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15 September 2023

Maravilhoso e destemido exemplo de conspiracionismo psicótico sci-fi no qual se denuncia como a Hollywood satânica e pedófila domina o mundo e James Bond era um agente da CIA

08 September 2023

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXXVI)
 
(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)
 
The Fuzztones - "1-2-5" (álbum integral aqui)
 

Plasticland - Wonder Wonderful Wonderland (álbum integral)

25 September 2021

 
(sequência daqui) A certo ponto, Rick Rubin observa que “As canções estão tão presentes na nossa cultura que não somos capazes de pensar nelas como um conjunto de peças articuladas”. É, justamente, essa desmontagem que ambos se dispõem, então, a fazer iluminando melhor aquela prolongada harmonia coral em "Dear Prudence" (“É óptimo quando nos divertimos a testar os nossos limites”); a nota “impossível” do solo de piccolo no final de "Penny Lane" (“Está oficialmente fora da tessitura do piccolo, dissera-lhe David Mason, o trompetista da Royal Philharmonic Orchestra recrutado por £27 10s para essa sessão de estúdio) que Paul convenceu o instrumentista a tocar; o plágio involuntário de "You Can’t Catch Me", de Chuck Berry, por John Lennon, que acharam maneira de converter em "Come Together"; a guitarra sobressaturada de George Harrison em "Taxman"; o labiríntico "tape loop" de "Tomorrow Never Knows", literalmente inspirada em The Psychedelic Experience, de Timothy Leary; ou a utilização do sintetizador Moog – Robert Moog estava em Abbey Road por aqueles dias – em "Maxwell’s Silver Hammer", definitivamente a irmã ainda menos apresentável de "Ob-La-Di, Ob-La-Da". (segue para aqui)

29 October 2019

SERENA ALUCINAÇÃO

  
Brian Eno, ateu confesso, afirmou uma vez que “o budismo é uma excelente religião para ateus”. Só se enganava num pequeno mas importante detalhe: não se trata, de facto, de uma religião – o conceito de “deus” é-lhe totalmente alheio – mas de uma filosofia de vida e, em particular no Zen, onde todos os ensinamentos de Siddhārtha Gautama se descobrem finamente decantados, um eficaz método de lubrificação mental. O próprio Siddhārtha aconselhava os discípulos a não desperdiçarem tempo com especulações metafísicas. Numa famosa parábola do Canone Pali, um monge dirige-se-lhe, inquieto, por nunca lhe ter escutado uma palavra acerca de se o universo é finito ou infinito, limitado ou ilimitado, ou se a alma é distinta do corpo. E o Buda, amavelmente enfastiado, pede-lhe para pensar num homem atingido por uma flecha envenenada: “Se, quando a família e os amigos chamassem um médico, ele se recusasse a ser tratado antes de saber quem o havia ferido, a que casta pertencia, qual a altura e côr da pele, e que arco, flecha e veneno tinha utilizado, decerto morreria antes de conhecer tudo isto. Seja o universo eterno ou não, a morte, a velhice, o sofrimento e a infelicidade continuarão a existir e só nesta vida poderão ser eliminados. Se não te expliquei todas essas coisas é porque elas são inúteis e não conduzem à libertação”



 
Inevitavelmente, porém, a popularização dos ensinamentos do Buda acabaria por transformá-los numa religião quase idêntica às outras com toda a corte de espíritos, amuletos e superstições, especialmente evidente na variedade do budismo tibetano, caldo de cultura de onde surgiu o Bardo Thodol ou Livro dos Mortos Tibetano – escrito no século VIII e redescoberto no século XIV –, um guia de viagem para as almas nos 49 dias que se seguem à morte. Songs From The Bardo, reune Laurie Anderson, Tenzin Choegyal e Jesse Paris Smith (filha de Patti Smith) para uma leitura musical de 80 minutos do texto tibetano (que já fertilizou o Ubik, de Philip K. Dick, em versão lisérgica, The Psychedelic Experience, de Timothy Leary e, por via deste, Tomorrow Never Knows", dos Beatles), num exercício de serena alucinação sonora e poética que, tal como poderia acontecer se fosse baseado nas mais febris escrituras da tradição judaico-cristã e gnóstica, faz as palavras levitar - “Dancing with a crescent knife and a skull full of blood, gesturing and gazing at the sky” –, por entre a evaporação dos timbres de violino, piano, violoncelo, gong, flauta, alaúde e taças de cristal.

02 August 2016

A RECEITA DO DR. LEARY


No início de 1966, acompanhado por Paul McCartney, John Lennon entrou na Indica Books and Gallery – bastião do "underground" britânico da época onde Lennon conheceria Yoko Ono – e perguntou a Barry Miles (fundador da livraria e também do jornal contracultural “International Times”) se teria algum livro de “Nitz Ga”. Miles levou algum tempo até compreender que o que ele procurava eram obras de Nietzsche. O suficiente para, sentindo-se humilhado, Lennon se lançar numa diatribe contra “os betos universitários” que McCartney só conseguiu apaziguar explicando-lhe que Barry era um ex-"art college student" como ele. Mas, entretanto, já John se detivera sobre a prateleira onde se encontrava The Psychedelic Experience: A Manual Based On The Tibetan Book of The Dead, de Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert, bíblia do experimentalismo lisérgico da altura. Na página 14 da introdução, leu “Whenever in doubt, turn off your mind, relax and float downstream”. Nesse instante, naturalmente, não tinha consciência disso mas, pouco depois (com ingestão de LSD incluída, seguindo à risca a receita do dr. Leary), esse seria o ponto de partida de "Tomorrow Never Knows", primeira canção a ser gravada para Revolver – publicado exactamente há 50 anos, a 5 de Agosto de 1966 –, o álbum dos Beatles que, de modo infinitamente mais radical do que Sgt. Pepper’s, mudaria o curso da música pop. 



Os 2’58” de "Tomorrow Never Knows" (assentes sobre um "drone" de tambura), em particular, implicaram o processamento da voz através de um Leslie speaker (habitualmente associado ao orgão Hammond), a gravação e montagem de "tape loops" (moléculas da 7ª sinfonia de Sibelius, curtos motivos de mellotron, sitar, piano e guitarra, em velocidade acelerada, retardada ou em "reverse") inpiradas por Stockhausen, Berio e pela "musique concrète", e a invenção do Artificial Double Tracking. Antecipando a comemoração do meio século de Revolver, há cerca de três semanas, Andrew Liles (prolífero "sound artist", colaborador, entre outros dos Nurse Wih Wound e Current 93) publicou na sua página do Mixcloud uma avassaladora e hipnótica "remix" de "Tomorrow Never Knows", de 50 minutos. Quinze dias depois, desaparecia *, “deleted by the dark powers of copyright”. No Facebook, Liles insurgiu-se como pôde: “Estou certo que, até lhe extraírem a última gotícula de valor monetário, esta canção andará por cá ainda muitos anos. ‘Close your eyes relax and float downstream”… e, quando os abrirem, tentem ignorer a fétida fossa séptica em que nos achamos a nadar”

* Nota (31.05.2017):reposta

11 August 2014

O SONHO TINHA ACABADO


Quase meio século de distância pode distorcer um pouco as memórias. Mas, por mais que Graham Nash garanta que os Crosby, Stills, Nash & Young e as canções que compunham fossem produto de preocupações humanistas e não declaradamente políticas – como se umas e outras pudessem ser dissociadas –, a verdade é que, nessa época (final de anos 60/início de 70 do século passado), tudo era eminentemente político: as drogas, o estilo de vida, a alimentação, o sexo, as artes, até o próprio corte de cabelo como David Crosby deixaria claríssimo em "Almost Cut My Hair": “Almost cut my hair, it happened just the other day, it was gettin' kinda long, I could have said it was in my way, but I didn't and I wonder why, I feel like letting my freak flag fly, yes I feel like I owe it to someone”. A “freak flag” tanto podia residir no comprimento capilar como na deriva terrorista dos Weathermen – inspirados por Dylan, em "Subterranean Homesick Blues": “You don’t need a weatherman to know which way the wind blows” –, no anarco-marxismo-tendência-Groucho dos yippies do Youth International Party (fundado, entre outros, por Jerry Rubin e Abbie Hoffman, em torno dele gravitariam Allen Ginsberg, Phil Ochs e os MC5) que, para as eleições presidenciais de 1969, nomeariam o porco Pigasus, no afro-nacionalismo dos Black Panthers, ou no novo paganismo lisérgico da League For Spiritual Discovery, de Timothy Leary.

O candidato Pigasus

Em 1974, porém, vivia-se já a ressaca das grandes comunhões cósmicas e dos devaneios comunitários – Lennon decretara que “the dream is over”, o punk estava a dois anos de distância e os CSNY, porta-bandeiras do activismo da aristocracia hippie de Laurel Canyon, quatro anos após a separação, apenas acediam a meter as birras no bolso e a reunir-se para uma digressão de 31 concertos, essencialmente (garante Stephen Stills, “não é bem assim”, suaviza Nash), “for the money”. David Crosby chamou-lhe “Doom Tour”, o manager Chris O’Dell qualificou-a como “a mais disfuncional reunião de egos na história do rock’n’roll” mas, pelo que se escuta nos três CD e no DVD de CSNY 1974, citando Graham Nash, eram ainda “uma bela banda”. Depois da última data em Wembley, Crosby voltou para a Califórnia, Stills viajou para França e Young e Nash meteram-se num Rolls Royce de 1934 apontado para o deserto do Sahara. Não passaram da Bélgica.

05 February 2014

O CÉREBRO A REFOGAR


Parafraseando o Manifesto Comunista, em 1992, Terence McKenna iniciava o tão fascinante quanto demente O Pão Dos Deuses com as palavras “Um espectro assombra a cultura planetária – o espectro das drogas”. E, daí, na condição de continuador de ilustres antecedentes como Aldous Huxley ou Timothy Leary, partia para uma minuciosa investigação histórica da relação dos humanos com as drogas psicoactivas, acabando por atribuir a emergência do homo sapiens ao consumo de cogumelos alucinogénicos, advogando a exploração dos estados alterados de consciência através da ingestão de psicotrópicos naturais (em especial, a DMT, presente no ayahuasca dos xamâs da Amazónia) e prevendo para 21 de Dezembro de 2012, em coincidência com o final do famigerado calendário Maia, o encontro com “o objecto transcendente no final dos tempos”, momento em que se estabeleceria “a fusão entre nós, as nossas máquinas e a alma do mundo orgânico num único ser”. Não chegaria a ter a oportunidade de verificar que 21.12.12 foi apenas um dia igual a todos os outros (morreu em Abril de 2000) mas, do mesmo modo que com muitos outros paladinos do pensamento mágico e anti-científico (no qual a cultura "new age" embrulhou a pior herança dos anos 60), o seu legado esotérico está longe de defunto.

Ben Lee, ex-membro dos australianos Noise Addict - que, pela mesma altura em que McKenna publicava O Pão Dos Deuses, chegaram a seduzir os Sonic Youth e os Beastie Boys que lhes editaram discos nos EUA – e, logo depois, a solo, é um dos mais recentes cristãos novos da causa psicadélica e Ayahuasca: Welcome To The Work o seu novo testamento. Na contracapa, reconhece humildemente que procurar “capturar em música a experiência da transcendência” (leia-se: Lee, como McKenna, andou a tripar forte e feio na Amazónia) só pode ser “um falhanço” e que é impossível comunicar o que se encontra “beyond the mind”. Pura verdade: “beyond the mind” não existe nada mas, não indo ao ponto de lhe aconselhar o estudo das neurociências, aos 35 anos, já teria tido tempo para perceber que aquilo que um cérebro a refogar em DMT produz não é necessariamente tão bom quando escutado sem aditivos. É mesmo, não há outra forma de o dizer, extraordinariamente aborrecido, sobrando para a categoria do apenas tolerável um ou dois instantes de pseudo-Beach Boys. Alinhem-se os chacras, se tiver de ser, mas, pelo menos, que a música seja potável.

17 March 2011

OWSLEY STANLEY (1935 - 2011)


Owsley Stanley com Jerry Garcia, dos Grateful Dead (1969)

"The American psychologist Timothy Leary's famous invitation to 'tune in, turn on and drop out' changed a generation. The key element was 'turn on' and it was Owsley Stanley who provided the means to do just that. Stanley, who has died aged 76, produced millions of doses of acid, the psychedelic drug LSD, which fuelled the 1967 Summer of Love in San Francisco's Haight-Ashbury district, and spread around the world.


Jefferson Airplane - "Ballad Of You & Me & Pooneil" (1970)

Jimi Hendrix's 'Purple Haze' was the consequence of Stanley's Monterey Purple acid; his varieties included White Lightning and Blue Cheer and aficionados called the best acid simply 'Owsley'. He supplied the Beatles at the time of their Magical Mystery Tour television film (1967), and provided the acid to One Flew Over the Cuckoo's Nest novelist Ken Kesey and his 'Merry Pranksters', whose 1964 bus trip across America was chronicled by Tom Wolfe in The Electric Kool-Aid Acid Test" (1968). (artigo integral aqui)

(2011)

13 June 2007

1967, UM ANO MUITO POUCO COMUM



De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um “ano comum”. Isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao papa Gregório XIII que, a 18 de Janeiro de 1582, o promulgou para substituir o anterior calendário juliano: nem através de ligação directa ao Grande Arquitecto do Universo poderia ele ter previsto a dimensão exacta pela qual o ano em que John Coltrane, Che Guevara, Woody Guthrie e René Magritte morreram e Kurt Cobain, Julia Roberts, Nicole Kidman e Noel Gallagher nasceram foi tudo menos um ano comum. No mundo, em geral, e na cultura pop, em particular, 1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e ruptura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram.


The Beatles - Strawberry Fields Forever

Porque é impossível não o referir, recorde-se já que foi em 1967 que, a 26 de Maio, os Beatles publicaram Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Enquanto marco simbólico do ano e da era, a sua importância permanece mas deve também adiantar-se que, no âmbito mais restrito da sua ressonância na cultura pop posterior, já viu bem melhores dias: não só todo o resto que os Beatles editaram no mesmo período de doze meses – os singles “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, “All You Need Is Love”/”Baby You’re A Rich Man” e “Hello Goodbye/”I Am The Walrus” e o duplo EP “Magical Mystery Tour” – é francamente mais rico e interessante como, em sucessivas votações dos “all time best” (na última, do número de Junho da “Mojo”, para “os 100 discos que mudaram o mundo”, ficou-se por um modesto 16º lugar), tem vindo, aceleradamente, a ver a sua cotação desvalorizada relativamente a diversos outros concorrentes e até face a outras gravações da banda de Lennon e McCartney como Revolver, ou mesmo (na recentíssima da “Mojo”) ao single de 1963, “I Want To Hold Your Hand” (um honroso segundo lugar atrás de “Tutti Frutti”, de Little Richard).


Pink Floyd - Interstellar Overdrive

As oscilações do gosto terão a sua própria lógica mas a verdade é que, num ano em que – política, social e culturalmente – aconteceu incomparavelmente mais do que em muitas décadas, escolher um único objecto/figura emblemáticos não andaria muito longe de confiar no acaso de um lançamento de dados. Tomem, então, nota:
1) álbuns de estreia pop/folk/rock – The Velvet Underground & Nico, seguido, também em 1967, de White Light/White Heat; The Songs Of Leonard Cohen; The Doors (e, no final do ano, Strange Days); The Piper At The Gates Of Dawn, dos Pink Floyd; Safe As Milk, de Captain Beefheart; Are You Experienced?, da Jimi Hendrix Experience (e ainda Axis: Bold As Love); Mr. Fantasy, dos Traffic; The Grateful Dead; Buffalo Springfield (Neil Young+Stephen Stills) e (sobretudo), no Outono, Buffalo Springfield Again; Chelsea Girl, de Nico; David Bowie; Surrealistic Pillow, dos Jefferson Airplane, antecedendo After Bathing At Baxter’s; Moby Grape; Blowin’ Your Mind, de Van Morrison; Electric Music For The Mind And Body, de Country Joe & The Fish (que publicariam também I Feel Like I’m Fixin’ To Die); The Thoughts Of Emerlist Davjack, dos Nice (casulo de Keith Emerson, futuramente Emerson, Lake & Palmer); H. P. Lovecraft; Big Brother & The Holding Company (voz. Janis Joplin).


The Jimi Hendrix Experience - Purple Haze

2) obras-primas avulsas, objectos de culto e sementes de futuro – Goodbye And Hello, de Tim Buckley; Forever Changes e Da Capo, dos Love; Pleasures Of The Harbor, de Phil Ochs; Absolutely Free, dos Mothers of Invention; 5000 Spirits Or The Layers Of The Onion, da Incredible String Band; Days Of Future Passed, dos Moody Blues; The Who Sell Out; Something Else By The Kinks; Between The Buttons e Their Satanic Majesties, dos Rolling Stones; Walk Away Renee/Pretty Ballerina, dos Left Banke; Ptoof, dos Deviants; Tenderness Junction, dos Fugs; Tangerine Dream, dos Kaleidoscope; Mass In F Minor, dos Electric Prunes; Younger Than Yesterday, dos Byrds; Disraeli Gears, dos Cream (Eric Clapton+Jack Bruce+Ginger Baker); John Wesley Harding, de Bob Dylan; Easter Everywhere, dos 13th Floor Elevators.

Que outro ano, anterior ou posterior, se poderá gabar de ter fundado uma mão-cheia de géneros musicais (o psicadelismo dos Pink Floyd, Grateful Dead, Country Joe & The Fish, Kaleidoscope, Traffic, Fugs, H. P. Lovecraft, Jefferson Airplane ou de Their Satanic Majesties; o rock-sinfónico/progressivo dos Nice ou Moody Blues; o “noise”, com White Light/White Heat; os blues “cósmicos” de Jimi Hendrix, Big Brother ou Cream – ainda que, aqui, haja, que reconhecer os antecedentes dos Yardbirds; as incursões pelos idiomas clássico, da vanguarda contemporânea/electrónica e das músicas orientais dos Electric Prunes, Tim Buckley, Nico, Incredible String Band, Love, Frank Zappa/Mothers of Invention, Phil Ochs e dos próprios Beatles que, já em Revolver, por aí haviam deambulado; a ópera-rock com The Who Sell Out), de ter revelado (ou confirmado ao segundo álbum) figuras que marcariam indelevelmente a pop até hoje – Lou Reed, John Cale, Van Morrison, Neil Young, Jimi Hendrix, Nico, David Bowie, Tim Buckley, Leonard Cohen, Frank Zappa, Captain Beefheart – e, de um modo geral, ter participado intensamente nas convulsões que, daí em diante (e o Maio francês estava apenas a um ano de distância), virariam o século XX do avesso. A música aspirava o espírito do tempo e, ao expirá-lo, acelerava a rotação do mundo.


The Velvet Underground - I'm Waiting For The Man

De facto, o ano em que, logo a 2 de Janeiro, Charlie Chaplin estreava o seu último filme (A Condessa de Hong Kong) e que, a 19 de Dezembro, ouviria o professor John Wheeler formular, pela primeira vez, o conceito de “buraco negro”, foi um período de movimentos e eventos contraditórios: se a Guerra dos Seis Dias (entre 5 e 10 de Junho) incendiava irreversivelmente o Médio Oriente, o golpe de estado “dos coronéis” na Grécia instalava mais uma ditadura europeia e o general Westmoreland garantia que a vitória americana no Vietname era certa, o “Gathering of the Tribes for a Human Be-In” que, a 14 de Janeiro, reunia 30 000 pessoas no Golden Gate Park de S. Francisco, fazia convergir para um mesmo lugar as várias sensibilidades heterodoxas da época (ecologistas, velhos beatniks, feministas, novos hippies, anarco-freaks, militantes anti-Vietname, contestatários estudantis, activistas anti-segregacionistas, radicais de esquerda, gurus místicos e apóstolos lisérgicos), dava a palavra a oradores como Allen Ginsberg, Jerry Rubin e Timothy Leary (que lançaria o mote do ano com o seu famoso “Turn on, tune in, drop out” aparentemente “soprado” por Marshall MacLuhan, enquanto o “underground chemist”, Owsley Stanley, abastecia generosamente as massas com LSD – ilegalizado desde 16 de Outubro de 1966 – especialmente sintetizado para a ocasião), oferecia o palco aos Jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service e, acima de tudo, anunciava o “Summer of Love” que, meses depois, faria convergir para o distrito de Haight Ashbury, Berkeley e da baía de S. Francisco mais de 100 000 “flower children” em busca de “amor livre”, comunitarismo, transcendência e bucolismo utópicos “à la” Thoreau, êxtases químicos instantâneos e toda a parafernália cultural e filosófica que estaria na raiz da “New Age” e da contracultura “underground”.


Timothy Leary - How to Operate Your Brain

No entanto, a 15 de Janeiro, um dia depois do “Human Be-In”, no Ed Sullivan Show, os Rolling Stones, a bem da moral e dos bons costumes, seriam forçados a cantar “Let’s spend some time together” em vez do “Let’s spend the night together” original e, um mês mais tarde, Mick Jagger e Keith Richards veriam a polícia londrina invadir-lhes uma festa privada e acusá-los de consumo e posse de drogas pelo que, a 29 de Junho, acabariam mesmo por ser presos. Foi, sem dúvida, um ano em que manter-se a par das notícias não terá sido fácil: no mesmo dia em que as “tribos” se congregavam no Golden Gate Park, o “New York Times” revelava que o exército americano realizava experiências em matéria de guerra biológica; a 1 de Março, a Revolução Cultural Chinesa termina com o regresso dos Guardas Vermelhos à escola, oito dias antes de Svetlana Alliluyeva, filha de Estaline, fugir para os EUA e, no penúltimo dia do mês, os Beatles são fotografados para a capa de Sgt Pepper's, uma semana antes de levantar voo o primeiro Boeing 737 (a 11 de Dezembro, seria o baptismo de vôo do Concorde).
Outra linha de acontecimentos decorre paralelamente: a 28 de Abril, Cassius Clay/Muhammad Ali recusa combater no exército dos EUA e, embora, a 12 de Junho, o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (do qual, a 30 de Agosto, Thurgood Marshall seria o primeiro membro afro-americano) tenha declarado inconstitucionais todas as leis que proibiam os casamentos interraciais, isso não impede que, a 15 de Julho – dois dias antes da morte de John Coltrane –, expludam violentos motins raciais em Detroit (43 mortos, 342 feridos, 1400 edifícios incendiados) que alastram a Nova Iorque, Washington D.C. e Alabama, e, a 21 de Setembro (quatro dias depois da estreia do musical hippie, Hair), dezenas de milhares marcham sobre Washington contra a guerra do Vietname enquanto Allen Ginsberg entoa mantras com o objectivo de “fazer levitar o Pentágono”.


Peace March - Thousands Oppose Vietnam War, 1967

A atmosfera cultural do “Verão do Amor” (que, na edição de 7 de Julho da “Time”, a “cover story” intitulada "The Hippies: Philosophy of a Subculture." descrevia como "Do your own thing, wherever you have to do it and whenever you want. Drop out. Leave society as you have known it. Leave it utterly. Blow the mind of every straight person you can reach. Turn them on, if not to drugs, then to beauty, love, honesty, fun”) seria, entretanto, perfeitamente caracterizada pelo Monterey Pop Festival – 200 000 participantes e o primeiro festival pop/folk/rock, ao ar livre e gratuito -, na Califórnia, no qual actuaram Jimi Hendrix, The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, Ravi Shankar, Hugh Masekela, The Grateful Dead, Janis Joplin com os Big Brother & The Holding Company, The Association, Buffalo Springfield, Country Joe & The Fish, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, Laura Nyro, Canned Heat, Simon & Garfunkel, The Paul Butterfield Blues Band, The Steve Miller Band, os Blues Project e Otis Redding, que morreria a 10 de Dezembro, num acidente de avião.


Janis Joplin c/ Big Brother and the Holding Company

Não foi a única baixa do universo cultural a lamentar: entre Maio e Agosto, juntar-se-lhe-iam Edward Hopper, Vivien Leigh, Jayne Mansfield, o poeta Carl Sandburg, o dramaturgo Joe Orton, René Magritte, o manager dos Beatles, Brian Epstein e Woody Guthrie. Tragédia de enorme dimensão foram as cheias de Lisboa, a 26 de Novembro, com 462 vítimas mortais que se somariam às das guerras coloniais em curso, às do Vietname ou às decorrentes do abate pela República Popular da China de dois aviões norte-americanos que teriam violado o seu espaço aéreo.
Mas, mais visível ou invisivelmente, havia forças várias em movimento: a 26 de Junho (um dia antes de, em Enfield, no Reino Unido, o Barclays Bank abrir a primeira máquina multibanco), Karol Wojtila – futuro João Paulo II – é ordenado cardeal e, pela mesma altura, Lech Walesa começa a trabalhar como electricista, nos estaleiros Lenine, de Gdansk; a 4 de Julho, o Parlamento britânico descriminaliza a homossexualidade, Antony Hewish e Jocelyn Bell Burnell, da Universidade de Cambridge, descobrem o primeiro pulsar e, no final do ano (que se iniciara com a morte de Jack Ruby, assassino de Lee Harvey Oswald, putativo assassino de John Kennedy), Christiaan Barnard realiza, na cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante cardíaco. O “zeitgeist” da era impulsionaria, ainda Ralph J. Gleason e Jan Wenner a fundar a “Rolling Stone” (para onde Greil Marcus – salário: 30 dólares por semana – , Hunter S. Thompson ou Lester Bangs escreveriam), sobrevivente única de “rock magazines” históricos como a “Crawdaddy!” e “Creem”. Muitos anos mais tarde, reflectindo sobre a atmosfera desses anos, um dos seus alegados heróis, Leonard Cohen, diria: “Os hippies não me interessaram especialmente. Em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu que fui escuteiro posso dizê-lo”. (2007)

10 April 2007

UMA BANDA DE ROCK'N'ROLL COM 4000 ANOS DE IDADE



Quando, há cerca de cinco anos, Lee Ranaldo, dos Sonic Youth, se encontrou nas montanhas do Rif marroquino com os Master Musicians Of Jajouka, foi apenas mais um numa já considerável série de músicos, artistas e escritores europeus e americanos que se deixaram fascinar pela música extática e ritual deste colectivo norte-africano. Dessa vez, Ranaldo utilizou uma velha guitarra electrica que Chris Stein, dos Blondie, havia oferecido a Bachir Attar, o líder do grupo, enquanto este tocava o bandolim de três cordas local (o guimbri) e um violinista, também marroquino, completava o trio de improvisadores entregue a mais outro diálogo transcultural e transcontinental. Antes dele e desde os anos 60, já por lá haviam passado William Burroughs, Paul Bowles, Brion Gysin, Brian Jones — que, então, revelaria a música de Jajouka ao resto do mundo —, Ornette Coleman ou Bill Laswell.



E, agora, também o produtor anglo-indiano Talvin Singh que, através do recém editado CD Master Musicians Of Jajouka Featuring Bachir Attar, acrescenta mais um valioso capítulo a esta história de sedução mútua entre culturas aparentemente distantes. No seu diário de viagem, Lee Ranaldo confessa-se desvanecido com a hospitalidade dos habitantes da aldeia de Jajouka e tece os mais rasgados louvores à superior qualidade do "kif" marroquino e à sua importância na intensificação da atmosfera gerada pela música. Mas, quando, em conversa com Bachir Attar, o assunto é abordado, ele próprio (que, em muito aproximativo inglês, fala de tudo um pouco), parece não lhe atribuir nenhum especial relevo...



Este não é a primeira gravação em que os Master Musicians Of Jajouka colaboram com músicos europeus e ocidentais. Como é que vê esse processo de diálogo entre pessoas provenientes de tradições culturais tão diferentes?
Nós temos o desejo de participar em experiências musicais e culturais mistas com artistas diferentes, de todo o mundo. Esse desejo existe desde que o Brian Jones e, depois dele, vários outros vieram ter connosco e conhecer-nos: estabelecer uma espécie de canal de comunicação entre a cultura de Marrocos e as outras.

Mas sente que tanto o Brian Jones como, por exemplo, o Ornette Coleman ou, agora, o Talvin Singh compreenderam verdadeiramente o sentido da vossa música?
O Ornette Coleman terá sido o que mais profundamente se apercebeu do significado da música de Jajouka quando veio ter connosco em 1973. Demos, depois, vários concertos juntos que voltámos a repetir no ano passado. Trabalharmos com músicos do calibre dele é fácil para nós. E também não sentimos dificuldade em dialogar com músicos que provenham da tradição clássica ou do rock'n'roll. Tudo isso pode contribuir para a sobrevivência da música e da tradição de Jajouka.



Esses vários processos de colaboração aconteceram de um modo mais ou menos livre e espontâneo ou a forma como vocês e os músicos que vieram ter convosco exigiu algum tipo de planeamento, de programação, relativamente a como iriam interagir em conjunto?
Com o Ornette foi tudo muito livre. Ele conhece-nos bem desde 1973, estudou a nossa música, por isso, a integração connosco foi muito fácil. O Talvin Singh, ouviu-nos, deixou-nos tocar e procurou captar a essência daqueles momentos. Com o Lee Ranaldo, dos Sonic Youth, também, tocámos juntos, espontaneamente.

Fora de Marrocos, por vezes, confunde-se a música de Jajouka com a música dos Gnawa que são referidas como sendo o mesmo. Qual é a diferença entre as duas?
São completamente diferentes. A música de Jajouka é distinta de todas as outras que existem no resto do mundo. Mesmo em Marrocos, era uma música especial, oferecida no palácio ao rei. Existe, pelo menos, de acordo com a tradição, já desde há seis gerações de reis, há cerca de seiscentos anos. Mas, nas ruas das cidades, há muitos outros tipos de música como a dos Gnawa que referiu. Os Jajouka são um único grupo, uma única família que transmite a sua música de pais para filhos, através dos séculos.



Do ponto de vista da tradição religiosa em que a vossa música se integra, também já vi referi-la tanto como tendo a ver com o sufismo islâmico como com o antigo culto "pagão" de Pan. Qual é a verdade?
Muita da nossa música é realmente sufi, outra tem um caracter terapêutico, curativo, e outra ainda é especificamente dirigida para o corpo e para a dança. É uma música muito aberta a que cada geração acrescenta sempre novos elementos. Temos realmente centenas de músicas. Mas, de um modo geral, pode-se dizer que é uma música dirigida a Deus e dedicada à paz.



Um dos aspectos mais curiosos do diário do Lee Ranaldo acerca do tempo que passou convosco é a referência que ele faz à importância que, para o caracter extático e religioso da vosso música, assume o facto de vocês fumarem doses gigantescas de "kif". É, de facto, verdade?
Talvez ele tenha ficado com essa ideia... Mas isso não tem nada a ver com fumar ou deixar de fumar. Nós concentramo-nos na música. Ela não depende em nada das substâncias que nós consumimos. Ele pode ter falado disso no diário tal como o Paul Bowles também já o havia feito mas o importante não é isso.

Falou no Paul Bowles e, na verdade, para além dos músicos, também escritores como ele ou William Burroughs foram importantes na apresentação da vossa música ao Ocidente. O que sentiu que os atraia para a música de Jajouka?
Todos eles (o Brion Gysin também), nos anos 50, vieram até nós, descobriram a nossa música e escreveram acerca dela. O Brion, por exemplo, veio só de férias e acabou por se deixar ficar por cá durante vinte anos. Foi através dessa pista que a nossa música se insinuou no Ocidente. O Paul Bowles chegou logo a seguir e, depois, vieram outros como o professor Timothy Leary que se deixaram prender pelas experiências de transe induzidas pelos músicos de Jajouka e que a procuraram compreender. O que levou, por exemplo, o William Burroughs a descrever a nossa sonoridade como a de "uma banda de rock'n'roll com 4000 anos de idade".



E essa descrição parece-lhe corresponder ao que é realmente a vossa música?
Acho que sim. Já ouvi muitos tipos de música diferente mas julgo que ele se referia aquele tipo de energia crua e intensa que se desprende do que fazemos. Mas que também se pode descobrir no jazz ou até na própria música clássica ocidental. (2000)
DESTE LADO DO MUNDO


Existirá na génese do fado uma raiz longinquamente árabe, muçulmana ou, sequer, magrebina? Terão as características melismáticas do "cante" alentejano alguma coisa a ver com o canto moçárabe? A verdade é que — inúmeras hipóteses e especulações à parte — a única resposta honesta que, até agora, tem sido possível dar é "não sabemos". Exactamente da mesma forma que o Ocidente, arrogantemente, desconhece praticamente tudo da música árabe e islâmica. Existem seguramente os nichos de especialistas, eruditos, académicos e cultivadores do exotismo. Mas, mesmo para quem se interessa de verdade pelo conhecimento das "músicas do mundo", é perfeitamente possível ignorar nomes, datas, géneros, acontecimentos cruciais. Como, há dez anos, me sucedeu no café mouro M'Rabet, do "souk" El-Attarine, em Túnis: hipnotizado pela avassaladora voz de barítono que, emergindo do pequeno leitor de cassetes, envolvia todo o ambiente, ousei perguntar quem cantava. Fui devidamente humilhado: "É apenas o maior cantor árabe de todos os tempos, Mohamed Abdel Wahab", responderam-me com justo e visível desprezo. Como se, em Portugal, um vil bárbaro americano me perguntasse "Então, quem é essa tal Amália Rodrigues?"...



Vergastado, tomei nota. Investiguei e era mesmo verdade. Era bem feito. Conhecia Oum Kalthoum e pensava que sabia quase tudo. Afinal, como já deveria desconfiar, sabia muito pouco. A sublime diva egípcia, Oum Kalthoum, e Mohamed Abdel Wahab são apenas dois exemplos em relação aos quais, por exemplo, a consulta das colecções de CD do Club du Disque Arabe poderia evitar embaraços semelhantes.


Oum Kalsoum

Mas quem faz sequer uma vaga ideia da importância que, no início do século XX, teve um género musical como o "dawr", de Casablanca a Argel, de Tripoli a Cartum, de Beirute a Damasco, do Cairo a Bagdad? Quem conhece a "femme fatale" tunisina dos anos 20, Habiba Msika? Quem ouviu falar de Sayid Darwich, de Asmahan ou Farid al-Atrash? Dir-se-à que, até há dois ou três anos, também quase tudo se desconhecia sobre os optimos veteranos músicos de Cuba. E é verdade. Eis, pois, agora, uma óptima oportunidade — ainda que pelas piores razões — para se começar a saber o que há muito se devia. Por exemplo, que, tal como no Ocidente, existe uma sofisticadíssima e elaborada música clássica árabe. Ou que, como ibéricos que somos, a cultura do Al-Andalus deveria dizer-nos muito mais do que o quase nada que nos diz. Alguns, não muitos, conhecerão o canto "qawwali" sufi do (já desaparecido) quase pop-star paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Mas quantos serão os que terão escutado os, pelo menos iguais, Sabri Brothers ou terão sequer uma ínfima ideia do revelador sentido filosófico/gnóstico do pensamento sufi islâmico?


Sabri Brothers

E quem terá ouvido a moderníssima iraniana residente em Nova Iorque, Sussan Deyhim, em Madman Of God, interpretando o sobrenaturalmente sábio Rûmi (para Leonard Cohen, "o maior poeta da divina embriaguez pelo amor"), Saadi, Djami e outros autores sufis, do século XI ao XIX? Haverá os que conhecem alguma coisa do pop-raï argelino por via de Khaled mas quantos já se terão atrevido a explorar o "malouf", a modalidade dos "tab" e "maqám", a "escola árabe-andaluz de Tlemcen" ou a música judaico-árabe de Ezzine-Ezzine, Ala Diennat ou Berouel Asbaine? E terá sido muita a curiosidade por músicos tão geniais como o marroquino Hassan Hakmoun, o turco Necdet Yaçar ou por todos os outros revelados pelas excelentes colectâneas da World Network?


Hassan Hakmoun

Como quase sempre acontece, a pop/jazz/rock foi à frente. E, sem esgotar exemplos, foi ela que através dos Saqqara Dogs, C-Cat Trance, Loop Guru, Trans-Global-Underground ou Jah Wobble se atreveu — directa ou indirectamente — a revelar o êxtase/transe/sufi/universal que, mais "etnologicamente autêntico", emergiu através de compilações como Crossroads Of Time e Trance, exemplos do "dikhr", recitação auto-encantatória do nome de Deus, que Brian Jones, William Burroughs, Paul Bowles, Ornette Coleman, Brion Gysin, Jimi Hendrix, Pharoah Sanders, Maceo Parker, Timothy Leary, Bill Laswell, Dissidenten, Marianne Faithfull e Sonic Youth aprenderam a declinar com os músicos marroquinos de Jajouka, Gnawa e todos os outros.


Dissidenten

Mas, acreditem, como quase todos nós, deste lado do mundo, eles conheciam muito pouco profundamente aquilo com que lidavam... (2002)

03 March 2007

A MORTE PELO ASSOMBRO


A história começa em Março de 1971, no lugar de La Chorrera, uma aldeia índia da Colômbia, no Alto Amazonas. Terence McKenna e o irmão Dennis (na altura, respectivamente, com 25 e 21 anos), descendentes directos da revolução psicadélica iniciada nos anos 60 por Timothy Leary, haviam viajado até aí com o objectivo de descobrir a pedra filosofal da alquimia espiritual. Como? Através do contacto com os xâmanes indígenas e pela ingestão das doses adequadas de cogumelos da psilocibina e da beberagem "ayahuasca", vias de acesso, segundo a tradição local, ao mesmo Verbo/Logos de que falam o evangelho cristão de João, as múltiplas correntes gnósticas, os Vedas, os sufis islâmicos, William Blake e todos os místicos das mais diferentes persuasões.

A experiência que eles, então, viveram (relatada no livro True Hallucinations/Alucinações Reais, em tradução brasileira Ed. Record/Nova Era) conduziria Terence a transformar-se no mais destacado porta-voz actual da cultura das substâncias psicadélicas e da sua relevância enquanto factor decisivo na evolução passada e futura da civilização humana.


Jefferson Airplane - White Rabbit (Woodstock 1969)

que em quatro livros (o já citado True Hallucinations bem como Caos, Criatividade e o Retorno ao Sagrado escrito com Ralph Abraham e Rupert Sheldrake, ed.Cultrix/Pensamento, O Retorno à Cultura Arcaica, ed. Record/Nova Era e O Pão dos Deuses, publicado em Portugal pela Via Optima), dezenas de cassetes audio e video, centenas de conferências e palestras e outros tantos "sites" na Internet, Terence McKenna essencialmente defende é o papel que o consumo dos cogumelos psicoactivos terá desempenhado para os nossos antepassados pré-históricos no desenvolvimento da linguagem e no estabelecimento de uma sociedade não hierárquica. Seria a esse "paraíso perdido" que todas as mitologias e tradições se refeririam e que, hoje seria urgente recolocar como paradigma da sociedade futura assente num "revivalismo arcaico" que combinaria harmoniosamente a consciência alterada "liberta do tumôr calcário do ego" com o desenvolvimento vertiginoso das tecnologias de informação digital, geradora de uma nova "mente planetária".


O Pão dos Deuses, em particular, é uma longa e erudita viagem através da cultura humana e da sua relação com as várias substâncias alteradoras da consciência que abre com uma paráfrase da abertura do "Manifesto Comunista": "Um espectro assombra a cultura planetária — o espectro das drogas". Daí, parte para uma investigação histórica exaustiva que analisa a forma como, da "relação gnóstica" inicial com os cogumelos, as sucessivas culturas e sociedades se foram tornando dependentes de outras drogas verdadeiramente nocivas e usadas como armas de dominação — o ópio, a cocaína, o café, o açucar, o tabaco, o álcool, o cacau, a heroina, os tranquilizantes,...a televisão — e o modo como todas as políticas proibicionistas falharam.



Conclui com uma "proposta modesta" em dez pontos onde reclama "um imposto federal de 200% sobre o tabaco e o álcool", a "legalização de todas as formas de cannabis" submetidas ao mesmo imposto, o fim de todos os empréstimos do FMI e do Banco Mundial aos países produtores de drogas duras, a "legalização da terapia psicadélica" e o "apoio massivo às pesquisas científicas relativas a todos os aspectos do uso e abuso de substâncias e um compromisso igualmente massivo com a educação pública".


McKenna não é um vulgar guru "new age" ou apenas um "dealer" psicadélico sofisticado. Licenciado pela Universidade da Califórnia em Berkeley em ecologia, conservação de recursos e xamanismo, é ele o primeiro a marcar distâncias relativamente às consequências da "revolução psicadélica" dos anos 60:"Não creio que devamos repetir o que, nessa época, Timothy Leary, Richard Alpert ou Ralph Metzner fizeram. A euforia desse tempo, a suposição de que bastava apresentar essas coisas para que a humanidade se transformasse, era terrivelmente ingénua. Tentar lançar uma 'cruzada das crianças' usando os meios de comunicação como vanguarda foi um negócio muito arriscado e as consequências foram péssimas. Não acho que essas coisas devam ser feitas em grupos muito grandes".



Para fundamentar as suas afirmações, tanto cita Borges, Joyce, Jung, Platão, Parménides, Philip K. Dick ou Alfred North Whitehead como refere os mistérios de Eleusis, o Rig Veda, os rituais das planícies argelinas de Tassili-n-Agjer ou da civilização de Çatal Hüyük. E, curiosamente, algumas das concepções que defende foram reforçadas por investigações posteriores, nomeadamente a relação entre os transes alucinogénios dos xâmanes tribais e a sua representação nas gravuras rupestres que o trabalho de arqueólogos como David Whitley, David Lewis-Williams e Jean Clottes confirmou.

Vivendo no Havai, onde dirige a fundação "Botanical Dimensions" que preserva e cultiva as plantas utilizadas nas tradições xamânicas, foi com Terence McKenna que falámos a propósito dos seus pontos de vista sobre esse "espectro" que aterroriza o mundo.



De acordo com a teoria que desenvolve em O Pão dos Deuses, o elemento crucial que terá desencadeado a evolução superior da Humanidade, desde a Pré-História, terá sido a ingestão de cogumelos alucinogénios que se desenvolviam no estrume dos rebanhos. Também afirma que a perda de contacto com os alucinogéneos vegetais foi a razão para a "expulsão" desse Paraíso primordial e para a queda em sociedades hierárquicas de domínio masculino. Significa isso que a relação com os cogumelos psicoactivos não possui um efeito transformador a longo prazo e que os efeitos de transformação comportamental não são transmitidos cultural e geracionalmente?
É exactamente isso. As capacidades e as atitudes socialmente benéficas adquiridas pelas populações que consumiam os cogumelos desapareceram bastante rapidamente a partir do momento em que eles deixaram de estar acessíveis. Alguns comportamentos desenvolvidos sob o efeito dos cogumelos — como a evolução da linguagem — perderam depressa as suas qualidades sagradas e xamânicas e converteram-se numa pura rotina destinada apenas a servir objectivos utilitários. Logo, profanada.



Numa das suas conferências, afirmou que o motivo pelo qual possuimos a linguagem e noções como "comunidade", "altruísmo", "lealdade", "fraternidade" e "esperança" é porque, durante algumas centenas de milhares de anos, a espécie humana se automedicou e "suprimiu a presença venenosa do tumor calcário do ego". Mas, se realmente existiu alguma vez tal sociedade, por que motivo o homem se atreveu a perder contacto com ela, sabendo perfeitamente o que fazer para a conservar?
As mudanças climáticas, especificamente, o processo de desertificação do Norte de África, conduziram a uma situação na qual os cogumelos já não se encontravam tão facilmente acessíveis a toda a gente através da simples recolecção. Procuraram-se outros substitutos, os rituais envolvendo os cogumelos tornaram-se menos frequentes até serem um exclusivo de uma elite ou casta xamânica. O resultado final foi a perda da influência dos cogumelos em relação ao comportamento das pessoas comuns.


Jimi Hendrix - Purple Haze

Quando se refere aos diversos aspectos das drogas psicadélicas, fala a partir do seu ponto de vista individual. O que o faz pensar que ele é igualmente válido para pessoas originárias de outras tradições culturais, sociais e religiosas?
O efeito das plantas e substâncias psicadélicas não se dirige ao condicionamento cultural individual que é bastante superficial. Dirige-se e actua sobre o cérebro humano e o sistema nervoso. Estas são estruturas anatómicas e fisiológicas comuns a todos os seres humanos em todos os tempos e lugares. Daí que a mensagem do cogumelo seja universal.



Por muito significativas que as suas experiências psicadélicas tenham sido, por que motivo as encara como verdadeiros acontecimentos metafísicos e transformadores da forma como vê o mundo e não apenas como os previsíveis efeitos de alteração da mente através da acção de drogas psicotrópicas?
Ninguém sabe o que é a mente. A origem e o significado da consciência é um dos grandes mistérios da filosofia. Quando me faz essa pergunta, assume o ponto de vista do materialismo científico, assume que estas experiências são "apenas" provocadas pelas drogas. Mas, na verdade, as situações que ocorrem sob o efeito delas são tão reais e merecem tanto a nossa atenção como quaisquer outras. O facto de, para a ciência, ser difícil desconstruí-las e elaborar um modelo capaz de as explicar é um problema da ciência, não meu.

Quando lhe perguntam se as drogas psicadélicas são perigosas, costuma responder "apenas se recearmos a morte pelo puro assombro". Não pensa que os medos e as ansiedades individuais possam desempenhar um papel negativo nessas experiências?
Até determinado ponto, sim. As drogas psicadélicas não devem ser tomadas por pessoas que possuam uma história de perturbações mentais, que sejam maníaco-depressivas ou que utilizem antidepressivos ou outras drogas psicoactivas porque essas drogas podem interagir de modos inesperados com os psicadélicos naturais. A administração de drogas psicadélicas é uma actividade comparável à escalada de montanhas ou à navegação à vela no alto mar. É indispensável compreender o equipamento, o clima e as limitações próprias de cada um. Se estivermos preparados e formos cautelosos, então, o perigo é mínimo.



Está, portanto, de acordo com a opinião de Timothy Leary segundo a qual "o LSD é uma droga que pode ocasionalmente provocar comportamentos psicóticos nas pessoas que não a tomam"?
É verdade, gosto muito dessa citação. Torna absolutamente claro que não precisamos de consumir uma droga para sermos afectados por ela. As liberdades e os direitos de todas as pessoas têm sido diminuidos pela repressão institucional sobre as drogas. Mesmo os das pessoas que nunca as tomaram.

Todas estas experiências, conduziriam, finalmente, à possibilidade de a linguagem se tornar literalmente visível, quase telepática. Podia desenvolver essa ideia?
O processamento neuronal da linguagem pode ser experienciado como sendo ouvido ou visto. O que, aparentemente, é determinado por factores culturais. Uma cultura que escuta o sentido em vez de o ver, opera num espectro de onda muito mais estreito e representa uma expressão inferior do que uma sociedade humana poderia ser capaz. A tendência geral no desenvolvimento da tecnologia das comunicações e nas drogas psicadélicas dirige-se no sentido do processamento visual da linguagem. Colectivamente, experimentamos este processo como o crescimento de uma sociedade mais telepática.



Já afirmou que "a maioria das demandas espirituais é realizada com o acelerador metido a fundo" e que, "uma vez que se descobrem as drogas psicadélicas, a resposta foi encontrada". Significa isto que toda a procura espiritual terá de ser forçosamente realizada através das drogas psicadélicas?
É evidente que se podem atingir conclusões intelectuais acerca de um percurso espiritual sem ingerir substâncias psicadélicas. Mas, se falamos do ponto de vista da experiência, então as drogas psicadélicas são a abordagem das chamadas dimensões espirituais mais segura, eficaz e liberta de ideologias.

Quando afirma que "cinco gramas de cogumelos de psilocibina tomados em silêncio na escuridão de um apartamento dar-nos-ão imediatamente a certeza de que Fernão de Magalhães deveria passar para segundo plano", não está a exagerar um bocadinho? E, já agora, não se esqueça que Fernão de Magalhães era português...
(risos) Fernão de Magalhães, apesar de ter morrido durante essa viagem, é recordado por uma expedição de circumnavegação do mundo conhecido. O que eu pretendi dizer foi justamente isso: sem sairmos do interior de um apartamento, a ingestão de uma substância psicadélica deixar-nos-à com a sensação de termos dado uma volta inteira em torno do universo conhecido e, talvez, também com a impressão de, algures durante o percurso, termos morrido.



Diz que a experiência psicadélica é "a abertura da porta para um continente perdido do espírito humano e para a natureza deste mundo perdido que é uma enteléquia de Gaia". Podia explicar um pouco melhor esta ideia?
A ascenção das culturas históricas enfraqueceu progressivamente as ligações à experiência xamânica das plantas psicadélicas e isto permitiu que se desenvolvessem normas culturais que eram contraditórias com a inteligência viva e coerente da biosfera planetária. É precisamente este o Grande Espírito com que todas as culturas aborígenes permaneceram em contacto. A queda no domínio da História foi uma queda num estreito desfiladeiro onde toda a unidade e inteligência do Ser foram obscurecidas.

É exactamente neste ponto que tudo se poderá relacionar com a sua "Teoria da Novidade" ou "Onda Temporal Zero", segundo a qual, um dos pontos cruciais no aceleramento progressivo da História da Humanidade se aproxima, ao encontro do que designou como "o objecto transcendente no final dos tempos" que deverá ocorrer por altura de 21 de Dezembro de 2012. O que aconterá exactamente nessa altura?
Ainda é demasiado cedo para se dizer alguma coisa. Será mais fácil adiantar algo por volta de 2012. Por agora, sabemos apenas que temos um encontro marcado com qualquer coisa de absolutamente inimaginável, algo que estabelecerá a fusão entre nós, as nossas máquinas e a alma do mundo orgânico num único ser.


The Shamen - Re: Evolution with Terence McKenna

Por que motivo, na sua teoria da "Onda Temporal Zero", estabeleceu uma relação entre esse "final dos tempos" e o fim do calendário Maia que coincide também com 21 de Dezembro de 2012?
Simplesmente porque as minhas conclusões acerca da data dessa singularidade iminente e a presumível data do fim do calendário Maia eram tão perfeitamente congruentes que não pude evitar de supôr que existiria uma relação entre as duas coisas. A forma como os Maias estabeleceram essa data é um assunto que continua a ser objecto de estudo.



Acho muito interessante a sua história sintética da evolução da Terra que se inicia com o Big Bang e termina com o aparecimento de seres humanos utilizadores da linguagem, consumidores de cogumelos e orgiásticos. Como disse, no início do século XXI, tudo isso deverá convergir para uma espécie de organismo global. O que podemos esperar disso?
Se tudo correr bem, o desenvolvimento da inteligência humana, o aparecimento de máquinas e de "software" inteligentes, o surgimento de estados mentais de grupo, de formas de imortalidade assistidas mecânicamente e de panorâmicas só acessíveis a Deus de entendimento integrado e harmonioso.

Cito-o mais uma vez:"Estamos à beira de ser testemunhas da libertação da vida da crisálida da matéria. Esta é a geração final de humanos com um pé no domínio material do primata e outro na escadaria de acesso à divindade". Como é que vê isso a acontecer?
Através de uma integração nano-tecnológica-cripto-biológica do humano com as máquinas e com a inteligência de Gaia. (1999 - Terence McKenna morreu a 3 de Abril de 2000)