(sequência daqui) Se o álbum gravado com o compositor/produtor catalão Refree era, decididamente, uma obra a quatro mãos, Fado Camões apresenta-se como peça em nome próprio ainda que com um fortíssimo braço direito oferecido por Justin Adams (guitarrista e produtor, personagem da intimidade de Jah Wobble, Tinariwen, Robert Plant, Sinéad O'Connor, Brian Eno e figurões vários da "world music" afro-mediterrânica), a quem se juntaram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (Massive Attack, Portishead, Robert Plant) e Ianina Khmelik (violino). Aparentando buscar um ponto de equilíbrio entre o abstraccionismo radical de Lina_Raul Refree e uma abordagem mais imediatamente reconhecível do fado - "Não se tratou de olhar para trás mas de trazer aquilo que aprendi e que continua a fazer todo o sentido para mim: os espaços entre a voz e instrumentos, os silencios, a criação de maior lugar para a respiração das palavras, e o trabalho sobre todas aquelas texturas que determinam atitudes diferentes de introspecção. Voltei a beber um bocadinho dessa fonte e de tudo aquilo com que me identifiquei bastante no anterior" -, tudo se centrou, afinal, na delicadíssima tarefa de articular os poemas de Camões com a estrutura dos fados tradicionais. Com o mar Atlântico em frente dos olhos, Lina confessa que "Trazer o Camões para o fado não é propriamente uma coisa fácil. Tive uma enorme ajuda da Amélia Muge que participou no trabalho sobre os textos deste projecto e acreditou que eu seria capaz de levá-lo a bom porto. Foi uma longa jornada até ter conseguido identificar quais os poemas do Camões sobre os quais iria trabalhar musicalmente durante duas semanas em estúdio". (segue para aqui)
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25 January 2024
06 July 2007
TRANSCULTURAIS

Tinariwen - Amassakoul

Erik Marchand et Les Balkaniks - Pruna
Naqueles raros momentos em que "world music" significa algo mais do que apenas uma designação de "marketing" para impingir ao Ocidente a música do resto do mundo (ou aquela da antiga tradição do seu mundo) que ele imperialmente ignora, podem surgir álbuns como estes dois. Espontaneamente transculturais ou deliberadamente miscigenados. Amassakoul ("viajante") é a consequência musical inteiramente orgânica de um colectivo de combatentes armados tuaregues originários do Mali que — com passagem pelos campos de treino da Líbia de Kadhafi —, desde o final dos anos 70, não perderam tempo a distinguir o que era cantiga e o que era arma. Usaram ambas.
Aparentemente apaziguadas, desde 1996, as tensões políticas e sociais que estiveram na raiz da guerra civil no seu país, os Tinariwen prosseguiram a actividade como músicos de que Amassakoul é o mais recente testemunho: blues do deserto hipnóticos e circulares, recitações de quase-rap, estridentes vozes femininas guturais, guitarras entre John Lee Hooker, Ali Farka Touré e Hendrix, percussões ocultas de cabaças e darbukas, flautas, coros encantatórios. Literalmente, uma "trip" militante e alucinada pelo excesso de luz do Sahara.

Pruna, por outro lado, procura voluntariamente o contacto de idiomas musicais geográfica e culturalmente longínquos: o "gwerz" bretão e o mosaico de géneros romeno/balcânico/turcos da zona de Banat, na Roménia (a região europeia que conta o mais elevado número de minorias étnicas). Erik Marchand — veterano do canto tradicional bretão cuja discografia já inclui experiências idênticas com o Taraf de Caransèbes —, acompanhado por dezena e meia de músicos romenos, moldavos, sérvios, trácios e franceses, descobre o sentido último da configuração do puzzle (lançando até, às tantas, sobre a mesa, dois temas de... Carlos Paredes) e, por entre coreografias de puro virtuosismo, invocações poéticas e estonteantes nós-cegos de melodia, harmonia e ritmo, avista um outro ângulo daquela paisagem que é habitualmente cenário vivo dos delírios de Kusturica. (2004)
Tinariwen - Amassakoul
Erik Marchand et Les Balkaniks - Pruna
Naqueles raros momentos em que "world music" significa algo mais do que apenas uma designação de "marketing" para impingir ao Ocidente a música do resto do mundo (ou aquela da antiga tradição do seu mundo) que ele imperialmente ignora, podem surgir álbuns como estes dois. Espontaneamente transculturais ou deliberadamente miscigenados. Amassakoul ("viajante") é a consequência musical inteiramente orgânica de um colectivo de combatentes armados tuaregues originários do Mali que — com passagem pelos campos de treino da Líbia de Kadhafi —, desde o final dos anos 70, não perderam tempo a distinguir o que era cantiga e o que era arma. Usaram ambas.
Aparentemente apaziguadas, desde 1996, as tensões políticas e sociais que estiveram na raiz da guerra civil no seu país, os Tinariwen prosseguiram a actividade como músicos de que Amassakoul é o mais recente testemunho: blues do deserto hipnóticos e circulares, recitações de quase-rap, estridentes vozes femininas guturais, guitarras entre John Lee Hooker, Ali Farka Touré e Hendrix, percussões ocultas de cabaças e darbukas, flautas, coros encantatórios. Literalmente, uma "trip" militante e alucinada pelo excesso de luz do Sahara.
Pruna, por outro lado, procura voluntariamente o contacto de idiomas musicais geográfica e culturalmente longínquos: o "gwerz" bretão e o mosaico de géneros romeno/balcânico/turcos da zona de Banat, na Roménia (a região europeia que conta o mais elevado número de minorias étnicas). Erik Marchand — veterano do canto tradicional bretão cuja discografia já inclui experiências idênticas com o Taraf de Caransèbes —, acompanhado por dezena e meia de músicos romenos, moldavos, sérvios, trácios e franceses, descobre o sentido último da configuração do puzzle (lançando até, às tantas, sobre a mesa, dois temas de... Carlos Paredes) e, por entre coreografias de puro virtuosismo, invocações poéticas e estonteantes nós-cegos de melodia, harmonia e ritmo, avista um outro ângulo daquela paisagem que é habitualmente cenário vivo dos delírios de Kusturica. (2004)
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