MÚSICA 2025 - INTERNACIONAL (IV)
Crayola Lectern - Disasternoon
The Delines - Mr. Luck & Ms. Doom
The Weather Station - Humanhood
Poor Creature - All Smiles Tonight
o resto
MÚSICA 2025 - INTERNACIONAL (IV)
Crayola Lectern - Disasternoon
The Delines - Mr. Luck & Ms. Doom
The Weather Station - Humanhood
Poor Creature - All Smiles Tonight
Vários - In The Echo: Field Recordings From Earlsfort Terrace
The Weather Station - How Is It That I Should Look At The Stars
(full album visualizer)
(sequência daqui) Tamara Lindeman não tem muitas dúvidas: “Não é fácil fazer caber o mundo numa canção. Quando tentamos fazê-lo conscientemente, na maioria das vezes, falhamos. As melhores canções exigem uma certa humildade. Trata-se apenas de descobrir o botão certo, premi-lo, e esperar que quem ouve faça o resto”. Experimentemos então, por exemplo, escutando-a a desafiar os constrangimentos da linguagem: “And you pointed out the window – looking straight in at me – a black and white bird sitting on the fence. I thought about the man who called it magpie; confronted by the great expanse of his ignorance, he wanted to name it, to detain it, forever in that small phrase, it seemed like a shame, to give it a name”. Ou procurando decifrar o sentido do tremendo enigma final: “It's only the end of an endless time, they don't put that in the paper, you won't hear it on the news, but we knew and it's just like a sunset about to begin”.
(sequência daqui) Durante esses três dias, ao piano e com o transparente acompanhamento de um quinteto de luminárias da cena jazz/improv local – Christine Bougie (guitarra e lap steel), Karen Ng (saxofone e clarinete), Ben Whiteley (contrabaixo), Ryan Driver (piano, flauta e voz), e Tania Gill (teclados) –, concentrou-se naquelas canções que, durante o processo de construção de Ignorance, sem lhe pertencerem verdadeiramente, teimavam em surgir: “Apercebi-me que estava a escrever dois álbuns diferentes. Um para ser publicado e outro que ficaria só para mim. Mesmo não as imaginando no disco em que que estava a trabalhar, elas queriam existir. Quando terminei Ignorance, voltei a pensar no que tinha deixado escondido no bloco notas e senti vontade de não as deixar esquecidas e assegurar que acabassem por ser gravadas. Apenas para que pudessem existir, sem nenhum plano para o destino a dar-lhes”. Mas, porque sempre que uma coisa fica por publicar é como se estivesse inacabada e ambos os discos “espreitam um qualquer final, uma enorme mudança plena de incertezas, em curso no nosso mundo”, How Is It That I Should Look At The Stars, quase como um eco pianissimo de Ignorance, deixaria de ser objecto secreto. (segue para aqui)
O INÍCIO DO POENTE
Os céus estão cheios de fantasmas. Mesmo aqui ao lado, a 2,5 milhões de anos-luz de distância, inúmeras cintilações de Andrómeda que observamos pelo telescópio foram geradas por estrelas há muito extintas na explosiva glória de supernovas. Continuamos a ver o que já não existe tal como, sem nos darmos conta, podemos habitar hoje um mundo que não é mais o de ontem. Como haveremos, então, de olhá-las? A pergunta é-nos dirigida por Tamara Lindeman em How Is It That I Should Look At The Stars. Um ano após ter concluído Ignorance, entre 10 e 12 de Março de 2020, Tamara (aliás, The Weather Station) entrou no estúdio da Canterbury Music Company de Toronto para gravar as “peças do puzzle que faziam falta” a esse álbum. No dia 13, o primeiro ministro do Canadá, em quarentena, anunciava um plano de restrições severas para combater a disseminação do coronavirus. “Entrámos no estúdio pela porta de um mundo e saímos pela de outro”, conta Lindeman à “NBHP”, acrescentando: “Praticamente todas as canções deste álbum são acerca do acto de ver, sobre a percepção e sobre a necessidade de a interrogar”. (daqui; segue para aqui)
(álbum integral)
(sequência daqui) A resposta é não, não pode. “Of all the many things that you may ask of me, don’t ask me for indifference” diz ela, no nono capítulo desta averbação – ampliada, reflectida, redobrada – do divórcio entre a espécie humana e a Terra, etapa mais recente de um percurso com rumo bem definido: “Escrevo canções acerca de coisas que existem. É uma forma de combater aquela música que é, frequentemente, sobre fantasias. Prefiro concentrar-me na realidade e em verdades mais profundas e que passam despercebidas”, lê-se na biografia do Bandcamp. É, justamente, por esse lado que entram Varda e a enigmática personagem dos espelhos: “A câmara pretende convencer-nos que sabe tudo mas não sabe. Quis apenas abrir um pequeno portal para que as pessoas pudessem compreender que há mais coisas para ver. A ideia era atrair o olhar e devolvê-lo imediatamente. Como se eu fosse invisível. E também uma metáfora visual para como nos sentimos quando actuamos: para o bem e para o mal, as pessoas projectam-se em nós e esperam que lhes enviemos um reflexo”, explicou à “Pitchfork”.
O grande tema, mesmo quando isso não é aparente, é a arrasadora devastação a que o planeta tem sido submetido às mãos da ignorância politicamente motivada. Mas sem nunca recorrer a palavras de ordem nem agitar bandeiras para que se entenda que “the robber” personifica a avidez capitalista legalizada (e até sedutora: “When I was young, I learned how to make love to the robber, to wring from his hand the touch of a lover”) ou que "Wear" (“I tried to wear the world like some kinda jacket, it does not keep me warm, I cannot еver seem to fasten it“) não tenha sido inspirado por desfiles de moda. “Esse tipo de linguagem panfletária, musicalmente, nunca resulta, a menos que estejamos a escrever uma canção de protesto. Já tentei fazê-lo e falhei sempre. Escrever uma canção de protesto é a coisa mais difícil em que se pode pensar”. (segue para aqui)
COMO SE FOSSE INVISÌVEL
A câmara desce da copa das árvores sobre o corpo de uma mulher que, no meio da floresta, observada de forma apática, quase sonâmbula, por meia dúzia de pessoas, dança. Num lento "travelling", desassossegado pela pontuação tensa das percussões e rasgado por golpes orquestrais, aproxima-se de Tamara Linden que, olhando-nos desconfiadamente, canta: “I never believed in the robber, I never saw nobody climb over my fence, no black bag, no gloved hand, I never believed in the robber”. Sem aviso, fala para um microfone que lhe é dirigido e, logo a seguir, à frente de duas agitadas baterias e envergando casaco e calças forrados de espelhos, qual Beth Gibbons suavemente exaltada pelas avalanches de cordas, proclama: “No, the robber don't hate you, he had permission, permission by words, permission of thanks, permission by laws, permission of banks, white table cloth dinners, convention centers, it was all done real carefully.” É o video de "Robber", primeira canção de Ignorance, último álbum de The Weather Station ("nom de plume" de Tamara). Nessa altura, ainda não o suspeitamos mas todo o programa que nas restantes nove faixas irá desenvolver-se acaba de ser-nos apresentado.
Numa "newsletter" do ano passado dirigida aos fãs, Lindeman escrevia acerca do seu conhecimento tardio da obra da cineasta belga Agnés Varda, desaparecida em 2019. E descrevia-a como uma artista “desprovida de ego que, através da objetiva, ampliava, mudava e renovava tudo. O seu olhar cinematográfico é sempre o da restauração e da generosidade. Coisa tão rara!” A afinidade era natural: a própria Varda confessara que o que mais desejava não era mostrar mas “suscitar nas pessoas o desejo de ver”. Para alcançar o mesmo, em Ignorance, Tamara Lindeman não se limita a retomar a proposta que Lou Reed colocara na voz de Nico — "I’ll Be Your Mirror" — mas, qual caleidoscópio, cobre-se literalmente de espelhos.
Em "Tried To Tell You", no seu "traje de luces" mágico, é uma “lady in the lake” medieval que emerge das águas para, dissipando a névoa — “Some days there might be nothing you encounter, to stand behind the fragile idea that anything matters, I feel as useless as a tree in a city park, standing as a symbol of what we have blown apart” —, conduzir uma solitária personagem e extrair flores da boca e imaginá-las a desabrochar em terreno árido, e "Atlantic" vê-a transformar-se de ponto de luz desfocado em “mirror ball” humana que, na escuridão noturna de um bosque, exclama “My god, what a sunset!” e logo se interroga: “Thinking I should get all this dying off of my mind/ I should really know better than to read the headlines, does it matter if I see it? No really, can I not just cover my eyes?” (daqui; segue para aqui)