(sequência daqui) Agora que, à beira de completar 81 anos, publica Mercy (17º álbum a solo e o primeiro numa década), na companhia de Weyes Blood, Animal Collective, Sylvan Esso, Fat White Family e Laurel Halo, um coro de louvores fez-se ouvir, oriundo de diversos quadrantes e gerações.“Se fossemos apenas o produtor que ele é e foi, teríamos lugar garantido na História. Se apenas tivéssemos sido parte dos Velvet Underground, teríamos um livre trânsito para o paraíso do rock’n’roll. Mas, depois, ainda há todos os álbuns a solo para a Island, a colaboração com Brian Eno e Songs For Drella!... Aborda as coisas sempre numa perspectiva de ‘O que é que, neste momento, me parece interessante?’ em vez de o fazer numa atitude carreirista. Canções criadas assim persistem de um modo muito diferente porque foram pensadas com respeito” diria James Murphy, dos LCD Soundsystem, esquecendo-se, porém, de dar o mui devido destaque ao sobrenatural Music For a New Society (1982) que, Cale sendo Cale, em M:FANS (2016), metodicamente demoliria; “Considero uma enorme honra poder observar cada uma das pequenas decisões que ele toma. Atira-nos duas ou três frases para explicar aquilo que pretende e isso tem um significado imenso”, adianta Brian Weitz/Geologist, dos Animal Collective; “De certo modo, ele podia ser muito formal – muito erudito e clássico. Mas era também capaz de ser tão selvagem como qualquer um de nós”, acrescenta Patti Smith, de quem – numa lista que inclui igualmente os Stooges, Nico, Modern Lovers, Happy Mondays, Siouxsie & The Banshees – ele produziu o álbum de estreia, Horses (1975). (segue para aqui)
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09 February 2023
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15 September 2021
Marc Ribot's Ceramic Dog (live on KEXP 2016)
(sequência daqui) Agora, com os Ceramic Dog (Ribot, Shahzad Ismaily e Ches Smith), Hope – gravado durante os confinamentos do ano passado como “uma mensagem na garrafa dirigida aos nossos (imaginários) ouvintes igualmente naufragados” – busca um outro território onde os alvos são as frívolas e impotentes personagens do lado supostamente certo da barricada: os “fabulosos” aspirantes a estrelas rock, os guitarristas mais rápidos que a própria sombra, os poetas “iluminados”, os filósofos “pós-modernos”, os “activistas” de todas e nenhuma causa, que, sob o sarcástico fogo eléctrico cerrado dos “Stooges e Sex Pistols da vanguarda novairquina”, um a um, tombam no cenário de canções “muito, muitíssimo mais deprimentes do que as Canções das Crianças Mortas, de Mahler” (Ribot dixit), adequadamente projectadas em registo punk de descarnada costela jazz.
21 August 2021
(sequência daqui) A primeira metade de "In The Stone", a faixa de abertura, engana. Dir-se-ia que, afinal, tudo teria permanecido sem grandes abalos. Mas, logo à frente, a liquidificação da guitarra eléctrica anuncia que novos ângulos irão ser explorados. E sê-lo-ão. Em "Tag", Riley Jones revela que se deixou voluntariamente influenciar pelos Psychic TV e Jeffrey Lee Pierce (Gun Club) e que, para "Desire", optou por Elvis, Keiji Haino e Kylie Minogue; Forster descreve "The Chance" como uma canção de Tim Hardin com um refrão das Hole e "Bathwater"enquanto vénia às Raincoats com uma batida disco e alusões aos Kiss e Blue Nile; e James Harrison fica-se por Jandek, Syd Barrett e Nick Drake. Mas, bem espiolhadas e analisadas uma a uma, encontrar-se-ão ainda vestígios – reais ou imaginários mas prontamente assumidos – de Throbbing Gristle aos "psych-rockers" japoneses dos anos 70, Les Rallizes Dénudés (famosos, entre outras proezas, por um dos seus elementos, militante da Red Army Faction, ter desviado um avião e pedido asilo político à Coreia do Norte), Royal Trux, Coil, The Stooges, Cocteau Twins, Jesus And Mary Chain, Fushitsusha, This Mortal Coil ou até (Riley, era mesmo necessário?...) a trafulhice psicanalítica de Jacques Lacan.
Não resta a mais ínfima dúvida que Louis Forster, James Harrison e Riley Jones desejaram muito cortar o cordão umbilical que, para o bem e para o mal, os ligava à genealogia Go-Betweens. Essencial, então, é saber se, pelo meio da teia de referências e da utilização quase obsessiva do batalhão de sintetizadores de Geoff Barrow, das guitarras sobre-processadas e da sonoridade desmedida de percussões acústicas e electrónicas, tudo não terá resultado inutilmente sobrecarregado e excessivamente afastado da espontaneidade das "jams" na Fantasy Planet, de Brisbane, onde houve ainda tempo e espaço para, antes de chegarem às maquetes de Mirror II, gravarem um álbum “demasiado beefheartiano” e lançá-lo para o lixo.
22 March 2021
08 December 2019
O convite ao bocejo
Previsíveis como a sucessão das estações (antes das alterações climáticas), depois do ímpeto reconstrutor na toca da beatagem social-fascista, seguem-se as divergências, tendências e sensibilidades de berliques e berloques.
The Stooges - "No Fun"
09 May 2019
COMBUSTÍVEL
“A música 'underground' deverá estar intrinsecamente ligada a ideias radicais, a uma empatia radical ou não passará de uma pose. Se a música não se relacionar com uma noção maior do bem comum, será suspeita de não ser senão um entretenimento altamente intelectualizado para gente rica. Recusamo-nos a contribuir para esse lamaçal. Na América, o sistema da justiça criminal é a linha da frente do sistema de privação de direitos económicos em que a nação assenta. Sendo todos nós homens brancos – aqueles para cujo benefício o sistema foi construido –, temos de usar esse previlégio para o dedicar a algo maior, às pessoas que o sistema esmaga. A música não é o combate material e físico necessário para mudar as coisas mas contribui para que as pessoas tomem consciência do poder que têm nessa luta”, declara à “Uncut” Jim McHugh, guitarrista dos novaiorquinos Sunwatchers (uma homenagem a "Sun Watcher", do álbum New Grass, de Albert Ayler, 1968), que, juntando as palavras aos actos, fazem reverter o produto da venda das suas gravações para diversas ONG e grupos de abolição e reforma do sistema prisional.
A capa de Illegal Moves, terceiro álbum da banda, procura deixar bem explícitas as intenções: assinada por Scott Lenhardt num estilo gráfico próximo do da “Mad Magazine”, é uma espécie de variação sarcástica sobre a de Sgt. Pepper's, onde uma multidão de figurões (de Nixon a Margaret Thatcher e ao palhaço Ronald McDonald, com os quatro elementos do grupo incluidos), assiste ao eufórico esquartejamento do Tio Sam pelo boneco da Kool-Aid. De facto, para um grupo que se apresenta como “o martelo que esmagará o capitalismo” mas cria apenas música instrumental, dir-se-ia que o apoio visual seria imprescindível. Nem tanto assim: reivindicando-se da herança do free-jazz (Archie Shepp, Ayler, Pharoah Sanders) e dos Coltrane, Alice e John, mas também de Beefheart, Zappa, do punk e do psicadelismo mais ácido, o programa – ideologicamente irmão dos Gnod de Just Say No To The Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine (2017) – encara a mudança enquanto explosão simultânea de “sonic catharsis and revolution”. Na fornalha, em acesos combates de guitarra, sax, baixo e bateria, arde, então, o espectro dos Stooges mas também "Ptah, The El Daoud", de Alice Coltrane – algo como a banda sonora de um "western spaghetti" alimentado a "phin" tailandês e "saz" turco, em atmosfera "free-form" – ou o exotismo libertário dos East of Eden, combustíveis insurrreccionais de eleição.
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25 April 2016
LONDRES, MALI, AMÉRICA
The Parkinsons: A Long Way To Nowhere, de Caroline Richards, podia ser quase o cruzamento entre um filme de promoção do turismo da região Centro para segmentos de mercado “alternativos” e um dicionário exaustivo de clichés punk-rock: grupo de jovens roqueiros entediados com a pasmaceira de Coimbra (o fado, a Sé, o Mondego, a universidade mais antiga, capas e batinas, as Queimas) “onde nada acontece e as pessoas vão todos os domingos á missa”, emigra para Londres em 2000 e, num momento de ausência de "hype" mais à mão (o "britpop" tinha arrumado as botas), desfruta dos proverbiais quinze minutos de fama, preenchendo o vazio da nostalgia do punk por quem nunca o vivera. O guião estava já escrito e reescrito – ver em Pistols, Stooges, Cramps –, bastava carregar nos temperos: cuspo, vómito, nádegas e pilas ao léu, javardice generalizada em palco, “filthy cock rock”, a cena batida de adolescentes retardados a portarem-se mal. Em versão “pork and cheese”. Só porque sim. Até que, como seria inevitável, “a caricatura deixou de ter piada” e a breve história dos Parkinsons – com posteriores e fugazes regressos à vida – tinha chegado ao fim. O relato de Caroline Richards, é convenientemente (e também limitadoramente) hagiográfico mas, exibido em Portugal, inclui um bónus genuinamente punk: a legendagem, exemplo raro e superior de iconoclastia perante a ortografia, a sintaxe e as flexões verbais.
Verdadeiramente interessantes na programação do IndieMusic são Mali Blues, de Lutz Gregor, e The Sad and Beautiful World of Sparklehorse, de Alex Crowton e Bobby Dass. Alegado berço dos blues, a oitava maior nação africana, predominantemente muçulmana, viu-se, desde 2012, sob a ameaça de uma revolta jihadista no norte do país apostada na imposição radical da Sharia. A qual, entre diversas outras aberrações civilizacionais, implicava a proibição da música, “tentação satânica que enche o coração de desejos lascivos”. É sobre essa maldição que, em Mali Blues, falam, cantam e dançam a magnífica Fatoumata Diawara, o griot, “maître des paroles” e virtuoso executante de ngoni, Bassekou Kouyaté, o rapper Master Soumi e o músico tuaregue Ahmed Ag Kaedy, por entre belíssimas imagens das margens do Níger, das estradas e ruas malianas e o imenso silêncio do deserto africano.
O filme de Crowton e Dass concentra-se na biografia de Mark Linkous, personagem trágica e entidade única por trás do "nom de plume", Sparklehorse, criatura da “rural America full of drugs and religion”, morto em 2010, quando, pondo termo a uma existência devastada por dependências e distúrbios mentais vários, disparou uma caçadeira sobre o coração. Num mosaico em que as peças vão sendo reunidas por companheiros e colaboradores como Jonathon Donahue e Grasshopper (Mercury Rev), David Lowery (Camper Van Beethoven), Jason Lytle (Grandaddy), Ed Harcourt, Adrian Utley (Portishead) e John Parish, emerge, pouco a pouco, a figura a quem devemos os incomparáveis Vivadixiesubmarinetransmissionplot, Good Morning Spider e It's a Wonderful Life.
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19 February 2015
Motor City's Burning | Detroit From Motown
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01 October 2014
DAS CONVERSÕES
Paul Morley, crítico/jornalista-ponta-de-lança do “NME” nos anos 80, e, acima de tudo, inventor dos Frankie Goes To Hollywood, Art Of Noise e, mais genericamente, da ZTT – empreendimento editorial destinado a dominar o mundo embrulhado em citações dos futuristas italianos mas que, sob a direcção do triunvirato fundador Trevor Horn/Jill Sinclair/Paul Morley, apenas persistiu até à saída do “incompreendido” Morley, em 1988 –, aos 57 anos, teve uma epifania. Como conta no “Guardian” de 21 de Setembro, ele que sempre considerara a música clássica “uma pomposa arte do passado” perigosamente acorrentada a um “espírito de superioridade sombrio e nada inspirador, fixado no interior de um status quo ideologicamente suspeito”, de repente, viu a luz! Afinal, “a exaltante sugestão de novos começos, a palpitante sensação de um amanhã vibrante e libertador da mente” não se encontra já na pop mas naquilo que, em comparação com os Stooges, os Velvets ou os Buzzcocks, até aí, equivocadamente, supunha ser “algo monstruoso, coisa de um mundo onde dinossauros indolentes e dragões desdentados se recusavam a aceitar que estavam extintos”. E, iluminado, proclama ao mundo, “A pop é do século passado. O futuro é da música clássica!”
Se existe um grão de verdade nos motivos que alega para se ter enfastiado com a pop – “transformou-se numa prática nostálgica e de preservação mais do que visionária e ávida de mudança” – o mais bizarro é um crítico de música ter necessitado de tanto tempo para se aperceber de que a “clássica” (e, nas recomendações que sugere “para converter os incréus”, mistura, descontraidamente, clássicos, românticos e contemporâneos, sob a mesma designação) não coincidia com os seus preconceitos de adolescente iletrado. Para enxergar o futuro, nem é obrigatório, como ele decreta, “recuar até aos séculos XIX, XVIII e XVII” (quando descobrir a pop do Renascimento, vai, de certeza, dar entrada nas urgências...), nem abdicar do esforço de continuar a explorar a música popular actual que não vive engatada em marcha atrás. O diagnóstico de Simon Reynolds quanto ao “state of the art” não será muito diferente mas a terapêutica é, seguramente, outra. Moral da história? Aqui (e em todo o resto), fugir como da peste do zelo fanático dos recém-convertidos àquilo de que, anteontem, eram completamente ignorantes.
17 May 2012
A REGRA DE TRÊS SIMPLES
(2ª parte da entrevista com Jack White publicada na "Blitz")
(2ª parte da entrevista com Jack White publicada na "Blitz")
Não estava propriamente à espera de que um diálogo de vinte e cinco minutos com um dos 20 melhores guitarristas de sempre do rock’n’roll, de acordo com o ranking de 2011, da “Rolling Stone” (mais precisamente, o 17º - “the hottest new thing on six strings by celebrating the oldest tricks in the book: distortion, feedback, plantation blues, the 1960s-Michigan riff terrorism of the Stooges and the MC5”), pelo caminho, se desviasse para uma espécie de debate em torno da influência da religião no processo político norte-americano e suas peculiaridades anexas, sob o eventual alto patrocínio de Richard Dawkins. Mas tudo começou quando, em naturalíssima sequência da alegada “obscenidade da religião”, me ocorreu perguntar a Jack White o que pensava acerca do despique actualmente em curso nas primárias do Partido Republicano, travado à volta da magna questão de aferir quem é mais fanática e irremediavelmente conservador e cristão?
“Os políticos, na América, utilizam a religião como a forma mais fácil para serem eleitos. As pessoas assustam-se, supõem que há quem se preocupe imenso com questões morais, mas, no fundo, é apenas o caminho mais curto que descobriram para chegar ao poder. Imagina que, se algum candidato se declarasse abertamente ateu, poderia, alguma vez, ser eleito presidente? Nunca na vida. Poderia ser mil vezes mais capaz e mais qualificado para o cargo que todos os outros mas nunca seria eleito”.
A resposta à interrogação seguinte – “posso perguntar-lhe em quem votou nas últimas presidenciais?” –, porém, foi ainda mais desconcertante:
“Em ninguém. Nunca votei para a presidência. Recuso-me a fazê-lo porque não acredito no sistema do colégio eleitoral que não respeita o voto popular. O presidente deveria ser eleito por voto directo: aquele que tivesse maior número de votos ganharia. Mas o que acontece é que é eleito pelo colégio eleitoral, uma relíquia repugnante que data do século XVIII e que permitiu, por exemplo, que George W. Bush fosse eleito sem ter alcançado a maioria dos votos. Ganhou através do colégio eleitoral e não pelo voto popular. É absolutamente ridículo, mas ninguém parece preocupar-se com isto”.
17 July 2011
28 January 2008
OLDIES BUT NOT SO GOLDIES
(I - uma série exumada a partir daqui)
At The Drive-In - Relationship Of Command

Godspeed You Black Emperor! - Levez Vos Skinny Fists Comme Antennas To Heaven
Sigur Rós - Agætis Byrjun
Três ultra-exemplificativas variantes de um certo reaccionarismo estético contemporâneo: o punk-rock-garage, o "wall of sound" de guitarras à maneira de Glenn Branca e Rhys Chatham e a revisitação 4AD fora de prazo. Que a avassaladora amnésia (em versão menos benevolente: apenas pura ignorância ou, ainda pior, complacência) actual se tem empenhado em transformar em "revelações" ou "next big things" não se sabe muito bem de quê.
Os At The Drive-In são tão só os Stooges e MC5 exumados e convertidos em guerrilheiros salvadores da alma perdida do rock "íntegro". E isto quer só dizer os mesmos três acordes de sempre (com aparição obrigatória do fantasma de Iggy Pop — mas, esse, não vendeu já a alma ao "showbiz"?!) em denúncia decibelicamente portentosa da "opressão" que dá sempre muito jeito estar ali mesmo à mão mas que já viu o suficiente para não se impressionar demasiado com "guerrilheiros" destes que, em última análise, se limitam a ser apenas um bom espectáculo-para-entreter-os-putos-mais-ou-menos-rebeldes.

GYBE!
Os Godspeed You Black Emperor! investem na dimensão esotérica-alternativa (na versão A Silver Mt. Zion são algo mais interessantes...) mas, se excluirmos os bruitismos e concretismos "schaefferianos" de "musique vérité" que, francamente, já deram há muito quase tudo o que tinham a dar (pelo menos, quando encarados desta forma tão literal), sobram só os épicos crescendos intermináveis de guitarras que, há duas décadas, Glenn Branca e Rhys Chatham sugaram com proveito até ao tutano e, em versão, pop/rock, os Sonic Youth desenvolveram.
E cheguemos aos únicos reaccionários verdadeiramente interessantes do lote: os islandeses Sigur Rós, colectivo de praticantes daquela metafísica sonora que, um dia, no início da década de 80, emergiu em Londres num edifício de Alma Road e assumiu o compromisso de se extinguir dez anos depois. Pois, nem a 4AD cumpriu o prometido nem os seus apóstolos, um pouco por todo o mundo, o fizeram por ela. Como estes islandeses que habitam um universo imaginário de secções de cordas flutuantes, dicionários inventados, litanias encantantórias, vozes angélicas, paráfrases mortalcoilianas, joy divisionismos avulsos e arrebatamentos de dissonância orquestral que se encontram no interior de um álbum esteticamente velho mas (é impossível não o admitir) assombrosamente bonito. (2000)
(I - uma série exumada a partir daqui)
At The Drive-In - Relationship Of Command
Godspeed You Black Emperor! - Levez Vos Skinny Fists Comme Antennas To Heaven
Sigur Rós - Agætis Byrjun
Três ultra-exemplificativas variantes de um certo reaccionarismo estético contemporâneo: o punk-rock-garage, o "wall of sound" de guitarras à maneira de Glenn Branca e Rhys Chatham e a revisitação 4AD fora de prazo. Que a avassaladora amnésia (em versão menos benevolente: apenas pura ignorância ou, ainda pior, complacência) actual se tem empenhado em transformar em "revelações" ou "next big things" não se sabe muito bem de quê.
Os At The Drive-In são tão só os Stooges e MC5 exumados e convertidos em guerrilheiros salvadores da alma perdida do rock "íntegro". E isto quer só dizer os mesmos três acordes de sempre (com aparição obrigatória do fantasma de Iggy Pop — mas, esse, não vendeu já a alma ao "showbiz"?!) em denúncia decibelicamente portentosa da "opressão" que dá sempre muito jeito estar ali mesmo à mão mas que já viu o suficiente para não se impressionar demasiado com "guerrilheiros" destes que, em última análise, se limitam a ser apenas um bom espectáculo-para-entreter-os-putos-mais-ou-menos-rebeldes.
GYBE!
Os Godspeed You Black Emperor! investem na dimensão esotérica-alternativa (na versão A Silver Mt. Zion são algo mais interessantes...) mas, se excluirmos os bruitismos e concretismos "schaefferianos" de "musique vérité" que, francamente, já deram há muito quase tudo o que tinham a dar (pelo menos, quando encarados desta forma tão literal), sobram só os épicos crescendos intermináveis de guitarras que, há duas décadas, Glenn Branca e Rhys Chatham sugaram com proveito até ao tutano e, em versão, pop/rock, os Sonic Youth desenvolveram.
E cheguemos aos únicos reaccionários verdadeiramente interessantes do lote: os islandeses Sigur Rós, colectivo de praticantes daquela metafísica sonora que, um dia, no início da década de 80, emergiu em Londres num edifício de Alma Road e assumiu o compromisso de se extinguir dez anos depois. Pois, nem a 4AD cumpriu o prometido nem os seus apóstolos, um pouco por todo o mundo, o fizeram por ela. Como estes islandeses que habitam um universo imaginário de secções de cordas flutuantes, dicionários inventados, litanias encantantórias, vozes angélicas, paráfrases mortalcoilianas, joy divisionismos avulsos e arrebatamentos de dissonância orquestral que se encontram no interior de um álbum esteticamente velho mas (é impossível não o admitir) assombrosamente bonito. (2000)
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