Showing posts with label The Weather Station. Show all posts
Showing posts with label The Weather Station. Show all posts

27 February 2025

08 February 2025

 
(sequência daqui) Se o peso de "carrying a body that's tired from carrying a mind" durante uma descida aos abismos ("It felt like a second adolescence, like puberty, it's ugly. It's rotten. It's bad. It's yucky, you don't feel good") é insuportável, o processo de catarse através da criação musical - a concentração nos detalhes, os exercícios de exploração tímbrica, rítmica e melódica, os contrastes acústico/eléctrico, a estruturação quase geométrica em contigudade com os espaços de libérrimo movimento - pode oferecer algum norte e alívio para navegar sem demasiados acidentes em águas pouco tranquilas. Essa missão quase impossível cuja finalidade Tamara Lindeman sintetiza assim: "Mantermo-nos vivos e viver com a mente que temos. A minha mente é bastante difícil e, por vezes, tenta acabar comigo. É difícil chegar ao conhecimento mas essa dificuldade também é bela. Imaginamo-nos constantemente como anjos, o que é falso. Ou como demónios, o que também é falso. Não conseguimos entender-nos como as confusas criaturas que somos. Mas, se deixarmos de lado tudo o que é sombrio e feio, prestamos um mau serviço à realidade. E eu não faço música escapista".

03 February 2025

 
(sequência daqui) Por altura de Ignorance, Tamara Lindeman confessava: “Não é fácil fazer caber o mundo numa canção. Quando tentamos fazê-lo conscientemente, na maioria das vezes, falhamos. As melhores canções exigem uma certa humildade. Trata-se apenas de descobrir o botão certo, premi-lo, e esperar que quem ouve faça o resto”. Desta vez, terá sido, certamente, ainda menos fácil. Porém, armada com uma terapêutica poderosa ("Uma lista de 4 horas de música experimental, hip hop, June Tabor e Fairport Convention", confessaria ela à "Mojo"), durante duas sessões nos estúdios da Canterbury Music Company, de Toronto, na companhia de Kieran Adams (bateria), Ben Boye (teclados), Philippe Melanson (percussões), Karen Ng (sopros), e Ben Whiteley (baixo), optou por uma abordagem de improvisação livre cujos resultados haveriam de ser burilados posteriormente às mãos do produtor Marcus Paquin, de James Elkington (guitarra), do eclético Sam Amidon e do mago textural, Joseph Shabason, e posteriormente refinados na mesa de mistura de Joseph Lorge para que se constituisse enquanto peça musical unificada por pequenos fragmentos sonoros intersticiais. (segue para aqui)

01 February 2025

 
(sequência daqui) Em 2022, quando, enfim, uma parte substancial do universo se rendera perante a excelência da obra de Tamara, ela antevia que o que se seguiria a How Is It That I Should Look at the Stars não seria apenas "uma coisinha extra" mas sim um álbum "mais completo, mais encorpado", "another big record". Na verdade, Humanhood não viria a ser algo de confortavelmente construído sob um cenário de sucesso finalmente atingido: debatendo-se com um severo surto de perturbação mental, Humanhood acabaria por ser tanto um registo da jornada de travessia das trevas como um hesitante mapa do percurso de regresso à luz: "Escrevi durante um momento de grande confusão, de me sentir virada do avesso, um daqueles momentos em que até o desejo se extingue e a dissociação nos corta o contacto com uma história que, apesar de errada, ainda conseguia manter todas peças juntas. Uma canção como 'Neon Signs' surgiu como uma forma de atar vários fios; o modo como uma coisa que não é verdadeira parece ter ainda mais intensidade do que outra que o é; a confusão de ser bombardeada com publicidade num momento de emergência climática, a confusão das relações nas quais a coacção é embrulhada na linguagem do amor. Na realidade, não é tudo a mesma sensação?..." (segue para aqui)

30 January 2025

ÁGUAS POUCO TRANQUILAS
Uma sucessão de vistas aéreas sobre as luzes noturnas de Toronto. A câmara desce para apanhar Tamara Lindeman deitada sobre o pavimento, escondida, enroscada sobre si mesma ("I’ve gotten used to feeling like I’m crazy - or just lazy. Why can’t I get off this floor? Think straight anymore?"). Ergue a cabeça, olha-nos e parece tocar na câmara para a redireccionar sobre o movimento da rua ("Out on the street, I went walking in a punishing heat - nobody meets my eyes except witty signs and luxury designs. Every neon sign every flashing light tries to fool you"). Ao longo do caminho, diversas pessoas empurram-se, são molestadas, incomodadas, roubadas, pontapeiam lixo, agridem-se. Tamara parece ser perseguida mas liberta-se ("Every neon sign every flashing light tried to fool me. There I was - just stretching out my mind to take in every wounded story. Nothing needs you so badly as a lie, so lonely, drifting, unmoored from real life"). A câmara, rente ao chão, filma passos, túneis, autoestradas. Por fim, imobiliza-lhe o olhar e os movimentos sob golpes de luz e regressa à "skyline" urbana ("Till I fell out of desire like a slipped knot I fell out of desire and nothing caught I fell out of the fire wasn’t even hot I could feel nothing nothing nothing nothing naught"). É uma sinopse do vídeo de "Neon Signs" de Humanhood, o álbum de Tamara Lindeman/The Weather Station, que sucede ao par Ignorance (2021)/How Is It That I Should Look at the Stars (2022). E que deve ser escutada como uma esclarecedora introdução ao que não era suposto ter sido essa sucessão. (daqui; segue)

18 January 2023

LUGAR DE INVENÇÃO
Há dois anos, na qualidade de metade do duo (com Sima Cunningham), Ohmme - hoje, Finom -, Macie Stewart, a propósito da publicação de Fantasize Your Ghost, explicava como um concerto de Marc Ribot no “Constellation”, de Chicago, lhes tinha transformado por completo a forma como encaravam a música: “Não fazia a mais pequena ideia de que podia tocar-se guitarra assim... Foi o clique. Estávamos um bocado nervosas com a ideia mas também sabíamos que tínhamos conhecimentos de música suficientes que nos permitiam lidar com algo que nos era tão estranho e ser capazes de avaliar se o que faríamos valia a pena ou não prestava”. Não poderia ter mais razão: da mui improvável articulação de perfeitíssimas harmonias vocais com fórmulas como “tratar o feedback como um anel de fumo a que damos forma e expandimos” resultaria um dos mais surpreendentes álbuns de 2020. Para Macie, contudo, havia algo que permanecia por explorar: ela, criatura de formação clássica desde os 3 anos, mas também parte activíssima da cena experimental/"improv" de Chicago, próxima de gente como Claire Rousay, Weather Station, Lia Kohl ou Ken Vandermark, reconhecia que, no interior das comunidades musicais, a “polinização cruzada” era indispensável mas que isso a impedira de se conhecer a ela mesma. (daqui; segue para aqui)
 

04 May 2022

(full album visualizer)

(sequência daqui) Tamara Lindeman não tem muitas dúvidas: “Não é fácil fazer caber o mundo numa canção. Quando tentamos fazê-lo conscientemente, na maioria das vezes, falhamos. As melhores canções exigem uma certa humildade. Trata-se apenas de descobrir o botão certo, premi-lo, e esperar que quem ouve faça o resto”. Experimentemos então, por exemplo, escutando-a a desafiar os constrangimentos da linguagem: “And you pointed out the window – looking straight in at me – a black and white bird sitting on the fence. I thought about the man who called it magpie; confronted by the great expanse of his ignorance, he wanted to name it, to detain it, forever in that small phrase, it seemed like a shame, to give it a name”. Ou procurando decifrar o sentido do tremendo enigma final: “It's only the end of an endless time, they don't put that in the paper, you won't hear it on the news, but we knew and it's just like a sunset about to begin”.

01 May 2022

(sequência daqui) Durante esses três dias, ao piano e com o transparente acompanhamento de um quinteto de luminárias da cena jazz/improv local – Christine Bougie (guitarra e lap steel), Karen Ng (saxofone e clarinete), Ben Whiteley (contrabaixo), Ryan Driver (piano, flauta e voz), e Tania Gill (teclados) –, concentrou-se naquelas canções que, durante o processo de construção de Ignorance, sem lhe pertencerem verdadeiramente, teimavam em surgir: “Apercebi-me que estava a escrever dois álbuns diferentes. Um para ser publicado e outro que ficaria só para mim. Mesmo não as imaginando no disco em que que estava a trabalhar, elas queriam existir. Quando terminei Ignorance, voltei a pensar no que tinha deixado escondido no bloco notas e senti vontade de não as deixar esquecidas e assegurar que acabassem por ser gravadas. Apenas para que pudessem existir, sem nenhum plano para o destino a dar-lhes”. Mas, porque sempre que uma coisa fica por publicar é como se estivesse inacabada e ambos os discos “espreitam um qualquer final, uma enorme mudança plena de incertezas, em curso no nosso mundo”, How Is It That I Should Look At The Stars, quase como um eco pianissimo de Ignorance, deixaria de ser objecto secreto. (segue para aqui)

28 April 2022

O INÍCIO DO POENTE

 

Os céus estão cheios de fantasmas. Mesmo aqui ao lado, a 2,5 milhões de anos-luz de distância, inúmeras cintilações de Andrómeda que observamos pelo telescópio foram geradas por estrelas há muito extintas na explosiva glória de supernovas. Continuamos a ver o que já não existe tal como, sem nos darmos conta, podemos habitar hoje um mundo que não é mais o de ontem. Como haveremos, então, de olhá-las? A pergunta é-nos dirigida por Tamara Lindeman em How Is It That I Should Look At The Stars. Um ano após ter concluído Ignorance, entre 10 e 12 de Março de 2020, Tamara (aliás, The Weather Station) entrou no estúdio da Canterbury Music Company de Toronto para gravar as “peças do puzzle que faziam falta” a esse álbum. No dia 13, o primeiro ministro do Canadá, em quarentena, anunciava um plano de restrições severas para combater a disseminação do coronavirus. “Entrámos no estúdio pela porta de um mundo e saímos pela de outro”, conta Lindeman à “NBHP”, acrescentando: “Praticamente todas as canções deste álbum são acerca do acto de ver, sobre a percepção e sobre a necessidade de a interrogar”. (daqui; segue para aqui)

11 March 2021

(álbum integral)

(sequência daqui) A música enquanto cavalo de Tróia dos textos e das ideias dispõe, então, de uma via de acesso milimetricamente pavimentada: para edificar “a big complicated album that was hi-fi, rhythmic, passionate and painful”, foi necessário imaginar o ritmo como uma jaula (“O que colocamos nos espaços entre as barras de ferro? Quanto menos emoção se situasse no ritmo, mais espaço haveria, para o resto da música e da voz”), entregá-la a uma propulsiva dupla – Kieran Adams e Philippe Melanson – com o nó sinusal sintonizado na onda de Bryan Devendorf, dos National, controlar com mão de ferro os momentos de régua e esquadro no estirador e os de absoluta liberdade, apontar sax, flauta, guitarra, piano e sintetizador para um lugar algures entre uns Prefab Sprout e Blue Nile tingidos de jazz. E, aí chegados, encarnar, verdadeiramente, o papel de estação meteorológica dedicada à detecção dos sinais do apocalipse. Se tudo não correr irremediavelmente mal, talvez possa estabelecer-se um acordo acerca do diagnóstico. Aquele que, à “Stereogum”, Tamara propõe, é, sem dúvida, acertado: “O problema não é a ignorância. Uma teoria da conspiração não é ignorância, é conhecimento falso que arrumamos num espaço acerca do qual nada sabemos. Ignorância é quando pensamos não ser ignorantes. E, quando, perante um mistério, não temos a humildade de dizer ‘é possível que eu não compreenda’. No momento em que sabemos que não compreendemos, talvez consigamos começar a ser mais cautelosos e a fazer mais perguntas”. Resta saber se funciona.

09 March 2021

(sequência daqui) A resposta é não, não pode. “Of all the many things that you may ask of me, don’t ask me for indifference” diz ela, no nono capítulo desta averbação – ampliada, reflectida, redobrada – do divórcio entre a espécie humana e a Terra, etapa mais recente de um percurso com rumo bem definido: “Escrevo canções acerca de coisas que existem. É uma forma de combater aquela música que é, frequentemente, sobre fantasias. Prefiro concentrar-me na realidade e em verdades mais profundas e que passam despercebidas”, lê-se na biografia do Bandcamp. É, justamente, por esse lado que entram Varda e a enigmática personagem dos espelhos: “A câmara pretende convencer-nos que sabe tudo mas não sabe. Quis apenas abrir um pequeno portal para que as pessoas pudessem compreender que há mais coisas para ver. A ideia era atrair o olhar e devolvê-lo imediatamente. Como se eu fosse invisível. E também uma metáfora visual para como nos sentimos quando actuamos: para o bem e para o mal, as pessoas projectam-se em nós e esperam que lhes enviemos um reflexo”, explicou à “Pitchfork”.

 

O grande tema, mesmo quando isso não é aparente, é a arrasadora devastação a que o planeta tem sido submetido às mãos da ignorância politicamente motivada. Mas sem nunca recorrer a palavras de ordem nem agitar bandeiras para que se entenda que “the robber” personifica a avidez capitalista legalizada (e até sedutora: “When I was young, I learned how to make love to the robber, to wring from his hand the touch of a lover”) ou que "Wear" (“I tried to wear the world like some kinda jacket, it does not keep me warm, I cannot еver seem to fasten it“) não tenha sido inspirado por desfiles de moda. “Esse tipo de linguagem panfletária, musicalmente, nunca resulta, a menos que estejamos a escrever uma canção de protesto. Já tentei fazê-lo e falhei sempre. Escrever uma canção de protesto é a coisa mais difícil em que se pode pensar”. (segue para aqui)

07 March 2021

COMO SE FOSSE INVISÌVEL

A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.

"Robber"

Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.

"Tried To Tell You"

Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)

22 May 2018

UM PONTO DE EQUILÍBRIO


Cinco anos após About Farewell, Alela Diana publica Cusp, um álbum composto entre o nascimento das duas filhas e – por esse motivo mas não só – acerca da experiência da maternidade: “Se somos artistas mas também mulheres e mães, o caminho é muito mais difícil. Neste disco, quis especificamente escrever sobre esse tópico. Tenho a sensação que se espera que o varramos para baixo do tapete, não se fale mais nisso e se ande para a frente como se nada tivesse acontecido nem merecesse ser abordado. Mas, para mim, mudou tanto a minha vida que não me passaria pela cabeça não escrever sobre isso”. Um saber de amarga experiência feito: “Exerce-se uma enorme pressão sobre as mulheres para serem jovens, belas e se manterem desejáveis, e a questão da maternidade levanta imensos obstáculos. Quando fiquei grávida da minha filha mais velha, tinha saído da Rough Trade mas havia uma outra editora que estava interessada. No entanto, assim que souberam que eu estava grávida, desistiram. Tinha-me tornado, subitamente, obsoleta, inapta para trabalhar, dar concertos, e um enorme problema de marketing. Isto tem um nome: discriminação”. 

    Cusp foi composto durante uma residencia artística no Arts Center de Caldera, na encosta das Cascade Mountains, no Oregon. Mas To Be Still (2009) também já havia resultado de um processo semelhante de isolamento, numa cabana de Portland, apenas com um gato por companhia...

Foi bastante diferente. No caso de To Be Still, eu, de facto, vivia numa cabana, em Portland. Era mais nova e tinha toda a reclusão de que precisava. Desta vez, tratou-se de uma residência artística, durante três semanas e meia, em Caldera, no Oregon, em Janeiro de 2016. Já tinha uma filha de três anos e precisava de toda a calma e tranquilidade para poder escrever. Encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida familiar e a criatividade não é fácil.

    Mas alguma forma de isolamento é-lhe essencial?

Esse isolamento tanto pode acontecer numa cabana nas montanhas como num qualquer outro lugar sereno. Preciso de espaço mas também pode perfeitamente acontecer que escreva o texto de uma canção à mesa de um café que é um sítio ruidoso, desde que consiga habitar o meu mundo e possa dispor de momentos para por alguma ordem no pensamento.
 


    
    Ter composto a maior parte deste álbum ao piano modificou o carácter ou a tonalidade das canções de alguma forma? Consegue imaginar como teriam sido se as tivesse composto à guitarra?

Não sei... é verdade que o piano abre um pouco mais as canções, evoca um tipo de sensações diferentes. Mas, reflectindo sobre a forma como resultou – até porque foi a minha primeira experiência com o piano –, parece-me que, sem dúvida, modificou o espírito do álbum.

    Numa entrevista sua que li numa publicação francesa, às tantas, diz que “no fundo, as pessoas não querem saber da folk para nada”... 

Eu disse isso?

    Foi o que eu li... 

Há pessoas que, nesta matéria, são muito tradicionalistas e puristas e não suportam que não se leve a tradição à letra. Isso nunca foi coisa que me interessasse... 

    Mas ainda existem muitos espécimes dessa corrente de pensamento-Pete Seeger?...

Há, há... Eu não sou purista de modo algum mas compreendo que exista quem se preocupe dessa forma, quem leve terrívelmente a sério a história e a tradição folk. Creio que, nessa entrevista, estaria a falar acerca do facto de, no contexto musical em geral, actualmente, a folk music não ser a "hot new thing" que já foi, por volta de 2005. Quando, nessa altura, publiquei The Pirate’s Gospel, a redescoberta da folk, a recuperação das sonoridades e instrumentos acústicos, estavam num momento de grande evidência e muita gente lhes prestava imensa atenção. Mas os gostos e as tendências mudam muito rapidamente e, hoje, estamos longe de viver uma situação idêntica.


    Mas continuam a existir bastantes músicos e artistas que podem ser incluídos nessa área e que não são propriamente ignorados... a Jesca Hoop, a Tamara Lindeman (dos Weather Station), a Laura Marling, a Nina Nastasia, a Sharon Van Etten, que até apareceu num dos episódios desta última temporada de Twin Peaks...

A sério?... Que sorte... Pois... esse meu comentário deve ser entendido no contexto geral daquilo que é mais popular nos media, actualmente. 

    Sempre suspeitei da Sandy Denny que existia em si. E, agora, em Cusp, aparece uma canção sobre ela e a ela dedicada...

Tenho um imenso respeito por ela enquanto "singer/songwriter". Era extraordinariamente poderosa e arrebatadora. E aquela voz... Descobri-a quando andava pelos vinte e poucos anos e estava a iniciar a minha própria carreira musical, apaixonei-me pela voz dela. Primeiro, através dos discos com os Fairport Convention e, depois, os outros, a solo. Não posso dizer que tenha ouvido tudo, tudo que ela gravou. Mas aqueles que conheço são uma preciosidade.

    Se quiséssemos identificar alguma influência dela neste seu último álbum, poderíamos dizer que provém mais dos últimos discos a solo, mais densamente orquestrados?

Não sei... eu inspiro-me em bastante música do passado mas nunca de uma forma absolutamente deliberada, como se escutasse um disco e pensasse fazer uma réplica exacta dele. Isso pode incluir, por exemplo, tanto gravações da Joni Mitchell nas quais ela explora orquestrações mais jazzy e com cordas, como as coisas da Sandy Denny de que temos estado a falar. Vou escrevendo as minhas canções e explorando as formas que me parecem mais adequadas a cada uma delas. Mas não estou o tempo todo a pensar em música nem me dedico a conhecer o catálogo integral de um artista de que goste. Gosto muito do Leonard Cohen ou da Joni Mitchell mas não conheço todos os álbuns deles.
 


     
    Neste álbum, algumas canções socorrem-se de belíssimos arranjos de cordas ("Émigré", por exemplo) e "Yellow Gold" acaba afogada em dissonâncias... 

É uma maneira de assegurar que, para mim, as coisas continuem a ser interessantes: experimentar arranjos diferentes em que aconteçam surpresas sonoras. 

    Quando, em 2011, Bob Dylan celebrou 70 anos, o “Observer” perguntou a uma série de músicos que presente gostariam de lhe oferecer. A Alela sugeriu uma tarte de maçã. Agora que ele é um ilustre Nobel da Literatura, mantinha essa sugestão?

(risos) Tenho a certeza que ele pode comprar aquilo que lhe apetecer mas uma tarte de maçã caseira continuaria a ser uma prenda oferecida do fundo do coração. E no que respeita ao Nobel, como não reconhecer que, há décadas, ele escreve as palavras que tanta gente, em todo o mundo, adora? O homem é um escritor. E um muito bom escritor.

13 December 2017

METEOROLOGIA

  
No preciosíssimo Nighthawks At The Diner (1975), logo após a "Opening Intro", Tom Waits lança-se num encantadoramente rosnado "Emotional Weather Report" no qual anuncia “Things are tough all over when the thunderstorms start increasing over the southeast and south central portions of my apartment, I get upset and a line of thunderstorms was developing in the early morning ahead of a slow moving cold front”. É o mais explícito mas não o único exemplo da pequena obsessão meteorológica de Waits: no próprio Nighthawks..., há ainda "On A Foggy Night" e, em matéria de chuva, haverá que indexar "A Little Rain" (Bone Machine, 1992), "Make It Rain" (Real Gone, 2004), "More Than Rain" (Franks Wild Years, 1987), "Rain Dogs" (Rain Dogs, 1985) e "Rains On Me" (Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards, 2006). A que poderão acrescentar-se ainda as outonais "November" (The Black Rider, 1993) e "Last Leaf" (Bad As Me, 2011), e a ruminativa "Strange Weather" (Big Time, 1988). Chegou mesmo a fazer uma brevíssima teorização – de âmbito um pouco mais alargado – sobre o assunto: “A minha ideia é que todas as canções devem referir-se ao clima, ter nomes de cidades e ruas, um ou dois marinheiros e alguma coisa que possa comer-se, no caso de sentirmos fome”



Nada garante que a canadiana Tamara Lindeman (aliás, numa vida paralela como actriz de cinema e televisão, também conhecida por Tamara Hope), quando tratou de escolher o "pen name", tenha ido pescar nas metáforas climáticas de Tom Waits. Mas, sem dúvida, The Weather Station, ainda que não literalmente, inscreve-se nessa linhagem em que as atmosferas exterior e mental se confundem. Ao quarto álbum, aparenta ter chegado a um lugar vizinho do ocupado por Laura Marling embora Joni Mitchell, Suzanne Vega e Aimee Mann devam ser, especialmente, chamadas à conversa. Há um transbordante vai-e-vem de palavras entre o mundo supostamente objectivo e o filtro através do qual o julgamos decifrar (“With the radio on, and they're talking another shooting, floods creeping in the lowlands, everybody's shouting, and I just hold your hand” ou “Gas stations I laughed in, I noticed fucking everything, the light, the reflections, different languages, your expressions”) e um inesgotável baú de melodias e joalharia orquestral capazes de imobilizar o tempo num aforismo: “Love, it is no mystery, I love because I see”.