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31 March 2023


 
(sequência daqui) Poderá, sem dúvida, permanecer. Ninguém venha, contudo, iludido com a expectativa de que aqui será possível voltar aos grandes picos musicais de Boy (1980), Achtung Baby (1991) ou Zooropa (1993). Como, a propósito de All That You Can't Leave Behind (2008), Simon Reynolds escrevia, “É impossível imaginar que podemos voltar a ser virgens”. E, por muito que se procure reconfigurar os estentóricos hinos de estádio sob a forma de delicadas baladas, quase "lullabyes", instrumentalmente rendilhadas e despojadas – o que se, em "Pride (In The Name Of Love)", por exemplo, transfigura verdadeiramente a canção, em "One" ou "With Or Without You", as deslassa irremediavelmente – aquilo que, maioritariamente, resulta é tão só o que poderia perfeitamente ter cumprido a sua missão como lados-B, "bonus tracks" ou, vá lá, um único álbum de curiosidades para fãs incondicionais. Em versão quádrupla, talvez nem estes tenham estômago para tão pesada refeição.

28 March 2023

 
(sequência daqui) No que respeita a Songs Of Surrender, também nem tudo é coerente. Concebido como guia de audição complementar da leitura da autobiografia de Bono – 40 faixas do reportório da banda revistas em modo quase-"unplugged" para outros tantos capítulos do livro –, na verdade, apenas 28 canções são comuns a livro e disco mas, à excepção de October (1981), No Line On the Horizon (2009), e Original Soundtracks 1 (1995), toda a discografia dos U2 está representada. Num dos capítulos do livro, Bono conta que “Durante o confinamento, tivemos oportunidade para reimaginar cerca de 40 canções o que me permitiu viver no interior delas enquanto escrevia estas memórias. E também me possibilitou lidar com uma coisa que me irritava há muito: os textos de algumas delas nunca me pareceram verdadeiramente acabados”. Dave “The Edge” Evans, o "guitar hero" que não queria ter nada a ver com "guitar heroes" e preferia Tom Verlaine, Keith Levene (PIL) e John McKay (Siouxsie & the Banshees) acrescenta: “Tínhamos curiosidade de saber como seria transportar as nossas canções antigas para o presente e dar-lhes o benefício de uma reconfiguração do século XXI. O que começou como uma experiência rapidamente se transformou numa obsessão pessoal. A intimidade substituiu a urgência pós-punk. Assim que abdicámos da reverência pelas versões originais, cada canção abriu-se a uma autêntica voz deste tempo e das pessoas que somos agora. Algumas cresceram connosco. Outras deixámo-las para trás. Uma grande canção é indestrutível. Mas a essência de todas elas permanece connosco”. (segue para aqui)

23 March 2023

 

(sequência daqui) E não foram poucos os equívocos e controvérsias, quase todos com origem na, dir-se-ia, dupla personalidade de Bono: por um lado, magnânimo defensor de todas as causas justas do momento, brandidas em mediáticos encontros com os todo-poderosos do planeta; por outro, a deslocalização da empresa-U2 para a fiscalmente mais acolhedora Holanda (ainda que a autoridade tributária irlandesa não seja particularmente gananciosa...) o que lhe valeu ser objecto de sarcasmo em manifestações da Debt and Development Coalition Ireland nas quais, sobre a melodia de "I Still Haven’t Found What I’m Looking For", se cantava “I know avoiding tax ain’t fair, it’s just because I’m a millionaire, I don’t need to pay like you, no, I won’t pay like you, ‘cause I still will not pay to end poverty”. Ou o momento de sinergia empresarial glorificada com a Apple, quando, a 9 de Setembro de 2014, a totalidade de Songs Of Innocence foi compulsivamente descarregada em todas as contas de iTunes e 100 milhões de dólares (um bombonzinho da Apple, segundo o “Wall Street Journal”) aterravam no cofre do quarteto de.Dublin. E, também inesquecível por caricatural, o surto de empatia galopante com Lisboa e a cultura portuguesa no momento em que, no Twitter, em Setembro de 2018, entre concertos, agradeciam, embevecidos, à capital lusa o acolhimento que lhes oferecera: “Abençoada Lisboa, cidade que nos deu Ronaldo, Eusebio, Fernando Passoa, Antonio Guterres e Jose Saramango" (quatro erros de ortografia em cinco nomes e apenas dois alfacinhas reais). Delicadamente, ninguém lhes terá retorquido que, com Beckett, Wilde, Swift, Joyce e Yeats, Londres (ou será Edimburgo?) também não está nada mal servida. (segue para aqui)

20 March 2023

REFEIÇÃO PESADA

Bono não é, nem muito remotamente, Bob Dylan. Nem sequer Elvis Costello, Bruce Springsteen ou até Morrissey. Mas, se o Nobel da Literatura de 2016 publicou as óptimas Chronicles Volume One (2004) – e, no ano passado, The Philosophy Of Modern Song –, e os outros se autobiografaram em Unfaithful Music & Disappearing Ink (2015), Born To Run (2016) e Autobiography (2013), o moço de Dublin também conhecido como Paul Hewson nunca se perdoaria se não adicionasse o nome à lista da elite pop/rock com ambições literárias. A sua contribuição intitula-se Surrender: 40 Songs, One Story e, conta quem a leu, nas cerca de 600 páginas, detalham-se todos os incidentes e polémicas que ocorreram desde o momento em que, há 46 anos, Larry Mullen colocou no placard de mensagens da Mount Temple Comprehensive School de Dublin um anúncio no qual escrevinhara “Baterista procura músicos para formar uma banda” e, daí, germinariam os Feedback, depois Hype, e, enfim, na Primavera de 1978, os U2. (daqui; segue para aqui)

"Pride (In The Name Of Love)"

16 March 2023

Sair de um armário 
bem ridículo e palerma
(claro que os ABBA eram óptimos!)

12 February 2020

"Women of The World" (Ivor Cutler)

Jim O'Rourke

The Salt Flats

Ivor Cutler & Linda Hirst


(ver aqui)

02 July 2016

O Henrique Raposo já tinha realizado o ensaio geral para Jorge Coelho da equipa de júniores. É o lado "quando diz tolices" dele. Chegou, agora, o momento da publicação do magnum opus (7 páginas), "Aleluia! Ou o rock enquanto fé", na edição de hoje, em papel, da revista "E"/"Expresso". A intenção é comunicar-nos que descobriu a pólvora: o rock (Arcade Fire, Bruce Springsteen, Johnny Cash, Nick Cave, U2) está encharcadinho de Bíblia e cristianismo, meio expedito para fazer pirraça ao contingente "laico, cool, ateu e hipster", agremiação informal que, de forma inovadora, também identificou e que não aprecia por aí além. Após este retumbante escândalo teológico (os U2, pá, quem diria?...), aguardam-se com incontrolável expectativa os capítulos seguintes nos quais, investigando de igual modo o cinema, a literatura e a arte, nos fará, outra vez, tremer o chão debaixo dos pés para maior glória do Grande Fantasma Cósmico.

Guarde-se para sempre na memória um genial naco de "insight" musicológico: "há ali a sinceridade do violino e do tambor em cima do cinismo da guitarra eléctrica". Anote-se ainda que Funeral (Arcade Fire) "é um pequeno tratado cristão que servirá para as minhas filhas compreenderem o centro da sua fé" e que "'Wake Up' funciona cá em casa como confessionário". Era bem feito que as miúdas acabassem fãs de "death metal".

Citação complementar (e indesculpavelmente esquecida):"Estamos a falar de pessoas que ficam chocadas quando afirmo sem ironias que vou dar a catequese âs minhas filhas através dos álbuns dos Arcade Fire" (a ausência de vírgulas é da responsabilidade do autor).

24 September 2015

9/11


Em treze anos, nunca tinha acontecido: na sexta-feira de há duas semanas, a primeira página do “New York Times” não incluía uma única referência aos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001. Inevitavelmente, o jornal detentor de 117 prémios Pulitzer e que, no cabeçalho, ostenta o lema “All the news that's fit to print” (Phil Ochs intitularia o seu álbum de estreia, em 1964, All The News That’s Fit To Sing), foi, de imediato, acusado pela direita republicana de, por omissão, ofender a memória das vítimas do dia em que a história do século XXI começou. Observando a efeméride sob ângulo diferente, o precioso blog “Dangerous Minds” optou por recordar a lista de 165 canções que o Clear Channel (hoje, iHeartMedia, Inc., proprietário da maior rede norte-americana de rádio), pouco depois do 9/11, recomendou – não terá sido, realmente, censura – que os DJ das suas 1200 estações fizessem o favor de esquecer por uns tempos.

Leonard Cohen - "On That Day"

Relida hoje, se há exemplos de alusões obviamente sensíveis na atmosfera tensa desses dias – é o caso, entre muitas, das sete dos AC/DC (indiscutíveis “vencedores” em número de temas proscritos), de "It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)", dos R.E.M., e "Sunday, Bloody Sunday", dos U2 (apesar de 11.09.2001 ter sido uma terça-feira) – outras há que fazem recordar a incineração pela ditadura de Pinochet de textos sobre arte cubista, coisa evidentemente oriunda... de Cuba: "Ruby Tuesday", dos Stones (escrita sobre uma "groupie" da banda), "We Gotta Get Out Of This Place", dos Animals (puro espécime de neo-realismo rock’n’roll), "Walk Like an Egyptian", das Bangles (exercício de ironia acerca do andar desequilibrado dos passageiros de um "ferry"), ou "Ob-La-Di, Ob-La-Da", dos Beatles (???). Francamente inexplicável, porém, é "Burning Down The House", dos Talking Heads, ter sido excluída mas a bem mais explícita "Listening Wind", também dos Heads (“Mojique buys equipment in the market place, Mojique plants devices in the free trade zone, he feels the wind is lifting up his people, he calls the wind to guide him on his mission”), e, sobretudo, a arrepiante "Oh Superman", de Laurie Anderson (“Here come the planes, they're american planes, made in America. (…) Neither snow nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”), haverem conseguido furtar-se aos radares.

15 January 2015

77, HOJE


“Nós acreditámos no punk. Nós vivemo-lo. Continuamos ainda a vivê-lo!”, declara à “Mojo”, fremente de espírito revolucionário no casino de Monte Carlo, o líder daquela banda que, há meses, num arranjinho com a Apple, alojou compulsivamente o último álbum em todas as contas do iTunes. Por sinal, o mesmo Bono, dos U2, que prefere pagar impostos na fiscalmente acolhedora Holanda em vez da (nem por isso demasiado voraz) Irlanda natal – o que, em manifestações de protesto da Debt and Development Coalition Ireland, lhe permitiu escutar uma versão alternativa de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”: “I know avoiding tax ain’t fair, it’s just because I’m a millionaire, (...) ‘cause I still will not pay to end poverty” – mas, há semanas, em homilia aos fiéis, pregou que “o capitalismo é uma máquina cega e a nossa obrigação é garantir que proporcione o progresso de todos e não apenas daqueles que estão aos comandos”. Três parágrafos antes, na peça da “Mojo”, lamentava o desaparecimento precoce dos Clash que teriam sucumbido à pressão “de serem politicamente correctos num grau insustentável”.


Esperemos, então, que, para refrescar a memória acerca desses anos, não tenha perdido a oportunidade de ver The Clash New Year's Day '77, exibido pela BBC4 no passado dia 1 (mas ele já anda por aí, no YouTube). Realizado por Julien Temple, combina material recolhido quando ainda aluno da National Film School com imagens de televisão que documentam o ano de 76, aquele em que o Reino Unido se viu intervencionado pelo FMI, o caldo de cultura em que germinaria o thatcherismo começava a ferver... e o punk explodiu. Em Abril de 77, o grupo do filho do diplomata Ronald Mellor (John Graham Mellor, aliás, Joe Strummer), publicaria o álbum de estreia mas, naquela altura, preparava-se para o concerto de Ano Novo no Roxy Club que, durante 100 dias, seria o epicentro da insurreição. O mundo mudou muito mas como soam terrivelmente actuais “Career opportunities are the ones that never knock” ou "All the power's in the hands of people rich enough to buy it, while we walk the street too chicken to even try it (…) Are you taking over or are you taking orders? Are you going backwards or are you going forwards?"!...

03 January 2015

É comovente ler, com preâmbulo de "ass kissing" ao CEO da Vaticano S.A., "capitalism is not immoral, but it is amoral. It gets its instructions from us. It's an indiscriminate engine, and our obligation is to see that it provides forward movement to everyone, not just to those whose hands are on the levers of the machine" (em "D is for Davos"), assinado por um santo homem irlandês que prefere pagar impostos na Holanda porque fica mais em conta 

"Our money bounces like a rubber ball
Oh the sweetest thing
You wont’ get us when the income tax calls
Oh the sweetest thing
Ireland’s got grey skies up ahead
But in this we’re ahead of the crowd
Ours is tax efficient kind of love
Oh it’s the sweetest thing
Whose losing, you
You working few
Ain't cash the sweetest thing" 
(aqui)

09 October 2014

COM UM DEDO NO DIQUE


Os alertas vermelhos já tinham disparado há muito mas foi no MIDEM (Marché International du Disque et de l'Édition Musicale) de Janeiro de 2007 que algumas profecias apocalípticas acerca do fim da indústria musical começaram a desenhar-se com nitidez. Chris Anderson, editor da “Wired”, previa que “os direitos sobre a música estavam condenados a desaparecer, as editoras convencionais também e os músicos (sobre)viveriam, sobretudo, de concertos e encomendas”. Jacques Attali garantia que “no futuro, toda a música será gratuita e a indústria terá de inventar novas formas de ganhar dinheiro” e Stéphan Bourdoiseau, patrão da Wagram, proclamava: “O mundo antigo está em ruínas, mas será necessário esperar 15 anos para ver o mundo novo. Entretanto, teremos perecido”. Apenas nove meses depois, a 10 de Outubro, os Radiohead protagonizariam aquilo que o “Sunday Times”, três dias antes, qualificara como “The day the music industry died”: In Rainbows (ansiosamente aguardado pelos fãs durante quatro anos, após Hail To The Thief), ficava acessível para “download” na página da banda na Internet, “ao preço que cada um quiser pagar”



Estamos ainda a meio do prazo de 15 anos calculado por Bourdoiseau, continuamos todos por cá, mas sucedem-se as variações sobre o tema do menino holandês que evitou uma catástrofe, tapando com um dedo, durante uma noite, o buraco de um dique. Mal tínhamos digerido o matrimónio Apple-U2, e é, de novo, com origem nos Radiohead que outro safanão acontece: na sexta-feira 26 de Setembro, Thom Yorke, recorrendo a uma das mais temíveis escunas pirata em actividade, o BitTorrent, colocou à venda por 4.73€ o seu segundo álbum a solo, Tomorrow’s Modern Boxes. O grande plano é “dispensar os intermediários, devolvendo o controlo do comércio na Internet aos criadores”. Inevitavelmente, segundos depois, sem necessidade de pagar um único cêntimo, estava pronto para ser escutado no "bas-fond" digital. E, tal como aconteceu com In Rainbows e a última coisa dos U2, a verdade é que, se entrará, seguramente, nos manuais de História da Música do século XXI, será somente em consequência do método de distribuição escolhido: incursão autenticamente vertebrada no universo da electrónica crepuscular há a da última faixa (“Nose Grows Some”) e é tudo. Não é Scott Walker (ou FKA twigs) quem quer.