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12 July 2019

14 May 2015

POLÍTICA DO PARAÍSO


Guy Standing, professor de Economia na University of London, é o autor de The Precariat: The New Dangerous Class (2011), quase-manifesto em que, a propósito desse emergente grupo social situado entre os “indignados” espanhóis, o Den Plirono (Não Pagamos) grego e as revoltas árabes (“O precariado, classe em construção que se aproxima de uma consciência da vulnerabilidade comum, consiste de todos aqueles que sentem que a sua vida e identidade são constituídas de fragmentos dispersos a partir dos quais não são capazes de construir uma narrativa desejável ou uma carreira”), propõe a adopção de algo, pela sua própria designação, capaz de pôr os cabelos em pé aos apologistas do respeitinho pelas folhas de Excel dos donos da “realidade”: as "politics of Paradise", assentes na “reinvenção do lema progressista da liberdade, igualdade e fraternidade”.



Foi, justamente, inspirada por Standing que Holly Herndon classificou o seu terceiro álbum, Platform, como “um gesto paradisíaco”. Licenciada em música electrónica pelo Mills College, de Oakland, na Califórnia, e, actualmente, a concluir doutoramento em composição na Stanford University, bebeu o biberão do techno nos clubes de Berlim, estudou a gramática contemporânea com John Bischoff e Fred Frith, e, hoje, afirma que “o laptop possui muito mais conteúdo emocional do que qualquer violino poderia sonhar: estão lá o meu Skype, a minha conta bancária, os meus emails, as minhas relações”. Deve ser por isso que já viu a sua música qualificada como techno recuperado de uma "hard drive" que esteve demasiado tempo debaixo de água. Não é realmente verdade. Ela própria admite que, desejando criar “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”, para este fulgurante jogo de espelhos sonoro tanto contribuíram Meredith Monk, Morton Feldman e Laurie Anderson como Missy Elliot, Charles Ives, William Byrd, Thomas Tallis ou o "grime" britânico. E, acrescente-se, uma "guest list" de activistas dos microuniversos mutantes da Internet e arquipélagos afins – Claire Tolan/ASMR, Spencer Longo, Mat Dryhurst, Colin Self, Amnesia Scanner –, cúmplices e co-artífices das ruidosas utopias e paraísos digitais de que tanto carece a pobre e aterrorizada “realidade”.

08 January 2014

AMARGO DE BOCA 


Picando o ponto no clássico inevitável dos balanços finais de ano: mas onde tinha eu a cabeça quando, naquele dia, em vez de escrever sobre o disco/livro/filme “x”, optei por me ocupar do “y”, acabando por deixar o “x” indesculpavelmente de fora? Na maioria dos casos, a sensação de missão incompletamente cumprida deixa-se atenuar por uma variante mais intelectualmente respeitável do lúbrico “so many girls, so little time” mas, noutros, o amargo de boca custa a passar. Se, em 2013, não ter feito uma única referência – mesmo que só de passagem – à reedição do óptimo mas eternamente mal amado Muswell Hillbillies, dos Kinks (1971), ainda se justificaria com a desculpa velhaca de que uma reedição não tem o mesmo peso de uma publicação original, ter ficado em branco relativamente a Aheym, de Bryce Dessner, quase obriga a entrar em modo-Opus Dei de cilício e vergastada. 



Figura destacada da primeira geração pop/rock academicamente diferenciada mas, ao mesmo tempo, imunizada contra a tentação de, a despropósito, exibir a erudição, o guitarrista dos National, também compositor residente do Muziekgebouw, de Eindhoven, convidado da American Composers Orchestra e frequentador natural do círculo onde se movem Steve Reich, Philip Glass, Nico Muhly ou David Lang, é o género de pós-mimimalista que, tendo digerido sem sobressaltos a história da música do século XX, catabolizou os excessos dogmáticos do dodecafonismo e ensaiou uma síntese de vocabulários, do Renascimento à actualidade. Apresentado por Reich ao respeitabilíssimo mas sempre aventureiro Kronos Quartet, foi para ele que escreveu as quatro peças que integram Aheym: durante cerca de 45 minutos de vertiginoso virtuosismo rítmico e contrapontístico, nos quais, segundo Bryce, “cada tema responde ao que o antecede”, dispara rajadas de riffs reconfigurados para ensemble acústico, desenha intrincados labirintos eriçados de "pizzicati" e intensos polígonos sonoros assimétricos, em jogos de luz e sombra, silêncio e mapas astrais de harmónicos, viaja entre a polifonia renascentista – Thomas Tallis, Palestrina, Gesualdo – e um Arvo Pärt mais terreno, e, recorrendo ao Brooklyn Youth Chorus, em "Tour Eiffel", sobre um poema do chileno Vicente Huidobro, entrega-se a uma sinuosa ascensão vocal-orquestral, que poderia servir como ilustração ao aforismo “less is more”. E, de certa forma, ao seu inverso. 

27 April 2013

O NORTE POLAR 


Podem ser invocados muitos e bons motivos para recusar um Nobel ou uma condecoração no 10 de Junho. Mas já não será tão fácil imaginar um suficientemente forte que leve a rejeitar a atribuição do literalmente galáctico grau de Comandante da Real Ordem da Estrela Polar. Manfred Eicher recebeu-o, em 1999, das mãos do rei da Suécia, pelos bons serviços prestados à cultura local através do labor da sua editora ECM (Editions of Contemporary Music), fundada 30 anos atrás. Não será apenas por esse motivo (mas também) que, muito antes da desvairada cogumelização de telúricas metáforas sobre fiordes, vulcões e glaciares a propósito dos Sigur Rós e de praticamente toda e qualquer criatura oriunda dos gelos escandinavos, já prosa idêntica fora derramada sobre a música publicada por Eicher: tanto depreciativamente (o editor/produtor bávaro teria esterilizado o jazz – que, inicialmente, dominava o catálogo – impondo-lhe uma ditadura do “bom gosto” que o contaminara com uma frieza e um intelectualismo muito norte-europeus) como elogiosamente (a “melancolia bergmaniana”, o "artwork" sóbrio mas requintado, o convite à atitude contemplativa, a sofisticação "state of the art" dos estúdios).  



A verdade é que, como, por exemplo, acontecera com a Blue Note e produtores como Teo Macero, Berry Gordy ou Martin Hannett, os discos da ECM lograram atingir o invejável estatuto de ser adquiridos “por serem da ECM” independentemente do conteúdo (“Os cinco segundos de silêncio que, em qualquer álbum da ECM antecedem a música são, provavelmente, a mais importante declaração que uma editora de discos poderia fazer” – Richard Williams, em The Blue Moment) que, recorde-se, foi incluindo Keith Jarrett, Chick Corea, Gary Burton, Bill Frisell, Art Ensemble Of Chicago, Jan Garbarek, Terje Rypdal, Pat Metheny, Dave Holland, mas, igualmente, Gesualdo, Arvo Pärt, Thomas Tallis, Jon Hassell, Pérotin, Steve Reich, Egberto Gismonti ou Anouar Brahem. 



E, agora, também June Tabor, integrada no trio Quercus, com Huw Warren (piano) e Iain Ballamy (sax soprano e tenor). Gravado ao vivo – mas, pela “sonoridade ECM”, nunca de tal se suspeitaria – durante uma série de concertos em 2006, triunfa gloriosamente em terreno afim daquele (Some Other Time, 1989) onde, abordando os standards do cancioneiro americano, pela única vez, Tabor havia falhado: os quatro tradicionais são exercícios de pura levitação – e "As I Roved Out" e "Brigg Fair" (esta a capella) elevam-se ainda mais alto do que isso –, os textos de Robert Burns, Shakespeare, A. E. Housman, com música de Warren/Ballamy, bem como todos os restantes, descobrem o norte polar do equilíbrio perfeito entre o impressionismo jazz “modernista” e a imponderável gravitas do canto de June Tabor (o uníssono de voz e saxofone, em "Come Away Death", rampa de lançamento para um lírico sobrevoo de Ballamy e Warren, impossibilita qualquer hipótese de desconcentração), algo como um milagre que permite que a liberdade de improvisação e o rigor quase solene da abordagem de palavras e melodias não apenas coexistam como pareçam ter-se, desde sempre, desejado.

22 December 2010

THE TALLIS SCHOLARS - "NUNC DIMITTIS"
(Giovanni Pierluigi da Palestrina - sequência daqui)



(2010)
ÍMPIAS CITAÇÕES (V)



















"I still find some things about religion interesting: how eating fish on Friday to stimulate the fish trade became part of belief - that is to say, how culture can turn into religion - how the music of Palestrina or Thomas Tallis always moves me. (...) But religions essentially stop people thinking and encourage poverty. Whichever way I look at them, I think they're bad things". (Neil Tennant/Pet Shop Boys, no "The Word" de Janeiro de 2011)

(2010)