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07 April 2025

CRU, REAL E SEM LIMITES
Discretamente embrenhada no trio Hack-Poets Guild - abrigo de notabilidades da folk britânica e suas audaciosas extensões contemporâneas - foi, porém, aí mesmo que, há dois anos, ao lado de Marry Waterson e Nathaniel Mann, nos apercebemos da existência de Lisa Knapp. Era o momento de publicação de Blackletter Garland, etapa final de um processo que começara pela exploração do espólio de "broadside ballads" da Bodleian Library de Oxford e conduzira ao registo de Blackletter Garland, uma perfeitíssima viagem temporal, da Idade Média ao insondável futuro, numa vertigem de vozes, "drones" e destroços sonoros à deriva. Os Stick in The Wheel já se haviam aproximado das fronteiras deste território mas Blackletter Garden arrombar-lhe-ia os portões. E, agora, Hinterland (explica-nos o dicionário: "uma área situada para além do que é visível ou conhecido"), pelas mãos de Lisa Knapp e Gerry Diver, começa a cartografá-lo palmo a palmo. "Desejámos criar algo cru, real e sem limites. Algo que pudéssemos atirar â cara de quem insiste em afirmar que a folk é uma forma estática" diria Diver à "Klofmag". (daqui; segue para aqui)

"Hawk & Crow"

16 April 2024

ESCUTAR A TERRA
Talvez não se tenha devidamente reparado mas Old Wow, de Sam Lee, foi um dos mais importantes álbuns publicados em 2021. Se, desde há anos, escutando The Unthanks, Stick In The Wheel, Hack-Poets Guild, Lankum e mais uns quantos, podia afirmar-se que as músicas de raiz tradicional e raio de acção contemporâneo haviam entrado numa nova idade de ouro que em nada ficava atrás da era dos Fairport Convention, Seeleye Span ou June Tabor, não se estava propriamente â espera do surgimento de uma personagem renascentista que elevasse tudo a um nível superior. Reunindo todas as pontas soltas, Sam Lee abraçou quantas causas ambientais foi capaz - fundou a Music Declares Emergency, associou-a â Featured Artist Coalition e esteve na origem de The Nest Collective - e, no mesmo gesto, entregou-se à redescoberta da música tradicional britânica. Em particular, aquela que foi recolhendo no contacto com aa comunidades cigana/"traveller" locais. (daqui; segue para aqui)
 
"Bushes And Briars"

29 August 2023


 
 
(sequência daqui) A Blackletter Garland, da Hack-Poets Guild, retoma essa mesma tradição num percurso iniciado após o convite para visitar a Bodleian Library de Oxford e vasculharem em total liberdade séculos e séculos de textos e - quando as descobriam - partituras. A tarefa estava em boas mãos: Marry Waterson, embaixadora da dinastia Waterson, família real da folk britânica; Lisa Knapp, valor seguríssimo abençoado pelo sumo-sacerdote Martin Carthy e, em apenas três álbuns, multi-premiada e estrelada; e Nathaniel Mann, compositor experimental, construtor de instrumentos, cineasta e "sound designer". O que daí resultou, orientado por coordenadas muito próximas das dos Stick In The Wheel mais recentes, é uma gloriosa e cinemática mescla de trip-hop gótico, fantasmagorias de vozes distorcidas sobre matéria-prima do século XVI, e instantâneos da luta de classes projectados numa tapeçaria de "drones" e "found sounds".

27 July 2023

COMO UMA CORRENTE 

Há três anos, aquando da publicação do belíssimo Heart’s Ease, de Shirley Collins, a veterana padroeira da folk britânica, sem papas na língua mas com alguma dose de injustiça pelo meio, a propósito daqueles que poderiam constituir a sua "descendência" actual, dizia-me: "Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária!..." No último número da "Songlines" – na capa, os Lankum, sob o título de "The Fearless Future of Folk" –, a mui respeitável Natalie Merchant, unindo pontas, contava como, tempos antes, quando procurava uma versão de Shirley Collins para o tradicional "Hares On The Mountain", deparara com um vídeo de Radie Peat e Daragh Lynch (metade dos Lankum) interpretando esse tema: "Fiquei imediatamente rendida à tonalidade da voz dela e ao desenho hipnótico da guitarra. Escavei mais fundo e descobri 'The Young People' e 'Hunting The Wren' (ambos de The Livelong Day, 2019). Parei imediatamente. Os textos do Ian Lynch e o talento da banda para reinventar a tradição são impressionantes. Se 'Hunting The Wren' fosse um poema, não seria menos poderoso. Mas, com aquela voz, naquela música, é devastador". (daqui; segue para aqui)

25 November 2022

APENAS "MÚSICA LINDÍSSIMA"

Há 12 anos, preparavam-se Rachel e Becky Unthank para actuar no Olga Cadaval, em Sintra, pareceu-me urgente anunciar a verdadeira dimensão do que iríamos testemunhar: “Desde a era dos Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, Richard & Linda Thompson e das irmãs Collins – ainda que com valiosíssimos porta-estandartes como June Tabor durante o interregno –, não surgia nenhum grupo na cena folk inglesa capaz de deixar absolutamente clara a ideia de que, no idioma popular tradicional, circulava ainda sangue suficientemente oxigenado e pronto a garantir que ‘os anos de ouro’ nunca seriam apenas uma antiga e saudosa memória. The Unthanks, em três magníficos álbuns – Cruel Sister (2005), The Bairns (2007) e Here’s The Tender Coming (2009) –, mudaram tudo”. Desde então, vários outros notáveis - Kinnaris Quintet, Lankum, Stick In The Wheel, Mànran, Sam Lee – se lhes juntaram. (daqui; segue para aqui)
 
"The Old News"

23 September 2022

Stick In The Wheel - "White Copper Alley"

Stick In The Wheel - Perspectives On Tradition 
 (álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) E, para um melhor entendimento, nada como submeter a tradição a uma incursão guerrilheira de desavergonhada “apropriação cultural”: o que, no tal video, ocupava Nicola e Ian era a concretização do projecto de residência artística apresentado à EFDSS em 2019 no qual se propunham examinar as noções de cultura, tradição, recolha, contaminação e fragmentação daquela música, partilhando-a com quem não tinha relação próxima com ela. A saber, Nabihah Iqbal (música, radialista e advogada de origem paquistanesa); Olugbenga Adelekan (baixista nigeriano dos Metronomy e Africa Express); e Jon1st (DJ, "turntablist"). O que – após a estreia integralmente acústica de From Here (2015) e uma mão cheia de "mixtapes" e "field recordings" – já nos anteriores e óptimos Hold Fast (2020) e Tonebeds For Poetry (2021) se desenhava, em Perspectives On Tradition emerge clarissimamente: a "Milkmaid", contemporânea da Tess of the d'Urbervilles, de Thomas Hardy, não se incomoda nada com a vizinhança dos corais do Quénia e da Nigéria electronicamente evaporados, na realidade, parentes muito próximos do que resulta do frenético robustecimento rítmico de "Let No Man Steal Your Thyme". Como já se suspeitava.

20 September 2022

GUERRILHA

 
 
Em Agosto de 2020, Nicola Kearey e Ian Carter (os Stick In The Wheel) publicaram um video no YouTube no qual se deixavam ver espiolhando prateleiras e gavetas dos arquivos da Cecil Sharp House, sede da English Folk Dance and Song Society. Algures pelo meio, perante um daqueles “instantãneos de uma época”As Close As Can Be, de Peta Webb e Ken Hall –, Nicola recorda-se de como, ao escutá-lo pela primeira vez, se deu verdadeiramente conta de que ”se tratava de pessoas que tinham vivido uma vida ali presente nas suas vozes e isso fez-me pensar que seria capaz de encontrar uma via para lidar com este tipo de música e torná-la relevante para mim”. Exactamente a mesma Nicola Kearey que, há 4 anos, por altura da publicação de Follow Them True, confessara “I hate folk music” e que, agora, à “Tradfolk”, reforça esse ponto de vista: “Não mudei de opinião. Na verdade, tê-la-ei até endurecido. Penso que muito do cânone da música tradicional inglesa dos recolectores vitorianos é extremamente problemático. O que me interessa nesse passado e nas pessoas que o habitaram é encara-lo como um contínuo até ao presente, compreender por que motivos sobreviveu tanto tempo e aquilo que, enquanto humanos, nos faz ver acerca de nós mesmos”. (daqui; segue para aqui)

"The Milkmaid" (c/ Nabihah Iqbal)

04 February 2022

"Long The Day"
 
(sequência daqui) Se, há seis anos, a propósito do álbum de estreia, From Here, era inteiramente legítimo descrever a sua música como “crua, abrasiva, ‘no nonsense’, proletária e encardida, com a alma dos Watersons e faca punk na liga”, Hold Fast (2020), “rude e sofisticado, electrónico e artesanal”, assinalava o instante em que “a raiz tradicional, a História, a literatura popular e o remoínho da(s) folk(s) se embrenham na modernidade e renascem mais uma vez”. A ascensão que aí se iniciava conclui-se agora, algures entre os milhares de anéis de Saturno e um qualquer exoplaneta onde se desfibra a memória das origens, a pura abstracção sonora é rasgada por interferências – pulsações oriundas do "Tottenham Hale Monolith", vozes "auto-tuned" tropeçando em estlhaços de Sonic Youth, ficheiros midi de 1600 vaporizados em jogos de vídeo – e o exacto ponto onde tudo começou ficou para sempre perdido. Sem regresso possível.

01 February 2022

ENTRE OS ANÉIS DE SATURNO


Deveremos estar eternamente gratos a Leo Allatius, erudito, teólogo e bibliotecário do Vaticano do século XVII, não apenas por ter sido pioneiro na investigação do trepidante tema dos vampiros como, em particular, por haver, finalmente, esclarecido a dilacerante interrogação que atravessou os séculos: tendo Jesus ascendido fisicamente aos céus após a ressurreição, o que teria acontecido ao santíssimo prepúcio, circuncidado no seu 8º dia de vida de acordo com a tradição judaica,? Em De Praeputio Domini Nostri Jesu Christi Diatriba, Allatius tudo desvendaria: tal como o seu legítimo proprietário, também o divino prepúcio se elevara no firmamento, constituindo, a partir daí, aquilo que conhecemos como os anéis de Saturno. Curiosamente, escutando Tonebeds For Poetry, é muito tentador imaginar que algo bastante semelhante poderá ter acontecido a Nicola Kearey e Ian Carter, o duo britânico que dá pelo nome de Stick In The Wheel. (segue para aqui)

06 September 2021

FRONTEIRAS, ORIGENS
 

Desde que, na noite 29 de Junho de 1987, no Empress of Russia (um já defunto pub de Islington, no Norte de Londres), um grupo de representantes de editoras independentes, organizadores de concertos e jornalistas – correndo, embora, o risco de guetização de tudo o que não era ocidental, pop, rock ou jazz – cunhou a designação “world music” para englobar o que, até aí, se chamava “folk”, “trad” ou “roots”, todo um novo espaço se abriu e nos permitiu o acesso mais fácil a preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, a experiências de cruzamento multicultural como Les Nouvelles Polyphonies Corses (de Hector Zazou) ou a muito do que a Real World, de Peter Gabriel, ou a Luaka Bop, de David Byrne, publicaram. Com períodos de maior ou menor fulgor, nos últimos anos, o ritmo de descobertas valiosas tem-se intensificado com os belíssimos álbuns de Sam Lee, Elaha Soroor & Kefaya, Cocanha, San Salvador, The Rheingans Sisters, Lankum, Stick In The Wheel ou até 33EMYBW, Hai Qing & Li Xing, e Guzz da quase totalmente ignorada China. Vulture Prince, de Arooj Aftab, é mais outro óptimo exemplo de uma forma de abordar a música que, se ignora as fronteiras, conhece bem as suas origens. (daqui; segue para aqui)
 
"Mohabbat"

28 December 2020

MÚSICA 2020 - INTERNACIONAL (VII)

(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 38)

Fiona Apple – Fetch The Bolt Cutters

 

 
 
 
 

Bob Dylan – Rough And Rowdy Ways 

 

 
 
 

Stick In The Wheel – Hold Fast

 * a ordem é razoavelmente arbitrária...

"Gosto imenso de juntar palavras, mas apenas quando isso me é fácil, quando esse processo parece desenvolver-se por si mesmo. Nunca apago nada e praticamente nunca escrevo. Uma canção tem de estar completa na minha cabeça antes de eu a escrever. E só a escrevo se, de alguma forma, me servir, se me aperceber que, para me sentir melhor, não posso evitar escrevê-la. Se não tenho coisa alguma a transbordar, nada tenho para dar. Preciso de manter a antena sintonizada e, quando me dou conta de que já estou ‘cheia’, então, sento-me e escrevo. Se não tenho vontade de escrever canções, nunca me forço a fazê-lo”, conta Fiona Apple numa videomontagem do YouTube na qual conversa com Quentin Tarantino. E, quando este lhe diz que começou a analisar as canções dela e se apercebeu de que as melhores são aquelas que recorrem a imagens violentas (“Metafóricas, sim, mas, simultaneamente, autênticas. Naquele instante, pensavas mesmo em matá-lo!”), Fiona recorda como a mãe lhe descrevia as suas birras infantis: “Quando, por algum motivo, me irritava, ouviam-se sempre três sons: batia furiosamente com os pés no chão, fechava as portas com estrondo e corria a martelar o piano. Pela sua natureza percussiva, o piano atraía-me muito, tal como muita gente que toca bateria como forma de libertar a raiva”. Tudo isso está intensamente presente em Fetch the Bolt Cutters e, muito em particular, nas três canções desse álbum — "I Want You To Love Me", "Shameika" e "Fetch the Bolt Cutters" — que, em outubro passado, interpretou num vídeo para o New Yorker Festival (online): as mãos como aranhas sobre o teclado, a voz, à beira do sufoco, que gorgoleja à maneira do John Cale do tempo em que lhe corria lava nas veias, o quase rap alucinado e vertiginoso de "Shameika" cuspido sobre um microfone em risco de ser avidamente devorado. Aí apenas com a implacável e austera cumplicidade "live" do contrabaixista Sebastian Steinberg, da baterista Amy Aileen Wood, e do guitarrista/teclista Davíd Garza, mas despida da formidável atmosfera waitsiana de primitivismo sonoro presente no disco, cozinhada nas nada canónicas "jam sessions" (baldes, pedaços de metal, mesas, paredes, utensílios de cozinha, ossadas de cães, arquejos, gritos, latidos) da casa-estúdio de Venice Beach, na Califórnia, lugar de encarceramento voluntário onde Fiona, desde há muito, se exilara. A intolerável existência do (ainda) inquilino da Casa Branca já lhe inspirara o "loop" de agitprop "Tiny Hands" (“We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants”) e o nojo perante a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça (“Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”) fá-la-ia transbordar no labiríntico desenho rítmico do coral "For Her". Penúltima canção a ser escrita, "Fetch the Bolt Cutters" deveria ser o sinal para “o culminar de tudo o que tinha sido a minha vida até aí, o momento em que diria: ‘É a altura de enfrentar o mundo e sair daqui para fora.’ E, justamente no instante em que estava disposta a usar o alicate para me desencarcerar, aconteceu o 'lockdown'”. Fiona continuou em casa, mas o álbum seria publicado a 17 de Abril... (daqui)

01 December 2020

DE BEM VIVA VOZ

 

Após 38 anos sem gravar um disco, a primeiríssima dama da folk britânica, Shirley Collins, regressou, inesperadamente, em 2016, com o belíssimo Lodestar. A disfonia que a afectara aparentemente vencida, reincide, agora, com Heart’s Ease, outra pérola do reportório folk que, aos 85 anos nos oferece, não demasiadamente desconfortável com o confinamento (“Desde há muito que vivo sozinha, já estou habituada”) mas tremendamente furiosa com o rumo que o Reino Unido tomou: “Boris Johnson, que homem horrível! Como é que a Inglaterra pode ter chegado a este ponto! Eu sou europeia!...” 

    Em Electric Eden, Rob Young cita-a: “Sempre soube que esta música tinha nascido em mim. Sabia como cantá-la e nunca me iria afastar daí”. Foi, de facto, assim? 

Durante a 2º guerra mundial, era eu ainda criança, vivíamos em Hastings, na costa Sul de Inglaterra. Havia, frequentemente, raides aéreos e tínhamos de correr a refugiar-nos em abrigos onde os meus avós cantavam para mim e para a minha irmã, Dolly. Só mais tarde percebi que o que nos cantavam eram canções folk, música tradicional. Canções que eles, naturalmente, cantavam e que faziam parte da vida diária. Creio que começou tudo aí: adorava os meus avós, sentia-me segura junto deles, muito cedo essas músicas entraram em mim e nunca mais sairam. 

    No início do folk revival, havia aquela atitude militante de recolha e preservação da “música do povo”, levada extremamente a sério por gente como Alan Lomax (com quem viajou aos EUA numa expedição de recolha) ou Ewan MacColl... Como lidava com isso? 

Até certo ponto, compreendo-a uma vez que se trata de algo importante que deve ser preservado. Mas é uma forma um bocado agressiva de lidar com a música. Prefiro que as pessoas se sintam livres para fazer o que gostam sem necessitarem de regras estabelecidas por outros. O Ewan MacColl foi o pior de todos nessa atitude de ditar aquilo que podia e não podia ser cantado.* Não gostava nada dele, por isso também não liguei muito ao que dizia. Pareceu-me sempre um bocado falso, não era genuíno. Já o Alan Lomax era diferente, tinha consciência da importância de salvar do esquecimento a música tradicional de todos os países e do orgulho que as pessoas deveriam sentir na sua herança musical.

  

    Mas essas tradições musicais estavam, realmente, moribundas e necessitavam de ser preservadas?  

Era necessário mantê-las vivas porque estavam a ser exterminadas pela grande máquina da indústria musical que nos atira a mesma música para cima, seja qual for o lugar do mundo onde nos encontremos. Claro que também produz música óptima mas, no seu caminho, esmaga tudo, nada resta das músicas originais que fazem parte da História e das tradições dos povos. É terrível mas não tenciono deixar de lutar. 

    Na viagem aos EUA, com Alan Lomax, sentiu-se um pouco como um Colombo “ao contrário”, indo descobrir na América aquilo que já conhecia em Inglaterra? 

(risos) Sim, sobretudo nas montanhas Apalaches e Ozark, no Kentucky e no Arkansas, onde encontrámos canções originalmente inglesas, irlandesas e escocesas. Era fascinante escutar, em versão americana, canções que eu conhecia das colecções do Cecil Sharp. Evidentemente, ao longo dos anos tinham-se transformado gradualmente. E pude cantar algumas das versões que conhecia que as pessoas de lá receberam com a alegria de constatarem que, como diziam, “back in the old country”, ainda eram conhecidas. 

    Aos seus olhos, Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle, foram bem-vindos? 

Foi fantástico, de um modo geral, foi muito bom. A música era muito bem tocada, eram todos músicos que conheciam bem aquilo com que estavam a lidar, não era uma moda de que, mais tarde, se iriam arrepender. Acreditavam no que estavam a fazer. Era claro que, por exemplo, os álbuns de "morris dances", nunca iriam ser populares. Mas era uma questão de manter viva aquela música, de uma forma fresca e que não a rebaixava nem insultava.


  Como foi a experiência de, com a sua irmã Dolly, colaborar com David Munrow e o Early Music Consort em Anthems In Eden (1969) e Love, Death And The Lady (1970)? 

Devem ter sido os momentos mais emocionantes da minha vida musical! Para além de, como já lhe contei, os meus avós nos ensinarem canções tradicionais, o meu tio Fred fazia-nos ouvir muitos discos de Monteverdi. Aprendi, assim, a adorar também a música antiga. Conheci o David Munrow em Londres, com a Dolly. Fomos ter com ele ao Early Music Center porque adorávamos o trabalho dele, cheio de vida e energia. Passado algum tempo, surgiu a possibilidade de gravarmos Anthems In Eden e o David aceitou interpretar os arranjos da Dolly com o Early Music Consort. Ele era imensamente entusiástico, estar ao pé dele era como estar ligado a uma central eléctrica. Não duvidava que esta música deveria ser tocada e interpretada de uma forma rigorosa. Mas era tão gentil, o género de pessoa com quem nos apetece estar sempre... Eu não lia música (e continuo a não ler), o que, ao entrar para estúdio, me deixou um bocado nervosa. A Dolly tinha partituras para todos e, quando ele me disse que a minha entrada era no sexto compasso, tive de lhe confessar que não lia música. Respondeu-me: “Não há problema. Durante muito tempo, eu também não li música e, quando andei pela América Central, fui apanhando tudo de ouvido!” Era um músico extraordinário e foi o grande responsável da redescoberta e do interesse pela música antiga. A verdade é que tenho tido muita sorte com todos os extraordinários músicos com que me fui cruzando. 

    Também teve sorte por ter conseguido recuperar a voz... 

É verdade. O David Tibet, dos Current 93, veio visitar-me durante o período em que eu tinha deixado de cantar e disse-me que adorava os meus álbuns e que gostava que eu cantasse uma ou duas coisas num álbum dele. Ao fim de anos a tentar convencer-me, falou-me de um concerto que iria dar na Union Chapel de Londres e, depois de tanto tempo a dizer não, disse que sim!... E cantei mesmo. 

    Surpreendeu-se ao descobrir, em Shirley Inspired, que tinha tantos novos fãs como Lee Ranaldo, Meg Baird, Rozi Plain, Bonnie 'Prince' Billy?... 

Sim!...Foi uma grande surpresa ver aquela enorme variedade de músicos pegarem nas minhas canções. Não é uma questão de falsa modéstia mas tenho consciência que a música que faço se destina a um pequeno nicho. 

    Qual a sua opinião sobre gente recente como as Unthanks, Stick In The Wheel?..

Para ser sincera, as Unthanks fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância. E os Stick In The Wheel dão-me a sensação de estarem a cantar sempre a mesma música. Mas adoro os Lankum – a Radie Peat é uma cantora extraordinária! – e o Alasdair Roberts.;

    Tanto em Lodestar como em Heart’s Ease, o processo de selecção do reportório foi o que sempre utilizou? 

Sim, e não foi difícil encontrar as canções. Poderia gravar mais 20 álbuns se fosse necessário. O essencial é que os arranjos nunca se sobreponham â canção. Os músicos com que tenho trabalhado são perfeitos para mim, comprendem instantaneamente o que cada canção pede. São pessoas inteligentes, divertidas... e lêem livros! (risos) Já agora, tenho de dizer-lhe que a minha filha deu-me a conhecer a obra do José Saramago. Comecei por A Jangada de Pedra e, agora, estou a ler o Manual de Pintura e Caligrafia. É extraordinário!
 

* ver aqui e aqui