Showing posts with label The Smiths. Show all posts
Showing posts with label The Smiths. Show all posts

26 December 2024

 LIMPEZA, RESTAURO E RECONSTRUÇÃO


Não há forma de lhes fugir. Pode atribuir-se-lhes muita, pouca ou nenhuma importância mas, a partir do momento em que, mais ou menos espontaneamente, surgem, é garantido que - para além do que de valioso produzam - a indústria rapidamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para as esterilizar, normalizar, infinitamente replicar e converter em marcas registadas. Falo, naturalmente, das inúmeras "scenes" que, numa interminável corrida de estafetas, recebem o testemunho da anterior e logo o passam à seguinte. Breve revisão: o “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths); a breve mas intensa "no wave" novaiorquina; o lerdo grunge de Seattle; a coreografia química de Madchester; o "british jazz revival" de Sade, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl; a languidez de Bristol; enfim, a cintilante polivalência da "Brooklyn scene" (Dirty Projectors, Vampire Weekend, The National, My Brightest Diamond). (daqui; segue para aqui)

Lone Justice - "Teenage Kicks"

11 August 2022


(sequência daqui) Por altura dos dois primeiros (e excelentes) álbuns da banda – Hope Downs (2018) e Sideways To New Italy (2020) – os RBCF refugiavam-se numa atitude de cuidadosa contenção no que respeita à expressão de pontos de vista políticos (“Somos todos muito politicamente conscientes e activos. Mas não me parece que tenhamos o direito de falar sobre essas coisas. Quem somos nós, três homens brancos e 'straight', para dizer que pensamos assim e assado?”, dizia, então, Keaney ao “NME”); agora, dois atribuladíssimos anos da história do mundo passados, as coisas modificaram-se sensivelmente: “É difícil impedir que a realidade de tempos tão confusos e frustrantes se infiltre nas nossas canções. Enquanto grupo, somos optimistas e tentamos manter-nos longe de posturas cínicas. Mas tem sido um tempo difícil para optimistas. Há um razoável número de coisas claramente erradas neste país e no mundo a que as canções são permeáveis. ‘The Way It Shatters’, ‘Tidal River’, ‘Bounce Off The Bottom’, todas têm como pano de fundo a paisagem social”. O ódio assassino anti-imigração, a devastação ambiental, as gritantes desigualdades sociais, a violência contra os povos nativos, estão, de facto, todos aqui: engalanados num triplo disparo de guitarras, em barroca pirotecnia que ecoa simultaneamente os Television, Go-Betweens, The Smiths, Echo & The Bunnymen e R.E.M. e, a partir daí, cria uma realidade maior.

01 April 2022

 
(sequência daqui) Passaria também por Jacques Brel (“Ouvimos uma canção como ‘Jackie’ e pensamos ‘Que diabo! Isto é um filme condensado em três minutos e meio!’ Tentei escrever canções assim e, obviamente, falhei. Mas, ao falhar, cheguei a outros lugares que eram igualmente importantes”), Noel Coward, Bacharach/Hal David, Gershwin, Cole Porter e, avançando vertiginosamente no calendário, Jarvis Cocker (“Foi uma grande influência no que faço. Tinha alguma inveja de como a escrita dele era tão fantasticamente intensa. Não se alimentava dos lugares comuns habituais na composição de canções pop e era tão divertido como tenebroso”). Mas também pelo cinema e pela literatura: "The Booklovers" (de Promenade, 1994) inicia-se com um sample de Audrey Hepburn enquanto expedita e erudita livreira, no filme Funny Face (Stanley Donen, 1957) e prossegue com a enumeração de 73 autores literários; "Bernice Bobs Her Hair" é a transmutação pop de uma "short story" de F. Scott Fitzgerald; e "Lucy" (de Liberation, 1993) é um mil-folhas confeccionado a partir de três poemas de Wordsworth. “Naturalmente, sou uma espécie de pega, tanto em termos musicais como literários. Suponho que havia um certo fascínio nos livros que andava a ler e que não via reflectido na música que escutava, à excepção, talvez, do Morrissey, com os Smiths. E tive a sorte de nunca virem a correr atrás de mim por causa dos direitos de autor!” Mas há um método? Ao fim de três décadas, existe alguma espécie de modus operandi estabelecido? “Raramente escrevo com a intenção de construir um álbum. Eles apenas vão acontecendo. Às tantas, reparo que existe uma certa quantidade de canções que parecem convergir numa determinada atmosfera. Por isso, nunca penso em álbuns mas eles acabam por aparecer. É realmente incrível que eu ainda ande por cá. Mesmo com todas as bizarrias, a minha única intenção foi sempre apenas gravar discos pop”.

14 October 2020

HEMORRAGIA LENTA


Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
 

Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.

11 August 2020

AGITADORES


No extenso e desvairado menu da esfera conspiranóica, um dos pratos actualmente com mais saída é o do “marxismo cultural”, herdeiro legítimo do “bolchevismo cultural” nazi. Simplificando bastante porque não é de digestão fácil, algures numa obscura caverna, uma seita de temíveis radicais apostados em virar o mundo do avesso, trabalharia dia e noite para manter em frenética actividade os seus agentes espalhados pelo planeta (e, em especial, pelos media, universidades, artes, letras, ciências sociais), soldadinhos da subversão do Ocidente branco e cristão e da militância por causas com as quais, na maioria, Marx nunca sequer sonhou: políticas de género, ambientalismo, imigração, secularismo, questões identitárias. Não basta ser direitolas para combater nas fileiras dos anti-marxistas culturais, é indispensável acreditar que, desta vez, “o espectro” anda mesmo por aí e que, sem darmos por isso, vai devorar-nos as entranhas. 

"New Left Review #2" (álbum integral aqui)

Por, em 1985, terem chegado cedo de mais – o papão do “marxismo cultural” só foi detectado no início dos anos 90 – ou por tenderem para um marxismo mais "old school", os McCarthy de Malcolm Eden, Tim Gane, John Williamson e Gary Baker (Lætitia Sadier juntar-se-lhes-ia fugazmente antes de, com Gane, fundar os Stereolab) nunca caíram no index da nova Inquisição mas, na qualidade de agitadores infiltrados na cultura pop, houve muito poucos como eles. Adepto do distanciamento brechtiano, Eden (a locomotiva ideológica da banda), ao modelo punk de agit-prop irada, preferia as interrogações educadamente irónicas (“Who made the wealth in this pleasant land? The entrepreneurs made it with their only free hand. Why do prices rise? Who's to blame for that? The workers put up prices with their pay demands”) envoltas no doce crochet de guitarras de raiz Byrds/Smiths. The Enraged Will Inherit The Earth (1989) – segundo volume antes do terceiro e final Banking, Violence And The Inner Life Today (1990) –, agora reeditado em duplo vinil com as proverbiais raridades, não há-de escapar outra vez às patrulhas de vigilância.

18 December 2019

FÁBULA MENTIROSA

  
Ouvir Bid explicar pormenorizadamente a génese de Fabula Mendax é um divertido exercício de humor e perplexidade. No qual, ao contrário do que é hábito, o humor reside na imensidade de informação histórica – supostamente séria e inédita – que nos oferece e a perplexidade resulta do facto de, a rematar cada jacto de erudição, o fundador e motor criativo dos Monochrome Set não ser capaz de evitar uma gargalhada escarninha. Por outras palavras, embora ninguém consiga arrancar-lhe a confissão de que este episódio medieval apenas existiu na sua fertilíssima imaginação, toda a narrativa é desmontada pela forma como a apresenta. Queiram, então, travar conhecimento com a nobre donzela Armande de Pange, pseudónimo conveniente de uma jovem guerreira de Metz, na Lorena, cuja fuga – por motivos ainda não decifrados – da casa paterna a leva a cruzar-se com Joana D’Arc em cujo exército de apoio à causa anti-inglesa de Carlos VII se alistaria. Adicionalmente, deverá saber-se também que tal relato foi descoberto em preciosos e secretos manuscritos do século XV, à guarda da antiquíssima família da mulher de Bid (originária de Metz), que jamais nos autorizará a consultá-los. 



É sabido que os Smiths nunca esconderam a sua admiração pelos Monochrome Set mas é pouco provável que estes, em troca, tenham ido, agora, inspirar-se naquela estrofe de "Bigmouth Strikes Again" em que Morrissey, referindo-se âs alucinações auditivas da "pucelle d’Orléans" (que não a levaram a ser internada mas canonizada), cantava “And now I know how Joan of Arc felt, now I know how Joan of Arc felt, as the flames rose to her Roman nose and her hearing aid started to melt”. Não é, igualmente, de supor que tenham lá chegado através do fogo de Leonard Cohen lançado sobre o gelo de Nico em "Joan of Arc", e muito menos por efeito do pastelão sonoro de Madonna, na canção homónima. Aceite-se, pois, a versão-manuscrito de Metz levedada pela neuroescrita automática de Bid pós-aneurisma de 2010 – que já lhe rendeu 6 álbuns em 7 anos – e imprima-se a lenda: a “fábula mentirosa” é um sobreexcelente álbum de pop em estado de graça, coisa de supremo requinte de confecção, onde medievalismos ibéricos se cruzam com a sombra de um Morricone inesperadamente gótico, Jacques Brel e David Bowie partilham as mesmas cordas vocais e, por entre o desfile de um elenco de figuras de Bruegel, se escuta uma "Chanson de la Pucelle" de recorte vagamente mariachi talhada à medida para um filme de Disney. "

27 October 2019

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LIX)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

Lloyd Cole & The Commotions - "Grace"

18 September 2018

MALÍCIA


Foi já publicado há alguns meses mas, no caso, isso é absolutamente indiferente: qualquer disco dos Monochrome Set poderia ter sido gravado há 40 anos (quando Bid – "aka" Ganesh Seshadri – se reuniu com a primeira formação da banda de que, hoje, entre quase duas dezenas de baixas posteriores, é o único sobrevivente), anteontem ou algures no futuro. Complique-se um bocadinho: é tão legítimo vê-los na qualidade de herdeiros naturais dos Kinks como enquanto precursores dos Smiths, Blur, Pulp, Orange Juice ou Divine Comedy, estatuto que nenhum dos incluídos na lista repudia. Tão observadores implacáveis mas distanciados do “humano, demasiado humano”, quanto adeptos do ponto de vista de Marcel Duchamp que aconselhava a “nunca levar o mundo demasiado a sério sob pena de morrer de aborrecimento”, e exercendo a arte num inoxidável perímetro pop clássico, tiveram o seu instante de glória quando uma anónima votação "online" consagrou Strange Boutique (1980) como o 5 824º melhor álbum de sempre. Na última vez que tropecei neles – Platinum Coils (2012) –, Bid, num “musical sobre um internamento hospitalar”, divertia-se com a infinita comédia da mortalidade, a propósito da recente refrega com um aneurisma cerebral. Era também o momento em que, após 17 anos de hiato, a banda se reactivava e publicava um álbum não menos conceptual do que o actual Maisieworld



São eles mesmos que, agora, me poupam algum trabalho de o apresentar: Maisieworld é destilado a partir das flores pungentes da malícia artística e representa o apogeu da consumação sonora. Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set. Sereis cercados pelos ecos de uma era passada de perícia enquanto vos podereis recompor nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas (...). Vozes jocosas cantarão a vossa frágil natureza orgânica, os tristes sonhos e esperanças que alimentais (...). À saída de Maisieworld, sereis agradavelmente surpreendidos ao descobrir-vos repletos de pensamentos insólitos”. Acrescente-se que Maisie (na capa) é uma Barbie de bronze e o tema geral é algo como Dorian Gray num mundo de robôs, meio "vaudeville" vampiresco, meio "cyber-porn" de recorte espirituoso, excêntrico, absurdo e concebido por medida para um Gentlemen’s Club de frequentadores peculiares e adeptos de excitantes extravagâncias. Isto é, mais do que recomendável.

12 April 2018

UM OVO DE FABERGÉ

  
Seria a música ou o cinema. “Grant falava-me da Nouvelle Vague e do ‘film noir’. Eu falava-lhe da grandeza dos Velvet Underground. Ele falava-me acerca da teoria dos autores e do génio de Preston Sturges. Eu falava-lhe de Dylan, a meio dos anos sessenta. Ele referia Godard e Truffaut. Tornámo-nos Godard e Truffaut. Brisbane não fazia a menor ideia disso mas havia dois miúdos de dezanove anos ao volante de um automóvel que pensavam ser realizadores de cinema franceses”. E, com um single – lado A, "Lee Remick", dedicado à actriz de Days Of Wine And Roses; lado B, "Karen", exercício de luxúria juvenil sobre as bibliotecárias da universidade de Queensland – e quase nenhum dinheiro no bolso, Robert Forster e Grant McLennan, em 1979, voaram da Austrália para Londres. Não conheciam ninguém e não tinham um único número de telefone útil. Com pernas demasiado curtas para andar, o plano de internacionalização-relâmpago dos Go-Betweens, naturalmente, teve de ficar entre parêntesis. Obrigado a aceitar emprego no arquivo de radiologia do St. Mary’s Hospital, Forster descobriu, por acaso, uma radiografia ao joelho do realizador de cinema, Nicolas Roeg. No último dia em que ali trabalhou, escondeu-a no sobretudo e, qual fetiche, levou-a. Como, agora, conta em Grant & I: Inside And Outside The Go-Betweens, “Foi o mais perto que alguma vez chegámos da indústria cinematográfica britânica”



Não desistiram, porém: já a banda tinha publicado os seis álbuns da primeira metade da carreira, Forster (durante uma tournée com Lloyd Cole com quem, em Lisboa, jogou golf) desafiou McLennan para a escrita do argumento de um filme de gangsters. Na pior altura: “Tarantino tinha aparecido e feito explodir o género – os diálogos dele cantavam”. Nas 350 páginas de Grant & I também cinematograficamente se canta (está dividido em “Reel One” e “Reel Two”) a história pública e privada dos Go-Betweens: a calorosa rivalidade entre Robert e Grant; o desmedido amor pelas canções; a extravagância (e posterior domesticação) de um e o progressivo afundamento na depressão do outro; o permanente nomadismo de editora em editora, na busca das condições ideais – ou apenas aceitáveis – para o merecido reconhecimento da sua música que, fora de um circuito de fidelíssimos fãs, nunca chegaria; a separação, o reencontro e a morte de McLennan. Algures para o final, Forster escreve: “Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”. Recordo-me de uma vez lhes ter chamado “os Smiths em melhor”.

06 January 2018

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XLII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)


19 December 2017

ISRAEL, OS MEDIA E SEXO ORAL 


Há muitas luas, escrevendo sobre um "songwriter" estimável mas que a História só em rodapé registará, ousei compará-lo (favoravelmente) ao Bob Dylan de então. E, para eterna vergonha e infinda penitência futura, afirmava, convicto: “Não consegue entender-se muito bem por que motivo uma geração inteira, há anos, persiste em convencer-se e em tentar convencer as seguintes de que Bob Dylan, do ponto de vista criativo, não se encontra definitivamente empalhado”. É verdade que estava ainda muito próxima a idade das trevas-"born again" do futuro Nobel da Literatura que, agora, no 13º volume da "Bootleg Series", a Columbia pretende reabilitar. Fraca atenuante, porém, face ao arrasador desmentido que toda a obra imediatamente posterior de Dylan se encarregaria de fazer. Funcionaria, contudo, no longo prazo, como vacina (relativamente) eficaz contra juízos demasiado apressados. Mas, no que diz respeito ao Morrissey actual, é bem provável que nem um reforço da primeira dose evitará que lhe supliquemos que pare de emporcalhar a memória dos Smiths e, sejamos justos, de uma parcela importante da sua discografia a solo. 



O impulso incontrolável para o disparate é, nele, lendário. Se, em matéria de panfletarismo vegan, apontar as malas de Beyoncé como causa para o risco de extinção do rinoceronte poderá ser só tolice, acusar o povo chinês de ser “uma sub-espécie” em virtude dos seus hábitos alimentares ou relativizar o terrível massacre de 2011, na Noruega, perante “o que acontece, todos dias, nos McDonald's”, já é, francamente, mais grave. E verdadeiramente indesculpáveis são declarações tais que “Estou convencido que brancos e negros nunca se darão bem nem gostarão uns dos outros” ou “Quanto maior é a imigração, mais rapidamente a identidade britânica desaparece”. Tudo isto desajeitadamente contrabalançado por indignados protestos – “Abomino o racismo, a opressão e crueldade de todos os tipos” - e objectivamente contrariado pela muito especial relação de mútua paixão com a comunidade “latina” de Los Angeles, à qual dedicou a canção "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… it seems if you're rich and you're white, you'll be alright”) e a quem, durante a campanha presidencial norte-americana, incitava a não votar em Donald Trump.



Aparentemente, Morrissey é incapaz de viver sem isto: agora mesmo, num concerto de ante-estreia na BBC6 de Low In High School, pareceu-lhe apropriado insinuar, totalmente a despropósito, o apoio a Anne Marie Waters, candidata ferozmente anti-islâmica à direcção do já desmedidamente xenófobo UKIP. Realmente desastroso é que se, embora com imensa dificuldade, ainda ia sendo possível separar os dislates-“bigmouth” da obra gravada, desta vez, eles invadem e apoucam as canções de forma irremediável. Num álbum em que dir-se-ia existirem apenas três temas – Israel, os media e sexo oral -, as hostilidades abrem-se em modo de "glam" artriticamente pesadíssimo com a portentosa proclamação... err... trumpiana, “Teach your kids to recognize and to despise all the propaganda filtered down by the dead echelons mainstream media”. Um pouco mais adiante, naquilo que até poderia ser uma sedutora variação de Debord/Vaneigem sobre O Elogio da Preguiça” (“Spent the day in bed, very happy I did, yes I spent the day in bed, as the workers stay enslaved (...) Oh time, do as I wish, time, do as I wish (…) And no bus, no boss, no rain, no train”), de súbito, regressa a obsessão: “Stop watching the news! Because the news contrives to frighten you, to make you feel small and alone, to make you feel that your mind isn't your own”. O que, convenhamos, combina mal com a rudimentar retórica tablóide da morosa "Israel" (“they who reign abuse upon you, they are jealous of you”), tema que, no tango de casino de "The Girl From Tel-Aviv Who Wouldn't Kneel", desenvolve com uma argúcia política de taxista (“What do you think all these conflicts are for? It's just because the land weeps oil”).


Em memória do saudoso "Margaret On The Guillotine", há gestos de simpatia – o “Axe the monarchy” da imagem da capa, a paráfrase anti-militarista sobre "Universal Soldier”, de Buffy Sainte-Marie, em "I Bury The Living" (“You can’t blame me, I'm just an innocent soldier, (…) Give me an order! I'll blow up a border, give me an order and I'll blow up your daughter”) – mas, de um modo geral, com dois ou três momentos de contacto oro-genital para criar o clima adequado, tudo se resume a um serôdio "flower power" de Twitter: “They say presidents come, presidents go, but all the young people they must fall in love”. Para lavar os ouvidos, nada melhor do que optar pela reedição de The Queen is Dead (1986), estojo de algumas das máximas preciosidades Morrissey/Marr ("The Boy With The Thorn In His Side", "Bigmouth Strikes Again", "There’s A Light That Never Goes Out"…). Com todos os bónus, raridades e "lives" de rigor, Alain Delon baleado, na capa, título subtraído a Hubert Selby Jr., e video de 13 minutos de Derek Jarman. Mas, sobretudo, com Morrissey ainda vivo.

27 August 2016

24 February 2016

VIVA MOZ ANGELES!


Na edição de 2006 do IndieLisboa, foi exibido o documentário de William E. Jones, Is It Really So Strange?, que retratava uma peculiaríssima subcultura dos subúrbios da zona leste de Los Angeles: a transbordante devoção pelos Smiths (e por Morrissey, em particular), concretizada em noites temáticas nos clubes locais, frequentadas e organizadas por milhares de jovens oriundos da comunidade “latina” de LA (cerca de metade dos 10 milhões de angelenos), sobretudo, mexicanos, que adoptaram como um dos seus o contraditório britânico de Manchester aí expatriado, criatura melancólica, ácida, petulante, desmedidamente romântica e, paradoxalmente, alegado racista "borderline". Informalmente designada como “Moz Angeles” ou “Mozlandia”, era (e continua a ser) um fluido território social e mental colectivo de simbólica cidadania transcultural, para o qual convergem marginais, excluídos, ilegais, gays, párias, alvo privilegiado de diversas agressões legislativas anti-emigração, recentemente, convertido em "bête noire" do bovino Donald Trump. 



Se o filho de proletários irlandeses emigrados em Inglaterra se reinvindica de "Irish Blood, English Heart", os seus seguidores chicanos das várias Moz Krews arvoram o "Mexican Blood, American Heart" nas t-shirts que envergam durante os concertos dos Sweet And Tender Hooligans – a "tribute band" que mimetiza ao milímetro a discografia e os tiques dos Smiths –, acorrem em massa às Smiths/Morrissey Conventions e criaram o Teatro Moz, um festival de teatro inspirado pela obra de Morrissey. O amor é mútuo: Moz dedica-lhes "Mexico" (“In Mexico I went for a walk to inhale the tranquil, cool, lover's air, but I could sense the hate, from the Lone Star state… It seems if you're rich and you're white, you'll be alright”), desfralda a bandeira mexicana em palco, intitula as apresentações em LA “homecoming concerts”, incita a que ninguém vote em Trump e declara “I wish I was born Mexican”. Mexrrissey, banda de notabilidades da música popular do México, e No Manchester, álbum, eram inevitáveis: incluindo sete temas de Morrissey (dos quais, cinco são retomados "live", no registo de um concerto na Brooklyn Academy of Music), nada se perde e algo se ganha nesta exuberante conversão ao idioma dos "corridos", "mariachis" e "rancheras".