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14 June 2022

NA SOMBRA, ENTRE O BEM E O MAL
 

Em 2012, após 17 anos de prolongadíssima pausa, os Monochrome Set voltaram, inesperadamente, à actividade. Um ano antes, Bid, dínamo criativo de uma banda pela qual já circularam quase duas dezenas de músicos, havia sido vítima de um aneurisma. Submetido a cirurgia que lhe colocaria espirais de platina nas artérias cerebrais, narraria todo o processo em Platinum Coils, um “musical sobre um internamento hospitalar” e tiro de partida para um surto criativo que, nos últimos 10 anos, deu origem a 7 álbuns. Por altura do último Fabula Mendax (2019), confessava-nos que “Agora, não consigo parar de escrever. Não vem do subconsciente, não tem nada a ver com a consciência mas com uma entidade diferente dentro de mim. (...) Essa criatura é uma entidade criativa que emerge através da parte do cérebro que lida com o pensamento lateral”. Nesse álbum, ocupar-se-ia da história – alegadamente inspirada por um manuscrito medieval – de Armande de Pange, uma obscura seguidora de Joana D’Arc.

"Really In The Wrong Town"

Acerca do anterior, Maisieworld (2018), explicava que “Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set (...), nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas”. No novo Allhallowtide, a misteriosa “entidade criativa” conduziu-o a crer que os últimos dois anos de vida no mundo foram palco de um combate na sombra entre o Bem e o Mal (aliás, os Illuminati), no qual (apertem os cintos!) Trump é um dos “good guys”. “Just assume I’m mad”, diz ele numa entrevista a “Life Elsewhere”. Não precisava fazê-lo. Naquele singularíssimo registo entre o Music Hall britânico, o pós-punk, a "film music" e Scott Walker, a música dos Monochrome Set continua próxima da perfeição. Mas alguém deveria ver com muito cuidado se está tudo bem com as espirais de platina. (daqui)

18 December 2019

FÁBULA MENTIROSA

  
Ouvir Bid explicar pormenorizadamente a génese de Fabula Mendax é um divertido exercício de humor e perplexidade. No qual, ao contrário do que é hábito, o humor reside na imensidade de informação histórica – supostamente séria e inédita – que nos oferece e a perplexidade resulta do facto de, a rematar cada jacto de erudição, o fundador e motor criativo dos Monochrome Set não ser capaz de evitar uma gargalhada escarninha. Por outras palavras, embora ninguém consiga arrancar-lhe a confissão de que este episódio medieval apenas existiu na sua fertilíssima imaginação, toda a narrativa é desmontada pela forma como a apresenta. Queiram, então, travar conhecimento com a nobre donzela Armande de Pange, pseudónimo conveniente de uma jovem guerreira de Metz, na Lorena, cuja fuga – por motivos ainda não decifrados – da casa paterna a leva a cruzar-se com Joana D’Arc em cujo exército de apoio à causa anti-inglesa de Carlos VII se alistaria. Adicionalmente, deverá saber-se também que tal relato foi descoberto em preciosos e secretos manuscritos do século XV, à guarda da antiquíssima família da mulher de Bid (originária de Metz), que jamais nos autorizará a consultá-los. 



É sabido que os Smiths nunca esconderam a sua admiração pelos Monochrome Set mas é pouco provável que estes, em troca, tenham ido, agora, inspirar-se naquela estrofe de "Bigmouth Strikes Again" em que Morrissey, referindo-se âs alucinações auditivas da "pucelle d’Orléans" (que não a levaram a ser internada mas canonizada), cantava “And now I know how Joan of Arc felt, now I know how Joan of Arc felt, as the flames rose to her Roman nose and her hearing aid started to melt”. Não é, igualmente, de supor que tenham lá chegado através do fogo de Leonard Cohen lançado sobre o gelo de Nico em "Joan of Arc", e muito menos por efeito do pastelão sonoro de Madonna, na canção homónima. Aceite-se, pois, a versão-manuscrito de Metz levedada pela neuroescrita automática de Bid pós-aneurisma de 2010 – que já lhe rendeu 6 álbuns em 7 anos – e imprima-se a lenda: a “fábula mentirosa” é um sobreexcelente álbum de pop em estado de graça, coisa de supremo requinte de confecção, onde medievalismos ibéricos se cruzam com a sombra de um Morricone inesperadamente gótico, Jacques Brel e David Bowie partilham as mesmas cordas vocais e, por entre o desfile de um elenco de figuras de Bruegel, se escuta uma "Chanson de la Pucelle" de recorte vagamente mariachi talhada à medida para um filme de Disney. "

17 December 2019

A CRIATURA DENTRO DELE


Não é todos os dias que se tem oportunidade para conversar com alguém que afirma descender de “34 reis indianos”, dá pelo nome de Ganesh Seshadri (“Jovem Deus da Cabeça de Elefante, Cavaleiro da Serpente Cósmica”, jura ele ser a tradução exacta) e que, após uma cirurgia que o salvou de um aneurisma cerebral, confessa-se habitado por uma criatura que, praticamente sem qualquer intervenção voluntária dele, lhe escreve as canções. Eis, pois, Bid, fundador dos míticos Monochrome Set, luminárias eruditas do pós-punk britânico, agora recém-autor do belíssimo Fabula Mendax, supostamente inspirado num manuscrito medieval de Armande de Pange, uma seguidora de Joana D’Arc. Ou talvez não. 

    Tenho de lhe dizer que procurei por Armande de Pange e pelo seu manuscrito em todas as frinchas da Web e não consegui descobrir nada... 
(risos) Não é possível encontrá-los na Internet. As pessoas que os possuem não desejam que eles estejam acessíveis. São pessoas idosas que não se importam que eu escreva canções inspiradas nesses manuscritos mas não tencionam revelá-los publicamente. Entre muitas outras coisas extraordinariamente interessantes, limitam-se a passá-los de geração em geração, no interior da família. (risos) 

    Segundo a lenda, teve acesso a eles através da sua mulher, originária de Metz, na Lorena... 
É verdade. Ela é de uma das mais antigas famílias de Metz. Possuem imensos livros antigos e manuscritos que não pretendem partilhar com o mundo exterior. (risos) No Oriente, esta é uma atitude muito comum. A minha própria família, na Índia, não tem Internet. Descendo de 34 reis mas não desejamos que isso esteja presente na Internet (risos) Na verdade, a história de Armande de Pange não é uma narrativa sequencial, está misturada com imensos detalhes aborrecidos, registos pessoais, de propriedades... Armande de Pange não é uma figura destacada dessa época. Ela partiu de Metz, suponho que dirigindo-se a Itália, e, ao passar por Nancy, ouviu falar de Joana D’Arc o que a fez encaminhar-se para Oeste, e ver-se envolvida na guerra. 



    Fui investigar e, na verdade, existe na Lorena, uma aldeia com o nome de Pange onde vivem actualmente 877 pessoas... 
Sim, mas o nome dela é, seguramente, um pseudónimo. “Armande” provém do alemão e significa “guerreiro” e Pange não passava de um castelo já em ruinas muito antes de ela ter passado por lá. Foi um nome de que ela se apropriou após ter fugido de Metz e os manuscritos nunca revelam qual seria o verdadeiro. Deveria vir de uma família nobre e ter tido uma boa educação uma vez que fazia citações em latim. Pelo caminho, procurou sempre evitar cidades grandes até ter chegado a Domrémy, o local de onde Joana D’Arc era originária. (risos) 

    Acha que é possível acreditar numa fábula que se auto-qualifica como “mendax” (mendaz, mentirosa)? 
Mas isso está no próprio manuscrito escrito por ela!...

    Ah, pronto...
É uma citação que ela faz de um poeta romano contemporâneo de César – não me recordo agora do nome dele... –, também cita Celso... não em grego mas em latim. 

    As suas Joana D’Arc e Armande de Pange vê-as mais como figuras dos filmes de Carl Dreyer ou de Luc Besson (com Milla Jovovich)? 
A verdade é que, no álbum, só há uma canção sobre Joana D’Arc – "La Chanson de la Pucelle" –, todas as outras são sobre Armande. Quando lemos manuscritos antigos (risos), não aspiramos o odor dos filmes modernos. As personagens parecem-nos normais mas não são, Joana D’Arc é louca! É muito difícil escrever sobre ela. O David Byrne compôs uma ópera sobre Joana D’Arc que é sobre tudo menos sobre ela. É uma personalidade completamente extrema, totalmente obcecada, que se imagina santificada e é seguida por imensa gente. 

    Vem tocar a Coimbra que tem uma das mais antigas universidades europeias fundada no século XIII e que, provavelmente, a Armande de Pange gostaria de ter frequentado... 
(risos) Gosto muito de Portugal e da Galiza. Há até um escritor galego, Alfonso Castelao, com uma escrita simultaneamente muito negra e suave que não me canso de recomendar. Sempre que viajo para esses lados, apetece-me permanecer alguns dias mas acabam por me marcar os voos de ida e volta sem espaço para isso, o que é uma pena. 



    Depois de Platinum Coils, após ter sobrevivido a um aneurisma, declarou que as canções não eram escritas por si mas pareciam escrever-se a elas mesmas vindas de uma fonte subconsciente qualquer... 
O aneurisma, realmente, libertou-me. Agora, não consigo parar de escrever. Não vem do subconsciente, não tem nada a ver com a consciência mas com uma outra entidade diferente dentro de mim. Não tenho nenhuma comunicação directa com ela. Quando aprendemos a conduzir, quando praticamos um desporto ou nos tornamos militares, até certo ponto, essas coisas apossam-se de nós. Mas isto é diferente: essa criatura é uma entidade criativa diferente que emerge através daquela parte do cérebro que lida com o pensamento lateral. Essa coisa dentro de mim, é capaz de pensar serenamente enquanto, por fora, eu tremo. Como quando estamos cercados por uma matilha de lobos e há uma parte de nós que tem de imaginar uma forma de lhes escapar. Não é, de todo, uma atitude consciente. Claro que posso aprender a lidar melhor com as palavras, a tocar guitarra melhor, mas, essencialmente, permito que as coisas fluam e vejo-as acontecer, vejo-me a compor. 

    Do ponto de vista especificamente musical, também se apercebeu de alguma transformação? O que tudo, verdadeiramente, significou foi que, agora, sou capaz de identificar a presença da criatura e sei como a atrair em vez de a suprimir. A criatura sente-se muito feliz por saber que irá ser libertada. 
     
    Deu algum nome a essa criatura? 
A coisa. A coisa dentro de mim. 



    Em "Summer of the Demon", começa num registo muito próximo de Jacques Brel e, a certa altura, passa para o de David Bowie... Terá acontecido um curto-circuito na “coisa”?... 
(risos) É possível... A minha voz, especialmente, ao vivo, é boa e nunca sei para onde poderá dirigir-se, o que não é um problema. Mas o que se passa com os Monochrome Set é que as pessoas nunca estão à espera de que nos pareçamos com nada, estão habituadas a que nos vamos transformando, o que também não é algo em que percamos muito tempo a pensar. 

    Faz questão de escrever com uma caneta de tinta permanente. Sente que isso é uma influència positiva no processo? 
A escrita flui muito melhor, muito naturalmente, nem preciso de pensar nisso. Com qualquer outra caneta... tenho de me esforçar. Mas também é necessário dizer-lhe que uso diversos tipos de tinta e de várias cores. Por isso, talvez exista alguma influência em consequência de estar a escrever com tinta azul, verde, vermelha ou lilás... Em viagem, não levo comigo as canetas de tinta permanente e ter de escrever com esferográficas é logo um esforço enorme. 

    Tem uma caligrafia bonita? 
(risos) Se quiser, posso ter. Se não, tenho apenas uma caligrafia normal.

16 December 2019

31 December 2018

2018 - Videoclips

Poliça + s t a r g a z e - "How Is This Happening"
 



Laurie Anderson & Kronos Quartet - "CNN Predicts a Monster Storm"





Low - "Dancing and Blood"




Anna Calvi - "Don't Beat the Girl out of My Boy"




Exit North - "Spider"
 




The Monochrome Set - "Stage Fright"
 



David Byrne - "Everybody's Coming To My House"
 



Goat Girl - "Scum"
 



Stick In The Wheel - "Abbots Bromley Horn Dance"
 



Tune-Yards - "Honesty"




Toda a colecção "Thankful Villages" (Darren Hayman)

18 September 2018

MALÍCIA


Foi já publicado há alguns meses mas, no caso, isso é absolutamente indiferente: qualquer disco dos Monochrome Set poderia ter sido gravado há 40 anos (quando Bid – "aka" Ganesh Seshadri – se reuniu com a primeira formação da banda de que, hoje, entre quase duas dezenas de baixas posteriores, é o único sobrevivente), anteontem ou algures no futuro. Complique-se um bocadinho: é tão legítimo vê-los na qualidade de herdeiros naturais dos Kinks como enquanto precursores dos Smiths, Blur, Pulp, Orange Juice ou Divine Comedy, estatuto que nenhum dos incluídos na lista repudia. Tão observadores implacáveis mas distanciados do “humano, demasiado humano”, quanto adeptos do ponto de vista de Marcel Duchamp que aconselhava a “nunca levar o mundo demasiado a sério sob pena de morrer de aborrecimento”, e exercendo a arte num inoxidável perímetro pop clássico, tiveram o seu instante de glória quando uma anónima votação "online" consagrou Strange Boutique (1980) como o 5 824º melhor álbum de sempre. Na última vez que tropecei neles – Platinum Coils (2012) –, Bid, num “musical sobre um internamento hospitalar”, divertia-se com a infinita comédia da mortalidade, a propósito da recente refrega com um aneurisma cerebral. Era também o momento em que, após 17 anos de hiato, a banda se reactivava e publicava um álbum não menos conceptual do que o actual Maisieworld



São eles mesmos que, agora, me poupam algum trabalho de o apresentar: Maisieworld é destilado a partir das flores pungentes da malícia artística e representa o apogeu da consumação sonora. Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set. Sereis cercados pelos ecos de uma era passada de perícia enquanto vos podereis recompor nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas (...). Vozes jocosas cantarão a vossa frágil natureza orgânica, os tristes sonhos e esperanças que alimentais (...). À saída de Maisieworld, sereis agradavelmente surpreendidos ao descobrir-vos repletos de pensamentos insólitos”. Acrescente-se que Maisie (na capa) é uma Barbie de bronze e o tema geral é algo como Dorian Gray num mundo de robôs, meio "vaudeville" vampiresco, meio "cyber-porn" de recorte espirituoso, excêntrico, absurdo e concebido por medida para um Gentlemen’s Club de frequentadores peculiares e adeptos de excitantes extravagâncias. Isto é, mais do que recomendável.

31 December 2012

MÚSICA 2012 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)












David Byrne & St. Vincent - Love This Giant













Paul Buchanan - Mid Air













Dirty Projectors - Swing Lo Magellan













Efterklang - Piramida













Field Music - Plumb













Fiona Apple - The Idler Wheel...













The Monochrome Set - Platinum Coils













Scott Walker - Bish Bosch













Andrew Bird - Break It Yourself













Leonard Cohen - Old Ideas

Até que uma revisão constitucional desbloqueie a possibilidade de, como disco do ano, ser eleita uma coerente colecção de singles apenas disponível via-Net, a lista de 2012 é tal como aqui se apresenta. Entretanto, enquanto isso não sucede e para que conste, o que deveria encabeçar este top 10 seriam as sete canções/vídeos das Pussy Riot ("Kill the Sexist", "Release the Cobblestones", "Kropotkin Vodka", "Death to Prison, Freedom to Protest", "Putin Got Scared", "Mother of God, Drive Putin Away" e "Putin Lights Up the Fires"), reunidas no álbum virtual Ubey Seksista. “A única banda que realmente importa", como foi classificada por altura do julgamento-farsa estalinista de Agosto que condenou Nadejda Tolokonnikova, Maria Alekhina e Ekaterina Samutsevitch a dois anos de prisão (as duas primeiras permanecem encarceradas em dois dos mais brutais centros de detenção da Rússia), ousou desafiar o czar Putin e o mundo solidarizou-se com ela. Em Portugal, do Parlamento à Presidência, nem uma sílaba foi pronunciada. Ali em cima deve ler-se: “Liberdade para as Pussy Riot!”



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

08 November 2012

OURO E PLATINA



The Monochrome Set - Platinum Coils 

Não é provável que, por causa disso, os detectores de metais, nos aeroportos disparem o alarme mas a verdade é que Ganesh Seshadri (aliás, Bid, ou, segundo o próprio, O Jovem Deus de Cabeça de Elefante Que Cavalga a Serpente Cósmica), vive, desde há um ano, com espiras de platina no cérebro. Coisa normal quando se foi vítima de um aneurisma: entrando pela artéria femoral, trepando pela aorta, seguindo pela carótida e chegando, finalmente, às artérias cerebrais, pretende-se que as espiras preencham o aneurisma e o excluam da circulação, tal como, desde 1990, o Dr. Guido Guglielmi recomendou. Ou, em metáfora felina, nas palavras de Bid, “There’s a kitten on my hip, and it’s going on a trip, up a river to my head, where it’s purring, there’s a kitten in my vein, and it’s swimming to my brain, and it’s spinning out the pain, am I slurring?” Considere-se a liberdade poética como atenuante na troca de “veias” por “artérias” e franqueie-se a porta de entrada daquilo que é explicitamente apresentado como “um musical sobre um internamento hospitalar”. Sim, isso mesmo. Quem conhece os Monochrome Set não deverá achar a proposta demasiado excêntrica embora, provavelmente, duvidasse que uma reunião da banda, após dezassete anos de divórcio, pudesse escapar ao deplorável destino que a esse género de empreendimentos costuma estar reservado. Como também aconteceu, no ano passado, com os Feelies, afinal, só há boas notícias para dar. 


A primeira é, evidentemente, o facto de um dos grupos mais incompreensivelmente ignorados do pós-punk britânico se reapresentar em tão excelente forma. Eles (Bid, Lester Square – na realidade, Thomas W.B. Hardy, professor de artes e primeiro vereador dos Verdes por St. Albans, em Londres – e Andy Warren, o núcleo histórico dos Monochrome Set) que são regularmente referidos como fonte de inspiração dos Smiths, R.E.M., Orange Juice ou Divine Comedy, e fabricantes de requintadíssimas jóias pop como Strange Boutique, Love Zombies (1980) ou Eligible Bachelors (1982), não ultrapassaram nunca o estatuto de micro-culto: até 1995, mais ou menos obscuramente, publicaram, entre hiatos, sete álbuns contendo pérolas avulsas e, nessa altura, puseram um ponto final na trajectória, com Bid a reinventar-se via-Scarlet’s Well. A outra boa notícia é um tanto paradoxal: qual Oliver Sacks, através do acidente neurológico, Bid compreendeu a natureza do seu processo criativo.



Tendo ficado com uma ligeira perturbação no centro da linguagem, acontece-lhe perder, momentaneamente, a capacidade de nomear objectos: “Mas, se pegar na guitarra e na caneta, as canções escrevem-se sozinhas, sem interferência consciente minha. É como num conto de fantasmas de Guy de Maupassant, ser possuído por uma entidade que acede ao meu arquivo de palavras”. A entidade é uma boa entidade, as canções são excelentes e – tal como vemos na imagem da capa (assinada por Lester Square) –, em Platinum Coils, da cabeça do involuntário autor, explodem, em jacto surreal, as imagens e personagens do seu período de internamento, do "Mein Kapitan" (“Won’t somebody read him The Critique Of Pure Reason, won’t somebody feed him peaches out of season, and if he pits them, then reclines, and assigns silly rhymes to his thought crimes”) ao "Alberto" (“With his mental pencil moustache, in a minute he’ll be here, smoking with curses, pinching the nurses’ bottoms”), em banho de ouro de pop/vaudeville só disponível nas mais requintadas ourivesarias.

30 October 2012

VINTAGE (CVIII)

The Monochrome Set - "Jet Set Junta"



Tick, tock, go the death watch beetles in él presidente's swill
Pop, pop, goes the Cliquot magnum at the reading of the will
Hiss, hiss, goes the snakeskin wallet stuffed with Cruziero bills

Here we come, the jet set junta

Here we come, the jet set junta

Broom, broom, goes the armoured Cadillac through Montevideo

Rat-a-tat goes the sub-machine gun to restore the status quo
Snip, snip, go the tailor's scissors on the suit in Saville Row

Here we come, the jet set junta

Here we come, the jet set junta

Thud, thud, goes the rubber truncheon on the Indian peon's heel

Buzz, buzz, go the brass electrodes as the flesh begins to peel
Rattle, rattle, goes the bullet round and round the roulette wheel

Here we come, the jet set junta

Here we come, the jet set junta