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25 May 2016

LIMPAR O SÓTÃO


Segundo uma certa escola de pensamento, a possibilidade de conhecermos detalhadamente a intimidade dos criadores proporcionaria um precioso suplemento de profundidade na apreciação que fazemos da sua obra. O que, a ser levado a sério, imediatamente colocaria, por exemplo, William Shakespeare – que nem sequer sabemos exactamente quem foi – numa terrível situação de desvantagem e, a nós, deixar-nos-ia perdidos e incapazes de o entender e decifrar. Esta aparente imprescindibilidade de uma espécie de imprensa "del corazón", braço direito da hermenêutica, voltou a manifestar-se agora mesmo, por ocasião da publicação-surpresa de A Moon Shaped Pool, último álbum dos Radiohead. Estivéssemos ou não interessados em o saber, não havia como ignorar o dispensável pedaço de informação que nos dava conhecimento de que Thom Yorke, no passado Verão, pusera termo a um casamento de 23 anos e o quanto isso e a respectiva "midlife crisis" haviam sido determinantes na gestação do disco. Não se aplicará, ponto por ponto, neste caso, mas é difícil não pensar imediatamente numa dúvida de Tom Waits: “Se estamos a ver um filme muito mau e alguém nos diz 'sabias que é baseado numa história verdadeira?' será que o filme deixa de ser mau?” 


E a questão torna-se ainda um bocadinho mais bizarra no instante em que nos damos conta de que cerca de metade dos temas de A Moon Shaped Pool ("Burn The Witch", "True Love Waits", "Ful Stop", "Identikit", "Desert Island Disk" e "The Numbers") já haviam sido divulgados – alguns desde há bastantes anos, isto é, bem antes do infausto desentendimento conjugal – sob diversas formas. O que, em rigor, para quem isso possa importar, transforma o disco mais numa limpeza de sótão do que num doloroso processo de catarse pública. Na realidade, como sempre deverá ser, o que conta é a música que ele contém. E, aí, de modo idêntico ao que aconteceu com as últimas edições da banda (e de Yorke), as canções tendem a empalidecer perante o "buzz" mediático que as envolveu. Se em Hail To The Thief (2003) houve um "leak" pirata, dois meses e meio antes da data prevista, In Rainbows (2007) investiu na modalidade "pay-what-you-want-download", e Tomorrow’s Modern Boxes (2014) foi colocado no BitTorrent por 4.73€, desta vez, tratou-se de um súbito apagão pré-parto de toda a presença "online" da banda. Para acabar por nos oferecer o quê? Onze peças alinhadas por ordem alfabética nas quais praticamente tudo o que existe de memorável é da responsabilidade de Jonny Greenwood e da London Contemporary Orchestra (o arranjo herrmann/reichiano de "Burn The Witch", o outro de "The Numbers" a insuflar energia no sonambulismo em piloto automático de Yorke e ainda o de "Tinker Taylor Soldier Sailor...", a salvá-la in extremis de uma penosa e lenta morte) e o resto é apenas meia dúzia de aguadas electrónicas de catálogo e embaraçosos confessionalismos tardo-adolescentes. Não valia a pena terem-se incomodado.

09 October 2014

COM UM DEDO NO DIQUE


Os alertas vermelhos já tinham disparado há muito mas foi no MIDEM (Marché International du Disque et de l'Édition Musicale) de Janeiro de 2007 que algumas profecias apocalípticas acerca do fim da indústria musical começaram a desenhar-se com nitidez. Chris Anderson, editor da “Wired”, previa que “os direitos sobre a música estavam condenados a desaparecer, as editoras convencionais também e os músicos (sobre)viveriam, sobretudo, de concertos e encomendas”. Jacques Attali garantia que “no futuro, toda a música será gratuita e a indústria terá de inventar novas formas de ganhar dinheiro” e Stéphan Bourdoiseau, patrão da Wagram, proclamava: “O mundo antigo está em ruínas, mas será necessário esperar 15 anos para ver o mundo novo. Entretanto, teremos perecido”. Apenas nove meses depois, a 10 de Outubro, os Radiohead protagonizariam aquilo que o “Sunday Times”, três dias antes, qualificara como “The day the music industry died”: In Rainbows (ansiosamente aguardado pelos fãs durante quatro anos, após Hail To The Thief), ficava acessível para “download” na página da banda na Internet, “ao preço que cada um quiser pagar”



Estamos ainda a meio do prazo de 15 anos calculado por Bourdoiseau, continuamos todos por cá, mas sucedem-se as variações sobre o tema do menino holandês que evitou uma catástrofe, tapando com um dedo, durante uma noite, o buraco de um dique. Mal tínhamos digerido o matrimónio Apple-U2, e é, de novo, com origem nos Radiohead que outro safanão acontece: na sexta-feira 26 de Setembro, Thom Yorke, recorrendo a uma das mais temíveis escunas pirata em actividade, o BitTorrent, colocou à venda por 4.73€ o seu segundo álbum a solo, Tomorrow’s Modern Boxes. O grande plano é “dispensar os intermediários, devolvendo o controlo do comércio na Internet aos criadores”. Inevitavelmente, segundos depois, sem necessidade de pagar um único cêntimo, estava pronto para ser escutado no "bas-fond" digital. E, tal como aconteceu com In Rainbows e a última coisa dos U2, a verdade é que, se entrará, seguramente, nos manuais de História da Música do século XXI, será somente em consequência do método de distribuição escolhido: incursão autenticamente vertebrada no universo da electrónica crepuscular há a da última faixa (“Nose Grows Some”) e é tudo. Não é Scott Walker (ou FKA twigs) quem quer.