Revisões da matéria dada (XXII)
14 December 2021
04 March 2021
14 October 2020
Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.
07 February 2017
30 December 2016
25 June 2015
29 December 2010
(durante o Verão)
The Drums - Album
O Verão é, oficialmente, uma estação, do ponto de vista musical, pouco exigente. Qualquer coisinha que desempenhe, a contento, o papel de gin-tónico sonoro e, se possível, traga acoplado um sistema de ar condicionado, cumpre, instantaneamente, os mínimos exigíveis para ser considerada música-de-Verão. The Drums estão nessa categoria: cópia de cópias dos Cure, New Order, Orange Juice e afins mas... fresquinha.
Jónsi - Go
Com os restantes Sigur Rós em sabática, Jónsi Birgisson – o cantor de timbre quase-castrato – inventa a banda sonora para uma espécie de Disneylândia imaginária. E apercebemo-nos de que a felicidade jorra como leite e mel porque Jónsi se converteu à língua da fada Sininho. Mas, caso tivéssemos dúvidas, as portentosas cavalgadas orquestrais de Nico Muhly arredá-las-iam de vez. O mundo é bom e belo e os anjos cantam.
Vários - Theme Time Radio Hour With Your Host Bob Dylan (Season 2)
A enorme riqueza das “Theme Time Radio Hours” que, entre Maio de 2006 e Abril de 2009, Bob Dylan manteve na Sirius XM Rádio, residia tanto na selecção musical como nos textos, apartes e entrevistas que Dylan incluía como separadores. Aqui, recolhem-se “apenas” 50 faixas da segunda temporada: de Captain Beefheart a Loretta Lynn, não falta quase nada. Só o humor e a sabedoria made in Zimmerman.
The White Stripes - Under Great White Northern Lights (DVD, real. Emmett Malloy)
Um pouco à maneira do que os Sigur Rós haviam realizado também em 2007 e registado no DVD Heima, os White Stripes, em digressão por palcos menos comuns (autocarros, barcos, lares de terceira idade, escolas e salões de bowling) de remotas cidades do Canadá, levantam – mas não demasiado – as cortinas sobre os bastidores e deixam-nos espreitar, em simultâneo, para alguns fragmentos dos concertos.
Los Campesinos! - Romance Is Boring
À terceira investida, Los Campesinos! (Cardiff, UK) inventam um módico de equilíbrio entre uma estética-"over the top" (cordas, sopros, guitarras frenéticas e histeria coral) e sólida filosofia pop traduzida em tiradas como “there’s future in the fucking, but there is no fucking future”, “I love the look of lust between your thighs” ou a memorável “All’s well that ends, I suppose”.
(2010)
25 June 2010
TÍNHAMOS FALADO ACERCA DISSO
(pá, recorda-te lá, pá...)
Muitas vezes sinto-me sozinho a puxar pelo país
agora, com nova banda sonora:
I would say I'm sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I've said too much
Been too unkind
I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry
I would break down at your feet
And beg forgiveness
Plead with you
But I know that
It's too late
And now there's nothing I can do
So I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay
But I know that it's no use
That you've already
Gone away
Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more
Now I would do most anything
To get you back by my side
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry
Boys don't cry
(2010)
09 June 2010
Foals - Total Life Forever
Os manuais-pop poderão explicar-nos que o "math-rock" é um sub-género do "post-rock", caracterizado por uma maior complexidade rítmica, melodias estenográficas e afeição pela dissonância mas, em boa verdade, como diria Fernando Pessoa, trata-se apenas de uma tradução do binómio de Newton para partitura. Nas suas melhores versões, poderá, de facto, ser tão belo como a Vénus de Milo, e, nesse âmbito, o primeiro álbum dos Foals (Antidotes, 2008), embora ainda a razoável distância da elegância helénica da escultura de Alexandre de Antioquia, era um belo exemplo de articulação ginasticada entre as equações sonoras de Reich e Branca e as flexões musculares dos A Certain Ratio, Pop Group e Liquid Liquid. Total Life Forever – inspirado no futurismo de Raymond Kurzweil – conserva, no essencial, essa matriz (e também a irritante voz de Yannis-clone-de-Robert-Smith-Philippakis) mas o que lhe acrescenta parece denunciar uma perturbadora ambição de, a curto-prazo, trocar o estatuto de culto indie pela competição na arena com os U2. Pensem nos óptimos Simple Minds de Empires And Dance e no que eles se tornaram e terão uma ideia.
(2010)
18 May 2010
19 August 2009
If zombies actually existed, an attack by them would lead to the collapse of civilisation unless dealt with quickly and aggressively. That is the conclusion of a mathematical exercise carried out by researchers in Canada.
* ...por muito que arqueemos a sobrancelha, a começar pelo nome do responsável pelo estudo: Professor Robert Smith? (o "?" não é gralha, faz, realmente, parte do apelido).
edit: esclarecido o enigma do "?" em contribuição depositada na caixa de comentários - a culpa é do RS dos Cure.
(2009)
09 July 2008
(sort of)
Bulllet - Torch Songs For Secret Agents
Nouvelle Vague - Nouvelle Vague
É Verão e a mente vagueia. Naquele "mood" de gin-tonic na mão e Chandler sob os olhos, não estamos propriamente virados para Wagner, Archie Shepp ou Black Flag, pois não? É, então, o momento para a descida à terra dos espíritos do über-cool (e, aqui, façam o favor de ler "cool" nos três sentidos possíveis: 1) de "hipness"; 2) de "cool", como em "cool jazz"; 3) e de "frescura"). E eles não se fazem rogados. Torch Songs For Secret Agents podia mesmo ter sido concebido como programa de animação cultural das noites tropicais de Clubs Med um bocadinho menos, digamos assim... burgueses.
E, escrevo "burgueses" no mau sentido da palavra. Porque Torch Songs é completamente burguês no melhor sentido: aqui bebe-se do fino, a atmosfera é cuidadosamente perfumada, o perigo (convém haver perigo por causa do picante) está sob controlo e a decoração humana saiu directamente das passerelles para a chaise longue. Os Bulllet pisam o terreno das canções dos Balla, a paleta jazz/hip hop/sampladelica-com-narrativa-implícita pinga em tons-James Bond sobre as telas de Gauguin e, vá-se lá saber porquê, quando acenamos preguiçosamente a pedir um "refill" é Rita Hayworth quem nos vem servir. Nada mau, hein? O cenário alternativo não é pior. Começa por jogar com sinónimos: nouvelle vague, new wave, bossa nova.
Depois, fimando "on location in Paris" sob a direcção de Marc Collin e Olivier Libaux, escolhe como protagonistas criaturas de vozes e nomes celestiais como Camille, Eloisia, Marina, Mélanie Pain, Siljia ou Daniela D'Ambrosia (podiam ser todas protagonistas ou figurantes do filme anterior) e pede-lhes para cantar "Love Will Tear Us Apart", "Just Can't Get Enough", "Guns Of Brixton", "Too Drunk To Fuck", "Making Plans For Nigel" ou "Teenage Kicks" como se os Joy Division, Depeche Mode, Clash, Dead Kennedys, XTC ou Undertones fossem frequentadores assíduos de Copacabana. Os Tuxedomoon, PIL, Sisters Of Mercy, Cure, Modern English, Killing Joke e Specials também não se ficam a rir. Mas ficam todos, de certeza, a sorrir e de muito bom humor, com a caipirinha gelada que a Rita, ela de novo, lhes vem oferecer.
(2004)
04 June 2008
(2008)
10 May 2008
Foals - Antidotes
É total, absoluta e integralmente derivativo. O mortal à retaguarda abarca uma portentosa distância de vinte e tal anos. Mas, nessa específica modalidade de pastiche e colagem de marcas sonoras cujo copyright é propriedade definitivamente alheia, o quinteto britânico de Oxford, Foals, em álbum de estreia, é, seguramente, dos mais capazes de demonstrar a outros – como, por exemplo, os !!! – onde se situa o “state of the art”.
Accione-se, pois, o “rewind” na direcção dos explicitamente reinvindicados Steve Reich e Glenn Branca, considerem-se igualmente as hipóteses Arthur Russell, A Certain Ratio, Liquid Liquid, Pop Group e PigBag, passe-se Fela Kuti pela lixívia dos Talking Heads iniciais e, com a participação episódica do destacamento de sopros novaiorquino Antibalas, obter-se-à um bem interessante cocktail de referências em vertiginoso remoinho que, para ascender a um plano francamente superior, apenas precisaria de dar folga à voz de Yannis Philippakis (mais um dispensável e inexplicável clone de Robert Smith), corpo estranho e alergeno sonoro numa gravação que ganharia tudo se fosse exclusivamente instrumental.
Não é certo que a matéria dê para segundo álbum viável mas este até é eminentemente consumível. (2008)