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06 April 2023

"Veri" (feat. Paleface)

(sequência daqui) Enquanto Ensemble Gamut! entregaram-se, pois, à articulação de instrumentos clássicos, tradicionais e electrónicos aplicados à invenção de intersecções entre música medieval, do Renascimento, folk, improvisada e abstraccionismos ambientais. O álbum de estreia, UT (2020), invocava a primeira nota da escala guidoniana, mais tarde substituída pelo “Dó”, e alargava o espectro a referências extra-nórdicas – Hildegard von Bingen, Martin Codax, Landini, Ockeghem. Agora, o segundo, apropriadamente RE, dirige o alcance sonoro da voz de Aino Peltomaa (e, em ‘Veri’, do rapper xamânico Paleface) e dos "soittu", "jouhikkos", "G-violone", flautas de bisel, harpa e electrónica de Heinonen e Myllylä, sobre reportório oriundo de manuscitos medievais, da tradição finlandesa, das contaminações sueca e russa e do canto rúnico da Karelia. Puríssima folia dançante em "Lapsed Caicki Laolacatt (Personent Hodie)", levitação quase imóvel em "Trina Caeli Hierarchia" ou realidade fantasmática no original "Puu", desde os Hedningarna e Värttinä que as luzes do Norte não brilhavam tão intensas.

07 November 2008

MUDAR O MUNDO? *



Hector Zazou - Songs From The Cold Seas

"Se a música não serve para mudar o mundo, então serve para quê?" é a interrogação que coloca Hector Zazou no momento em que, após uma série de publicações, se aventura à transmutação das tradições dos mares gelados, ao mesmo tempo que trabalha numa nova instrumentação da Arte da Fuga, de Bach. Podíamos passar a pergunta a Laurie Anderson e ouvi-la responder que "a função da arte não é fazer do mundo um lugar mais justo mas apenas um lugar mais maravilhoso". O que, se não transforma radicalmente os termos do problema, pelo menos, desloca o centro de gravidade da ética para a estética. E, nessa circunstância, ajuda um pouco a responder ao que Zazou sugere: mesmo que não tendo outra utilidade (Oscar Wilde, recorde-se, ia bastante mais longe: "All art is quite useless"), contribui para determinar a visão que construímos do mundo. Isto é, a sua representação individual e subjectiva, em última análise, virtual.


Värttinä - "Emoni Ennen"

Assentemos os pés no chão: quantos cidadãos do planeta podem verdadeiramente afirmar que conhecem em profundidade a vida e a cultura da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia, da ilha de Hokaido? Certamente, demasiado poucos para constituir sequer uma minoria significativa. Mas todos os que, de agora em diante, escutarem Songs From The Cold Seas passarão a ser capazes de imaginar uma atmosfera de sons e ambientes que circularão pelas vozes e instrumentos de Björk, Siouxsie, John Cale, as Värttinä, Jane Siberry, Suzanne Vega, Barbara Gogan, Balanescu Quartet e Harold Budd. De uns, sabemos quase tudo. Dos outros (e há muitos mais) aprenderemos que Lena Willemark é uma das maiores cantoras tradicionais suecas, que a gronelandesa Marina Schmidt se inspira em Bob Dylan e nos xâmanes de Tulé, que Lioudmila Khandi é uma voz espectral do norte da Sibéria, que Elisha Kilabouk e Koomook Nooveya praticam os cantos Inuit do Grande Norte canadiano, que Tokiko Kato interpreta canções da minoria ainu de Hokaido como uma Juliette Greco do Sol Nascente ou que Vimme Saari é um notável representante das melopeias "joiking", da Lapónia. Porque, de facto, nesta sua visão pessoal das canções dos mares frios, Hector Zazou repetiu o procedimento que, nas Nouvelles Polyphonies Corses e em Sahara Blue, tinha utilizado: recolher um determinado material "em bruto" e propô-lo como pretexto para a colaboração com uma infinidade de músicos das mais diversas origens. A saber, todos os anteriores e ainda Marc Ribot, B.J. Cole, Mark Isham, Renault Pion, Budgie (Banshees), Brendan Perry (Dead Can Dance), Sara Lee (ex-Gang Of Four), Catherine-Ann McPhee, Jerry Marotta, Lightwave, as Angelyn Titot e outros demasiado numerosos para referir exaustivamente.


Värttinä - "Yötulet"

Como surge, então, este cenário que supomos árido e glacial traduzido para a linguagem sonora contemporânea? A pergunta quase contém a resposta: se existem discos onde a intemporalidade e a mais absoluta modernidade se cruzam em perfeitíssimo exercício de geometria, Songs From The Cold Seas é, decerto, um deles. Poderia ser dissecado faixa por faixa mas o tríptico de abertura é suficiente para lhe identificar a direcção e o sentido: "Annukka Suaren Neito", com a energia vocal das Värttinä sobre um fervilhante tapete rítmico de electrónica e percussões (Budgie, Brendan Perry e as Angelyn Titot), a espessa distorção das guitarras e o grito do trompete de Mark Isham, cede, insensivelmente, o lugar a "Visur Vatnsenda-Rosu" onde a voz de Björk flutua liberta da gravidade, à superfície de uma imóvel melodia infinita, mergulhada na ondulação dos teclados de Zazou e do clarinete de Renault Pion. Em contraste, a seguir, "The Long Voyage - com música de Zazou e texto retirado do poema "Silhouettes", de Oscar Wilde -, apresenta-se como uma reafirmação do rumo da trajectória nas vozes de Suzanne Vega e John Cale, em plena ebulição rítmica no interior de um sonho: "Ocean is a voyage, a long, long voyage, going up, up, up". É o sinal para o prosseguimento desta expedição estética que se concluirá com uma ofegante "Song Of The Water" canadiana, depois do Balanescu Quartet se ter enleado nas cordas de um koto japonês sob a acrobacia do "yodel" de Lioudmila Khandi, de Catherine-Ann McPhee ter voado sob o piano imponderável de Harold Budd e de Siouxsie ter recitado palavras de Wilford Gibson enxertadas no tecido de um canto xamânico. E é também a revelação de um novo mundo definitivamente transfigurado a partir da sua matéria sonora, sempre disponível para todas as mutações.

* (não faço a menor ideia qual o motivo porque, em 1995, escrevi três textos acerca de Songs From The Cold Seas; como o anterior nem era particularmente brilhante, repesco, agora, este - poupo-vos ao terceiro)

(1995)

12 September 2008

LUGARES DE FICÇÃO



Hector Zazou/Vários - Chansons des Mers Froides
/Songs From The Cold Seas

Em Chansons des Mers Froides, penetramos noutra realidade. Aquela que Hector Zazou (depois das Nouvelles Polyphonies Corses e Sahara Blue) "filmou" para um disco em que as tradições musicais da Sibéria, do Alasca, da Gronelândia, da Islândia, das Ilhas Hébridas, da Suécia, da Finlândia e da ilha japonesa de Hokaido propõem uma visão de outro mundo onde as vozes tradicionais de Lioudmila Khandi, Elisha Kilabuk, Värttinä, Catherine-Ann McPhee, Lena Willemark ou Tokiko Kato se equivalem às de Björk, Siouxsie Sioux, Suzanne Vega e Barbara Gogan ou às contribuições de John Cale, Harold Budd ou do Balanescu Quartet.



Com concepção gráfica de Russell Mills (revejam-no ao lado de Brian Eno ou David Sylvian), num conjunto de doze postais - um para cada tema - incluindo fotografias de Philippe Romeo e textos de Zazou, sejam bem-vindos a um universo glacial, lugar de ficção e ilusão, no qual gelo e neve se transformam numa boa definição do paraíso na terra.

(1995)

09 December 2007

OUTRA ILUMINAÇÃO



Sigur Rós - Heima




Sigur Rós - Hvarf-Heim

Num ponto incerto da primeira metade da década de noventa do século passado – por comodidade, simplifiquemos bastante considerando que começámos a reparar nisso quando Björk, em 1993, publicou Debut –, a música do extremo Norte da Europa iniciou um gradual e quase ininterrupto processo de afirmação no exterior das suas fronteiras nacionais. Havia, é verdade, o longínquo precedente dos ABBA (e de mais uns quantos outros praticantes menores), mas esta “segunda vaga” optou antes por desbravar território habitualmente assinalado como “indie” e zonas afins. De facto, não existia nenhum motivo plausível para que aquela que é, muito provavelmente, a zona civilizacionalmente mais avançada do planeta não fosse capaz de gerar música dotada de uma identidade própria mas, ao mesmo tempo, totalmente em sintonia com o ar dos tempos. Foi, por isso, inteiramente natural que, dos Hedningarna às Värttinä, dos Gus Gus a Anja Garbarek, Jimi Tenor, Ai Phoenix, Stina Nordenstam, Jens Lekman, Hanne Hukkelberg, Kings Of Convenience, Jagga Jazzist, Múm, Irene, Sondre Lerche, Röyksopp, Benni Hemm Hemm e mais uns (consideráveis) quantos, a Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia – a Dinamarca mantem-se conspícua e misteriosamente ausente – tivessem começado a hastear bandeiras em domínios anteriormente sob quase total hegemonia anglo-americana. Bastante mais interessante, no entanto é que, de um modo geral, praticamente todos eles (independentemente da avaliação dos resultados) se furtassem deliberadamente à tendência “copy+paste” dominante e procurassem sublinhar traços de personalidade autónomos. Era exactamente a isso que se referia Georg Holm, baixista dos islandeses Sigur Rós, quando, por altura da edição de Agætis Byrjun (1999), afirmava “O que me deixa perplexo quando desembarco em Inglaterra, é até que ponto a música é urbana, frustrada, sem alegria. Nunca tem o ar de gastar um minuto a reflectir ou de oferecer qualquer matéria para reflexão”. E propunha um programa: "Apagar o quadro onde se distribuem todas as etiquetas musicais e deixar apenas um grande espaço em branco onde só se possa ler 'música'".



Quase uma década depois, ninguém duvidará que o objectivo foi atingido, embora as opiniões se possam dividir entre quem vê nos Sigur Rós apenas uma declinação da “new age” em variante “indie rock” escandinavo (e o apetite devorador com que inúmeros documentários, séries televisivas e filmes se lançaram sobre a música do grupo sempre que se tratou de retratar a “transcendência”, o “insondável maravilhoso” e a “imensidão” são, acerca disso, eloquentes) e quem os encara como a mais sublime oferenda dos deuses aos humanos desde os Pink Floyd.



Heima (duplo DVD) e Hvarf-Heim (duplo CD) não servirão para pôr fim ao debate mas, introduzem, pelo menos, alguns dados novos: concretizados no intervalo entre o final da digressão mundial que se seguiu a Takk (2005) e a pausa para reflexão pré-novo álbum, num recolhem-se as imagens de uma curta volta de concertos gratuitos pela Islândia (em modelo-filme-propriamente-dito e sob a forma de documentário) e, no outro, uma colecção de temas inéditos, versões alternativas e revisões acústicas de peças já conhecidas da banda. Se, no(s) filme(s), a assombrosa “coincidência” entre imagens e música (e a Islândia oferece o género de paisagem onde o director de fotografia mais sapateiro se transforma instantaneamente em inspiradíssimo poeta telúrico e toda a avalanche de preconceitos sobre a natureza “vulcânica” e “glaciar” da música dos Sigur Rós encontra a previsível confirmação) e a calorosa convivialidade dos concertos – ao ar livre, em centros sociais e paroquiais, fábricas de conservas desactivadas, minúsculas igrejas, perante as várias gerações de famílias das reduzidas populacões locais ou no confronto com “cromos” indígenas – são, à partida, apostas esmagadoramente ganhas, é, porém, nas releituras via vibrafone, pianos de brinquedo, marimbas de lousa, ensemble de cordas, harmónios de fole e banda de sopros em trânsito do palco para a rua (saúde-se aqui a porosidade entre filme e registo áudio), contra a formulaica estética eléctrica “fogo e gelo” de espirais “orgásmicas” em crescendo/diminuendo, que alguma “food for thought” desponta. E isso é bom e, se calhar, muito inesperadamente iluminador. (2007)