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22 July 2022

The Wave Pictures - When The Purple Emperor Spreads His Wings

(daqui; álbum integral aqui)

09 July 2022

STAKHANOVISTAS
São em número crescente os músicos que, de um modo ou de outro, vão buscar inspiração às Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Apenas entre os mais recentes, alinham-se Philip Glass, Piazzolla, Max Richter, Anna Meredith e Modern Nature aos quais deverão, agora, acrescentar-se The Wave Pictures, esse exemplo paradigmático de banda britânica eternamente alternativa e marginal: em cerca de duas décadas e mais de duas dezenas de álbuns, David Tattersall, Franic Rozycki e Jonny ‘Hudderfield’ Helm, construiram o tipo de discografia imaculada que, invariavelmente, é recebida pela crítica com vénias e salamaleques correspondidos por uma olímpica indiferença registada nos sismógrafos das tabelas de vendas. 


Quase tão stakhanovistas como o incansável veneziano que nos legou 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra, os Wave Pictures recorreram, desta vez, ao formato de álbum duplo para, em When The Purple Emperor Spreads His Wings, acolher 20 canções divididas em quatro grupos de cinco, um por cada estação do ano. “Existe sempre um sentido de tempo e lugar muito forte nas canções dos Wave Pictures. Tornou-se rapidamente muito natural ir agrupando por estações as canções que ia escrevendo. Cada uma ‘tem lugar’ no contexto de cada estação. Começa no Verão e termina na Primavera, representando o ciclo da vida”, explica Tattersall que pormenoriza: “Como acontece muitas vezes, um pequeno momento no tempo é desenhado em três minutos. Na memória, um instante fugaz, um milisegundo, pode ser mais forte e intenso do que um ano inteiro”. Ávidas esponjas estéticas incapazes de enxergar incompatibilidades entre música de câmara, rock’n’roll clássico, blues norte-africanos, folk britânica, country, psicadelismo e jazz, é um imenso prazer espreitar para o enorme caldeirão onde os cozinham e aspirar os riquíssimos aromas. (daqui)

28 August 2018

CONHECER O SEGREDO 


“First thought, best thought” era o princípio orientador da poesia de Allen Ginsberg: dar livre curso ao pensamento “espontâneo” sem necessidade de o filtrar através de disciplinas ou formas estéticas. David Tattersall, dos Wave Pictures, prefere citar Neil Young – “The more you think, the more you stink” – e, a propósito do último album, Brushes With Happines, acrescenta: “Gravámo-lo todo, ao vivo, numa pequena sala, durante uma noite de Janeiro, até de madrugada. Escutá-lo é como estar presente numa cerimónia, conduz-nos até aquele lugar. É como ser-nos dado a conhecer um segredo que emana de um grupo de pessoas num determinado ponto, no tempo e no espaço. Imensas bandas alegam ter gravado o seu Tonight’s The Night ou Astral Weeks, um álbum especial registado naquelas raras circunstâncias noturnas, livres de pressões, uma colecção de jams inspiradas. Na verdade, não foi isso que aconteceu. Passaram eternidades a aperfeiçoá-lo. Este nosso é autêntico. Uma improvisação genuinamente embriagada” (no original, em inglês, “a genuine shitfaced improvisation” soa bastante mais realista). 



O método foi, aliás, um pouco mais radical: quando entraram na “pequena sala”, existiam apenas os textos de David para as nove canções e nem um compasso de música. Tattersall (guitarra), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria) teriam de se dedicar à descoberta das peças sonoras que faltavam ao "puzzle", sob a acção supostamente benfazeja dos estimulantes envolvidos. Já com Beer In The Breakers (2011) o plano fora idêntico: gravar num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com material emprestado por Darren Hayman (outra carta fora do baralho, responsável pela série em curso Thankful Villages), sem recorrer a "multitracking" nem "overdubs", em uma ou duas "takes". Desta vez, segundo a lenda, foi tudo à primeira "take". Publique-se a lenda. Porque, tenha acontecido rigorosamente assim ou não, o que importa é que a banda que, desde 2003, após dezasseis óptimos álbuns (e dezenas de colaborações) sem alguma vez ter ultrapassado a condição de “best kept secret”, produziu mais outro clássico confidencial de "words & music", instantâneos (“The little window that I look out of has a pleasing view, electricity pylons seem to be friendly with the trees”) e observações (“There’s something to be learnt from this burnt match”), aparições de Django Reinhardt, Jerry Lee Lewis e Peter Green, e a sombra, só a sombra dos blues.

25 February 2015

O PEQUENO MILAGRE

  
Há semanas, no espanhol “El Confidencial”, Carlos Prieto escrevia: “Chegou 2015, o ano em que tudo ou nada poderia mudar para sempre, e ocorreu um pequeno milagre cultural: os economistas convertidos em ícones pop”. Exemplificava, a seguir, com a visita recente de Thomas Piketty, autor de “O Capital No Século XXI” – coisa “próxima da ‘beatlemania’” –, e com o aparecimento do novo ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, sublinhando “a sua pinta mais de estrela do rock que de economista”, “o seu aspecto de quem acaba de sair de um concerto”, bem como o facto de ser casado com a notória artista plástica, Danae Stratou, e de, acima de tudo, impor-se instantaneamente “na qualidade de "sex-symbol", algo que não abunda na esquerda europeia”. Será, porventura, apressado traduzir já a velha categoria de "groupie" para "varoufuckie" – elas, contudo, existem e não se escondem – mas o fulgurante “pequeno milagre cultural” tornar-se-á mais evidente se repararmos, por exemplo, na contrastante história de uma banda como os Wave Pictures: década e meia de actividade à média de um álbum por ano, mais cerca de duas dezenas de álbuns “de homenagem”, colaborações e compilações e outros tantos singles e EP, e onde chegaram eles?


Não muito mais longe do que ao estatuto do velho economista manga-de-alpaca, popular entre os colegas da empresa e anónimo para o resto do universo. Canções e álbuns óptimos como Long Black Cars (2012), Beer In The Breakers (2011) ou If You Leave It Alone (2009) não têm escasseado mas, dificilmente, David Tattersall, Franic Rozycki e Jonny Helm se verão alguma vez assediados por multidões de "varoufuckies". Great Big Flamingo Burning Moon é tão excelente e peculiar quanto os anteriores – a canção-título fala do flamingo que Tattersall viu desenhado “sobre uma enorme lua em fogo, suspensa sobre o céu de Portugal” –, com o bónus de ter sido gravado em parceria com o lendário figurão-poeta-artista-fotógrafo-punk-agitador-lunático, Billy Childish. Reivindica como seus os Who, Troggs, Creedence Clearwater (dos quais interpreta "Sinister Purpose" e "Green River") e Modern Lovers mas não faz segredo de que ambiciona as cátedras de Morrissey e Jarvis Cocker. Bom trabalho lá no escritório, rapazes!

21 May 2012

THE WAVE PICTURES - "STAY HERE AND TAKE CARE 
OF THE CHICKENS"  
(sequência daqui)

20 May 2012

PIRATAS, CONFETTI & VESPAS EMBRIAGADAS

The Wave Pictures - Long Black Cars
   
Há que demonstrar respeito por uma das mais invejavelmente obscuras e ignoradas figuras da pop literata britânica que, ao fim de uma prolífica discografia universalmente desconhecida, não hesita em colocar tão preciosa reputação em risco declarando que “não nos faria mal nenhum se pudéssemos contar com a ajuda de Mark Knopfler” e acrescentando “lá porque Brothers In Arms é uma completa merda, isso não quer dizer que o primeiro álbum dos Dire Straits não fosse óptimo”. O declarante é David Tattersall, guitarrista e autor das canções dos Wave Pictures, a vénia surgiu a propósito da primeira faixa de Long Black Cars – a explicativamente intitulada "Stay Here And Take Care of The Chickens" –, alegadamente inspirada por The Enforcer, um "noir" de 1951, com Humphrey Bogart, e, escutada, entende-se bem porquê.


Mas, para que não surjam equívocos, convém matizar a coisa com a observação adicional de que quem, neste e nos anteriores álbuns dos Wave Pictures, dê por si a murmurar os nomes de Jonathan Richman ou David Byrne, a interrogar-se se será Mo Tucker quem espanca as peles (não é, é Jonny Helm), a duvidar se não haverá por ali pessoal do "highlife" africano a fazer as seis cordas sorrir (não há, é puro Tattersall), ou a pensar que raio de disco será este em que Orange Juice e Smiths juntaram forças para homenagear os Violent Femmes, não está, de todo, a alucinar. É mesmo assim e, como de costume, é muito bom. E porque, de facto, “I heard the devil’s in the details and I heard God was in there too”, como amostra, espreitem à lupa este naco: “A pirate on a pirate ship throws confetti to the wind, wasps fly drunkenly into the overflowing bins, a six-foot yellow van, a hot air balloon, the whole town came to see it all this afternoon”.

07 September 2011

UM DYLAN DE BOLSO


The Wave Pictures - Beer In The Breakers

“Termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo” era a ambição que, no ano passado, quando vieram actuar ao Santiago Alquimista, os Wave Pictures confessavam. Mas, já na altura, erguiam alguns diques à enxurrada de “valores de produção” e afins que esses sonhos podem arrastar: “Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à hipótese de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gostamos de gravar em estúdio mas não nos agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para dizer a verdade, não estamos nada convencidos que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como ‘Hound Dog’, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton”. As reticências foram mais fortes: Beer In The Breakers acabou por ser gravado num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com equipamento emprestado pelo amigo e cúmplice Darren Hayman (dos falecidos Hefner), sem cheiro de "multitracking" e "overdubs", tudo em uma ou duas takes, “só nós três a tocar e a cantar”.



Convém, aqui, esclarecer que – embora não seja imediatamente evidente – nos encontramos perante uma das mais ilustremente desconhecidas bandas britânicas de já longo curso: David Tattersall (alma criativa, guitarra e voz), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria), existem como Wave Pictures há cerca de treze anos e, entre edições de autor, singles, EP, álbuns distribuídos por independentes e colaborações avulsas, podem inscrever no CV umas respeitáveis quarenta entradas. Mas é preciso compreender que o clube de "songwriters" a que Tattersall pertence (conhecem muitos capazes de abrir uma canção com um cenário como “We ate toast cut roughly into halves with sour jam in an empty bar, large vases filled with dead flowers and carved wood mirrors to show us our faces”?) não está destinado a ser levado em ombros por hordas de fãs ululantes.



E muito menos ainda quando se trata de uma banda que, em concerto, ignora o conceito de "set-list", cujo compositor-em-chefe não tem problemas em admitir que, tal como os de vários dos seus heróis (Pavement, Dylan, Tom Verlaine), os textos de muitas das suas canções são puro "nonsense", e que, falando de matéria inspiradora (Steinbeck, D. H. Lawrence, Carver), nem pestaneja quando declara que uma ou outra foram montadas sobre colagens de frases de Bukowski escolhidas ao acaso. "Indie" é "indie" mas, longe de cenas "trendy" e com nenhuma vontade de as procurar, Tattersall e cúmplices são espécimes demasiado bizarros para até aí se acolherem.



Façam, então, o favor – com mais umas poucas centenas de outros – de conhecer o décimo primeiro álbum dos Wave Pictures, obra de uma espécie de Morrissey desleixado por demasiado convívio com Jonathan Richman (“You so ugly, you so cold, you so stupid, singing ‘I caught my baby kissing Cupid’”), recolector dos instantes esquecidos por Lou Reed tal como os Orange Juice os recuperaram ("Pale Thin Lips" é um "Pale Blue Eyes" com “purple velvet under soft orange lights”), uns descendentes britânicos dos Violent Femmes apaixonados por "high life" africano travestido de blues, um pequeno Dylan de bolso (Tattersall não faz segredo disso: “Como qualquer outro singer/songwriter, daria tudo para ser o Bob Dylan. Não ele próprio, claro, que já não lhe falta muito para morrer. Mas só para ter um bocadinho do talento dele”), perdido pelo gemido das harmónicas. E que – milagre – torna tudo isso seu.

(2011)

21 September 2010

EQUILÍBRIOS CÓSMICOS



Haverá sempre mais uma vaga disponível para um songwriter capaz de nos oferecer nacos de insubstituível sabedoria como “I wrote my name on a banana peel, there should always be a meal with my name on it”, pronto a reflectir sobre os equilíbrios cósmicos em “I cut my hair and you grew yours, there always has to be the same amount of hair in the world” e, de um modo geral, a transformar a canção pop numa pequena jóia rústica de palavras inteligentes e melodias intuitivas. Ele chama-se David Tattersall e é um terço dos Wave Pictures que actuarão em Lisboa, no Santiago Alquimista, no próximo dia 23, e, no Porto, na Casa da Música, a 24. Franic Rozycki, o baixista, encarregou-se de explicar a já não pequena história de uma banda que, se tivermos juízo, deveremos conhecer melhor.

Tenho de confessar que só descobri os Wave Pictures através do último álbum, If You Leave It Alone e não me parece que seja um problema exclusivamente meu...
É verdade, há muita gente que não se apercebe de que já andamos por cá há quase dez anos e que já publicámos sete ou oito discos. Provavelmente, por a maioria terem sido gravações domésticas e em edições de autor.

Isto é, certamente, bastante idiota. Mas, porque não estava particularmente atento ao sotaque, só a meio do disco me apercebi que vocês eram ingleses e não americanos...
(risos) De facto, a maioria das bandas e músicos que nos influenciaram são americanos dos anos 60 como os Creedence Clearwater Revival ou o Dylan. E as bandas inglesas de que gostamos – como os Rolling Stones ou os Kinks – também tinham fortíssimas referências americanas. Mas, neles como connosco, isso não os fez deixar de ser genuinamente britânicos nem implicou necessariamente algo de autobiográfico.



Por acaso, quando me passaram o vosso álbum, disseram-me qualquer coisa como “uma banda parecida com os Violent Femmes”...
Também gostamos muito deles, sem dúvida. Quando os ouvi pela primeira vez, pareceram-me verdadeiramente extraordinários. Eram um trio como nós somos e, de certo modo, tornaram-se uma espécie de modelo para nós.

É verdade que nunca têm um alinhamento pré-definido para os concertos?
É. Nunca fez muito sentido connosco. Poderia, facilmente, acontecer que, se o tivéssemos, em determinada altura, a canção que vem a seguir não ser a canção certa para aquele instante. É uma coisa realmente desnecessária. Temos uma ideia geral do que iremos tocar mas, como o nosso reportório até é extenso, é muito mais divertido poder escolher momento a momento, de acordo com as várias circunstâncias de cada concerto e com as reacções do público. Todos os concertos se transformam assim numa experiência singular. Detesto bandas cujos concertos são sempre iguais, em que nunca há surpresas.



“A new tune gets sweeter and simpler with age if you leave it alone” (de If You Leave It Alone) pode ser interpretado como o vosso método particular para o amadurecimento de uma canção?
Acaba por ser bastante fácil descobrirmos quando uma canção está suficientemente amadurecida. Tocamo-las ao vivo, umas precisam de mais tempo até estarem no ponto, outras resultam logo bem, sem grande esforço. Não temos uma forma estabelecida de fazer as coisas. Se existe uma receita, é a de trabalhar bastante porque, daí, alguma coisa que valha a pena acabará necessariamente por sair.

Vocês aparentam ser o tipo de banda que apenas grava discos enquanto pretexto para tocar ao vivo e não aprecia muito o confinamento dos estúdios. Tenho razão?
Os nossos discos podem ter uma aparência muito espontânea mas são muito trabalhados. Tanto nos dá prazer uma coisa como a outra e também aqueles momentos mais informais em que ensaiamos juntos em casa. A nossa ambição, em boa verdade, seria termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo. O que, até agora, ainda não aconteceu. Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à possibilidade de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gosto de gravar em estúdio mas não me agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para lhe dizer a verdade, não estou nada convencido que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como “Hound Dog”, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton...

(2010)