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21 November 2025

 
"Dissolve"
 
(sequência daqui) E, partilhando com Tom Waits uma particularidade da qual, este, há anos, falava, "Haverá, sem intenção, 'acidentes felizes' com os textos, à medida que as pessoas infundem a sua própria narrativa na minha. Gosto particularmente desta característica, pois a ideia inicial fica difusa. Gosto de coisas que corram um pouco mal e fiquem algo confusas, pois isso também é o que se passa na minha cabeça. Para que as palavras sangrem, é necessário subvertê-las de alguma forma". Crayola Lectern transforma-se assim num espaço onde céus estrelados, tardes calcinadas e falhas de memória se transformam em canções. É psicadélico, é jazz de câmara experimental, são letras singulares convertidas em confetti mental. Não foi Chris Anderson quem assim falou de Disasternoon. Talvez quem lhe chamou "melanchodelia" e louvou o alcance cinemático, a contenção minimalista, os crescendos ousados e os momentos de quietude solene, projectando sombras sob uma luz pálida.

10 May 2025

"Endless Tree" 
 
(sequência daqui) Se, a propósito do anterior The Moon And Stars: Prescriptions for Dreamers (2021), ela não hesitava em reivindicar o papel de cúmplice de apropriação cultural - “Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes” -, desta vez, recorre â suprema realeza funk, George Clinton, que justificava o facto de para ele redescobrir a música negra (os old blues que a mãe escutava), ter sido necessário ter como intermediários Eric Clapton e os miúdos brancos da Brit Invasion. Ou, como ele dizia,"olhá-la com outras lentes". Valerie foi-se também apoiando em Little Richard, Sister Rosetta Tharpe, Ma Rainey e Elizabeth Cotten. E, para os seus álbuns, em produtores brancos mas musicalmente poliglotas como Dan Auerbach, Jack Splash ou, agora, M. Ward, erudito recrutador de tropas com currículo nas hostes de David Lynch, Tom Waits, T Bone Burnett ou The Blind Boys Of Alabama. Capaz de encarar e resolver as necessidades de canções que, afinal, "apenas desejavam encontrar-se com outras pessoas" ou de conduzir June â infinda gratidão perante quem lhe depositou tão perfeitas canções no regaço: "Thank you for giving it to me. Thank you whoever the fuck you are!"

29 April 2025

DO MAPA PARA O TERRITÓRIO
 

Nas três páginas que a "Uncut" de Maio, na secção "The Making Of", dedica à génese de "Feed The Tree", single de 1993 das Belly, Tanya Donelly conta como essa canção surgiu de um momento em que, sozinha, cantava em simultâneo com "Carolyn's Fingers", dos Cocteau Twins. O que, sabendo-se quão peculiar é a dicção de Liz Fraser, conduziu Tanya à involuntária criação de uma letra alternativa. Igualmente saborosa é a história de "The Part You Throw Away" (2002), o suposto fado oculto de Tom Waits: "Gosto de coisas mal compreendidas. Penso que tenho um problema de processamento auditivo. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. O Terry Gilliam ouviu aquela frase de 'The Part You Throw Away' onde canto 'In a Portuguese saloon' e julgou que eu estava a dizer 'On the porch the geese salute'. Fica muito melhor assim! Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal!". (daqui; segue para aqui)
 
"Very Berk Squad"

11 April 2025

 Lisa Knapp & Gerry Diver - "Train Song"
 
(sequência daqui) E, exemplificando com uma das "murder ballads" mais sanguinolentas do álbum - "Long Lankin" - ambos explicam: "A canção fala através de diversas vozes e personalidades e todas se mostram vivas e vibrantes. Assim que escutámos aquela narrativa tenebrosa e macabra, isso desencadeou inúmeras ideias particularmente dissonantes. Sempre preferimos o lado negro da folk e, tanto o texto como o modo menor, alinham-se perfeitamente com essa afinidade para uma estética tão sombria e introspectiva quanto possível. Que é como nós gostamos das nossas histórias de terror". Do plano sonoro geral (que dir-se-ia obedecer a uma obrigatória rudeza tomwaitsiana) à estratificação de sentidos (algures entre a magia Mesolítica e o abstraccionismo capaz de ser sugado a um colectivo electro-acústico), Hinterland só poderá ser considerado um clássico.

15 March 2025

 
(sequência daqui) E ele - que se reivindica de Raymond Carver, Sam Shepard, Randy Newman, Tom Waits e Shane MacGowan - admitiu-o de imediato: "Pelos meus 17 anos, tinha já lido 6 dos livros dele. Tornou a minha vida muito melhor. Tinha uma fotografia dele por cima da minha cama ao lado das dos Clash, Jam, Rank & File e X". O último álbum, Mr. Luck & Ms. Doom surgiu a partir de uma súplica de Amy Boone: "Por favor, escreve-me uma canção de amor como deve ser, em que ninguém morra nem tudo corra mal, ou acabo por dar em doida". Vlautin concordou e respondeu com uma história sobre um criminoso falhado e uma empregada de limpeza depressiva. E com todas as outras acerca das Lorraines, das Maureens ou da Nancy do "Pensacola pimp", embrulhadas com trastes "with a wife and kids, a left hook like Frazier and words that hit just as hard“.

20 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (V)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Dava-se o caso, porém, de tudo isto vir à baila a pretexto da publicação de Swordfishtrombones (1983), um daqueles álbuns que definem clarissimamente um "antes" e um "depois" no percurso de quem os assina. Como ele explicaria em 1988 — já a descendência singular desse álbum se iniciara com os magníficos Raindogs (1985) e Frank's Wild Years (1987) —, "Os últimos álbuns têm contido bastantes ilusões de óptica, foram menos lineares, nenos convencionais. Tentei usar algumas técnicas para enevoar os contornos. As canções estão mais desfocadas. Basicamente, tentei provocar-lhes esgotamentos nervosos e, ao mesmo tempo, comunicar-lhes mais vida. Cada vez mais tento fracturar as coisas de modo a não lidar com elas tal como são. Começo a tornar mais abstractos os territórios familiares para lhes oferecer algo como um contexto cubista. Posso estar a olhar para a mesma ponte que tu mas desmantelada, recomposta de outra forma, à minha maneira. Digamos que procuro aplicar um martelo às situações. Não lhes colocar um espelho à frente, dar-lhes uma martelada. Vão por mim, sigam o meu conselho". E, socorrendo-se de uma saborosa metáfora culinária, revelaria o método: "Cozinho uma óptima galinha de churrasco com o meu próprio molho especial: manga, limão, alho e marinada de gengibre. É muito apreciada. Já muita gente me disse que deveria industrializá-la mas ainda não me acostumei à ideia. Cozinhar acaba por ser o mesmo que dirigir, arranjar e compor música. É a mesma psicologia de avaliar qual o ingrediente correcto, o que é compatível com o que se utilizou, quanto tempo deixar a apurar e quando voltar a mexer-lhe, se deve fritar-se ou cozer-se. A atitude é a mesma"

Ora, perdendo uma belíssima oportunidade para ficar calado, foi exactamente acerca de Swordfishtrombones que me pareceu bem fazer boquinhas à iguaria e, em modo enjoadinho, comentar: "Se é o primeiro álbum de que não pode dizer-se ser essencialmente idêntico a todos os outros (e essa fundamental permanência era — é? — um dos fascínios de Waits) não deixa, contudo, de ter a sua dedada suficientemente impressa. 'Johnsburg, Illinois', 'In The Neighborhood', 'Frank's Wild Years' ou 'Soldier's Things' poderiam figurar em qualquer uma das suas outras gravações. Porém, de um conjunto talvez excessivo de 15 faixas, emerge menos um álbum completo e acabado do que uma colecção de temas soltos e experiências instrumentais, ora eficazmente integrados no que parece ser uma quase tentativa de vaudeville, ora pura e simplesmente intrigantes e um tanto desarticulados". (segue para aqui)

19 November 2024

MEA MAXIMA CULPA (IV)

(publicado no nº 11 da "Granta")

(sequência daqui) Barbaridade seguinte: Tom Waits. O crime de difamação não terá sido da mesma gravidade mas, em contrapartida, desculpas, justificações e atenuantes eram totalmente inexistentes. Tratou-se tão só de um caso — sério, seríissimo — de vistas curtas. Ou melhor, de reles condicionamento auditivo. O ponto de partida não enfermava de nenhum defeito: Waits era caracterizado como "encarnando a imagem do boémio 'beat' à deriva, tão miticamente americano como, por exemplo, Springsteen. Mas, ainda que sendo ambos exactamente da mesma idade, a personagem-Waits é a de um Springsteen precocemente envelhecido a quem apenas resta meio pulmão em funcionamento, incapaz já de perder um segundo a pentear-se ao espelho retrovisor de um 69 Chevy ou de vibrar com as aventuras vertiginosas nos crepusculares 'highways' povoados de heróis em fuga". E, desenhando mais precisamente cenário e atmosfera, observava: "Entre um jazz de fundo de bar e uma omnipresente garrafa de Jack Daniel's, Tom Waits oscila de uma teologia particular ("You know there ain't no Devil, there's just God when he's drunk") a uma concepção de saúde muito pessoal ("I don't have a drinking problem except when I can't get a drink") conseguindo, por vezes, ser impagável e, talvez involuntariamente, cómico: poucos momentos conseguem fazer soltar uma gargalhada tão incontrolável como quando, em "Christmas Card From A Hooker in Minneapolis", a sua rosnadela trôpega de velho buldogue asmático inicia a recitação tartamudeando 'Hey Charley, I'm pregnant'" (segue para aqui)

19 July 2024

"Na Gul"
 
(sequência daqui) Em "Na Gul", apossando-se de um poema de Mah Laqa Bai Chanda, música indiana de Hyderabad e cortesã do século XVIII, Arooj coloca-a em diálogo com Chand Bibi, rainha de Ahmadnagar, do século XVI, que desagua num estuário de barroco oriental; "Aey Nehin" oferece um voluptuoso tapete de repuso harmónico; "Bolo Na" serpenteia por entre as profundas frequências do contrabaixo e e a melodia flutuante da voz; "Autumn Leaves" ("Les Feuilles Mortes", de Joseph Kosma) deixa-se extirpar de todos os clichés acumulados, mas, em contraluz, permanece fantasmaticamente reconhecível; "Last Night Reprise", sobre uma poesia de Rumi, hesita entre o enraizamento granítico e o voo desordenado; e "Whiskey" é a canção que um Tom Waits hindustânico deveria ter escrito para Rickie Lee Jones. Com os quais, como o título do álbum denuncia, Arooj partilha uma particular afeição pelas horas tardias ("Toda a gente parece melhor quando a noite cai. Não gosto de ver as pessoas à luz do dia. É do conhecimento universal que os músicos adoram a noite. A noite é nossa amiga, oferece-nos um abrigo no qual podemos mover-nos sem nos expormos tanto"). Mas, em qualquer dos casos, qual Bob Dylan pós-Newport, recusando sempre o papel de porta-voz de uma qualquer causa que lhe estaria supostamente atribuida: "Detesto ser rotulada. Não desejo transformar-me numa pessoa responsável pela defesa de uma qualquer tradição. Um artista é imensas coisas em simultâneo. Muita gente diz: 'Ela é uma cantora de ghazal (forma poética originária da Pérsia do século VII)'. Outras interrogam-me: 'Pode falar-me sobre aqueles textos secretos antigos que canta na sua música tradicional?' Por vezes, num concerto, no final da primeira canção, há já quem diga 'Ah... afinal, ela não é a deusa sufi que viemos escutar. Está a beber vinho tinto e a dizer palavrões ao microfone'. Só me apetece dizer-lhes: 'Não querem escrever um guia acerca de como eu deveria ser? Prometo que vou tentar segui-lo!'"

20 February 2024

"Bad Idea" (daqui; ver também aqui)
 
(sequência daqui) Se o belíssimo anterior (Shades, 2019) podia definir-se como uma sequência de litanias “for the lovers, for the killers, for the liars”, este, com a determinante co-produção de Kenneth Pattengale, alarga horizontes e, bebendo tanto da atmosfera da Sinfonia do Novo Mundo, de Dvořák (aquela que Neil Armstrong fez viajar até à Lua, em 1969) como do "surruralismo" sonoro de Tom Waits, espraia-se por amplíssimas paisagens de "western", cenário e, ao mesmo tempo, matéria-prima mental. Ela explica: "Vejo este álbum como uma topografia da memória. Como se a desdobrássemos e os momentos que a constituem se erguessem em relevo. Uma colecção de histórias cerzidas por uma linha de sonhos que permite a convergência de espaços diferentes numa única vastidão dificilmente reconhecível. Os espaços em que vivemos atribuem-nos uma forma. E a memória redesenha tudo outra vez".

27 October 2023

 
(sequência daqui) De resto, a personagem-Tom Waits manter-se-ia em inalterável mutação ("A personagem-Tom Waits? Rouba-se um bocadinho daqui, outro dali. Umas coisas velhas, outras novas, um farrapo de pano azul, o chapéu do pai, a roupa interior da mãe, a moto do irmão, os tacos de bilhar da mana e aí vamos nós. Quer dizer, sou o Frank Sinatra ou o Jimi Hendrix? Ou o Jimi Sinatra? Claro que sou ventríloquo como todos os outros. Ninguém se rala se estamos a dizer ou não a verdade. No nosso ramo de actividade, não me parece que isso seja muito importante"), com um pé na realidade ("O mundo está a arder e eu às vezes penso que raio de vida é a minha a fazer joalharia para os ouvidos. Quando foi a última vez que numa sala toda a gente cantou a mesma canção? Há muitas coisas que têm de acontecer antes de se ligar um giradiscos. Roupa e alimentos. Não duvido do poder da música mas parece-me que uma ideia exagerada de nós mesmos e do valor daquilo que fazemos pode fazer-nos acreditar que escrever uma canção é capaz de mudar o mundo") e outro nunca se saberá bem onde: "Em Hermosillo, uma prostituta anã subiu para o meu banco no bar, sentou-se-me ao colo, pediu um Double Suicide para beber e contou-me como tinha assassinado o chulo dela, a sangue frio, no Bali-Hai de Tijuana. Isso tinha-se passado há 30 anos, desde então tornara-se cristã 'born again' e queria que eu a ajudasse a juntar dinheiro para ir a Fátima". (Desde 6 de Outubro, Swordfishtrombones, Rain Dogs, Franks Wild Years, Bone Machine e The Black Rider, remasterizados a partir das "master tapes" analógicas originais, foram reeditados em vinil e CD)

25 October 2023

23 October 2023

(Franks Wild Years, na íntegra aqui)

(sequência daqui) Ao longo de Rain Dogs (1985), Franks Wild Years (1987) Bone Machine (1992) e The Black Rider (1993), Waits montaria, peça a peça, uma improvável escultura sonora feita dos escombros de Kurt Weill, Harry Partch, Captain Beefheart, aromas de New Orleans, folk irlandesa, blues, tango e rascunhos de Tin Pan Alley, em busca do essencial: "É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues". (segue para aqui)