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18 January 2022

UNS DIAS NO CELEIRO
 

Na zona de Telluride, no Colorado – distinguida com a honra de ter sido cenário do primeiro assalto a um banco de Butch Cassidy –, empoleirado nas Rocky Mountains, 2 667 metros acima do nível do mar, encontra-se “the barn”. O celeiro. Construído em 1850, era um local onde as diligências paravam para  dar de beber e alimentar os cavalos, permitindo também aos passageiros descansar durante algumas horas antes de prosseguir viagem. Algo como a "roadhouse" de Once Upon A Time In The West, na qual Harmonica/Charles Bronson e Cheyenne/Jason Robards se cruzam pela primeira vez. A partir de alguns esboços e de uma fotografia, Neil Young tratou de restaurar o que já era pouco mais do que uma ruína: “Usámos madeira daqueles grandes pinheiros ponderosa, tirando partido das superfícies arredondadas. Os troncos sobrepostos dão origem a uma onda sonora cheia. Nada de ângulos rectos que são inimigos do som e provocam a extinção de algumas frequências. O que, quando estamos a gravar, temos sempre de ir compensando. Aqui, não precisámos de fazer nada disso: desde o primeiro instante, tudo soou perfeitamente bem”. Numa fotografia de Daryl Hannah (a andróide Pris, de Blade Runner, a gélida homicida Elle Driver, de Kill Bill, mas também, desde 2018, Mrs Young), “the barn” surge na capa do disco a que dá o nome: três quartos de céu raiados de núvens rosa de final de tarde e, no quarto inferior esquerdo, qual Big Pink ainda mais rural, uma casa-de-madeira-em-forma-de-casa, à porta da qual apenas com uma lupa poderão identificar-se as quatro figuras que a ocupam – Neil Young e os três Crazy Horse actuais (o baterista Ralph Molina, o baixista Billy Talbot e o guitarrista e multi-instrumentista Nils Lofgren, também tripulante da E Street Band, de Bruce Springsteen). (segue para aqui)
 

29 November 2021

DO JUKEBOX
 
 
No universo paralelo do cinema de Wes Anderson, há (entre várias outras) duas particularidades que o definem: a obsessão pela simetria visual e uma concepção da banda sonora já designada como “crate-digger soundtrack”. Isto é, composta a partir do tipo de música e canções que tendem a ser apenas descobertas nos caixotes de feira-da-ladra e lojas de segunda mão, ponto de vista próximo mas não exactamente idêntico ao que costuma orientar Quentin Tarantino na mesma missão: se este tende a propor a redenção do mais obscuro e (muitas vezes, injustamente) desclassificado “kitsch”, Anderson, com a indispensável colaboração do farejador Randall Poster, valoriza o “vintage” de fina casta. Em Hotel Chevalier, prequela de The Darjeeling Limited (2007), "Where Do You Go To (My Lovely)?", do meteórico Peter Sarstedt, ocupava todo o espaço sonoro e, no próprio Darjeeling, reapareceria por diversas vezes, na companhia de canções dos Kinks, Rolling Stones e Joe Dassin. Mas, em toda a restante filmografia, lado a lado com peças do reportório clássico e música original de Alexandre Desplat e Mark Mothersbaugh (Devo), é um desfile contínuo de memórias dos Proclaimers, Ramones, Velvet Underground, Elliot Smith, Zombies, Sigur Rós, The Creation, Chad & Jeremy, Cat Stevens, The Who, Yves Montand, John Lennon, Faces, West Coast Pop Art Experimental Band, Nico, Dylan, Clash, Devo, Stooges, Scott Walker, Beach Boys, Charles Aznavour, e até de versões de David Bowie por Seu Jorge.(daqui; segue para aqui)
 
Jarvis Cocker - "Aline" (real. Wes Anderson)

28 December 2020

MÚSICA 2020 - INTERNACIONAL (VII)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 38)

Fiona Apple – Fetch The Bolt Cutters

 

 
 
 
 

Bob Dylan – Rough And Rowdy Ways 

 

 
 
 

Stick In The Wheel – Hold Fast

 * a ordem é razoavelmente arbitrária...

"Gosto imenso de juntar palavras, mas apenas quando isso me é fácil, quando esse processo parece desenvolver-se por si mesmo. Nunca apago nada e praticamente nunca escrevo. Uma canção tem de estar completa na minha cabeça antes de eu a escrever. E só a escrevo se, de alguma forma, me servir, se me aperceber que, para me sentir melhor, não posso evitar escrevê-la. Se não tenho coisa alguma a transbordar, nada tenho para dar. Preciso de manter a antena sintonizada e, quando me dou conta de que já estou ‘cheia’, então, sento-me e escrevo. Se não tenho vontade de escrever canções, nunca me forço a fazê-lo”, conta Fiona Apple numa videomontagem do YouTube na qual conversa com Quentin Tarantino. E, quando este lhe diz que começou a analisar as canções dela e se apercebeu de que as melhores são aquelas que recorrem a imagens violentas (“Metafóricas, sim, mas, simultaneamente, autênticas. Naquele instante, pensavas mesmo em matá-lo!”), Fiona recorda como a mãe lhe descrevia as suas birras infantis: “Quando, por algum motivo, me irritava, ouviam-se sempre três sons: batia furiosamente com os pés no chão, fechava as portas com estrondo e corria a martelar o piano. Pela sua natureza percussiva, o piano atraía-me muito, tal como muita gente que toca bateria como forma de libertar a raiva”. Tudo isso está intensamente presente em Fetch the Bolt Cutters e, muito em particular, nas três canções desse álbum — "I Want You To Love Me", "Shameika" e "Fetch the Bolt Cutters" — que, em outubro passado, interpretou num vídeo para o New Yorker Festival (online): as mãos como aranhas sobre o teclado, a voz, à beira do sufoco, que gorgoleja à maneira do John Cale do tempo em que lhe corria lava nas veias, o quase rap alucinado e vertiginoso de "Shameika" cuspido sobre um microfone em risco de ser avidamente devorado. Aí apenas com a implacável e austera cumplicidade "live" do contrabaixista Sebastian Steinberg, da baterista Amy Aileen Wood, e do guitarrista/teclista Davíd Garza, mas despida da formidável atmosfera waitsiana de primitivismo sonoro presente no disco, cozinhada nas nada canónicas "jam sessions" (baldes, pedaços de metal, mesas, paredes, utensílios de cozinha, ossadas de cães, arquejos, gritos, latidos) da casa-estúdio de Venice Beach, na Califórnia, lugar de encarceramento voluntário onde Fiona, desde há muito, se exilara. A intolerável existência do (ainda) inquilino da Casa Branca já lhe inspirara o "loop" de agitprop "Tiny Hands" (“We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants”) e o nojo perante a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça (“Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”) fá-la-ia transbordar no labiríntico desenho rítmico do coral "For Her". Penúltima canção a ser escrita, "Fetch the Bolt Cutters" deveria ser o sinal para “o culminar de tudo o que tinha sido a minha vida até aí, o momento em que diria: ‘É a altura de enfrentar o mundo e sair daqui para fora.’ E, justamente no instante em que estava disposta a usar o alicate para me desencarcerar, aconteceu o 'lockdown'”. Fiona continuou em casa, mas o álbum seria publicado a 17 de Abril... (daqui)

06 September 2020

05 May 2020

SAIR DE CASA


Em 14 de Outubro do ano passado, Zelda Hallman, a "house-mate" de Fiona Apple, publicou no YouTube um video de 1 minuto no qual esta, qual Martha Graham doméstica, ensaia, no chão da sala, uma coreografia com a cadela Mercy – uma possante "boxer-pitbull" – que a arrasta impiedosamente por entre um piano e várias cadeiras enquanto ela, na medida do fisicamente possível, vai improvisando movimentos e poses. Nada de extravagante, afinal – apenas um passatempo de um dia normal na casa de Venice Beach, em Los Angeles, de onde, há anos, Fiona só muito raramente sai. Na verdade, muito antes de palavras como “quarentena” e “confinamento” se terem tornado omnipresentes, já esse era o seu modo de vida habitual o que teria, aliás, consequências na produção musical: entre a explosiva estreia, Tidal (1996), e When The Pawn... (por extenso, When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks Like a King What He Knows Throws the Blows When He Goes to the Fight and He'll Win the Whole Thing 'fore He Enters the Ring There's No Body to Batter When Your Mind Is Your Might So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand and Remember That Depth Is the Greatest of Heights and If You Know Where You Stand, Then You Know Where to Land and If You Fall It Won't Matter, Cuz You'll Know That You're Right) decorreriam três anos; desse para Extraordinary Machine seriam precisos seis; The Idler Wheel... (isto é, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do) exigiria sete; e, para chegar ao actual Fetch The Bolt Cutters, necessitaria de oito. Além de que, com muitíssimo poucas excepções, desde 2012, não pisa um palco. 



Quase poderia antecipar-se todo este percurso quando, nos MTV Video Music Awards de 1997 (nos quais, aos 19 anos, conquistaria o galardão de Best New Artist pela canção "Sleep To Dream"), ao aceitar o prémio, declarou: “Não preparei um discurso e ainda bem porque não irei fazê-lo da mesma forma que toda a gente. Que todas as pessoas a quem deveria agradecer me peedoem mas tenho de aproveitar o tempo que me é concedido. A Maya Angelou diz que, enquanto seres humanos no seu melhor, apenas podemos criar oportunidades. Vou, então, usar esta oportunidade do modo que entendo. Por isso, o que quero dizer – estão a ver, todos vocês, estão a ver este nundo? – é que este mundo é uma merda. E que vocês não deverão tomá-lo como exemplo para a vossa vida, não deverão seguir aquilo que pensam que nós imaginamos ser cool, o que vestimos, o que dizemos e tudo o resto. Sigam o vosso próprio caminho”



Exactamente aquilo que, ainda que pagando um elevadíssimo preço na sua vida pessoal e artística, Fiona Apple fez e que, há semanas, no “Guardian”, reconfigurando-a na condição de “perfect artist for a time of crisis”, se apresentava em seis pontos: 1) não foge a temas difíceis (sempre falou dos problemas de depressão, ataques de pànico e transtorno obssessivo-compulsivo de que sofre e nunca escondeu ter sido violada aos 12 anos); 2) conta a melhor história acerca do que fazer para se libertar da cocaína (“Experimentem ir ao cinema com o Quentin Tarantino e o Paul Thomas Anderson a snifarem coca e nunca mais vos voltará a apetecer”); 3) pode ensinar-nos uma ou duas coisas sobre auto-isolamento (pouco sai de casa a não ser para passear a cadela em Venice Beach); 4) aprendeu a viver com mais juizo (a antiga consumidora de uma garrafa de vodka por dia, é, agora, abstémia e vegan); 5) não é politicamente desatenta (no Verão passado, ofereceu o valor das "royalties" de dois anos da canção "Criminal" a um fundo que presta apoio legal a imigrantes; compôs "Tiny Hands", acerca de Donald Trump – “We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants” –, para a Marcha das Mulheres, de Janeiro de 2017, em Washington; "For Her", do último álbum, foi escrita num acesso de fúria após a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça); 6) não tem dúvidas quanto a prioridades (no final de 2012, cancelou uma digressão pela América do Sul devido ao agravamento do estado de saúde da sua anterior pitbull, Janet). 



Foi, justamente, em 2012, que as primeiras moléculas de Fetch The Bolt Cutters começaram a juntar-se, num ainda vago conceito em torno da casa de Venice Beach, a que chamou “House Music”. Mas a primeira canção, "On I Go", inspirar-se-ia num cântico de meditação Vipassana que, colando fragmentos de textos antigos e novos, lançou para o caldeirão de ferventes "jam sessions" com o baixista Sebastian Steinberg (Soul Coughing), a baterista Amy Aileen Wood, e o guitarrista David Garza. Ferventes mas não propriamente, convencionais: todo o tipo de objectos potencialmente percutíveis – baldes, vasilhas, pedaços de metal e de madeira, mesas, paredes, palmas, utensílios de cozinha, as ossadas da cadela Janet que Fiona guarda num estojo –, cânticos, arquejos, gritos, miados (cortesia da actriz Cara Delevingne), latidos de cinco cães (Mercy, Maddie, Leo, Little, e Alfie, devidamente creditados), foram utilizados numa orquestra de matriz waitsiana. “A Fiona queria começar do chão para cima e, para ela, o chão é o ritmo. Parecia mais a criação de uma escultura”, contou Garza à “New Yorker”, ou como acrescentava Steinberg, “Tocámos do modo que os miúdos brincam ou que os pássaros cantam”. Em "I Want You To Love Me", Apple é totalmente explícita: “Blast the music, bang it, bite it, bruise it!”



Uma versão anterior – que os então presentes consideram ainda o seu mais extraordinário desempenho vocal – tivera lugar numa cadeia do Texas quando, em 2012, Fiona havia sido presa por posse de haxixe “Cantei-a durante a noite para me acalmar. Enquanto estávamos todos na sala de espera, eu cantava, estupidamente, de uma forma arrogante, para a câmara de vigilância. Não é, realmente, boa ideia ser sarcástico quando se está lidar com a polícia. Por muito que me custe, aprendi a lição”. Mas, nas condições ideais de temperatura e pressão, é esse precisamente o espírito ideal – bruto e cru – capaz de conferir tensão e perfurante intenção a treze canções de confronto e ajuste de contas. Em "For Her" (a tal incendiada pelo caso Kavanaugh), um coral ofegante e ritmicamente martelado salta de “Sniff white off a starlet's breast, treating his wife like less than a guest, getting his girl to clean up his mess” para o implacável “Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”; "Relay", apontada a um objecto de desprezo (“I resent you presenting your life like a fucking propaganda brochure”), explode numa definição impiedosamente repetida (“Evil is a relay sport, when the one you burn turns to pass the torch”); e, na faixa-título, sobre moldura instrumental em processo de liquefacção, invoca Kate Bush (“I grew up in the shoes they told me I could fill, shoes that were not made for running up that hill, and I need to run up that hill, I need to run up that hill, I will, I will, I will, I will, I will”) para concluir com “Fetch the bolt cutters, I’ve been here too long”. Não por acaso, o pedido da detective Stella Gibson (interpretada por Gillian Anderson), num episódio da série de televisão The Fall, quando necessita de um alicate para libertar do cárcere uma mulher que o "serial-killer" Paul Spector sequestrara e torturara. Como se, agora, quando o mundo inteiro vive em prisão domiciliária, esse fosse o instante certo para Fiona Apple sair de casa.

26 March 2019

DUAS VEZES POR ANO


“Os Go-Betweens nunca foram aquele tipo de banda que, quando se anda de táxi, de repente, no rádio, depois de Madonna, Bon Jovi ou Michael Jackson, se escuta uma canção nossa. Pode dizer-se que fomos preservados em relação a tudo isso, nunca tocámos para multidões. Mas a nossa música perdurou. Há dois anos, Kriv Stenders, um fã dos Go-Betweens, realizou um documentário sobre nós (Right Here). Há bandas australianas muito mais populares sobre as quais nunca foi feito um documentário”, diz Robert Forster, músico, escritor, jornalista, aspirante a actor e co-fundador com Grant McLennan de uma das maiores preciosidades da Austrália. Com o sétimo (e óptimo) álbum a solo, na mala, para apresentar. 

    Numa entrevista recente, disse uma coisa belíssima mas que, ao mesmo tempo, poderia tornar-se um constrangimento: “O Grant McLennan estabeleceu um padrão que eu não posso nem quero apagar”. Esse desejo de lealdade não acabará por limitá-lo? 

Não, escrevo como entendo dever fazê-lo. Trabalhámos juntos durante tanto tempo que sei perfeitamente o que as minhas canções e as dele tinham de bom. Exigíamo-nos mutuamente um nível elevado. Mas isso nunca constituiu nenhuma limitação: posso escrever sobre o que quero, gravar em Berlim ou Lisboa. É apenas um alerta para não deixar de continuar a escrever boas canções. 


    Uma outra afirmação sua fez-me pensar em algo que o Leonard Cohen costumava dizer... 

Que início de pergunta tão bonito... 

    Por ter referido Leonard Cohen? 

Não, por tê-lo colocado a ele e a mim na mesma frase!... (risos)

    Ele dizia que demorava eternidades a concluir uma canção e que invejava quem era capaz de as escrever durante uma viagem de táxi. O Robert confessava que precisava de 4 ou 5 anos para escrever 10 canções... 

Se fosse possível comparar-me com Leonard Cohen, a semelhança seria que, tanto ele como eu, escrevemos muito, muitas palavras, posso escrever durante um dia inteiro. O Leonard Cohen não era um músico fantástico mas tinha um estilo de tocar particular. O mais difícil, para mim, são as melodias, é por isso que escrevo pouco mais de duas canções por ano: desejo que sejam fortes, originais, preciso de gostar delas. 

    Deita fora muitos esboços de canções? 

Sim, muitos. Se não são suficientemente boas, se sinto que são semelhantes a outras que ouvi antes, se não me parece que apontem uma direcção para o que farei a seguir. Pessoas como o Grant ou o Paul MacCartney são capazes de criar, continuamente, melodias. Comigo só acontece duas vezes por ano. (risos)


    Não é uma coisa de agora mas, acerca deste seu último álbum, tenho visto muito mais referências do que o habitual relativamente à influência de Lou Reed e dos Velvet Underground... Concorda? 

No que diz respeito à produção do disco, talvez. Já me disseram que soa como um álbum do Lou dos anos 70. Para mim, isso é um elogio. Uma coisa que o Lou Reed e eu temos em comum é que as nossas vozes têm uma tessitura muito limitada. 

    Daí, terem uma expressão quase mais falada do que cantada, aquilo a que, em alemão, se chama "sprechgesang"... 

Exactamente, "sprechgesang". Aliás, tal como o Leonard Cohen. O que tem como consequência que os textos se tornem muito mais importantes.

    Talvez mais do que em qualquer altura anterior, os Go-Betweens são nomeados como referência para novas bandas e, em algumas – como os Rolling Blackouts Coastal Fever ou os Goon Sax, do seu filho, Louis –, isso é bastante evidente. Chegou o momento de deixarem uma linhagem? 

É verdade que, nos últimos 10 ou 15 anos, tenho reparado que há cada vez mais gente a apreciar os Go-Betweens e a dizer que esta ou aquela banda tem algo de nós. Claro que é agradável ler isso. É um pouco como acontecia no final dos anos 70 quando alguém dizia que um grupo fazia lembrar os Byrds e nós íamos a correr tentar descobrir de que estavam a falar. Recordo-me bem de como isso era importante para mim quando era jovem. 

    Quando escrevi sobre o álbum dos Rolling Blackouts, tinha acabado de ler as suas memórias, Grant & I onde caracteriza os Go-Betweens como “um ovo de Fabergé”. Pensei que seria apropriado chamar-lhes “um ovo de Fabergé gigante” uma vez que me pareceu tratar-se de uma enorme ampliação do modelo e da sonoridade dos Go-Betweens... (risos) 

Gosto imenso deles, vi-os no ano passado em Berlim. 

    E, com os Goon Sax, essa sensação de paternidade estética é duplamente notória, apesar de o Louis garantir que nunca escutou nenhuma canção dos Go-Betweens... 

Ele disse-me que foi incorrectamente citado. É verdade que não ouvíamos muito os nossos discos em casa mas ele estava presente quando eu escrevia as canções. O processo de constituição dos Goon Sax foi muito natural. Por volta dos 14 ou 15 anos, o Louis tinha estado noutra banda com o James Harrison. Eles os dois começaram os Goon Sax e uma amiga, a Riley, disse-lhes que estava a aprender bateria e perguntou se podia tocar com eles. Foi apenas isso. Claro que faz pensar nos Go-Betweens mas foi apenas uma coincidência. Houve uma altura em que o Louis dizia que, embora a banda soasse muito bem, queria tocar com quatro músicos em vez de apenas com aqueles dois para que não lhe viessem dizer que estava a imitar a banda do pai. Mas desistiu dessa ideia. Seja como for, eles têm apenas 20 anos e, de certeza, vão ainda mudar muito. 


    
    Porquê colocar como primeira faixa de Inferno um poema de Yeats, "Crazy Jane on the Day of Judgement"? Fazer parte de uma colecção de poemas chamada Words For Music Perhaps, teve alguma importância? 

É muito, muito difícil musicar a poesia do Yeats. Não tem absolutamente nada a ver com a canção pop ou o rock. Mas, há quatro anos, em Dublin, houve uma celebração do 150º aniversário de Yeats. Convidaram-me a participar juntamente com outros autores de canções de todo o mundo e enviaram-me alguns poemas para eu escolher. Semanas antes, tinha escrito uma melodia que combinava perfeitamente com este poema. Quando a cantei em Dublin foi muito bem recebida, por isso, decidi incluí-la no álbum. Pareceu-me uma excelente introdução até porque a minha voz não surge senão cerca de 30 segundos após o início. 

    Uma das coisas que disse à “Uncut” é, para mim, uma verdade absoluta: “Os livros fazem-nos bem à saúde”. Pouco depois, quando estava a pensar nesta entrevista, descobri um vídeo em que uma sobrevivente do Holocausto com cem anos contava como os livros e a leitura a tinham ajudado, literalmente, a salvar vidas no gueto de Varsóvia.  

Exacto. A verdade é que, às vezes, nem sequer preciso de ler os livros. Basta que estejam ali a fazer-me companhia, todas aquelas vozes a falarem comigo. No meio do ruído de uma cidade, se entro numa livraria, sinto imediatamente que algo, ali, está a fazer-me bem. Quanto mais vertiginosa a vida se torna mais penso que ler é um acto subversivo, totalmente contra a velocidade a que vivemos, um gesto radical.


    Em Grant & I, uma das memórias mais divertidas é aquela de, na sua primeira viagem a Londres, quando trabalhava no arquivo de radiologia do St. Mary’s Hospital, ter roubado uma radiografia ao joelho do realizador Nicolas Roeg e isso ter sido o mais perto que alguma vez chegou da indústria cinematográfica britânica...  

(risos) O Grant e eu tínhamos visto os filmes dele na Austrália e estar, de repente, com as radiografias do Nicolas Roeg na mão foi um momento espantoso!... 

    Ainda sonha realizar um filme? 

Isso era mais o sonho do Grant. Eu adorava participar num filme como actor. 

    Mas já existe um velho actor com o seu nome que o Tarantino ressuscitou em Jackie Brown... 

Eu sei!... 

    E quem seria o realizador? 

Se pudesse viajar no tempo, seria o Billy Wilder. Actualmente, gosto muito de Paweł Pawlikowski, o realizador polaco de Cold War. Mas teria de ser um filme europeu. Provavelmente, alemão. Como falo um bocadinho de alemão poderia representar uma personagem que falasse alemão... e inglês.

26 December 2018

... e a propósito do pipi...

From Dusk Till Dawn - Robert Rodriguez/Quentin Tarantino (1996)

12 April 2018

UM OVO DE FABERGÉ

  
Seria a música ou o cinema. “Grant falava-me da Nouvelle Vague e do ‘film noir’. Eu falava-lhe da grandeza dos Velvet Underground. Ele falava-me acerca da teoria dos autores e do génio de Preston Sturges. Eu falava-lhe de Dylan, a meio dos anos sessenta. Ele referia Godard e Truffaut. Tornámo-nos Godard e Truffaut. Brisbane não fazia a menor ideia disso mas havia dois miúdos de dezanove anos ao volante de um automóvel que pensavam ser realizadores de cinema franceses”. E, com um single – lado A, "Lee Remick", dedicado à actriz de Days Of Wine And Roses; lado B, "Karen", exercício de luxúria juvenil sobre as bibliotecárias da universidade de Queensland – e quase nenhum dinheiro no bolso, Robert Forster e Grant McLennan, em 1979, voaram da Austrália para Londres. Não conheciam ninguém e não tinham um único número de telefone útil. Com pernas demasiado curtas para andar, o plano de internacionalização-relâmpago dos Go-Betweens, naturalmente, teve de ficar entre parêntesis. Obrigado a aceitar emprego no arquivo de radiologia do St. Mary’s Hospital, Forster descobriu, por acaso, uma radiografia ao joelho do realizador de cinema, Nicolas Roeg. No último dia em que ali trabalhou, escondeu-a no sobretudo e, qual fetiche, levou-a. Como, agora, conta em Grant & I: Inside And Outside The Go-Betweens, “Foi o mais perto que alguma vez chegámos da indústria cinematográfica britânica”



Não desistiram, porém: já a banda tinha publicado os seis álbuns da primeira metade da carreira, Forster (durante uma tournée com Lloyd Cole com quem, em Lisboa, jogou golf) desafiou McLennan para a escrita do argumento de um filme de gangsters. Na pior altura: “Tarantino tinha aparecido e feito explodir o género – os diálogos dele cantavam”. Nas 350 páginas de Grant & I também cinematograficamente se canta (está dividido em “Reel One” e “Reel Two”) a história pública e privada dos Go-Betweens: a calorosa rivalidade entre Robert e Grant; o desmedido amor pelas canções; a extravagância (e posterior domesticação) de um e o progressivo afundamento na depressão do outro; o permanente nomadismo de editora em editora, na busca das condições ideais – ou apenas aceitáveis – para o merecido reconhecimento da sua música que, fora de um circuito de fidelíssimos fãs, nunca chegaria; a separação, o reencontro e a morte de McLennan. Algures para o final, Forster escreve: “Os Go-Betweens eram uma coisa rara, um ovo de Fabergé, e como tal deviam ser tratados”. Recordo-me de uma vez lhes ter chamado “os Smiths em melhor”.

10 November 2016

“SOU SEMPRE A MESMA PESSOA”


Hoje, Ennio Morricone celebra 88 anos. Amanhã, é publicado Morricone 60, o primeiro “best of” de temas para o cinema do "vecchio maestro", dirigido, gravado (com a Orquestra Sinfónica Nacional da República Checa) e com curadoria do próprio. Festejam-se assim, igualmente, os 60 anos desde que, foi contratado pela RAI como arranjador de canções pop, embora a sua trajectória no âmbito da "film music" apenas tenha tido realmente início em 1961 com a partitura para Il Federale, de Luciano Salce. Uma extensa e imensamente produtiva trajectória – no total, cerca de 600 composições para cinema, teatro, rádio e de musica pura – que, apesar disso, só seria contemplada pela academia de Hollywood com um Oscar de carreira, em 2007, e, por fim, este ano, com outro para The Hateful Eight, de Quentin Tarantino.


Foi numa das alturas em que a sua cotação na bolsa de valores de Hollywood parecia estar mais elevada e se falava num Oscar pela BSO de Malèna, de Giuseppe Tornatore (2000), que Morricone revelou as suas mais profundas origens musicais: "Consolidei as minhas primeiras convicções acerca da música experimental e de vanguarda numa forma diferente de compor que leva em conta o que aconteceu na música dos últimos cinquenta anos e que procura comunicar com o público. De resto, tenho antigos amores e paixões musicais como Frescobaldi, Bach, Palestrina, o meu mestre Gofredo Petrassi, Stravinsky, Boulez, Luciano Berio, Luigi Nono, Stockhausen... Comi-os, bebi-os, digeri-os e, evidentemente, entraram para o meu sistema, tornaram-se parte de mim, a minha carne e o meu sangue. Claro que ninguém dirá que a minha música se assemelha à de Stravinsky ou Bach. Mas também, se comermos frango, ninguém se lembra de dizer que nos transformámos em frango, pois não?" Agora, o mestre que nos deu Once Upon A Time In The West, The Good, The Bad And The Ugly, Once Upon A Time In America e a profusão de assombrosas experimentações sonoras reunidas em Crime And Dissonance (2005) – de que nem quer ouvir falar – é bastante mais lacónico nas respostas, numa entrevista telefónica drasticamente espartilhada pela indispensabilidade de tradução simultânea. Sim, o vetusto cavalheiro, ao fim de todos estes anos, continua a exprimir-se apenas em italiano.

     Quando começou a compor para o cinema, existia já uma geração anterior de pioneiros da film music, gente como Max Steiner, Miklos Rosza, Franz Waxman, Bernard Herrmann... Tinha consciência do trabalho deles, no desbravamento dessa linguagem musical muito específica ou procedeu apenas por tentativa e erro?
     Tinha consciência de que existia uma importante geração de compositores para o cinema mas, quando comecei não parei para pensar nisso. Inicialmente era apenas um trompetista que tocava as partituras de outros compositores em orquestras de estúdio. Na maioria, italianos. À época, era muito raro serem autores americanos. Gostava de uns, de outros, nem por isso, mas, quando me iniciei na composição não estava a pensar nessa herança musical.

    
     Embora as suas bandas sonoras para os "western spaghetti" (nomeadamente de Sergio Leone) constituam apenas uma pequena percentagem da totalidade da sua obra para o cinema, a verdade é que, neles, inventou uma sonoridade muito particular e completamente inconfundível que lhes ficou para sempre associada. Como surgiu ela?
     Sempre pensei que a música que escrevi para os filmes do Sergio Leone poderia ser perfeitamente apropriada para um outro qualquer género cinematográfico. Transformou-se em música de "westerns" apenas porque foi utilizada em "westerns". É a minha forma de compor e foi apenas desta forma que criei essas sonoridades.

     A sua formação musical clássica, paralela à música experimental e improvisada que praticou com o “Gruppo di Improvvisazione Nuova Consonanza”, foi, de algum modo, determinante na concepção do que viria a constituir a sua marca de autor de "film music"?
     Dou-lhe uma resposta extraordinariamente simples: eu sou eu, sou sempre a mesma pessoa. Mas, se vou compor musica para um filme, nunca me posso esquecer que o mais importante de tudo é o próprio filme. Claro que isso gera alguns constrangimentos, algumas limitações. Quando escrevo música mais abstracta, música absoluta, tenho um grau de liberdade muito maior. Mas não deixo de continuar a ser eu. E é natural que tudo o que faz parte do meu passado, da minha história, todas as experiências em que estive envolvido, tenham desempenhado um papel no meu processo de composição, qualquer que seja a finalidade da música que crio.

    Seja como for, a história das relações entre autores de bandas sonoras e realizadores foi sempre terreno bastante acidentado em que os interesses e pontos de vista de uns e outros, frequentemente, não coincidiram. Foi também assim consigo?
    É um processo muito pouco racional. Respondo-lhe porque me fez essa pergunta mas, na verdade, não é coisa em que perca muito tempo a pensar. Quando estou a escrever música, não penso em mais nada senão nisso. Tenho apenas de ter presente a ideia de que, se estou a compor para um filme, existem, inevitavelmente restrições áquilo que posso fazer porque a música tem de se adaptar ao filme e nunca o inverso. Se não se trata de música para cinema, tudo se passa de modo, naturalmente, diferente. Mas, como lhe disse, isto sou só eu, agora, a pensar em voz alta sobre esse assunto, não é nada racional nem esquematizado.


      Há onze anos, a editora Ipecac. de Mike Patton, publicou uma compilação de temas de bandas sonoras suas –
Crime And Dissonance – para filmes de terror, "gialli" e diversas outras marginalidades do cinema italiano do final dos anos 60 e início de 70, como Veruschka, Sesso In Confessionale, Una Lucertola Con La Pelle Di Donna, Il Gatto A Nove Code, realizados por Dario Argento, Lucio Fulci e outros. Eram temas e ambientes sonoros francamente mais radicais e sonoramente experimentais do que as suas composições habituais. O que se recorda disso?
    Talvez o surpreenda mas mas nunca tive conhecimento da publicação desse álbum! Talvez o editor o tenha publicado sem me informar e sem ter autorização para o fazer. Não possuo um única cópia desse disco, desconheço tudo sobre ele!

    Desde há muito tempo que Quentin Tarantino utiliza excertos de músicas suas nos filmes dele e, a partir de Inglourious Basterds, começou mesmo a “assediá-lo” para conseguir ter uma partitura sua num filme. O que só acabou, finalmente por acontecer com The Hateful Eight, com o qual, após um Óscar de carreira (2007), conquistou outro para uma banda sonora específica. Como foi esse processo?
    Da primeira vez que o Quentin Tarantino me convidou para compor para um filme dele, eu, embora estivesse interessado e desejasse fazê-lo, estava demasiado ocupado e não foi possível. Mas, depois, em 2015, quando ele veio a Roma para receber o prémio David di Donatello, encontrámo-nos em minha casa. Foi uma conversa muito rápida, e aceitei logo.

18 August 2016

Killer whistle

Fritz Lang - M, 1931 (Edvard Grieg, "In The Hall Of The Mountain King")

Alfred Hitchcock - The Hands of Mr. Ottermole, 1957 ("Greensleeves")

Roy Boulting - Twisted Nerve, 1968 (Bernard Herrmann)

Quentin Tarantino - Kill Bill Vol. I, 2003 (Bernard Herrmann)

04 May 2016

BOTANY BAY 

E. Phillips Fox - Landing of Captain Cook at Botany Bay, 1770 (1902)

Uma das terríveis consequências do arranque da revolução industrial, em Inglaterra, no final do século XVIII, foi a migração em massa para as cidades de trabalhadores rurais, em grande parte condenados a condições de vida miseráveis e, quase inevitavelmente, à delinquência, punida com severíssimas penas de prisão. As cadeias rebentavam pelas costuras e a hipótese de deportação para a América do Norte, tornar-se-ia, subitamente, impossível com o desencadear da Revolução Americana, em 1775. A chegada do explorador James Cook a Botany Bay, confirmando a existência da Terra Australis, abriu uma nova possibilidade de o reino se ver livre dessa multidão de indigentes. A chamada First Fleet – onze embarcações, das quais, seis, a transbordar de prisioneiros – partiu de Londres, em 1787, com destino a Botany Bay, tendo aí aportado em Janeiro de 1788. Uma aterradora visão da “godforsaken land” que viria a ser a Austrália-colónia penal das primeiras décadas da ocupação britânica (160 000 deportados no total) é-nos dada em The Proposition (2005), filme de John Hillcoat, com argumento de Nick Cave. 


Botany Bay, entretanto, entraria no domínio da lenda popular através de "Jim Jones At Botany Bay", uma "folk ballad" australiana do início do século XIX (“Come and listen for a moment, lads, and hear me tell my tale, how across the sea from England I was condemned to sail, now the jury found me guilty, then says the judge, says he, oh for life, Jim Jones, I'm sending you ‘cross the stormy sea”) que, entre outros, Bob Dylan, Ewan MacColl, A. L. Lloyd e Martin Carthy cantariam. Também Jeniffer Jason Leigh (aliás, a temível Daisy Domergue) o faria, em The Hateful Eight, de Quentin Tarantino. Até ao instante em que o seu captor, John Ruth, The Hangman (Kurt Russell), enfurecido pela estrofe, inventada no momento, que Daisy acrescentara à canção (“By and by I'll break my chains and to the bush I'll go, and you'll be dead behind me, John, when I get to Mexico”), lhe arranca a guitarra das mãos e, desabridamente, a despedaça contra um poste. Poucos se terão dado conta mas, nessa cena, um crime de lesa património ocorrerra: a guitarra, emprestada pelo Martin Guitar Museum, da Pensilvânia, era – a bem do rigor histórico –, um precioso exemplar com 145 anos e alguém se esquecera de avisar Russell que, antes do gesto de tarantiniana violência, deveria ser substituída por outra...