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17 July 2018

BANQUETE


Nos tempos mais próximos, nenhum restaurante norte-americano, por muito "haute" que seja a "cuisine", conseguirá projecção idêntica à que o The Red Hen, em Lexington, na Virginia, nas últimas semanas alcançou. Não exactamente em consequência da avaliação de 4,5 no TripAdvisor mas pelo facto de a proprietária ter-se recusado a atender Sarah Huckabee Sanders, porta-voz de Donald Trump, alegando que o restaurante “não abdica de valores como a honestidade, a compaixão e a cooperação”. Posteriormente, acrescentaria: “Não hesitaria em fazê-lo de novo. Há momentos em que não podemos deixar de viver de acordo com as nossas convicções. Este pareceu-me ser um deles”. Subindo um pouco no mapa até Hoboken, New Jersey – nobilíssima terra natal de Frank Sinatra –, podemos, entretanto, descobrir um outro estabelecimento do mesmo ramo que, embora por motivos diferentes, também fez História. Na verdade, o pretérito perfeito é o tempo verbal adequado: após uma gloriosa existência iniciada em Agosto de 1978, o Maxwell’s, encontra-se à venda, desde Fevereiro passado, por $1,199,000. Mas, durante 35 anos de actividade – em 2013, mudou de mãos e, até ao colapso final, foi descaracterizado pelos novos donos –, constituiu um polo crucial da cena rock local.

The Bongos

Fundado por Steve Fallon que converteria a antiga taverna dos operários da Maxwell House Coffee em restaurante, quase a partir do primeiro dia reservou um espaço para música ao vivo. Em estado mais ou menos embrionário, por lá passaram os Bongos, dBs, Feelies, R.E.M, Replacements, Sonic Youth, Hüsker Dü, Pixies, Dinosaur Jr., Nirvana, The Fall, Buzzcocks, Rain Parade, Wire, Pogues, David Byrne, The Slits... e uma interminável lista de muitos outros. A “New Yorker” ("Best club in New York — even though it's in New Jersey"), o “Village Voice” ("Best reason to leave the state for dinner and a show") e o “New York Times” (“So New York that it's in New Jersey") entoaram-lhe louvores, Jonathan Demme filmou lá o clip dos Feelies para "Away" e Springsteen o de "Glory Days" mas, desde há 5 anos, o destino estava traçado. A boa notícia, porém, é que os "bootlegs" das inúmeras bandas gravados por um empregado da casa, David McKenzie, e organizados pelo coleccionador e radialista Tom Gallo, estão, agora, disponíveis em The McKenzie Tapes, para um opulento banquete musical. Digno de uma avaliação, de certeza, muito superior aos 3.33 que a ementa do Maxwell’s nunca ultrapassou.

03 July 2018

UM OVO GIGANTE

  
Começaram por chamar-se Aurora, porque, enquanto banda de liceu, Fran Keaney, Joe White, Marcel Tussie e Tom e Joe Russo, eram de opinião que deviam adoptar um nome “que ficasse bem no estojo das canetas ou nas costas dos cadernos”. Depois, vá lá saber-se porquê, optaram por World Of Sport. Assentaram, por fim, em Rolling Blackouts Coastal Fever (não perguntem, mas, entre outras histórias, parece haver um maligno virus do Camboja envolvido). Se nos recordarmos como Robert Forster, em Grant & I: Inside and Outside The Go-Betweens, descrevia a banda (“Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”), talvez uma outra designação se lhes ajustasse melhor: The Huge Fabergé Egg. Porque – e os RBCF nem sequer tentam esquivar-se à comparação – a dívida do quinteto de Melbourne para com o grupo de Forster e Grant McLennan é imensa. Mas, e é isso que justificaria o “huge”, sem se limitarem a replicar a sonoridade deste: assente no trio de guitarras Keaney/Joe White/Joe Russo, em Hope Downs, álbum de estreia, dir-se-ia que, na sombra, Tom Verlaine dirige as operações. 



E, ao fazê-lo, amplia desmedidamente a jóia de Fabergé sobre a qual se projectam reflexos dos R.E.M., Feelies, dos primeiros Echo & The Bunnymen, ou até das magníficas insolações dos Triffids. Se "How Long?", "Time In Common", "Exclusive Grave", "Cappuccino City" (um rascunho de "Streets Of Your Town") ou "The Hammer" (Forster com entoação dylaniana) contêm um mais elevado índice-GB, "Mainland" é um exercício sobre a teoria da cor, de Klee (“And all I saw was burning blue fading into blinding white, wade out past the rotting pier, out to the open water, son of a red roof city, (…) and back on the mainland cool change was rolling over, black sky was getting lower on golden sand”) com tragédia migratória em fundo (“And we talked about the land of our fore-mothers, now that we've shut the gate, it would be funny if it didn't make you want to cry”), "An Air Conditioned Man" evoca o Air Conditioned Nightmare, de Henry Miller (“You walk past the wall you first kissed her against, how could you forget? (…) Did it ever matter in the first place? Does she still think about it now and then? In her air conditioned home, on her air conditioned street, in an air conditioned city”), e todo o resto, por entre vertiginosas espirais de guitarras, desenha “uma colecção de postais de um mundo cada vez mais estranho em que sentimos que a areia nos foge sob os pés”.

05 June 2018

DEFESA DE TESE


Quando, muito relutantemente, no Outono de 1991, Liz Phair deixou, por fim, convencer-se a entrar num estúdio, a primeira canção que gravou foi "Chopsticks" na qual, sobre o acompanhamento dos célebres "Martelinhos", cantava: “I met him at a party and he told me how to drive him home, he said he liked to do it backwards, I said, that's just fine with me, that way we can fuck and watch TV”. Acabaria por surgir apenas como faixa de abertura no segundo album de Phair, Whip-Smart (1994), sendo esse lugar ocupado no disco de estreia do ano anterior, Exile In Guyville, por "6'1"" (“And I kept standing six-feet-one, instead of five-feet-two, and I loved my life and I hated you”) – irmã de armas feminista de "50ft Queenie" (“50ft queenie, force ten hurricane, biggest woman, I could have ten sons”), de PJ Harvey, incluída em Rid Of Me, dado à luz mês e meio antes e, como Guyville, exibindo na capa, uma fotografia a preto e branco e em tronco (quase) nu da sua autora. Faltavam ainda mais de duas décadas para a detonação do #MeToo mas, na privadíssima colecção de canções (Girly Sound) que Liz Phair nunca sonhara libertar das cassetes que registara domesticamente num gravador de 4 pistas, fermentava algo cuja ressonância seria de bem maior alcance que a sublevação "riot grrrl". 



O conceito de Guyville era tão simples quanto certeiro: “Como se estivesse a defender uma tese, peguei em Exile On Main St., dos Rolling Stones, e, praticamente canção a canção, reescrevi-o sob um ponto de vista feminino”. Em 18 faixas – tantas quantas as do álbum duplo dos Stones – vertidas num modo "faux-naïf", algures entre os Feelies e Lou Reed, Liz, sem cerimónias, demolia todos os estereótipos da feminilidade bem comportada (“I jump when you circle the cherry, I sing like a good canary, I come when called, I come, that's all “), invertia-os (“Every time I see your face, I get all wet between my legs, (…) I want to fuck you like a dog, I'll take you home and make you like it”), e assumia o comando (“It makes me want to rough you up so badly, makes me want to roll you up in plastic, toss you up and pump you full of lead”). 25 anos mais tarde, acrescentado de dois CD extra com as “Girly Sound Tapes” (“Têm coisas humilhantemente más...”, arrepia-se Phair), Girly Sound To Guyville mantém intacto o potencial explosivo. (ver aqui)

30 May 2017

HIPPIE 


Radieux Radio é uma misteriosa personagem que, mesmo que exaustivamente procurada nos labirintos do Google, teima em apenas surgir quando associada ao nome de Thurston Moore. Nem uma imagem, nem uma referência exclusivamente em nome próprio. E nunca ficamos a saber muito mais do que “Radieux Radio is a London-based activist, poet and artist”, colaborador de Moore em eventos de poesia, música e residências artísticas ou, pela boca do próprio Thurston, que se trata de “um poeta transgénero meu amigo que me envia ‘sweet lines’ para as minhas canções. Noutro dia, estava à procura de um título e ele enviou-me uma mensagem só com uma palavra: ‘telepatia’. Era o título perfeito”. Hum... Debrucemo-nos, pois, sobre Rock’n’Roll Consciousness, o ultimo álbum de Thurston Moore e inspeccionemos à lupa as contribuições de Radieux. Por exemplo, logo a abrir, "Exalted": “Peyote walker, sweet talker, soul stalker, spell weaver, receiver, herb-stink shaman, morphine woman, my opium girl, the free grass world, (…) I name her Arethrean”. Algures na net, alguém a descreve como “a drug-infused visit from sacred womyn (sic), sibyls, prophetesses, oracles, and goddesses reclaiming consciousness”… Experimentemos "Cusp": “Our consolations, they finish, when world karma heart is yours, (…) my divine source of love, the talisman under crescent sphere”



O caso complica-se… e, perigosamente, muito mais ainda quando, em entrevista ao “Sidney Morning Herald”, Moore revela que o título do álbum lhe surgiu durante um curso de escrita criativa que orientou na Naropa University, em Boulder, no Colorado. Sim, Naropa, “a primeira universidade contemplativa dos EUA”, berço do “mindfulness movement” onde os “naropians” (é verdade, juro!) podem licenciar-se em “contemplative art therapy”, “contemplative psychology” ou “buddhist psychology”. Não há outra forma de o dizer: Thurston Moore, aos 50 e tal anos, virou hippie e receia-se seriamente que não haja caminho de regresso. Consolemo-nos, então, com o facto de, musicalmente, Rock’n’Roll Consciousness ser o seu melhor álbum desde o fim dos Sonic Youth: com Debbie Googe (My Bloody Valentine), Steve Shelley e James Sedwards – a mesma equipa do anterior The Best Day (2014) –, é uma poderosa descarga eléctrica no ponto de encontro entre SY, Feelies, Television e Crazy Horse como há muito apetecia escutar.

14 October 2015

ORK


Na edição de 13 de Setembro de 1982 do “New York Magazine”, a Cinemabilia, situada no nº 10 da West 13th Street, em Nova Iorque (onde, hoje, se situa a loja de roupas vintage, Beacon’s Closet), era apresentada na qualidade de livraria dedicada ao cinema a ser obrigatoriamente visitada pelos devotos das 24 imagens por segundo – em especial, devido à enorme secção de revistas estrangeiras –, “apesar dos maus modos de quem lá trabalha”. Não é provável que, nessa altura, um dos funcionários mal encarados fosse ainda William Terry Collins, aliás, Terry Ork, cinéfilo terminal, ávido por uma boa conversa, como recorda, à “Uncut”, Glenn Mercer, dos Feelies: “Tínhamos tocado no CBGB’s e o técnico de som, Mark Abel, disse-nos que estava a pensar convidar o Terry para o nosso concerto seguinte, ele havia de gostar do nosso som. Não me lembro já muito bem como correu mas surpreendeu-nos o aspecto dele: não era vulgar aparecerem muitos barbudos de cabelo comprido na cena punk. De qualquer modo, ele era um fanático de cinema e conversámos mais sobre filmes europeus do que acerca de música”.



O objectivo desse encontro era que os Feelies gravassem para a Ork Records (fá-lo-iam mas o seu primeiro single, "Fa Ce-La", acabaria por sair, em 1978, pela Rough Trade), a indie de vão de escada de Terry Ork – financiada pelos magros proventos da Cinemabilia –, ex-assistente de Andy Warhol, na “Interview”, e esteta visionário mas com pouca queda para o negócio. Foi ele quem apresentou Tom Verlaine e o empregado da Cinemabilia, Richard Hell, ao "flatmate", Richard Lloyd, sendo, assim, responsável pela primeira formação dos Television de que a Ork editaria o registo de estreia, "Little Johnny Jewel". Gravaria também o EP de Alex Chilton “Singer Not the Song”, Chris Stamey e Peter Holsapple pré-dB’s, Lester Bangs (sim, esse mesmo), Mick Farren, Marbles, e meia dúzia de outras magníficas obscuridades. “Era uma atmosfera muito boémia”, conta, agora, Stamey, “muito Rive Gauche, Rimbaud e Nerval andavam no ar”. Previsivelmente, durou só até 1979. Terry Ork, sob o nome de Noah Ford, escreveria ainda para revistas de arte, passaria três anos na prisão por fraudes várias e morreria de cancro em 2004. A caixa de 2 CD e 49 faixas, Ork Records: New York, New York, repõe a lenda em circulação.

25 June 2015

OS LUGARES ERRADOS


Na edição de Abril da “Cosmopolitan”, Jana Hunter publicou um texto onde recordava o momento, por volta dos 4 anos, em que explicara aos pais, irredutivelmente católicos, que era um rapaz e não uma rapariga. O facto de (pouco surpreendentemente) a reacção ter sido tudo menos acolhedora, não a impediu, porém, de, hoje, se declarar “incrivelmente confortável com as minhas muito fluidas identidade de género e sexualidade”. Ainda que continue a perturbá-la bastante a circunstância de alguém que não se identifica como “mulher” poder ser objecto da misoginia predominante no universo pop/rock, por mais "indie" que ele se afirme. Aceitemos, então, isso na qualidade de atenuante para o título do terceiro álbum da sua banda – os Lower Dens – ser Escape From Evil, última obra de Ernest Becker, seguidor norte-americano da amaldiçoada superstição freudiana. Felizmente, tal assombração não se nota demasiado na matéria do próprio disco, exemplo singularíssimo de uma colecção de canções que, aparentando ajoelhar perante o altar da retromania, é, afinal, algo diferente. 



É Jana quem, sem subterfúgios, coloca as cartas na mesa: Escape From Evil alimenta-se esteticamente da celebrada pop dos anos 80. Mas não se contenta em ficar pela homenagem. Usamos o passado, os seus clichés e inocência, como uma lente através da qual imaginamos um futuro aberto e queer”. O que, na realidade, se escuta é um exercício de cuidadosa arrumação das peças em todos os lugares errados do puzzle, dedicado a fintar a previsibilidade através de meia dúzia de manobras de diversão bem sucedidas: raptar Debbie Harry e colocá-la à frente dos Joy Division aos quais, entretanto, se ofereceu a aura sonora dos Cocteau Twins que, no mesmo instante, se viram com Siouxsie Sioux no lugar de Liz Frazer e assistiram à disputa entre Johnny Marr e Will Sargeant pela vaga de guitarrista nuns Cure em gravidade zero, produzidos por Brian Eno acabado de ser expulso dos Feelies, subitamente devotos do krautrock. Espreitem o assaz lynchiano video de "To Die In LA": as coordenadas de Escape From Evil menos óbvias à superfície exibirão, sem excessiva dissimulação, a sua "seedy underbelly" talhada por medida para a anunciada reencarnação de Twin Peaks.

08 November 2012

OURO E PLATINA



The Monochrome Set - Platinum Coils 

Não é provável que, por causa disso, os detectores de metais, nos aeroportos disparem o alarme mas a verdade é que Ganesh Seshadri (aliás, Bid, ou, segundo o próprio, O Jovem Deus de Cabeça de Elefante Que Cavalga a Serpente Cósmica), vive, desde há um ano, com espiras de platina no cérebro. Coisa normal quando se foi vítima de um aneurisma: entrando pela artéria femoral, trepando pela aorta, seguindo pela carótida e chegando, finalmente, às artérias cerebrais, pretende-se que as espiras preencham o aneurisma e o excluam da circulação, tal como, desde 1990, o Dr. Guido Guglielmi recomendou. Ou, em metáfora felina, nas palavras de Bid, “There’s a kitten on my hip, and it’s going on a trip, up a river to my head, where it’s purring, there’s a kitten in my vein, and it’s swimming to my brain, and it’s spinning out the pain, am I slurring?” Considere-se a liberdade poética como atenuante na troca de “veias” por “artérias” e franqueie-se a porta de entrada daquilo que é explicitamente apresentado como “um musical sobre um internamento hospitalar”. Sim, isso mesmo. Quem conhece os Monochrome Set não deverá achar a proposta demasiado excêntrica embora, provavelmente, duvidasse que uma reunião da banda, após dezassete anos de divórcio, pudesse escapar ao deplorável destino que a esse género de empreendimentos costuma estar reservado. Como também aconteceu, no ano passado, com os Feelies, afinal, só há boas notícias para dar. 


A primeira é, evidentemente, o facto de um dos grupos mais incompreensivelmente ignorados do pós-punk britânico se reapresentar em tão excelente forma. Eles (Bid, Lester Square – na realidade, Thomas W.B. Hardy, professor de artes e primeiro vereador dos Verdes por St. Albans, em Londres – e Andy Warren, o núcleo histórico dos Monochrome Set) que são regularmente referidos como fonte de inspiração dos Smiths, R.E.M., Orange Juice ou Divine Comedy, e fabricantes de requintadíssimas jóias pop como Strange Boutique, Love Zombies (1980) ou Eligible Bachelors (1982), não ultrapassaram nunca o estatuto de micro-culto: até 1995, mais ou menos obscuramente, publicaram, entre hiatos, sete álbuns contendo pérolas avulsas e, nessa altura, puseram um ponto final na trajectória, com Bid a reinventar-se via-Scarlet’s Well. A outra boa notícia é um tanto paradoxal: qual Oliver Sacks, através do acidente neurológico, Bid compreendeu a natureza do seu processo criativo.



Tendo ficado com uma ligeira perturbação no centro da linguagem, acontece-lhe perder, momentaneamente, a capacidade de nomear objectos: “Mas, se pegar na guitarra e na caneta, as canções escrevem-se sozinhas, sem interferência consciente minha. É como num conto de fantasmas de Guy de Maupassant, ser possuído por uma entidade que acede ao meu arquivo de palavras”. A entidade é uma boa entidade, as canções são excelentes e – tal como vemos na imagem da capa (assinada por Lester Square) –, em Platinum Coils, da cabeça do involuntário autor, explodem, em jacto surreal, as imagens e personagens do seu período de internamento, do "Mein Kapitan" (“Won’t somebody read him The Critique Of Pure Reason, won’t somebody feed him peaches out of season, and if he pits them, then reclines, and assigns silly rhymes to his thought crimes”) ao "Alberto" (“With his mental pencil moustache, in a minute he’ll be here, smoking with curses, pinching the nurses’ bottoms”), em banho de ouro de pop/vaudeville só disponível nas mais requintadas ourivesarias.

28 June 2011

AQUI, DE NOVO


















The Feelies - Here Before

Não é apenas uma questão do inevitável efeito da passagem do tempo. Nem sequer aquela tendência para, ciclicamente, promover ao estatuto de genialidade exemplares vários que – justa ou injustamente –, na devida altura, foram olimpicamente ignorados. O que se passa, no caso dos Feelies, é que, não se dando muito por isso, com eles, aconteceu algo não muito diferente do que as enciclopédias registam em relação aos Velvet Underground: álbum de estreia (Crazy Rhythms, 1980) tão lendário quanto imperceptível o seu rasto pelas grandes avenidas do comércio discográfico (apesar de, dois anos antes, o “Village Voice” os ter qualificado como “a melhor banda underground de Nova Iorque”); alterações diversas ao elenco original; segundo álbum (The Good Earth, 1986) com o mesmo destino do primeiro, tendo, então, cabido a Jon Pareles, do “New York Times”, o quase-epitáfio: “The New York area’s best-loved underground rockers since the late 1970’s”; terceiro e quarto (Only Life e Time For A Witness, de 1988 e 1991) repetiram o padrão (Robert Christgau: “Once again they rock out while shedding their grace on thee”); pausa de 20 anos e, agora, Here Before.


Selvagem e Perigosa - Real. Jonathan Demme (1986)

Entretanto, pelo caminho, tanto individualmente, como em múltiplas encarnações paralelas – The Trypes, Yung Wu, The Willies, Speed the Plough –, a micro-dimensão inicial do culto foi-se ampliando e as vénias foram-se sucedendo (dos R.E.M. aos Sonic Youth e prole estética posterior), não sendo verdadeiramente motivo de admiração que Jonathan Demme ou Noah Baumbach tenham incluído temas da banda em Selvagem e Perigosa e A Lula e a Baleia, que o podcast “HBR Idea Cast”, da “Harvard Business Review” (sim, sim, coisa séria) escolhesse "Crazy Rhythms" como genérico de abertura ou que, na edição de 2009, da secção Don’t Look Back do All Tomorrow’s Parties, os Feelies tenham sido convidados para a execução integral do seu álbum inaugural.



Não existe, propriamente, uma regra que estipule, de forma indiscutível, os requisitos e condições adequados para que um grupo, muito depois de ter posto termo à existência, considere a hipótese de retornar aos lugares (palco e/ou estúdio) onde foi feliz. Em alguns casos, resulta (retomando o paralelismo anterior: o "second coming" dos Velvet Underground foi imaculado), noutros (CSN&Y, por exemplo), mais valeria não se terem incomodado. Quando, há três anos, os Feelies ensaiaram o regresso aos concertos, o momento foi circunscrito por evocações das origens (“O nosso manager costumava interrogar-se sobre qual seria o instante em que iríamos explodir em palco”) e reafirmações de princípios (“A nossa sonoridade define-se tanto pelo que tocamos como pelo que decidimos não tocar. E essa atitude vai para além da música: sempre que possível, nunca falar demasiado”), mas não estava ainda, realmente, prevista a adição de um novo tomo à discografia.



Consumada, enfim, a gravação de Here Before – quinto álbum numa trajectória com três décadas – como o encarar? Antes de mais, não se trata (nunca poderia tratar-se) de um novo Crazy Rhythms, esse monumento à hipertensão da guitarra eléctrica. Mas porque, com as melhores bandas, tudo se passa como, quando após um longo interregno, se volta a subir para uma bicicleta, Glenn Mercer, Bill Million e os restantes Feelies-versão II, nada desaprenderam, situando-se, hoje, entre a iridiscência abstraccionista de "When You Know", o lirismo ácido (olha a matriz dos R.E.M.!) de "Should Be Gone" e, mais generalizadamente, um passo adiante relativamente ao ponto – pastoralidade-rock e minimalismo – em que tinham deixado o assunto no seu segundo (e segundo melhor) álbum, The Good Earth. O que não pode ser senão considerado como uma excelente notícia.

(2011)

11 January 2010

DEFINITIVAMENTE SEM LUVAS



Vampire Weekend - Contra

Desde o início da década de 80, momento de erupção do pós-punk, do mítico “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths) e do experimentalismo “industrial” de Sheffield (Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Human League), que não emergia nada com a semelhança de uma “scene”, incluindo o melhor que, quando autênticas, elas possuem: energia, diversidade, espírito de aventura e pouca vontade de se resignar aos padrões de criação e consumo dos "mainstreams" das várias épocas. O grunge de Seattle, o frenesim dançante de Madchester, a saturnidade de Bristol poderão ter tido, na origem, um código genético fértil mas demasiado rapidamente, de vítimas/cúmplices do hype, se converteram em marcas registadas, facilmente esterilizadas e normalizadas pelas cadeias de montagem da indústria discográfica. Não espanta, assim, que, quando os primeiros rumores acerca do surgimento de uma “Brooklyn scene” começaram a fazer cócegas nos ouvidos, a atitude sensata fosse ficar de pé atrás: outra???!!!...



Pois bem, dois anos e tal após os zunzuns, pode confirmar-se: sim, ela existe, é musicalmente rica como poucas, o espírito de rebanho parece encontrar-se higienicamente ausente e, realmente de comum – para além da localização geográfica no "borough" mais populoso de Nova Iorque – a músicos e bandas como St Vincent, Yeasayer, Animal Collective, Au Revoir Simone, Sufjan Stevens, Joan Wasser, My Brightest Diamond, Grizzly Bear, Dirty Projectors, The National ou High Places, apenas há o desejo de individualidade criativa sem mimetismos tribais. Ah!... e não esqueçamos os Vampire Weekend, com os National, talvez os casos de maior relevo de uma cena indie que – outra diferença – não se acanha excessivamente com a ideia de poder ser popular. E de ostentar currículos académicos. E de (ao contrário dos Strokes que levavam a mal o facto de serem encarados como punks betos) lhes carimbarem na testa o selo de – falo dos Vampire – "Columbia-rich-kid-afro-indie-pioneers". Eles são, sem dúvida, tudo isso e é para o lado que dormem melhor.



Em Janeiro de 2008, Vampire Weekend despia o último par de cerimoniosas luvas com que a pop – de Paul Simon a Peter Gabriel ou mesmo David Byrne – sempre manuseara a coisa “étnica”, dita "world music": uma serpentina de guitarras da Orchestra Baobab é tão respeitável quanto a hiperactividade dos Feelies, o "soukous" congolês não é incompatível com literatas ironias sobre intimidades chiques do Upper West Side e uma sequência de arpejos mozartianos não tem que se sentir incomodada por se descobrir reclinada sobre uma rede rítmica de "highlife". O álbum de estreia da banda de Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e Rostam Batmanglij era impuríssima matéria-pop em permanente celebração da inteligência, da "nonchalance" sofisticada e da urgência de inventar música, e adubou o terreno para que, mal surgiram, em Setembro passado, os primeiros indícios de que o segundo tomo estava para breve, meia Internet tenha uivado apelos a que, nas habituais esquinas mal frequentadas, algum dealer mais expedito permitisse que se espreitasse o tesouro. Uma semana antes da data oficial de publicação, porém, os próprios Vampire o colocaram, integralmente, em "streaming" na sua página do MySpace. Diga-se, então, que Contra refina esplendorosamente os sabores e aromas da investida inicial, em dois ou três instantes ("White Sky", "Diplomat’s Son", "I Think Ur A Contra"), viaja umas boas léguas adiante do que Paul Simon sonhou em Graceland e, na trovoada percussiva aspirada por túneis digitais de "Giving Up The Gun", deixa-o mesmo a perder de vista. Só isso já seria óptimo. Mas há ainda que reparar nos delirantes zigzags da arquitectura sonora, nas alusões barrocas, nos subtilíssimos reichianismos, nos divertimentos electro que Rostam carreou de Discovery ou na adrenalina ska-punk que borbulha, aqui e ali. Haveria melhor forma de inaugurar 2010?

(2019)

14 October 2009

UMA REDE MUITO NERVOSA



The Feelies - Crazy Rhythms




The Feelies - The Good Earth

Um ano em que são editados Closer, dos Joy Division, Crocodiles, dos Echo & The Bunnymen, Waiting For A Miracle, dos Comsat Angels, e Remain In Light, dos Talking Heads – para além de diversas outras jóias da coroa pop –, já teria tudo para poder ser considerado, sem nenhum favor, de colheita musical "vintage". Mas, se nos recordarmos que foi também em 1980 que os Young Marble Giants publicaram Colossal Youth e os Feelies ofereceram Crazy Rhythms ao mundo, então, há que começar a encarar seriamente essa data como momento particularmente singular na narrativa da música popular. Sobre os Giants já foram vertidos todos os louvores justos e necessários e a sua solitária gravação merecidamente reeditada. É, pois, agora, a altura oportuna (a pretexto da edição finalmente remasterizada de Crazy Rhythms e The Good Earth) para que múltiplas vénias se desenhem perante o absolutamente inclassificável álbum de estreia dos Feelies, peça literalmente única daquele raríssimo tipo de génio em estado quimicamente puro que só dificilmente se repete e muito infrequentemente faz escola. Baptizados a partir de uma das assombrações tecnológicas de Aldous Huxley, em Brave New World, Glenn Mercer, Bill Million, Anton Fier e Keith DeNunzio, prototípicos "nerds" de New Jersey, não dissimulavam a sua devoção pelos Velvets, Wire, Television, Modern Lovers e pelos primeiros álbuns de Brian Eno.


Porém, quando, na Primavera de 1979, entraram nos Vanguard Studios de Nova Iorque, foi como se tudo isso fosse instantaneamente calcinado por uma descarga eléctrica e desse agregado estético tivesse restado apenas uma rede (muito) nervosa exposta à flor da pele: geométrica, esquinada, tensa, ritmicamente dura e metronómica (Fier, como Mo Tucker, ignorava quase totalmente os címbalos), tão ingénua quanto ferreamente controlada, com as guitarras directamente ligadas à consola de mistura, a música dos Feelies era uma alucinatória vertigem de escalas em remoínho, confrontos de cordas em overdose de cafeína e percussão ansiosamente matemática e detalhada. Tipicamente, depois disso, a Stiff Records entendeu que eles deveriam transformar-se nos “novos R.E.M.”. Resistiram bravamente durante seis anos. The Good Earth acabou produzido por Peter Buck e era uma excelente confluência dos Velvets mais pastorais, dos Feelies e... dos R.E.M. Sem dúvida, ainda hoje, um belíssimo disco. Mas não voltou a existir outro Crazy Rhythms, nem nada que, muito remotamente, se lhe assemelhasse.

(2009)

06 January 2009

22 February 2008

IVY LEAGUE POP



Vampire Weekend - Vampire Weekend

A Ivy League é constituída por oito universidades da Costa Leste dos EUA – Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pennsylvania e Yale – que, em consequência do seu elevado nível de exigência académica (todas se situam no top do ranking universitário do “U.S. News & World Report”), converteram a própria expressão “Ivy League” num sinónimo de elitismo, selectividade e excelência. O Upper West Side é um bairro de Manhattan que, tendencialmente, atrai a burguesia novaiorquina afluente (o rendimento médio familiar ultrapassa largamente a média da cidade), liberal e com inclinações artísticas. Cape Cod é uma península localizada na costa do Massachusetts, estância de férias de Verão preferida de “ricos e famosos”, caso, desde há quatro gerações, da dinastia-Kennedy. Fim da lição de geografia-socio-política norte-americana e passagem de testemunho instantânea para os Vampire Weekend: Ezra Koenig (cantor e guitarrista), Chris Tomson (baterista), Chris Baio (baixista) e Rostam Batmanglij (produtor e teclista), quatro recém-graduados da “Ivy Leaguer” Columbia University – no Upper West Side –, ainda durante o tempo da faculdade, formam uma banda que, segundo eles mesmos facilmente confessam, pratica um híbrido musical que designam alternativamente como “Upper West Side Soweto”, “Cape Cod Kwassa Kwassa” ou “Campus and Oxford Comma Riddim”. Tradução: se, com os Beirut, Zach Condon se imaginou, sucessivamente, zíngaro balcânico, boémio parisiense e as duas coisas ao mesmo tempo, por que motivo não poderiam quatro moços absurdamente betos mas eruditos e de impecável gosto musical, nas suas camisas Ralph Lauren, sapatinhos de vela e polos Lacoste, inventar aquela variedade de afropop ao som do qual, numa das “short stories” de Salinger, Franny e Zooey Glass mui alegremente dançariam?



Não avancemos, porém, tão rapidamente: se, desde que o “buzz” na Internet à volta dos Vampire Weekend arrancou, não há site nem blog que não se sinta na obrigação de referir Graceland, de Paul Simon, como trampolim primordial para a música da banda (o que até é rigorosamente verdade e uma faixa como, em particular, a propriamente dita “Cape Cod Kwassa Kwassa” não engana ninguém), é preciso reparar que a paleta de cores é consideravelmente mais ampla. Eles, tal como Zach Condon se referia à música dos filmes de Kusturica e do Taraf de Haïdouks, recordam-se que tudo terá começado com a escuta de um álbum oriundo de Madagascar e acrescentam-lhe Ladysmith Black Mambazo, Kanda Bongomen, Orchestra Baobab, Beethoven, a Band, Elvis Costello e os Squeeze. Mas nós que, por estarmos de fora, ouvimos, de certeza, muito melhor do que eles, apercebemo-nos perfeitamente de que, no tubo de ensaio estético onde esta aventura sonora se gerou, outros reagentes – Talking Heads, Feelies, Orange Juice, bastante ska, highlife e pós-punk, doses homeopáticas do que de melhor conseguiram extrair dos despojos dos Police e apenas o justo q.b. de “classicismo” tal como os Arcade Fire o supõem – se encontravam em presença.



Lancem-se, pois, com inteira justificação, os foguetes: nesta impuríssima obra-prima do género “fake” (que, recuperando o formato pop ideal, não chega aos quarenta minutos de duração), por entre linhas de baixo pneumáticas, motivos de guitarra aracnídeos, violinos barrocos e sobressaltos polirrítmicos de percussão, Louis Vuitton rima com Reggaeton e Benetton, polemiza-se civilizadamente sobre correcta pronúncia e pontuação (“Who gives a fuck about an Oxford comma? I climbed to Dharamsala too, I met the highest lama, his accent sounded fine to me”), personagens que nunca respondem por nomes próprios desagradavelmente comuns como Bill ou Jack mas, sim, Blake ou Walcott melancolizam irónica e suavemente sobre as agruras da vida sentimental no “campus”, arquitectura e turismo cultural e, cereja sobre o bolo, com a elegância que seria de esperar, no refrão de “Kwassa Kwassa”, não se esquecem de exercer o imprescindível auto-sarcasmo quando cantam “But this feels so unnatural, Peter Gabriel too”. Pode não se gostar muito destes tipos? (2008)

26 January 2007

Clap Your Hands Say Yeah - Clap Your Hands Say Yeah



A estética do "copy+paste" nada contém de maligno em si mesma. Posso facilmente imaginar um magnífico híbrido sonoro composto da voz de Solomon Burke com a guitarra de Jimi Hendrix e a maquinaria de Brian Eno. Ou Nick Cave, em dueto com Billie Holiday, acompanhado por Bo Diddley e dispondo de Morricone aos comandos da nave. Mas tão belíssimas quimeras apenas conseguiriam ganhar vida própria se o Frankenstein de turno não se satisfizesse com o mero trabalho de corte e costura e, em simultâneo, tratasse de accionar a tecla do "shuffle", procurando atingir aquele plano superior da "random accuracy" onde as partes se esboroariam no todo, gerando um novo e assombroso organismo. A riqueza genética da(s) matéria(s)-prima(s) seria, nauralmente, decisiva. E tanto mais fértil quanto menos explorada anteriormente. É precisamente por contrariar esta última alínea do protocolo laboratorial que o álbum de estreia dos norte-americanos Clap Your Hands Say Yeah é verdadeiramente surpreendente: a voz de Alan Ounsworth é David Byrne via-Gordon Gano (Violent Femmes), as guitarras passam os Velvet Underground pela peneira dos Feelies e o baixo mimetiza todas os graus da escala que vai dos Joy Division aos New Order, passando pelos Cure. Com alguma histeria residual dos Pixies, a elegância mal amanhada de Jonathan Richman e a charanga de ferro-velho que, da Band Of Holy Joy a Tom Waits, muito bons serviços já prestou.



Nada de novo, então?... Errado: algum catalizador desconhecido terá caído, por acidente, no tubo de ensaio, pelo que a criatura CYHSY, apesar de constituída por tecidos com bastante uso, é um espécime bem interessante. Curiosamente, segundo os próprios, a fórmula da poção é outra: Nina Simone, Neil Young, Bob Dylan, Brian Eno, Beach Boys, Temptations, Clash, Phil Spector, Richard Thompson, Springsteen... mais outros tantos. É provável que eles não saibam o que dizem. Tal como nós nunca estaremos muito certos do que fala o surrealismo maltrapilho dos textos (um exemplo só e logo o primeiro: "Run the lip off sunshine shore, betray white water, delay dark forms, slap young waves on wooden bones, don't touch the laughter and away we go"). Não importa. Por uma vez, é possível dizer "believe the hype!" sem problemas respiratórios.