O MUNDO ABSTRACTO
Laurie Anderson atende-me no quarto 206 de um hotel de Oldenburg, no Norte da Alemanha e, a certa altura, pareceu-me ser meu dever informá-la de que, aquela cidade, foi, em 1667, devastada pela peste. Não se tratava tanto de ampliar os seus conhecimentos de História como de fazer a ponte entre o tipo de peste de que ela, acabara de me falar e a outra que eu pretendia introduzir a seguir. Por um motivo bastante evidente: Homeland (designação da actual tournée e também do próximo álbum anunciado para 2008), ao voltar a investigar a natureza do mal americano, não é, no fundo, substancialmente distinto da peste eterna que evoca Plague Songs (o álbum-consequência do projecto "Margate Exodus" em que Anderson participou), aludindo, em simultâneo, às "dez pragas do Egipto" do Antigo Testamento e à emigração contemporânea.
Aparentemente, esta sua digressão que intitulou Homeland volta a centrar-se em Within The Context Of No Context, o livro de George W. S. Trow, que já funcionava como estímulo para Trio: Songs And Stories que apresentou em Montemor, no ano passado. Quais as diferenças entre um e outro?
Há apenas uma ou duas coisas em comum. São cerca de dezassete canções e é um espectáculo completamente diferente em que também improvisamos bastante. Várias das canções são muito políticas, outras são mais pessoais e lidam com o universo da sensualidade, aponta para diversas direcções. Continuo a achar que o George Trow é um escritor muito interessante mas, neste momento, já não constitui o tema central.
The End Of The Moon – que trouxe ao Porto, em 2005 – era a segunda parte de uma trilogia que iniciou com Happiness. Homeland é a terceira?
Homeland é uma oportunidade para fazer um pouco mais de música do que o habitual. Happiness e The End Of The Moon eram poemas realmente extensos. Talvez no próximo ano volte a pegar na trilogia e a conclua. Mas andava a sentir muito a falta de fazer música, quase já me tinha esquecido de como se compõe... fiz um filme, instalações, publiquei um livro, tudo coisas de que a música era pouco mais do que a banda sonora. Este projecto assenta muito mais no violino e no trabalho sobre a harmonia e as cordas do que em “samplers” e teclados. Mas continua a haver bastante electrónica, é um trabalho transparente e que, embora não o pareça – é isso que desejo –, é muito complexo.
Homeland, o álbum anunciado para 2008, terá, portanto, mais ou menos, a estrutura destes concertos?
Exacto. Destas peças, seleccionarei umas quantas a que juntarei algumas outras sobre as quais ainda estou a trabalhar. Parece-me a melhor forma de gravar um disco, construí-lo gradualmente, em vez de gravar primeiro uma série de canções e, só depois, as apresentar ao vivo.
De qualquer forma, nunca se descreveu exactamente como "música" mas como “storyteller”, o seu único álbum realmente “de canções” foi Strange Angels...
É verdade. Seguia bastante o padrão convencional de estrofe-refrão. Mas era mesmo de fazer música que andava a sentir saudades, de tocar com outros executantes de cordas num pequeno ensemble. Já tinha tocado com uma orquestra mas nunca deste modo. É um prazer sentir como a música se pode abrir assim, neste formato.
Começou com United States I-IV. Depois, publicou Home Of The Brave. Agora, Homeland. O seu país obceca-a?
Nestes últimos três anos, tantas coisas mudaram que decidi espreitá-lo mais uma vez. É tão terrivelmente estranho e tão perturbantemente familiar que tentei descrevê-lo como o vi. Sob muitos aspectos, está a tornar-se muito abstracta a relação que estabelecemos com um lugar, com uma terra. Apesar de continuarmos em guerra no Iraque, 60% dos americanos ignora em que continente ele se situa.
Talvez até o próprio Bush...
(risos) Oh sim... provavelmente ainda não faz nenhuma ideia... o nível de abstracção é muito elevado. Tal como a luta contra o terrorismo se trava contra fantasmas, não podemos ir até à terra-do-terror, identificar-lhe as fronteiras. Mesmo nas coisas mais simples: por exemplo, em Nova Iorque, só resta meia dúzia de lojas de discos, toda a gente faz “downloads”. Muitas estruturas que nos habituámos a ver nas cidades, como os balcões dos bancos, também estão a desaparecer. Tudo isso transforma não só a paisagem como a mentalidade.
É como se o mundo estivesse a tornar-se definitivamente platónico...
(risos) Ultimamente, parece, de facto, caminhar nessa direcção. Claro que continuamos a precisar de comer. Mesmo que sejam alimentos geneticamente modificados... Por outro lado, nos EUA, há muito pouco diálogo político. E, ainda que votássemos noutro partido, sabemos que ele também não poderia por fim à guerra no Iraque quando nos apercebemos de que... oops! não é o governo quem conduz a guerra!... É o que acontece quando o que, essencialmente, conta é o dinheiro, quando os grandes conglomerados empresariais tomam as rédeas do espectáculo. Há dez ou doze anos, nos EUA, havia cerca de 300 mil presos. Desde que as prisões foram privatizadas, há 3 milhões. Este triunfo do capitalismo deixa muito pouco espaço para o pensamento: cada pessoa sonha apenas com o novo modelo de automóvel, o novo laptop, o novo iPod...
Já que estamos a falar acerca de uma praga dos tempos modernos – a propósito, não sei se sabe que Oldenburg, a cidade onde agora mesmo está a conversar comigo, foi devastada pela peste, em 1667...
A sério?!!!... Céus... Oldenburg?...
(risos) É verdade... mas ia perguntar-lhe como foi o seu envolvimento com o projecto “Margate Exodus” que deu origem ao álbum Plague Songs...
O Michael Morris disse-me que, em Margate, iriam reencenar o êxodo dos hebreus do Egipto o que era uma das coisas mais estranhas que já tinha ouvido e, evidentemente, quis participar. Das dez pragas, fiquei com a da morte do gado. Como poderia eu pegar naquele tema? Para começar, a ira de Deus e os tormentos que ele infligiria às pessoas não é algo em que acredite ou me interesse muito... passei algum tempo num rancho, no Texas, mas o que me inspirou foi o trabalho de Temple Grandin, uma artista que se especializou em gado e que concebeu instalações destinadas a diminuir o sofrimento dos animais durante o processo de abate. Acabou por ser contratada pela McDonald’s para trabalhar nos matadouros deles porque, segundo parece, se os animais forem abatidos com grande sofrimento e medo, a carne fica menos tenra. Li vários livros dela e achei-os fascinantes.
É, então, uma especialista em eutanásia animal...
Exacto. O “Margate Exodus” incidia sobre as políticas de imigração que autorizam os africanos a entrar em Inglaterra mas que, depois, não lhes permitem o acesso a uma vida normal. São transportados para o Norte de Inglaterra e praticamente encarcerados em instalações onde não lhes é possível integrar-se, trabalhar, relacionar-se com as pessoas locais.
Portanto, muito logicamente, decidiu escrever sobre... touradas...
(risos) A tourada pareceu-me a forma mais crua de exprimir o que pretendia, essa sensação de horror e fascínio. Levaram-me a assistir a uma (não que eu o desejasse fazer) e, não consegui deixar de ver, era tão primitivo, um homem e um touro, quase me esqueci de que ali estava. Embora não possa dizer que tenha gostado – não gosto de ver o sofrimento dos animais – consegui compreender porque existem, é como uma imensa ópera sanguinária. (2007)