Começaram por chamar-se Aurora, porque, enquanto banda de liceu, Fran Keaney, Joe White, Marcel Tussie e Tom e Joe Russo, eram de opinião que deviam adoptar um nome “que ficasse bem no estojo das canetas ou nas costas dos cadernos”. Depois, vá lá saber-se porquê, optaram por World Of Sport. Assentaram, por fim, em Rolling Blackouts Coastal Fever (não perguntem, mas, entre outras histórias, parece haver um maligno virus do Camboja envolvido). Se nos recordarmos como Robert Forster, em Grant & I: Inside and Outside The Go-Betweens, descrevia a banda (“Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”), talvez uma outra designação se lhes ajustasse melhor: The Huge Fabergé Egg. Porque – e os RBCF nem sequer tentam esquivar-se à comparação – a dívida do quinteto de Melbourne para com o grupo de Forster e Grant McLennan é imensa. Mas, e é isso que justificaria o “huge”, sem se limitarem a replicar a sonoridade deste: assente no trio de guitarras Keaney/Joe White/Joe Russo, em Hope Downs, álbum de estreia, dir-se-ia que, na sombra, Tom Verlaine dirige as operações.
E, ao fazê-lo, amplia desmedidamente a jóia de Fabergé sobre a qual se projectam reflexos dos R.E.M., Feelies, dos primeiros Echo & The Bunnymen, ou até das magníficas insolações dos Triffids. Se "How Long?", "Time In Common", "Exclusive Grave", "Cappuccino City" (um rascunho de "Streets Of Your Town") ou "The Hammer" (Forster com entoação dylaniana) contêm um mais elevado índice-GB, "Mainland" é um exercício sobre a teoria da cor, de Klee (“And all I saw was burning blue fading into blinding white, wade out past the rotting pier, out to the open water, son of a red roof city, (…) and back on the mainland cool change was rolling over, black sky was getting lower on golden sand”) com tragédia migratória em fundo (“And we talked about the land of our fore-mothers, now that we've shut the gate, it would be funny if it didn't make you want to cry”), "An Air Conditioned Man" evoca o Air Conditioned Nightmare, de Henry Miller (“You walk past the wall you first kissed her against, how could you forget? (…) Did it ever matter in the first place? Does she still think about it now and then? In her air conditioned home, on her air conditioned street, in an air conditioned city”), e todo o resto, por entre vertiginosas espirais de guitarras, desenha “uma colecção de postais de um mundo cada vez mais estranho em que sentimos que a areia nos foge sob os pés”.
19 October 2017
FESTA
Trata-se de uma singularidade cósmica particularmente rara: o lugar onde o clube das bandas lendárias que publicaram apenas um álbum (Young Marble Giants, The United States Of America, Sex Pistols, The Germs, The Del-Byzanteens, Life Without Buildings, The Monks) se cobre com a poeira dos arquivos nos quais se ocultam os míticos "great lost albums". Com o incalculável valor acrescido de, no caso, não ser por gentileza ou reflexo de "hype" instalado que "great" acompanha "lost album": Slights Still Unspoken (Selected Recordings 1978-1979), dos Voigt/465, é, sem a menor dúvida, uma preciosa recuperação arqueológica por que teremos de ficar eternamente gratos à editora espanhola Guerssen Records. Oriundos da nunca suficientemente louvada cena rock australiana que, entre inúmeros outros, nos deu a conhecer os Triffids, Go-Betweens, Apartments, Nick Cave, The Saints, Radio Birdman e The Church, os Voigt/465 eram cinco catraios da Technical Boys High School, de Sidney (Rae Byrom, voz, Phil Turnbull, voz e teclados, Lindsay O'Meara, baixo, Rod Pobestek, guitarra, e Bruce Stalder, bateria), que, em 1976, no espaço de uma oficina cedida pelo pai de um deles, lançaram desordenadamente para o caldeirão das bruxas todos os ingredientes que tinham à mão.
A saber, os mais suculentos nacos dos Velvet Undergtound, Roxy Music (fase Eno), Pink Floyd (aliás, The Piper At The Gates Of Dawn, isto é, Syd Barrett), Stooges, Pere Ubu e Devo, generosamente temperados com pitadas de Faust e Can, essências-garage, art-rock britânico, ruído avulso e libérrima improvisação. Como será fácil de compreender, uma tão rica e eclética dieta não conduz ao tipo de digestão fácil que faz desenrolar as passadeiras vermelhas para carreiras gloriosas. Na verdade, o radar da notoriedade apenas lhes assinalou a existência durante aqueles fugazes instantes em que o único single, “State”/“A Secret West” (1978), soou nas ondas radiofónicas de John Peel. Tanto assim que o solitário álbum que publicariam, Slights Spoken (1979) era só um registo para memória futura de uma banda já oficialmente dissolvida. Quase 40 anos mais tarde, apenas poderemos dizer que, como só improvavelmente acontece, nunca havíamos ouvido nada semelhante antes e dificilmente o viremos a fazer depois. Uma estrondosa festa para o canal auditivo.
24 August 2015
Great Australian Albums | Born Sandy Devotional - The Triffids
(clicar na imagem, depois, em "ver imagem", a seguir, usar a lupa)
22 August 2010
SANTÍSSIMA CRUZADA
Arcade Fire - The Suburbs
Garantem os relatos históricos que, quando, em 1087, Guilherme, o Conquistador, foi sepultado, em Caen, na abadia de Saint-Etienne, o seu corpo estava de tal forma obeso e inchado que, não cabendo no sarcófago que lhe havia sido destinado, o enorme esforço que foi necessário para aí o introduzir teve como pestilenta consequência o rebentamento do cadáver. Episódio assaz semelhante – por diversos motivos, como, adiante, se verá – ao primeiro falecimento do rock progressivo/sinfónico, pelo meio da década de 70 do século passado: não menos insuflada e pomposamente imperial, a música de todos os Yes, ELP, Pink Floyd, Barclay James Harvest ou Rick Wakeman da época só precisou de um apertão da canalha punk para conhecer destino tão pouco edificante quanto o do temível Guilherme. Mas, do mesmo modo que, com ele, aconteceu, apesar de defunto, a sua influência não se extinguiria facilmente: se, a partir do punk, a opção "less is more" determinaria, em boa medida, grande parte da produção das diversas sensibilidades indie/alternativas durante os períodos de 80 e 90, dos anos zero em diante, o apetite pela ênfase orquestral – já experimentado também, anteriormente, entre outros, pelos Echo & The Bunnymen, Tindersticks, Triffids ou Divine Comedy – regressaria e de forma particularmente voraz. Disciplinada, convenientemente emagrecida e esteticamente pertinente nos casos de Andrew Bird, Sufjan Stevens, St. Vincent, Noah & The Whale, Mumford & Sons, Grizzly Bear, My Brightest Diamond ou Fanfarlo (os ensinamentos históricos haviam sido devidamente digeridos através do filtro pop), porém, de novo, a escorregar para a grandiloquência messiânica com os Arcade Fire.
É muito difícil que uma educação mórmon não dê nisto (Jesca Hoop safou-se mas não é toda a gente que tem a sorte de poder ser "nanny" dos rebentos de Tom Waits): quem cresce a ouvir contar que Deus é de carne e osso e vive no planeta Kolob e que, se nos portarmos como Joseph Smith manda, iremos todos politeistamente procriar deusezinhos junto dele, só por acaso não dá consigo a proferir declarações portentosas e a imaginar-se o porta-voz iluminado de qualquer coisa. Win e William Butler foram à catequese dos Santos dos Últimos Dias e isso ajuda bastante a compreender o motivo por que hoje (ainda que não se afirmando como praticantes mórmons) continuam a fazer afirmações como "Os colégios internos, o exército e as igrejas são os únicos lugares onde as pessoas são obrigadas a permanecer em comunidade com gente que elas não escolheriam como companhia. Acho valiosa essa ideia de comunidade com pessoas com quem não temos nada em comum" ou “A Bíblia fala muito acerca do temor perante Deus. Esse é o tipo de medo que nos faz sentir o desejo de mudança”.
E também contribui utilmente para explicar as canções que os Arcade Fire interpretam: não há Grande Tema nem Interrogação Eterna que eles não se sintam tentados a abordar, preferencialmente naquele registo bombástico e monumental de quem galvaniza as tropas numa santíssima cruzada. Em The Suburbs, o alvo são os “kids” envenenados pela cultura-contemporânea-sem-alma-nem-coração que vegetam nos centros comerciais e que, mesmo sabendo que “the emperor wears no clothes, they bow down to him anyway”. O mundo está perdido, os subúrbios invadiram e devastaram a querida Mãe Natureza e, durante uma hora, qual sermão de proverbial tia velha, eles resmungam acerca de como (entrada para fanfarra sinfónica) “these days, my life I feel it has no purpose” e “tomorrow means nothing”. "City With No Children" assenta no riff de "Street Fighting Man", dos Stones, e, em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", Régine Chassagne parece mesmo à beirinha de, a todo o momento, se poder transformar na Deborah Harry de "Heart Of Glass". São os dois melhores instantes do álbum.
(2010)
09 May 2008
GODARD E TRUFFAUT
Robert Forster - The Evangelist
Quando, a 6 de Maio de 2006, numa tarde de sábado, Grant McLennan, aos 48 anos, morreu vítima de um ataque cardíaco fulminante, o seu amigo e companheiro de três décadas nos Go-Betweens, Robert Forster, escreveu uma emocionada “remembrance” na qual contava como ambos se haviam conhecido no departamento de teatro da universidade de Queensland. Grant vivia e respirava cinema, Robert estudava literatura inglesa mas tocava já numa banda que respondia alternativamente pelo nome de The Mosquitoes ou The Godots: “Quando Grant e eu nos encontrámos, não o sabíamos ainda mas tínhamo-nos descoberto, um era a imagem no espelho do outro. Ele falava-me sobre a ‘nouvelle vague’ francesa e o ‘film noir’. Eu falava-lhe sobre a grandeza dos Velvet Underground. Ele falava-me acerca da teoria dos autores e o génio de Preston Sturges. Eu falava-lhe acerca de Dylan, a meio dos anos sessenta. Ele referia Godard e Truffaut. Nós tornámo-nos Godard e Truffaut. Na altura, Brisbane não fazia a menor ideia disso mas havia dois miúdos de dezanove anos ao volante de um automóvel que pensavam ser realizadores de cinema franceses”.
Robert Forster ensinou Grant McLennan a tocar guitarra-baixo e apercebeu-se que, de estudante de cinema capaz de tocar baixo, ele se havia convertido em músico e compositor. A primeira canção de ambos chamou-se “Big Sleeping City” e os Go-Betweens, em Janeiro de 1978, acabavam de nascer. Nunca chegaram a concretizar a segunda parte da sua conspiração privada – realizar um filme e escrever um livro, The Death Of Modern America: Dylan 1964-66 – mas a preciosa discografia da banda que (com os Triffids) criou as mais sublimes canções da pop australiana bastou e transbordou. The Evangelist, assinado por Robert Forster, é, então, de facto, o último álbum dos Go-Betweens. Forster bem poderá dizer que apenas meia dúzia de linhas e dois refrões foram herdados de McLennan mas a memória dele (e de ambos e daquilo que aos dois assombrava) está lá, intacta. Por todo o lado: no momento em que “Did She Overtake You”, partindo dos Velvets, reinventa os Go-Betweens; nas duas subtis variantes-Dylan de “Don’t Touch Anything” e “Let Your Light In, Babe”; na frase final de “It Ain’t Easy”, “I write these words to his tune that he wrote on a full moon, and a river ran and a train ran and a dream ran through everything he did”; no “segredo” que, em “From Ghost Town”, aperta um nó na garganta. Agora, sim, os Go-Betweens repousam em paz. (2008)
03 January 2008
MÚSICA 2007 - VI (reedições)
The Triffids – In The Pines e Calenture
Pentangle - The Time Has Come
Ennio Morricone - Morricone In The Brain
Young Marble Giants - Colossal Youth & Collected Works
GNR - Independança
Robert Forster/Grant McLennan - Intermission: the best of the solo recordings 1990-1997
Laurie Anderson – Big Science
Leonard Cohen – The Songs Of Leonard Cohen, Songs From A Room e Songs Of Love And Hate
Joy Division – Unknown Pleasures, Closer e Still
Caetano Veloso – Caetano Veloso (Tropicália), Caetano Veloso, Caetano Veloso (A Little More Blue) e Araçá Azul
Karen Dalton – In My Own Time
13 June 2007
A DESMEDIDA DO GÉNIO
The Triffids - In The Pines
The Triffids - Calenture
Em 1990, após terem publicado, pelo menos, dois álbuns devastadoramente magníficos - Born Sandy Devotional e Calenture – que o universo, alarvemente, ignorou, os Triffids já não existiam (apenas por obrigações contratuais, sairia ainda o “live”, Stockholm). Mas foi precisamente nesse ano que a West Australian Music Industry, durante um dos seus tantans tribais, entendeu atribuir-lhes um “Life Achievement Award”, o género de condecoração póstuma com que, regularmente, as figurinhas de cera da incineração discográfica lavam a alma dos pecados. Segundo reza a lenda, os organizadores da cerimónia não contavam que nenhum elemento da banda estivesse presente para receber o prémio. E terá sido com enorme surpresa que, quando este foi anunciado, uma das empregadas de mesa do casino onde o evento decorria, subiu ao palco, agradeceu, e regressou rapidamente à sua coreografia de “cocktail waitress”. Era Jill Birt, teclista dos Triffids, então obrigada a esse “night job” ocasional e, hoje, arquitecta.
Em seis anos (descontando o período “formativo” anterior às primeiras edições oficiais), de 1983 a 1989, o grupo de David McComb, Robert McComb, Alsy MacDonald, Martyn Casey, “Evil” Graham Lee e Jill fora um dos responsáveis pelo período de ouro da música australiana: cinco álbuns (Treeless Plain, 1983, Born Sandy Devotional, 1986, In The Pines, 1987, Calenture, 1987, e The Black Swan, 1989), dois mini-álbuns (Raining Pleasure e Lawson Square Infirmary, ambos de 1984) e um reportório de canções que asseguraram a David McComb o estatuto de autor de culto na companhia dos maiores… mas uma discografia que, só agora, quase vinte anos mais tarde, começa a ser reeditada e descoberta como merece. Depois de Born Sandy Devotional, seguem-se, então, In The Pines – muito assumidamente as Basement Tapes do grupo: no polo oposto da sumptuosa desolação do disco anterior, foi gravado, quase artesanalmente, numa minúscula povoação do “outback” – e o (quase) final, Calenture.
Se o primeiro incluía grandes canções como “Kathy Knows”, na verdade (como esta reedição, que reune a totalidade das faixas, na altura, gravadas, definitivamente demonstra), funcionou essencialmente enquanto balão de ensaio para o seguinte, imensa metáfora sobre a insolação dos marinheiros há muito longe de terra (a “calentura”) como pretexto para um autêntico épico trágico-marítimo interior que pulverizava no mesmo almofariz Scott Walker, John Cale, Nick Cave, Cohen, Dylan e aquela dimensão cinemática-orquestral transportada por Gil Norton que, anos antes, produzira Ocean Rain, dos Bunnymen. “Bury Me Deep In Love”, “Blinder By The Hour” (“with your lips for food and your skin for sheets, your eyes for light and your blood for heat and your two white arms for an overcoat”), “Kelly’s Blues”, “Trick Of The Light”, “Save What You Can” ou “Jerdacuttup Man” (e todos os lados-B e “demos” recuperados) são exactamente aquilo a que se deve chamar a desmedida do génio. (2007)
12 June 2007
The Triffids - Born Sandy Devotional
Não há como ouvir Born Sandy Devotional: é o exacto tipo de álbum que, ou se habita em regime de agorafobia, ou não vale a pena sequer tentar. Primeiro, esbofeteia-nos ("No foreign pair of dark sunglasses could ever shield you from the light that pierces your eyelids, the screaming of the gulls") e, logo a seguir, lança-nos, irreversivelmente, ao tapete ( "What's the matter now, lover boy, has the cat run off with your tongue? Are you drinking to get maudlin or drinking to get numb?"). E estamos só na primeira canção, em pleno centro do ecrã, com os projectores a cegar-nos e um tufão orquestral a entontecer-nos.
Em 1986, com os Go-Betweens, Nick Cave e os Triffids, a Austrália realinhava a pop com a poesia, o cinema e todos os imensos excessos do mundo. David McComb herdara tudo quanto Scott Walker, Dylan, Cale ou Cohen haviam sublimado até à essência, embebera-o em álcool, heroína e génio e, inventando os Triffids, regurgitava-o sobre os homens pequenos, lá em baixo. Devia ser impossível ir mais longe mas, um ano depois, Calenture ousou-o. Ninguém se terá surpreendido que o coração de McComb só tenha resistido até 1999. A reedição da discografia dos Triffids (com um outro álbum de raridades por volume) assombra outra vez e assusta. (2006)
11 June 2007
GRANT MCLENNAN (1958-2006)
A (auto)biografia está toda nas vinte e cinco linhas de "Cattle And Cane", de Before Hollywood (1983), o segundo álbum dos Go-Betweens. Começa com "I recall a schoolboy coming home through fields of cane, to a house of tin and timber and, in the sky, a rain of falling cinders". Depois, surge "a boy in bigger pants, like everyone just waiting for a chance, his father's watch he left it in the shower". No final, "a bigger brighter world, a world of books and silent times in thought, and then the railroad, the railroad takes him home, through fields of cattle, through fields of cane". E sempre "the waste, memory wastes - further, longer, higher, older". Grant McLennan, com Robert Forster, era metade dos Go-Betweens, a banda que, nos anos 80, com os Triffids e Nick Cave, deu notícias de uma pop superiormente poética e letrada na Austrália. Gostava de Cormac McCarthy, Raymond Carver, Dylan e Springsteen. Morreu, enquanto dormia, no passado sábado, em Brisbane. Num dos enormes álbuns do século passado — Liberty Belle And The Black Diamond Express (1985) —, escreveu uma das mais belas estrofes da poesia pop: "When the rain hit the roof, with the sound of a finished kiss, like a lip lifted from a lip, I took the wrong road down". A memória não se esvai mas dói. (Maio de 2006)
08 June 2007
DIVE FOR YOUR MEMORY
O ano 2000 já é um ano melhor. Pura e simplesmente porque The Friends Of Rachel Worth, o novo álbum dos Go-Betweens depois de uma ausência de doze anos, foi publicado. E qualquer ano que se possa orgulhar de exibir um disco do grupo dos australianos Robert Forster e Grant McLennan — mesmo que não seja dos mais sublimes, e, desses, há poucos — é sempre um ano melhor. Este, juntamente com Before Hollywood (1983), Liberty Belle & The Black Diamond Express (1986) e 16 Lovers Lane (1988), é, decididamente dos mais sublimes: dez canções inexplicavelmente perfeitas, daquele puríssimo classicismo pop de que só muito poucos conservam o segredo. E de que Robert Forster fala como se conhecê-lo fosse a coisa mais natural deste mundo e os Go-Betweens nunca tivessem deixado de estar connosco.
A primeira pergunta é um pouco óbvia: quando decidiram pôr fim ao grupo, fizeram-no porque, aparentemente, não lhe adivinhavam um futuro viável; porquê, então, regressar agora, o que se modificou?
Para começar, eu e o Grant nunca deixámos de ser amigos. Fizemos uma digressão acústica a dois, no ano passado, e como gostámos dessa experiência e, no fundo, sempre estive convencido de que voltaríamos a trabalhar juntos, esta pareceu-nos ser a altura certa.
Estive a ler uma entrevista do Grant de 1988 em que ele afirmava "nós escrevemos canções clássicas que duram para sempre mas essa noção de permanência, actualmente, está tragicamente fora de moda". Parece-lhe que, doze anos depois, as coisas já não são assim?
Acho que sim, o clima musical de hoje parece-me bastante mais confortável do que o dessa altura, no final dos anos 80. Há um maior número de coisas que se relacionam mais directamente com o tipo de música que, então, fazíamos.
O que falhou, então, na primeira encarnação dos Go-Betweens? Tanto quanto me apercebi, a banda era realmente venerada por um núcleo de fãs fidelíssimos embora não exactamente milhões... Foi essa dimensão reduzida do culto?
Não me parece que, verdadeiramente, tenha falhado alguma coisa. Gravámos optimos discos, como diz, as pessoas adoravam o grupo, na minha opinião, tivémos até um sucesso incrível.
Mas não foi isso que vos impediu de pôr fim ao grupo...
A razão por que nos separámos foi o facto de eu e o Grant estarmos já bastante fartos de fazer parte da banda — que existiu durante doze anos e gravou seis álbuns — e desejávamos dedicar-nos à nossa própria música. Não houve qualquer espécie de conflito ou de inimizade. Como lhe disse, continuámos bons amigos.
Mas sentiam-se satisfeitos com o estatuto que o grupo tinha, nunca desejaram ter uma maior popularidade?
Claro que teria sido fantástico se tivéssemos conseguido vender muito mais discos do que fizémos. As nossas vidas, evidentemente, teriam sido muito mais fáceis, poderíamos ter viajado muito mais...
Na mesma altura em que os Go-Betweens surgiram, quase chegou a dar a ideia que o futuro da pop — convosco mas também com os Triffids, os Church, o Nick Cave e vários outros — vinha da Austrália...
É verdade, no início dos anos 80 havia definitivamente um movimento de bandas australianas. Por duas razões principais: primeiro, os grupos desejavam sair da Austrália e conhecer o resto do mundo; depois, lá não existiam as estruturas mínimas que tornassem fácil assinar um contrato de gravação. As editoras estabelecidas eram extremamente conservadoras e as independentes não possuíam os recursos financeiros suficientes. Foi por isso que nós, por exemplo, tivemos de vir para Inglaterra para que alguém investisse o mínimo necessário para gravarmos um disco... Isso, hoje, felizmente, mudou muito. Na Austrália já existe uma rede importante de rádios "underground" e os grupos jovens já ganham minimamente para sobreviver sem sentirem tanto a necessidade de virem para a Europa.
Enquanto "songwriter" sentia-se muito australiano?
Sentia e ainda me sinto. Uma parte importante de mim como "songwriter" e dos Go-Betweens enquanto grupo tinha muito a ver com isso... Até aos vinte e dois anos nunca saímos para fora da Austrália e esses primeiros vinte anos de vida constituem sempre os alicerces daquilo que somos como pessoas.
É curioso porque a visão convencional do "mito australiano" é a de praias banhadas de sol, povoadas de deslumbrantes belezas bronzeadas e sem nenhuma outra preocupação para além de saber se as ondas estão boas para o surf. E, depois, quase todos os músicos que saem de lá escrevem canções desesperadamente românticas e angustiadas...
(risos) Não faço a mais pequena ideia porque é que isso é assim...Tudo isso é verdade, mas, de facto, para além desse postal ilustrado das praias, houve sempre uma certa escuridão. É um pouco como acontece com Los Angeles que também tem o mesmo tipo de atmosfera e é capaz de produzir igualmente música magoada e melancólica. Provavelmente, terá mais a ver com o que acontece à noite...
Ao fim destes anos, já consegue ter uma perspectiva sobre o "songbook" dos Go-Betweens? Tem álbuns favoritos, canções preferidas?
Sinto-me muito feliz por termos podido gravá-los a todos mas também me recordo de, quando, publicámos o primeiro, termos ficado terrivelmente desiludidos com ele O que teve o lado positivo de nos obrigar a empenharmo-nos imenso no Before Hollywood. Mas, para além desse primeiro, nunca me passaria pela cabeça a ideia de voltar atrás e retocar ou modificar fosse o que fosse. É uma história contada através de discos muito diferentes que, se quiséssemos aperfeiçoar, se calhar, ficariam todos a soar ao mesmo.
O meu preferido é, definitivamente, Liberty Belle & The Black Diamond Express... O que é que o fez tão especial?
É, realmente, um disco extraordinário... Foi o momento em que tomámos, de facto, as rédeas do que pretendíamos fazer. Quando terminámos o anterior, Spring Hill Fair (que nos pareceu ter sido excessivamente produzido), tivemos imediatamente a noção clara de como desejámos que fosse o seguinte, muito mais orgânico. Nessa altura, também já vivíamos em Londres há três anos e tínhamos começado a estabelecer relações e contactos.
Para este álbum de regresso, recuperaram antigas canções que não haviam editado ou são todas novas?
Decidimos gravar o disco em Maio. Eu tinha oito canções escritas desde 96 e o Grant tinha outras três.
Perguntei-lhe isso porque, quando comecei a ouvir o álbum, foi como se todos estes anos de ausência não tivessem existido e, de súbito, os Go-Betweens, tal como sempre os conhecemos, estivessem ali de novo...
(risos) Foi o que nós próprios sentimos e que também nos surpreendeu. Limitámo-nos a começar a tocar e tudo surgiu muito naturalmente. Não nos apetecia ir gravar para Londres ou para Nova Iorque trabalhar com músicos de estúdio durante seis meses. Queríamos apenas fazer um bom disco dos Go-Betweens muito natural e orgânico.
A propósito, quem é a Rachel Worth do título?
É uma personagem de ficção que nós inventámos. Não conheço ninguém com esse nome. Queria que soasse como o título de um filme ou de um livro policial. E que, quando as pessoas escutassem este nosso primeiro disco depois de doze anos de ausência, se interrogassem "mas de onde é que isto veio?".
Em diversas canções, onde recordam os tempos em que se divertiam a folhear revistas de surf, evocam nomes de praias ou se referem a Patti Smith, há uma certa atmosfera do que, numa canção anterior, falavam: "dive for your memory"...
É verdade, aconteceu mesmo assim. Mas todos esses temas e subtemas surgem um pouco acidentalmente. Escrevemos as canções ao longo de vários anos e não é deliberadamente que lhes impomos um tema único. Tem a ver com a nossa identidade, a nossa memória, tudo coisas inconscientemente presentes em nós.
Finalmente, depois deste disco, vão continuar connosco ou vão desaparecer outra vez?
Queremos continuar a trabalhar juntos e já pressinto a direcção em que poderemos seguir num proximo disco. Essa ideia entusiasma-nos muito, temos ainda coisas para dizer e, pelo menos, mais um álbum iremos gravar de certeza. (2000)
23 January 2007
The National - Alligator
Só existe uma forma de absorver todas as referências e reverências disponíveis e não regurgitar apenas uma colagem de maneirismos e tiques alheios: possuir talento. Muito talento. Matt Berninger (e The National, enquanto colectivo) possuem-no em exuberante abundância pelo que, se Joy Division, Go-Betweens, Cohen, R.E.M., Bunnymen, Tindersticks, Nick Cave ou Triffids — e diversos outros que, sem problemas, eles próprios admitiriam — terão inevitavelmente feito parte da sua dieta musical, todos os temas de Alligator (terceiro álbum do quinteto de Brooklyn) só a eles pertencem e a mais ninguém.
A forma é a da canção pop clássica sem excessos de maquilhagem (guitarras, piano, bateria e o episódico arranjo de cordas e sopros de Padma Newsome que, com um dos elementos do grupo, Bryce Dessner, integra também os pós-clássicos Clogs), tão melódica quanto amarga e quase doentiamente irónica. Isto é, a canção pop na sua melhor encarnação, ávida de cuspir enormidades como "Karen put me in a chair, fuck me and make me a drink, I lost direction and I'm past my peak" ou "It's a common fetish for a doting man to ballerina on the coffee table, cock in hand", arrogante no desespero exibicionista ("I'm a perfect piece of ass, I'm a festival, I'm a parade, I'm a birthday candle in a circle of black girls"), entre a redenção ("Oh come, be my waitress and tonight serve me the sky with a big slice of lemon") e o inferno ("I think I'm Tennessee Williams, I wait for the click but it doesn't kick in"). A crónica de um "medium-sized american heart" de taquicardia em uníssono com o de Mark Eitzel. (2005)