semanas antes do lançamento de Sgt. Pepper’s. Ficaram as ruínas: fragmentos em Smiley Smile (1967), os bootlegs da Sea of Tunes, a caixa Good Vibrations: Thirty Years of The Beach Boys (1993), a reinterpretação de 2004 com os Wondermints e Parks, e, finalmente, em 2011, The Smile Sessions, com mais de quatro horas de sessões originais. Já conhecíamos tudo, mas nunca assim. Era a restauração de uma miragem. Enquanto Smile morria antes de nascer, os Beach Boys sobreviventes buscavam um novo começo. Sem Brian no comando, os anos 1970 revelaram uma banda distante do eterno hedonismo californiano. Barbudos, introspectivos e politizados, lançaram álbuns como Sunflower (1970) e Surf’s Up (1971), com canções que abordavam a violência policial, a resistência juvenil e o desencanto político (“Nothing much was said about it and really next to nothing done, the pen is mightier than the sword, but no match for a gun!" cantava-se em "Student Demonstration Time"). “Eles são profundos, comprometidos e modernos”, escrevia Tom Smucker na "Creem". Em consonância com esta imagem, a banda acolheu as políticas de esquerda e exibiu uma consciência social. As atuações ao vivo estavam impregnadas de um propósito político. Em 1971, actuaram nas manifestações do Dia do Trabalhador em Washington, contra a guerra no Vietname, que resultaria na maior detenção em massa da história dos Estados Unidos. Em 1974, actuaram com Bob Dylan, Pete Seeger e Phil Ochs no "An Evening with Salvador Allende", um concerto de beneficência em homenagem ao antigo presidente socialista do Chile, derrubado por um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos. (segue para aqui)

08 July 2025

The story of "Good Vibrations" is weirder than you thought

(sequência daqui) As gravações de Smile tinham começado em 1966 com "Good Vibrations". A estrutura da canção era modular, com secções, quase como se fossem andamentos de uma sinfonia. O single recebeu críticas positivas e Pet Sounds começou a ser reavaliado. Trata-se de um álbum inteiro composto por segmentos intermutáveis que fluiam uns nos outros, com repetições de secções, criando uma obra coerente. Brian trabalhava com os tubarões de estúdio de Phil Spector, The Wrecking Crew, e escrevia letras com Van Dyke Parks, enquanto os Beach Boys estavam em digressão. As sessões de gravação eram longas, à medida que Brian se torna cada vez mais perfecionista e obcecado com o seu trabalho. Eventualmente, os Beach Boys regressam ao estúdio e juntam-se a ele, adicionando as partes vocais. A banda, compreensivelmente, não entende totalmente o que são "The Smile Sessions" e Mike Love, embora tenha participado, mostrou-se desconfortável com algumas referências a drogas e com a diferença em relação aos álbuns anteriores dos Beach Boys. Wilson, no entanto, está ciente de que nos bastidores dos Abbey Road Studios, um grupo igualmente obcecado, natural de Liverpool, está a fazer as suas próprias experiências com a música pop. (segue para aqui)

04 July 2025

"Good Vibrations" the Lost Studio Footage

(sequência daqui) A colaboração com Van Dyke Parks — um prodígio musical de 23 anos — trouxe letras fragmentárias e crípticas, que confundiram a banda e a editora. Brian compunha no piano de cauda instalado numa caixa de areia na sala de jantar da sua casa em Beverly Hills. Queria escrever "uma sinfonia adolescente para Deus". Mas a pressão aumentava e os problemas de saúde mental paralisaram o projeto, agravados quando, após o lançamento de Pet Sounds, os Beatles publicaram  Revolver, um álbum igualmente revolucionário que era como que uma resposta a Pet Sounds. O trauma ao ouvir "Strawberry Fields Forever" no rádio do carro, em Fevereiro de 1967, precipitou o colapso. A obsessiva rivalidade com os Beatles (porta-estandartes da "British Invasion" que muito exasperava Brian) e a incompreensão do mercado conduziram Brian Wilson, movido por uma natureza competitiva, à necessidade de criar uma nova resposta. (segue para aqui)

19 May 2022

(You Belong There - álbum integral aqui
 
(sequência daqui) E, referindo-se ao facto de grande parte do disco ter sido concebido nas atmosferas rurais do Norte do estado de Nova Iorque e de Santa Fe, no Novo México, acrescentava; “Não sou uma pessoa particularmente espiritual. Não sou religioso. Mas, definitivamente, sinto uma espécie de relação misteriosa com certos lugares. É o mais próximo que chego de uma experiência espiritual”. É, então, num registo de art/rock/folk – de Van Dyke Parks a Baden Powell, Robert Wyatt, Jim O’Rourke, Nick Drake, a clássica de câmara e o jazz – que estas 10 matrioscas sonoras meticulosamente orquestradas circulam, entre espirais de guitarra, arrebatamentos orquestrais e oceânicas massas corais, à esquina de um quase aforismo Zen: “Our work for work’s sake, we’re useless in our way, clear the brush and push the paint, nothing’s lost when there’s nothing there, whatever was and whatever will”.

01 March 2021

CAVALGADA CEGA
 

Dá muito jeito quando, no "press-release" de um álbum, se declara, preto no branco: “Inspirado por Van Dyke Parks (Song Cycle), Scott Walker (3 e 4), Moondog (Elpmas), White Noise (An Electric Storm) e Beach Boys (Smile)”. O que, aos especialmente catalogadores e arquivistas, poupa logo o esforço de procurar as coordenadas daquilo que irão, a seguir, ouvir. Excepto nos casos em que isso – a menos que se trate de maliciosa manobra de diversão – apenas poderá fazer algum sentido para quem o concebeu mas pouco ou nenhum em relação ao par de tímpanos que o irá escutar. 
 

 
Excerpts from Chapter 3: The Mind Runs a Net of Rabbit Paths, terceiro álbum dos holandeses Rats On Rafts, apesar do que anuncia, com os 3º e 4º volumes de Scott Walker não revela o menor parentesco, e de Moondog e dos Beach Boys, nem um rasto de pegadas. Quanto a Van Dyke Parks e aos vetustos pioneiros da electrónica, White Noise, se, de um, com boa vontade, poderá reconhecer-se o conceito de "song cycle", dos outros, só resta supôr que alguma informalidade e experimentalismo "noise" ter-se-ão derramado para aqui. Nada de grave. (daqui; segue para aqui)

02 December 2019

FUTURISMO DE ANTIQUÁRIO

  
Uma das melhores qualidades do maravilhoso e aleatoriamente promíscuo mundo "online", é a possibilidade de, andando em busca de uma coisa, se descobrir mil outras que nem sonhávamos existirem, por vezes, francamente mais interessantes do que o alvo de pesquisa original. Por exemplo, a propósito de Radum Calls, Radum Calls, de Sean O’Hagan, após a constatação do quase confidencial número de navegantes que acharam interessante prestar-lhe alguns segundos de atenção, tropeçarmos, no YouTube, numa extensa conversa por Skype, entre O’Hagan e Van Dyke Parks e, logo a seguir, saltitando de link em link, desenterrar das catacumbas da Net, a página de um ignoto Clay The Scribe que começa por explicar que soube da existência dos High Llamas através de uma entrevista com Pharrell Williams em que este nomeava como sua “favourite fellatio song”, "The Flower Called Nowhere", dos Stereolab (juntando os pontinhos para quem não esteja, imediatamente, a associar os nomes às pessoas: O’Hagan, ex-membro dos miseravelmente esquecidos Microdisney e fundador dos High Llamas, é também elemento volante dos Stereolab). 



E, aí mesmo, encontrarmos uma bem saborosa troca de ideias na qual Sean fala da necessidade que, nos anos 90, sentiu de criar música que não celebrasse apenas os Beach Boys mas também Ornette Coleman, Robert Wyatt, John Cale, Kevin Ayers, e o minimalismo de John Adams, da veneração por Villa Lobos, Rogério Duprat, Wally Scott (arranjador de Scott Walker) e Jean-Claude Vannier (orquestrador de Serge Gainsbourg), e do seu modus operandi composicional: primeiro, fragmentos rabiscados em cassetes, "minidiscs" ou iPads, depois, trabalho de estúdio sobre a ideia quase em bruto e, por fim, as vozes. Um utilíssimo "briefing" para o que iremos escutar no seu segundo álbum a solo desde há 29 anos: uma quase ofensiva superabundância de ideias e pistas de decifração que, traduzida para uma orquestra de câmara de sintetizadores analógicos, caixas de ritmos, orgãos Bontempi, cravo, clavas, sopros, a harpa de Serafina Steer e secções de cordas de finíssimo veludo, dá origem a uma espécie de amável futurismo de antiquário que tanto faz pensar nuns XTC de libré, como num Tom Jobim contratado pela Disney para substituir Henry Mancini na banda sonora de uma história serenamente psicadélica acerca de fantasmas nostálgicos dos anos de ouro de Covent Garden, lavadores de janelas de Nova Iorque e donzelas iranianas em fuga da revolução islâmica. E, sim, faz tudo sentido.

23 May 2018

TELA BARROCA


“To be on the cusp” significa “estar à beira de”, “prestes a”, “na iminência”. Ou, no caso de Alela Diane, nascida a 20 de Abril de 1983, o dia de transição – "cusp" – entre o Carneiro e o Touro do Zodíaco (não acreditamos mas é simpático que alguém tenha descrito esse dia como “a data em que nasce o amor físico, o início de todos os prazeres, o ponto no qual a energia se converte em matéria”). O que voltaria a acontecer com a sua segunda filha, Oona, vinda ao mundo a 20 de Fevereiro de 2017, "cusp" de Aquário e Peixes. Um parto difícil e prematuro que deixaria Alela “on the cusp of life and death”. Com mais ou menos tempero esotérico, a dose suficiente de coincidências e drama para não ser demasiado estranho ter atribuído o título Cusp ao seu quinto álbum a solo, ensaio intensamente poético sobre a experiência da maternidade, observada sob ângulos vários. 



Provavelmente, mais autobiográfica em "Threshold" (“Certain things cannot be explained even when you're on the other side, I'm standing in the threshold between two white rooms, in each I see a vision of something I hold true”), deliberadamente política em "Émigré" – inspirada na fotografia de Aylan Kurdi, o menino refugiado sírio afogado numa praia da Turquia –, com o arranjo de cordas a submergir literalmente as palavras (“I can feel the fear hang heavy on the water, glinting sharply with the pale moonlight, mothers hold on tightly to your children as the waves are breaking violently tonight”), evocando Sandy Denny – perturbadíssima mãe de uma bebé prematura mas autora e voz sobrenatural – em "Song For Sandy" (“A lady came from London town, her voice like water from a snowmelt stream, shared her songs in drunken rooms, never once sang out of tune”), Cusp é uma belíssima tela de folk requintadamente barroca que, aqui e ali, dir-se-ia ter tido a mão de Van Dyke Parks: escute-se a alucinada insolação de "Yellow Gold" (“Colors, colors, swallow me whole, weightless, brightness, abandoning fear, turbines spinning, indigo skies, mirages flicker on the endless desert road”) ou a impressionista beatitude intrauterina de "Buoyant" (“Buoyant in the water, swimming in the river, she was floating sweet within me, waiting on the other side”) e não se duvidará que, ao contrário do que Alela Diane supõe (ler entrevista), a folk actual está em muito melhor forma do que quando parecia "on the cusp" de voltar a conquistar o mundo.

17 March 2016

ORGIA

Imagine-se uma gigantesca orgia em que participariam os Talking Heads, Peter Gabriel (pré-"world music"), XTC, Prince, Squeeze, Van Dyke Parks, Robert Fripp, os Neptunes, Nile Rogers, Gang of Four e Prefab Sprout, organizada pelos irmãos Peter e David Brewis (aliás, Field Music). Eles desejariam ter também convidado Stravinsky, Thelonious Monk, Serge Gainsbourg, os Roxy Music, Beatles, The Left Banke e The Band mas, por motivos devidamente justificados, nenhum destes pôde comparecer. O programa obrigatório consistiria de uma rigorosa execução colectiva da totalidade das posições do Kama Sutra, acrescidas daquelas inúmeras variantes acrobáticas introduzidas pelo Divino Marquês. Os orgasmos, a acontecerem, porém, teriam de ser puramente cerebrais. Não em consequência de um pré-conceito tântrico ou taoista mas, sim, exclusivamente musical. Na ausência de confirmação ou desmentido oficiais, não será demasiado especulativo supor que, daí, teria resultado Commontime, registo da intrincada geometria sonora que tais coreografias haveriam de segregar.



Aparentemente e contra todas as probabilidades, tal estratégia destinar-se-ia a tornar o sexto álbum dos Brewises – publicado quatro anos após o imaculado Plumb - mais… err… acessível (“I am okay with the word ‘accessible’” diria o Brewis, David): em vez dos habituais labirintos rítmicos, a reconfortante vulgaridade do "common time" (o banalíssimo quaternário da silva); no lugar de uma variante civilizadamente contemporânea do prog, o pezinho erudito a fugir para a chinela pop. Deverá, então, dizer-se que, nessa exacta medida, Commontime é um glorioso fracasso. É verdade que, embora continuem a predominar os deleites do pescoço para cima, aqui e ali, vai-se sentindo, agora, também, qualquer coisinha funk da cintura para baixo. Mas, de um modo geral, é (felizmente) impossível dizer que os moços se esquivaram a incluir um solo razoavelmente atonal de sax na quase "crowd pleaser", "The Noisy Days Are Over”, que a arquitectura maniacamente detalhada de "Trouble At The Lights" é coisa para ser digerida de uma vez só, que os arranjos, simultaneamente económicos e expansivos do Crude Tarmac String Quartet são matéria óbvia ou que a pasmaceira metronómica tomou o poder. Era só que faltava.

22 June 2013

OMNÍVORO 


Aos 10 anos, ser convidado para o alpendre da casa de Albert Einstein, em Princeton, e – com ele ao violino e o infante dando uso às cordas vocais – ambos se entreterem a multiplicar a massa pela velocidade da luz ao quadrado, obtendo a suave energia musical de "Stille Nacht", não é coisa que deva ter acontecido a muita gente. Mas também não existirão muitas criaturas que, 60 anos após tal episódio, possuam um cartão de visita semelhante aquele onde se lê: “O Sr. Van Dyke Parks pede perdão pelo seu comportamento na noite de (inserir a data) e lamenta sinceramente qualquer prejuízo ou embaraço que possa ter causado”. O que até nem é, de todo, impossível quando reparamos que o afável cavalheiro com pinta de académico reformado não se ensaia nada para, numa entrevista, declarar: “Gosto da música de tipos brancos mortos. Gosto de música clássica. Gosto de música popular. Gosto de todos os géneros de música boa. No avião para cá, ouvi as valsas de Chopin todas. Para mim, bem melhor do que um fellatio. O que é dizer muito”



Pura verdade. Quero dizer, Van Dyke Parks gosta, de facto, do mais amplo leque de músicas. E isso nota-se bastante: desde aqueles com quem colaborou (U2, Frank Black, Laurie Anderson, Harry Nilsson, Phil Ochs, Ry Cooder, Tim Buckley, Randy Newman, Frank Zappa, e a lendária partilha da autoria de Smile, com Brian Wilson) à sua própria obra de que o tríptico inicial – Song Cycle, 1967, Discover America, 1972, Clang Of The Yankee Reaper, 1975 – foi reeditado o ano passado, o que sobressai é o perfil de um compositor versátil e avidamente omnívoro, tão à vontade com a tradição popular norte-americana (branca e negra), como com o modernismo orquestral dos Bernstein, Ives, Gershwin, ou do seu professor, Aaron Copland, que lhe explicou que “música americana é toda a que é escrita na América”.

  
Songs Cycled, o seu último álbum (apenas o sétimo, seguindo-se a Orange Crate Art, de 1995, assinado a meias com Brian Wilson), demonstra-o exuberantemente mais uma vez: como um pintor paisagista que, primeiro, se aplicasse a representar detalhadamente cada nervura de cada folha e, um por um, os grãos de pólen de cada estame, e só depois se preocupasse com questões de perspectiva, luz ou escala, Parks – operando num universo paralelo onde o rock’n’roll nunca existiu e Busby Berkeley é presidente dos EUA – pula agilmente de uma versão para "steel band" de "Aquarium" (do Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns) para um gospel e, daí, em gincana pelo meio de quartetos de cordas, banjos, acordeões e bissectrizes improváveis entre a Argentina e o Havai, fiel à sua convicção de que “a canção é a ferramenta política mais poderosa disponível”, dispara sobre "Wall Street" pós 9/11 (“There is nothing but ash in the air, confetti all covered in blood”) devidamente antecipada por "Money Is King" e "Black Gold" (alusão à maré negra do petroleiro Prestige, em 2003, primeira intervenção em defesa da lusa pátria da residente de Fátima, segundo Paulo Portas). É assaz previsível que, como os anteriores, irá passar despercebido. Nada de grave: “Quando Kennedy foi morto apercebi-me de que a fama pode ser muito incómoda. E o tempo deu-me razão”.

13 October 2012

DO PESCOÇO PARA CIMA
 

Grizzly Bear - Shields

Não será particularmente arguto mas também não é indesculpavelmente idiota estabelecer alguma distinção entre aqueles tipos de música que nos afectam, predominantemente, do pescoço para cima ou da cintura para baixo (deixemos, por agora, de lado aquela zona que o capitão Renault, de Casablanca, quando lhe apontavam uma arma ao peito, designava como “o meu ponto menos vulnerável”). Existe, evidentemente, a que consegue carregar-nos nos botões certos de ambas as áreas e não é impossível que seja a mais estimável, apesar de esta ser matéria acerca da qual convém manter dúvidas e incertezas. Mas, concentrando-nos nos Grizzly Bear, não se há-de arriscar muito ao declarar que, na sua música – pelo menos, desde Veckatimest (2009) –, o que mais seduz é a intrincada inteligência da arquitectura de cada peça que, laboriosamente, edificam. Qualquer coisa (em não tão grandioso, claro) como o devastador orgasmo mental que Andrew Wiles terá experimentado ao conseguir, por fim, demonstrar o último teorema de Fermat.



A proeza dos Bear é, essencialmente, a de (como, por exemplo, também sucede com os Field Music ou Dirty Projectors) terem sido capazes de estabelecer, para além de todas as dúvidas razoáveis de uma severa "peer review", que, na linha evolutiva da música do século XX, o prog-rock não desembocou, irremediavelmente, nem beco sem saída: sim, é possível recusar o juramento-de-sangue punk e não acabar a tocar os Brandeburgueses para banda rock com a Filarmónica de Swindon. Shields – admirável pop em ocasional modo Nietzsche-zen (“No wrong or right, just do whatever you like”), tapeçaria de distorção psicadélica em harmonioso matrimónio com sinfonismo "à la" Van Dyke Parks, enoismos incidentais e sofisticação harmónica jazzy – é apenas mais uma eloquente prova disso.

26 September 2012

FANTASIAS NA PERIFERIA


David Byrne & St. Vincent - Love This Giant



Jherek Bischoff - Composed

“Que tipo de condições deve verificar-se para que ocorra uma grande transformação musical ou reavaliação cultural como a que aconteceu em Nova Iorque no final dos anos 70, início de 80? Um aspecto importante é que a economia deva estar de gatas. Estamos quase lá, portanto, essa parte está mais ou menos resolvida. O outro aspecto é um pouco mais difícil: recuando um pouco na memória, recordo-me da sensação de, nessa altura, praticamente nenhuma da música pop comercial ter alguma relevância para mim ou para os meus amigos. Actualmente, continua a haver muitos nomes grandes que não me interessam a encher estádios mas, igualmente, bastantes outros músicos e bandas excitantes – como os Dirty Projectors, St. Vincent ou tUnE yArDs – que se fazem ouvir e sobrevivem bem melhor do que poderiam fazer há trinta anos”, dizia, no último número da “Uncut”, David Byrne, com Annie Clark/St. Vincent ao seu lado. E, justificando o título (“The Triumph of Art Rock”) do post de 5 de Maio de 2009, no seu blog, aquando da sua participação no álbum/concerto Dark Was The Night, acrescentou: “A ambição desta geração de músicos não é a de serem estrelas, destruírem aparelhos de televisão e andarem de limusina. O que os motiva (e a mim) é criar óptima música”



Quando o primeiro álbum dos Talking Heads foi publicado (1977) Annie Clark (28.09.82) ainda não tinha nascido. Mas, não apenas David Byrne tem toda a razão como se pode afirmar ainda que, de um modo muito particular, ele e St. Vincent são a cara e a coroa daquela moeda estética que se sente especialmente à vontade a injectar fantasias experimentais na periferia da pop e a virar do avesso formas e conceitos tradicionais sem, por isso, perder o pé naquele terreno que não tem horror à aprovação pública. E, desde que, nesse concerto de Dark Was The Night, se conheceram e, por extensão, se voltaram a encontrar durante a apresentação de Björk com os Dirty Projectors para uma iniciativa da Housing Works (uma organização civil de luta contra a Sida) onde foram convidados a colaborar também, o conceito de Love This Giant começou a emergir. Como na sua participação numa das conferências TED (“How architecture helped music evolve”) Byrne explicou – e desenvolve, agora, no recém publicado livro How Music Works –, o contexto físico decidiu de boa parte das opções: na livraria onde o duo actuaria, o espaço não abundava pelo que, por sugestão de St. Vincent, apenas eles os dois e uma secção de sopros deveriam chegar bem para as encomendas. Assim, o conceito “Beauty and the Beast” – mas ao contrário:  David seria a "Beauty" de plástico e Annie a "Beast" feroz –, fundido com a inspiração em Walt Whitman a quem o álbum tomou o título de empréstimo (‘I Should Watch TV’, em que Byrne, em modo antropológico, canta “I used to think I should watch TV, I used to think it was good for me, wanted to know what folks are thinking, to understand the land I live in”, está repleta de citações do poema "Song Of Myself"), num período de três anos e muita troca de emails com ficheiros sonoros, assentou estacas e cresceu.



Se o método adoptado foi o de “pensar a música como um enigma cuja forma teríamos de decifrar no processo de construção”, o resultado, como só acontece nos melhores casos, é algo que nem um nem outra, sozinhos, poderiam ter realizado. Lugar de viagem (“the song is a gift, a song is a road, a road is a face, a face is a time and a time is a place“) entre géneros, em vários sentidos, tanto passa pelos mesmos pontos por onde Byrne e a Dirty Dozen Brass Band caminharam em Music For The Knee Plays (1985) como se socorre de "hoquetus" medievais enquanto motivo decorativo de ansiedades (“my heart beating, still the perilous night, the bombs burtsting air but my hair is alright”, "The Forest Awakes"), serpenteia entre jazz, funk e vocabulário clássico ("I Am An Ape", "Outside Of Space And Time" ou "Ice Age") e, com inexcedíveis elegância e impertinência e a ocasional colaboração dos Dap Kings e Antibalas, coloca-nos um espelho à frente (“I am an ape, I stand and wait, a masterpiece, a hairy beast”, “I am a shaky ladder, intergalactic matter outside of space and time”) e, sem aviso, puxa-nos o tapete debaixo dos pés (“Tanks outside the bedroom window, we’ll be fine with the curtains closed”).



Composed, de Jherek Bischoff, é outra história bem sucedida de colaborações (também com a participação de Byrne), mas, aqui, de modo artesanal: esboçadas as canções em ukulele, Bischoff deslocou-se a casa de todos os instrumentistas que escutamos para que violinos, violoncelos et alia gravassem as respectivas partes tantas vezes quantas as necessárias até que, no final, soassem como uma orquestra. Repetição do processo para com as vozes (Carla Bozulich, Caetano Veloso, Mirah Zeitlyn, Dawn McCarthy, Byrne...) e palmas para esta singular variação contemporânea sobre o modelo Song Cycle, de Van Dyke Parks, em registo Phil Spector-meets-Danny Elfman.

12 September 2012

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (V)
(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem, depois, em "ver imagem", a seguir, usar a lupa)

11 September 2012

TECHNICOLOUR

É de esperar que a biografia de uma vida a abeirar-se dos 70 anos não seja curta. Mas, dificilmente, a de Van Dyke Parks pode ser integralmente esquadrinhada sem que amputações graves ocorram. Por isso, nada melhor do que remeter para as fontes de consulta obrigatória habituais e referir apenas os múltiplos ofícios de "singer-songwriter", produtor, arranjador, compositor (também para o cinema e televisão), escritor, actor... e não é impossível que algum outro tenha ficado esquecido.

Para que não haja escândalo, deverá acrescentar-se que o, por um instante, quase-Byrd (chegou a tocar em Fifth Dimension), durante minutos, quase Mother Of Invention (sob o nome de palco de “Pinocchio”) e "skinny kid with a unique perspective" que tinha uma "fondness for amphetamines” de que Brian Wilson fala na sua autobiografia, não apenas partilhou químicos com Wilson mas também as honras de co-autor do mais lendário "lost album" de sempre – Smile, dos Beach Boys, abortado em 1967, publicado por Brian Wilson em 2004 e, finalmente, reconstruído, a partir das matrizes originais, no ano passado – o que, praticamente, ofuscaria um CV no qual (em extensíssima lista) se descobre uma eloquente amostra da aristocracia pop/rock/folk com que colaborou, dos U2 a Frank Black, Laurie Anderson, Victoria Williams, Ry Cooder, Tim Buckley ou Saint Etienne até almas perdidas que se esforçou por salvar mas falhou gloriosamente como a Joanna Newsom de Ys.



Interessa, porém, agora, lançar a luz sobre a sua discografia a solo, cuja reedição em curso permite, antes de mais, redescobrir o extraordinário Song Cycle (1967), estreia tão fulgurante quanto comercialmente desastrosa, na qual, em amplo formato cinematográfico, projectava a sua visão da América: a de Gershwin, Copland, Randy Newman, Pynchon, Dylan, Disney e Rogers & Hammerstein mas, igualmente, a que, sobre o ombro, continuava a olhar para a Europa dos Beatles, Donovan, Mozart, Mahler ou Resnais.

 Luxuriantemente orquestral e psicadelicamente fracturada, suite erudita e colecção de variedades de "vaudeville" alimentada de "bruitage" e da rebuscada “acid alliteration” de que Mike Love se queixava em Smile, é uma daquelas obras que, sempre que escutada pela primeira vez (e algumas das muitas seguintes), suscita a tão desejável interrogação “Mas de onde é que isto veio?...” Ocupados com a descoberta das músicas de Trinidad e Tobago do início do século XX e do "calypso" em geral, Discover America (1972) e Clang Of The Yankee Reaper (1975), qual documentário musicalmente encenado, contam uma história paralela dos EUA, de Roosevelt a Bing Crosby, Edgar Hoover e Jack Palance, quase integralmente construída a partir de versões de clássicos locais, transfigurados pela visão technicolour de Van Dyke Parks.

07 September 2012

UM ESPAÇO PEQUENO COM GENTE ENORME


É uma vergonha. Mas foi preciso que, meia dúzia de dias após termos conversado telefonicamente, Van Dyke Parks me tivesse enviado um email a pedir imensa desculpa por se ter esquecido de me dizer quanto o tinha impressionado, em 1957, uma estátua de Vasco da Gama que vira em Lisboa, para que eu me apercebesse de que, sim, existe, em Lisboa, uma estátua dele. No Arco da Rua Augusta. À beira dos 70 anos, o homem que, com Brian Wilson, inventou o lendário Smile e vê, agora, o seu magnífico tríptico inicial reeditado (Song Cycle, 1967, Discover America, 1972, Clang Of The Yankee Reaper, 1975) sabe isso e muitíssimo mais e é o exacto tipo de interlocutor com quem apetece conversar pelas horas fora.

    Deve ser uma sensação bastante peculiar ver, ao fim de mais de quatro décadas, as suas primeiras gravações de novo publicadas...

    A primeira impressão é que, de súbito, me fez sentir muito velho. Agora, tenho cabelos brancos e estamos a falar de obras do tempo em que eles eram castanhos. Aos meus filhos, digo: há neve no telhado mas, cá dentro, o fogo continua a arder. Continuei sempre a trabalhar e acredito que o melhor ainda está para vir. Voltando ao que ficou para trás, tenho de dizer que ainda me espanta, parece-me bem executado e surpreende-me que esteja a ser reeditado porque sempre tenho vivido nos bastidores e retirado imenso prazer de trabalhar para outros músicos como arranjador. Mas tenho muito orgulho nos poucos discos que publiquei em nome próprio, na sensação de descoberta que neles existe, e vejo-os não como peças de museu mas como sinais claros de uma "street sensibility" e de um sentido de humanidade que não desapareceram.


    Diria que aquilo que pretendeu concretizar com Song Cycle estava no mesmo comprimento de onda do que, em Smile, com Brian Wilson e os Beach Boys, pouco antes, tinha experimentado?

    Não posso dizer que, conscientemente, tivesse pensado em alguma comparação ou continuidade: ambos exprimiam aquilo que eu era e os assuntos por que me interessava e qualquer semelhança – ou mesmo dissemelhança – seria totalmente acidental.

    Não estava a pensar em semelhanças mas na possibilidade de existir alguma atmosfera criativa da época partilhada por ambos os projectos...

    Não sei responder a isso. De um modo geral, o meu trabalho é completamente instintivo, nada racionalizado. Estilisticamente, surgiu com uma certa espontaneidade, nunca tive, sequer, tempo para pensar nisso.

    Deixe-me, então, reformular a pergunta: andarei demasiado longe da verdade se disser que o espírito que liga todos estes trabalhos é o que dá o título a um dos seus álbuns, Discover America?

    Acho que sim. Desde miúdo, ensinaram-me que a primeira regra da escrita é escrevermos sobre aquilo que conhecemos. Eu escrevia sobre aquilo que me era familiar. Em particular, sobre a experiência americana. É preciso recordar que, na época em que Song Cycle foi publicado, os Beatles eram a “Invencível Armada”, a força dominante na música. Todos desejavam ser musicalmente ingleses e não era popular ser americano. Na América, aconteciam motins raciais, lançavam-se bombas sobre o Vietname, ser americano era algo de indesejável, déclassé... e, no entanto, eu pretendia ir pela estrada menos utilizada, queria descobrir a América.



    Por outro lado, qual foi a sua sensação quando, tanto tempo depois, Brian Wilson publicou, finalmente Smile?

    Fiquei muito feliz porque a minha relação era, essencialmente, com ele, era um projecto altamente pessoal e foi maravilhoso podermos revisitá-lo e conclui-lo dado que havia ainda tecido conjuntivo no corpo da obra que necessitava de ser construído. Foram apenas necessários alguns dias, foi como voltar a andar de bicicleta depois de muitos anos sem o fazer. Mas isso é só aquilo que tem sido a realidade da minha vida, o prazer de fazer música, escrever textos, colaborar com outros, a verdadeira felicidade está aí. Sempre me senti muito distante tanto de cumprimentos como de insultos no que respeita à opinião que possam ter sobre o meu trabalho.

    Tanto é compositor como produtor, arranjador e letrista, já escreveu para o cinema e colaborou com gente tão diferente como Tim Buckley, Randy Newman, Laurie Anderson, Harry Nilsson, Fiona Aple, Phil Ochs... como faz para se exprimir através de veículos tão diferentes e com gente tão diversa?

    Pode dizer-se que é uma arena social bastante elástica. É preciso lidar com uma dinâmica muito ampla mas a regra de ouro, para mim, tem sido sempre procurar rodear-me dos maiores talentos que for capaz e tentar servi-los lealmente, procurando tirar partido do melhor que têm. E, ao fazê-lo, talvez consiga contribuir com algo e construir um corpo de trabalho significativo. É um desafio muito exigente, claro, trabalhar com outros e respeitá-los, quer esteja de acordo com eles ou não. Tanto como produtor, como enquanto compositor ou arranjador, acho que descobri formas para o fazer bem. Mas nunca me sinto preparado para isso, não é como se tivesse descoberto a fórmula mágica. É preciso ter confiança nesse processo.


    Falando de três daqueles que já não estão connosco – Tim Buckley, Harry Nilsson e Phil Ochs – como foi trabalhar com eles?

    Tinham os três uma coisa absolutamente idêntica: todos decidiram o seu próprio caminho, todos viveram sem perder de vista os seus princípios, sabiam distinguir o certo do errado. Talvez não soubessem para onde se dirigiam mas agiam de acordo com o que pensavam ser correcto. O Phil Ochs foi o homem mais honesto e incorrupto que alguma vez conheci na música. O Harry Nilsson, entretanto, foi o mais inteligente, era um génio, um génio matemático, e, ao mesmo tempo, uma imprevisível bola de fogo capaz de incendiar qualquer lugar onde entrasse. O Tim, com uma personalidade mais fechada, tinha uma visão muito clara. Mas eram todos completamente verdadeiros em relação a si mesmos, o género de pessoas com quem eu gosto de estar numa sala. Porque gravar um álbum é isso: estar dentro de um espaço pequeno com gente enorme.

    Li que, na sua relação com outros músicos, procura adoptar uma atitude reactiva perante aquilo que eles lhe sugerem. Enquanto compositor, no entanto, como passa a uma posição activa?

    Sinto-me autorizado a estar errado, preciso de gozar do direito a falhar. Há uma autoridade no insucesso, tal como existe uma autoridade no êxito. Repare na autoridade de um falhanço, por exemplo, Vincent Van Gogh: ninguém representa a autoridade do insucesso como esse pintor holandês. Vendeu um único quadro durante toda a vida e, contudo, emergiu como um pintor de imenso valor porque sabia desinquietar as pessoas e interrogar a forma como viam o mundo. Não que eu me tenha proposto fazer o mesmo mas a minha música também mexeu com quem a ouviu, ao ponto de alguns se irritarem e de isso me criar problemas com a crítica. É muito reactiva em relação ao tempo e aos acontecimentos que me formaram e não me envergonho disso. Quando compus Song Cycle tinha 24 anos e consigo ver os erros que cometi. Claro que gostava de ter tido uma vida economicamente desafogada mas esse tipo de preocupações nunca me ocorre quando estou a pensar em música.


    Quando, há pouco, falou do seu americanismo por oposição à invasão britânica dos anos 60, recordei-me de uma entrevista em que afirmou não se ter impressionado muito com o folk-rock mas sim com o folk, que Martin Carthy era o seu músico britânico favorito e que votava mais nos Steeleye Span do que nos Fairport Convention. O que, tendo estes sido o casulo de dois dos maiores "songwriters" – Richard Thompson e Sandy Denny –, me surpreendeu...

    Sem dúvida. Tanto a Sandy como o Richard ou o Martin representam uma continuidade. Parte da obrigação de um artista consiste em revelar uma compreensão histórica e, simultaneamente, mergulhar no futuro: há que manter o pára-brisas maior que o espelho retrovisor mas devemos preservar ambos. Há tesouros que devem ser estimados e descobrir uma forma de os fazer iluminar esta idade das trevas em que vivemos e que se chama Antropoceno: no meu tempo de vida, começou com o lançamento da primeira bomba atómica e é uma era mais negra da História humana do que, alguma vez, poderia ter imaginado, um momento em que a contribuição das artes tem de ser mais importante do que nunca. E eu quero fazer parte desse processo.

13 March 2012

31 DE FEVEREIRO



Lambchop - Mr. M

Bastava ouvir isto: “Took the Christmas lights off the front porch, February 31st”. O universo wagneriano (de Kurt Wagner) fica instantaneamente desenhado – coisas insignificantes, rotineiras, banais, mas que ocorrem num mundo paralelo onde Fevereiro tem 31 dias sem que tal chegue, sequer, a tornar-se assunto de conversa. E, mesmo que isso possa ser lido como uma obliquíssima alusão ao suicídio, em 25 de Dezembro de 2009, de Vic Chesnutt (amigo de Wagner e colaborador dos Lambchop, a quem Mr M é dedicado), é apenas mais uma peça solta no tabuleiro do grande puzzle para o qual não vale muito a pena tentar descobrir outro sentido que não o que uma palavra somada à anterior e aquela à seguinte, pela própria inexorabilidade do desenrolar de texto e música, irremediavelmente desenham. Mas talvez tudo fique um pouco mais claro se recuarmos até 2008, após a publicação de OH (Ohio).



A “art country orchestra symphonette” que, no início dos anos 90, começou por se chamar Posterchild e, enquanto Lambchop, tinha chegado ao décimo álbum de estúdio – com dois ou três clássicos no currículo (pelo menos, How I Quit Smoking, 1996, e Nixon, 2000) e deixando perplexa, pelo caminho, a tribo dos classificadores, incapaz de se decidir entre pós-country, funk-folk, pós-folk ou country de câmara –, parecia decidida a pôr um ponto final na trajectória, regressando Kurt Wagner à sua primeira paixão, a pintura. Cerca de um ano mais tarde, porém, coincidindo com a morte de Chesnutt, o produtor Mark Nevers – fã dos Ramones mas valete indispensável na corte dos Silver Jews, Calexico e Bonnie "Prince" Billy – desafia-o para cúmplice de uma conspiração musical, sob o nome de código “Psycho-Sinatra”: inspirado pela escuta de September of My Years (LP de Frank Sinatra de 1965) e pela sofisticação dos arranjos de Gordon Jenkins, o plano era enviar canções de Kurt Wagner a orquestradores externos (Peter Stopschinski e Mason Neely), tratando Nevers de, a seguir, desmontar e recompor as partituras, fazendo uso de cada fragmento como se de um instrumento solista se tratasse.



No papel, parece mais bizarro do que, finalmente concretizado, acabou por ser. Qual discípulo de Raymond Carver determinado em conduzir o minimalismo às últimas consequências através de uma espécie de "cut-up" impressionista, Wagner alinha frases esquartejadas e observações sobre o trabalho de composição (“Grandpa’s coughing in the kitchen but the strings sound good, maybe add some flutes” ou “A sentence past is paraphrased and you pick up trash in the rain, beside the motor-way”) enquanto, à sua volta, a orquestra, entretida consigo mesma, desenha espirais. Antes disso, aguardara serenamente que cascatas disneyanas de cordas acabassem de se precipitar para lançar um “Don’t know what the fuck they talk about, maybe blowing kisses, and what difference does it make?”, para, depois, permitir que "Gone Tomorrow", aparentemente concluída, se dissolvesse num oceano sinfónico do “deconstructed freaky sound of the Sinatra era“. E, à vez, fantasia-se de Randy Newman, David Berman, Nat King Cole ou Mark Eitzel, imagina-se Stuart Staples pela mão de Van Dyke Parks soltando, aqui, “We have crawled among the elements, taking pictures with our phones”, ali, “The wine tasted like sunshine in a basement” e, mais à frente, ausenta-se e entrega o palco ao fantasma de Chopin que, a quatro mãos com Sérgio Mendes, inventa um sonho zen nos caldeirões do Inferno. Nada que não seja comum e previsível em qualquer 31 de Fevereiro habitual.

(2012)

29 November 2010

A HERANÇA E OS HERDEIROS


















Magic Kids - Memphis



















All Delighted People - Sufjan Stevens

No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.



Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.



Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.

(2010)

13 July 2010

DOS MÁRTIRES CAÍDOS



Roky Erickson & Okkervil River - True Love Cast Out All Evil

É um pouco da própria natureza da pop a veneração romântica e quase cega pelos mártires caídos na grande guerra das drogas e do desequilíbrio mental. Quaisquer que fossem os seus respectivos méritos, todo o hipotético retorno dos abismos de Syd Barrett, Daniel Johnston, Brian Wilson ou Roky Erickson seria, invariavelmente, saudado como algo semelhante ao que a segunda vinda de Cristo representa para os cristãos. Barrett teve a sorte de nos deixar apenas aquilo que gravou e nada mais, Johnston encarnou a equivocada figura de uma espécie de idiota divino para a sua corte de seguidores e Wilson, no melhor dos seus atribulados "come-backs" (a exumação de Smile), beneficiou do devotado labor de reconstituição "histórica" de Darian Sahanaja, dos Wondermints, e do fidelíssimo Van Dyke Parks. Roky Erickson, o lendário demente, fundador dos 13th Floor Elevators, pioneiros do primeiro psicadelismo americano, estava, evidentemente, na fila de espera, para o túnel da redenção.



E, após anos de internamento em hospitais psiquiátricos e cadeias, massacrado por terapias de electrochoques, conduzido a autoidentificar-se (com registo notarial e tudo) como "alien" abandonado na Terra, e encerrado num universo interior de que apenas conseguia libertar-se colocando em volume máximo diversos televisores em simultâneo para calar "as vozes" que lhe uivavam dentro da cabeça, coube a Will Sheff, dos Okkervil River, trazê-lo de volta ao mundo. Retrabalhando doze canções (de um total de sessenta) compostas por Erickson nos últimos quarenta anos, procura desenhar uma quase sua biografia, incluindo gravações artesanais dos tempos de encarceramento e diversificando estilisticamente – do "garage" incendiário, ao country-rock, ao classicismo byrdsiano – o "songbook" de Erickson. A interrogação que fica, porém, é: trata-se, de facto, de um álbum de Roky Erickson, ou de um outro, de Will Sheff, sobre o reportório de Erickson, a que este apenas emprestou a voz?

(2010)